quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Adeus Ano Velho

No início resisti às mudanças. Sofri com as mortes. Tive meus dias de luto e neles me permiti a loucura. E aos poucos fui doando mais e doendo menos (já dizia Arnaldo Antunes que "a tristeza é uma forma de egoísmo"). Fluindo. Quando me vi preparada, resolvi executar meus pequenos rituais. Apagar as mensagens do celular. Trocar os anéis de mãos. Largar a bolsa do outro lado do sofá. Que era pro corpo entender a nova ordem. E subitamente me vi pronta e desejando o novo. Que venha 2011!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Partida - parte II

Eu hoje saio de tua estrada. Eu que nela entrei quase que por acidente, mas com o planejamento de milênios, pela força dos astros e das marés. Eu que me sujei de teu pó, comi de teus frutos, arranhei-me em teus espinhos. Hoje saio de teu caminho.

Eu que vim de outras terras até te encontrar. Eu que vim por acaso e quase sem procurar. Vim por engano, seguindo um rastro de bicho, um cheiro de flor, uma folha ao léu. Eu que vim perseguindo uma bola de meia, correndo atrás de uma pipa, de um avião de papel. Eu que vim de bobeira, mas predestinada. Eu hoje saio de tua estrada.

Parto sangrando. E talvez seja isso um parto normal. Eu vou para o mundo e vou só, sem meu cordão umbilical. Aprendendo a respirar sozinha, a procurar meu próprio alimento, a caminhar com meus pés. E tão logo parto me vejo adulta e inteira: deixei de ser teu neném. E tenho que encarar meu novo alguém.

Mas não sem antes dizer que explorei teu terreno com a avidez não de quem procura um tesouro, mas de quem o tem em mãos. Provei de todos os frutos, as ervas, as sementes. Provei dos venenos. Cem vezes morri de frio e de calor. Nadei em teu rio, bebi de tu'água. Subi em todas as árvores, caí de algumas delas.

Eu vivi o teu terreno pensando ir embora e, no fundo, desejando ser enterrada ali. Eu temi a força com que tuas águas me puxavam. A mata fechada, a areia movediça e sobretudo a fauna. Quantas vezes fui arranhada pelas garras dos animais selvagens, enquanto suas patas macias me aconchegavam.

Eu criei subterfúgios para sobreviver à tua natureza hostil. Tentei fincar minha bandeira, levantar edifícios, fundar civilizações. E, da minha maneira torta, fui desequilibrando teu ecossistema, quando tudo que queria era plantar sementes.

Hoje parto com os pés descalços e sujos de tua terra. Parto com flores nas mãos, carregando teu perfume. Olho em frente com coragem, sigo alguns passos e, quando sinto o coração parar, paro eu também, hesitante. E me permito olhar pra trás, recuar. E novamente sigo em frente, esquecida de onde venho, afinal. Hoje saio de tua estrada. Hoje morro de parto normal.

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Em agosto de 2009 postei um texto chamado "Partida", como uma brincadeira proposta pelo meu amigo Renato Cirino, a partir de um meme. Em seguida, dando continuidade à brincadeira, escrevi outro texto chamado "Chegada", em outubro do mesmo ano. Mas, como a vida é uma sucessão de chegadas e partidas, parto de novo...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Rede de proteção

Tenho amigos que são minha rede de proteção. Eu me atiro em minha loucura e eles seguram para que eu não caia do precipício. São poucos, pouquíssimos. E já são tantos, visto que amigos desses são coisa rara.

São aqueles que me adotam quando eu preciso de cuidados. Que me escutam chorar sem a ansiedade de me fazer rir. Sem o didatismo de quem não entende uma dor real.

Tenho amigos que não temem meus abismos. Eles convivem com os monstros que desenterro. Conversam com eles. Escutam.

Tenho amigos que não são amigos. São anjos e fadas. Que foram jogados no meu caminho para auxiliar a caminhada.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Reinvenção

Quando peguei a tabela com a programação, resmunguei: Quero férias! Não quero fazer aula de maquiagem! Não quero comprar pancake! Não quero pintar o rosto! Não quero!!!!!

Então ninguém entendeu quando, sem pintura nenhuma, minha feição mudou completamente ao ver a professora entrar na sala. Era a agitação com os espelhos, com o lugar na mesa montada, a novidade. Eram as cores, os volumes, os desenhos.

E logo eu estava me melando de maquiagem e atormentando a professora com meus "e agora?", louca para chegar à próxima etapa. Verdade é que ando cansada de ser instável por dentro e estável por fora. Ter este rosto perenemente igual, que me mortifica como alguém que não sou. Quero me reinventar. Não, não é isso. É que, ao redesenhar o meu rosto, eu não acrescento camadas, eu tiro excessos. Aqueles que devem ser tirados para que apareça a escultura, a forma que existe e que se esconde.

É porque eu sou mutável. É porque eu amo, desamo e amo de novo. É porque eu choro e rio, eu chuva e mar. É porque eu me canso com o mesmo furor com que agarro, eu me amarro e fujo. E escapo entre dedos. Entre os meus finos dedos.

É por isso que me surpreendo ao me fazer básica, velha ou palhaça. É porque me deparo comigo. Porque sou fractal. Porque todas as minhas versões são verdade.

Haja pancake para me alcançar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Promessa de chuva


O céu ameaçou a chuva que há tempos o tempo prometia. Chuva larga, de lavar o mundo, de inundar a casa. E eu fiz planos de tempestade.

Esperava muito, pois era promessa antiga. Esperava chuva grande, de tornar as coisas pequenas. Desses dias em que as poças d'água me espelham. E em que as ilusões, frágeis, dissolvem-se.

Sonhava com banhos de chuva de antanho. Da época em que descíamos com agasalhos de lã, encharcando-nos e cantando que "é a dança da chuva", até as empregadas, alarmadas, buscarem-nos pelos braços. Da época em que, após corrermos e nos abrigarmos embaixo de toldos, minha irmã sugeria que ignorássemos a chuva, então saíamos felizes e molhadas, andando como se fora um dia de sol. E com banhos de chuva de agora, caminhando saltitante com o amigo descalço.

Sonhava com uma chuva que lavasse tudo. Lavasse não, levasse embora. Uma chuva que afogasse as inquietações e trouxesse à tona apenas os tesouros. São tão poucos e pobres meus tesouros, que por isso me são mais caros.

Hoje o céu ficou repleto de nuvens pretas, com promessa de tempestade para os meus raios. Hoje eu quase chovi de alegria. Mas a chuva lá fora foi tão pequena que mal lavou o meu dia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Debate


Ele está à minha frente e, porque temos os mesmos anseios, falamos sobre ele, o amor. As prisões do amor. O jugo. A doação. Do quanto de nós somos capazes de abrir mão por um pouco de afeto. Ele argumenta que quem ama se sujeita.

Eu objeto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ponto de desencontro


Não vamos direto ao ponto. Pois o ponto é o caminho exato em que a gente se perde. O ponto vulgariza, empobrece. Vamos fazer ciranda, dar voltas. Esquecer o objetivo, o ponto final. Não vamos direto ao ponto, ao pronto afinal. Abra um sorriso e feche a boca antes que escapem palavras. Dê um caso ao acaso, se for o caso nos cruzamos por aí. Não vamos direto ao ponto, que o ponto final é cemitério. Não vamos ao ponto, deixemos vivo o mistério.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sonhos outros

Outro dia uma colega me contou que, quando criança, ela pensava que sonhos eram experiências compartilhadas. Ou seja, se ela sonhava com fulano, então fulano tinha o mesmo sonho. Ela devia ter uns quatro anos de idade quando, um dia, após sonhar com seu irmão, ela acordou e comentou com ele: "foi muito engraçado aquilo que você fez...", referindo-se a seu sonho. Ele riu. Então, decepcionada, ela descobriu que aquilo, o sonho, só se passara com ela.

Eu demorei muito mais para fazer essa descoberta. Há muito passara da infância. Ou quem sabe era a infância que passara da idade, mas não passara de mim. Sei que por muito tempo acreditei que as experiências eram sonhos compartilhados. Que, se eu vivia um momento com alguém, então necessariamente este alguém vivia o mesmo momento comigo. Depois vim a descobrir que compartilhar o ambiente e o tempo com alguém não significa compartilhar experiências. Que um momento pode ser especial, tedioso ou apaixonante apenas para você, pois o outro é um universo insondável. E que as almas são, sim, incomunicáveis, pois mesmo na linguagem, único ponto de encontro, existe um abismo intransponível.

Depois disso deixei de ser criança.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Encontro


O encontro acontece em uma praça, ao som de "Canção pra viver mais", de Pato Fu. A primeira tem cabelos negros e compridos, cara lavada, usa um vestido esvoaçante e sandálias havaianas. A segunda tem cabelos vermelhos e curtos, usa um batom escuro, calças largas, com um pedaço da cueca aparecendo, e tênis vermelhos, como os cabelos. A primeira reconhece imediatamente a segunda. Sorri. Esta fita a primeira, intrigada. Pergunta-se:

Lian 18: Será?

Como a pergunta saíra em voz alta, a outra responde:

Lian 28: Será. Ou melhor, sou. - e olha para a garota perplexa em sua frente . Estará ela decepcionada?

Lian 18 analisa. Quem é a garota de chinelos e vestido esvoaçante? Que será que ela faz da vida? Onde vive? Como vive? Aproxima-se e toca-lhe o braço, apenas para confirmar sua materialidade. Lian 28 lança-lhe um olhar irônico. Sabe ser objeto de curiosidade da garota de cabelos vermelhos, que ela tanto e tão profundamente conhece.

Lian 28: Vamos, pergunte!

Lian 18: Perguntar o quê?

Lian 28: Tudo o que você quiser.

Lian 18: Eu quero perguntar tudo.

Lian 28: Melhor a gente se sentar.

Lian 28 olha em volta. Repara nas árvores, nos bancos. Muita coisa se passara ali. Banhos de chuva, pactos, fim do mundo.

Lian 18: Reconhece este lugar?

Lian 28: Sempre.

Lian 18: E então, como acabou?

Lian 28: Nada acabou ainda. Os caminhos não se fecharam. Abriram-se, cada vez mais incertos.

Lian 18: E a revolução, as mudanças?

Lian 28: As mudanças foram outras.

Lian 18: E os ideais?

Lian 28: Não sobreviveram.

A menina de cabelos vermelhos olha para o chão, desapontada. Prometera-se não deixar de acreditar, de lutar. Mas era isso, então... os ideais estavam fadados a morrer e no fundo ela já pressentira. Estava feliz, tão feliz e tão plena que não queria mais mudar o mundo. Mas se apegara àquele ideal por teimosia. Então, hesitante, fez a pergunta, aquela que há muito ansiava:

Lian 18: E o amor?

Lian 28 deu um suspiro. O amor. Não sabia o que responder. Poderia dizer que acabou. Mas acabam, essas coisas de amor? Passaram-lhe muitas coisas pela cabeça. A ela, essa garota de cabelos longos e negros, ocorria isso: preguiça de falar. Principalmente quando todos os pensamentos apareciam assim: incoerentes, complexos. Pensou em explicar os fatos, tentou ordenar todos os sentimentos, as necessidades que justificavam os encontros e as partidas. Não soube fazê-lo. Limitou-se a olhar para o horizonte e dar uma resposta vaga:

Lian 28: Os caminhos...

A outra entendeu. As duas ficaram longo período caladas, perdidas em algum tempo que não era o delas. Até que, cortando o silêncio, voz embargada, uma delas falou:

Lian 18: Minha promessa é o para sempre.

Lian 28: Não funcionou. Mas outros vieram, outro virão.

Lian 18: É a mesma coisa?

Lian 28: Nunca é.

Lian 18: Profissão?

Lian 28: Talvez encontremos por aí a Lian 38 e ela nos possa responder. Eu não tenho essa resposta.

Lian 18: E o que ficou de mim?

Lian 28: Eu te escondi durante muito tempo. Cheguei a pensar que você não mais existisse. Mas aí comecei a percebê-la em algumas pequenas coisas, principalmente na intensidade e na cegueira.

Lian 18: Aprendizados?

Lian 28: Nenhum.

Lian 18: Como, nenhum?

Lian 28: Tudo que aprendi aos 20, desaprendi aos 25.

Desta vez as duas silenciam e não dão continuidade ao diálogo. Ambas prestam atenção à música que toca: "... deixei que tudo desaparecesse e perto do fim não pude mais encontrar, e o amor ainda estava lá..."

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Conversa ao telefone

Conversa entre minha irmã, na Austrália, minha mãe, em Goiânia, com participação de João Tai, meu gato:

Mãe:  Ah.. o João quer falar com você! Ele percebeu que é com você que eu estou falando!! Fala com ele aqui..

Marina: Tá.

João: ...

Marina: João! Mamãe gosta tanto João.. ama tanto.. tanto tanto..

João: ...

Marina: Joãaaa-ao!

Mãe: ... não Marina.. acho que ele não entendeu!

Marina: Mãe! Vc colocou o telefone no ouvido dele? Não pode colocar muito perto do ouvido!!

Mãe: Ele não entendeu não.. e- ele fugiu.. ele foi embora..

Marina: Não pode pôr muito perto mãe!!.. porque dói e ele quer fugir..

Mãe: Ele foi embora... ele não sabe que é você..

Marina: Mãe!!!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

À deriva

Eu navego neste barco sem saber aonde chegar. Há dias abandonei os remos, cansei de lutar contra as tormentas e as marés. Eu sigo neste barco mesmo que o vento me leve para longe de você. Não quero antecipar os caminhos, não quero brigar com o mar. Deixo apenas que ele reflita minhas ondas, minha profundidade e imprevisibilidade. Deixo o canto às sereias, a aridez às areias. E sigo entregue e inteira, sem saber onde atracar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quando tudo dá errado


Já há alguns anos, quando cursávamos faculdade, minha amiga Júlia dizia: "Se tudo der errado na minha vida, abro uma lojinha de artesanato em Pirenópolis". E eu emendava: "E eu compro uma cachoeira lá e fico cobrando entrada e camping". Depois teve a fase em que visitamos a USP e assistimos a uma aula de filosofia que adoramos. Então ela passou a dizer: "Se tudo der errado na minha vida, vou fazer mestrado com o Fulano". Hoje ela faz doutorado na USP e adivinhem quem é seu orientador?

Ultimamente tenho feito mil planos para meu "se tudo der errado": viver em comunidade alternativa, colocar um mochilão nas costas, ser designer de jóias, virar artista plástica e abrir um ateliê em Búzios, ser estilista de moda infantil, ir pra Capadócia, pra Oceania, ser uma gorda bonita, falar de energias, comer rezar e amar, etc. e etc..

Ontem concluí: Já deu tudo errado. E agora? Chutei o balde e desisti de dar certo. Acordei tarde e tagarelando ao telefone com minha voz rouca que há dias tentava poupar, comi o que devia e o que não devia, inutilizei minha tarde, fui dispensada de minha responsabilidade à noite, brinquei como criança, coloquei a mão inteira dentro da boca, vi minha amiga em um fim de dia cinematográfico, fiquei pirando na pantera com meu amigo até quatro da manhã, dormi no sofá, matei aula, comi comida na minha própria casa.

E de repente dar errado está dando certo.

sábado, 2 de outubro de 2010

A Oceania


Acho que nasci para viver em paz. Mesmo quando jogo War, fico estressada com os ataques e acabo fazendo vários acordos de paz, que na maioria das vezes me fazem perder o jogo. E, quando me sinto muito ameaçada, esqueço logo meu objetivo e procuro fugir para um território que não seja disputado, onde eu possa simplesmente sobreviver e me reproduzir. Na maioria das vezes esse território é a Oceania.

Hoje é a minha irmã quem vai para lá, fazer seu mestrado na Austrália. Que a Oceania lhe seja o mesmo que é para mim: essa terra de liberdade e paz.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O segredo dos meus olhos

É a primeira vez que me lembro de ter duvidado de minhas retinas. Eu estava lá, eu vi. Mas me parecia tão absurdo que depois pensei ter sido exagero da minha imaginação, um surto (ou susto) ilusório. Dias depois, perguntei para aquele que testemunhara o fato comigo: Aconteceu? Ele me confirmou: Aconteceu. Então é real? Isso existe?

Estávamos caminhando em direção ao ponto de ônibus. Eu, como sempre, olhando para dentro. Ele, que olhava para fora, comentou que a polícia estava na praça, no Largo do Machado, botando ordem. Ignorei, como costumo ignorar o mundo, porque ele me dói. Chegamos ao ponto e ele me apontou de novo o acontecimento. Olhei para a praça e o que vi:

Um mendigo sentado no banco da praça, quieto, de cabeça baixa, com seu cobertorzinho no colo. Três policiais que se aproximaram bruscamente e já batendo o cassetete em sua perna. Os policiais o cercaram e ele, já no chão, não podia mais ser visto. Meu ônibus, então, chegou, e eu subi atordoada, em lágrimas.

Passei o dia me sentindo mal por causa deste episódio e, ao longo dos dias, comecei a me convencer de que ele era irreal. A verdade é que não quero acreditar que este é o mundo em que vivo. Senti-me desprezível por não ter interferido, me manifestado. É provável que pouco adiantaria. Ainda assim, sei que sou uma cidadã, que, mesmo que pouca, eu tenho voz, sei que há aqueles, mesmo que poucos, que me protegem e perguntariam por mim. E, sobretudo, eu sei que sou vista como humana no mundo. Então é meu dever me manifestar por essa pessoa que não existe como ser humano e não tem direito de existir. Essa pessoa que está à mercê de qualquer violência, pois não tem quem se indigne por ela. Essa que não é cidadã, que não é inclusa no nosso mundo, o mundo dos que têm direitos.

Eu me envergonho de viver nele.

domingo, 12 de setembro de 2010

"Onde cais, setembro?"

Eu consultei mapas, tracei rotas, planejei fugir. Até fiz minhas pequenas fugas, Jacarepaguá, Praia Vermelha. Eu retornava sem saber se voltara por inteiro. Chorei minhas perdas debaixo do chuveiro. Tive surtos de ira, de nostalgia, de impaciência, de alegria. Amei e desamei pessoas que eu amo. Desconheci os rostos conhecidos. Chovi e fiz sol. E vou deixando, assim, vida se renovar para aguardar a primavera.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Das coisas que não entendo

Eu só esperava isso dela: que sobrevivesse. Tinha tudo aquilo que ela trazia para mim: o abraço com as garrinhas firmes, o calor que me esquentava o pescoço, o barulhinho que me fazia rir. Mas eu sabia que esse presentes eram efêmeros e que ela era para o mundo e não para mim.

Quando voltei ao Rio, os primeiros dias sem ela doeram. Eu acordava triste, com frio no pescoço. Aos poucos fui me acostumando a acordar sozinha, a não ter ninguém me agarrando o ombro, a não ter a felicidade diária de ver vida aprendendo a viver. Ganhei um presente lindo de um amigo igualmente lindo: uma tamanduinha de pelúcia, com que passei a dormir abraçadinha e a segurar as patinhas fechadas para relembrar seu tato.

Minha vida seguiria e minha preocupação era que a dela também seguisse. Cachorro e gato nós criamos para nós, para nos fazer companhia, para estar ao redor. Mas quem tem privilégio de criar tamanduinha, mesmo que seja por poucos dias, tem essa experiência de um amor muito verdadeiro. O cuidar de um ser para que ele viva. E é esse o único retorno que eu esperava dela. Vida. E talvez outras vidas, talvez um filhotinho que se agarrasse nela como ela se agarrava em meus braços e meus ombros. Eu pensava que, quando ela tivesse um serzinho para cuidar, então ela superaria o trauma de ter sido órfã tão cedo.

Tive um passarinho em minhas mãos por um dia e, quando ele morreu, sofri um tanto. Passarinho é pra voar, não pra morrer. Tamanduá é pra andar no mato, beber água, catar formiga, ter filhote. Tamanduá é pra viver. Tamanduinha era pra crescer forte, pra aprender a mamar e desmamar, pra aprender a cavucar terra, pra ser plena no mundo.

Tamanduinha, sobretudo, não era pra morrer afogada.

Não era.

Diálogo

Lian: Eu acho que um casal deveria escolher quem dos dois engravida.

Júlia: É, seria bom poder conversar e decidir quem está mais disponível para passar pela gravidez no momento.

Lian: E o pior é que, além de engravidar, a mulher ainda tem que parir. Eu tenho medo de parir.

Júlia: Ué, mas não precisa parir!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Cartas antigas

Há alguns dias usei o último envelope da safra "Erika Lettry no Rio", o legado que ela me deixou quando voltou a Goiânia: inúmeros envelopes amarelados, que, se me lembro bem, ela, por sua vez, herdara de sua mãe ou de sua avó. Ficávamos as duas durante horas no quarto escrevendo longas cartas para os amigos e os namorados. Eu comprava envelopinhos coloridos, enquanto ela usava os de seu estoque. Recordo que ela ornamentava as laterais com pequenos desenhos , para disfarçar o envelhecido.

Quando ela voltou a Goiânia, deixou-me de herança seus muitos envelopes. Passei a utilizá-los e nunca me dei o trabalho de tentar esconder o amarelado. A verdade é que as cartas, tão logo nascem, já são antigas. Quando fiz intercâmbio, na adolescência, recusei-me a criar um e-mail. Não queria a praticidade das notícias rápidas. Escrevia longas cartas e passava hora enfeitando-as, para que elas chegassem apenas duas semanas depois, com as novidades já ultrapassadas.

Não importa quão rápido cheguem as cartas, sempre as imagino como vindas de sangrentas batalhas, trazidas à custa de sede e suor, através de infindos desertos. Sempre quis um daqueles carimbos de madeira em relevo, para lacrá-las com cera e o brasão da família. Sempre a minha caneta se sonhava pena, apenas para dar um ar antigo. Enquanto se escreve uma carta, já se cria esse abismo, pois ela torna-se uma memória longínqua.

Cartas são antigas por natureza e nada mais próprio do que chegarem em envelopes amarelados, já com a nostalgia de um tempo distante, em que elas percorriam mundos no lombo de um cavalo ou no bico de uma pomba.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Alguma coisa acontece no meu coração...


Falávamos sobre comunhão, necessidade tão profunda (seria apenas nossa ou universal?) que nos move. Transitávamos entre a arte, o amor e talvez até entre a religiosidade: essa trindade. A busca por algo que nunca é completamente alcançável, mas que se nos insinua com sua perfeita plenitude. E, no meio da cidade barulhenta e desordenada, nós comungávamos. E subitamente estar no ônibus ao lado de uma grande amiga cantando "Se enamora" tornava minha vida plena de sentido.

domingo, 15 de agosto de 2010

Mosaico

Ela criava mosaicos de sonhos, com belas e grandiosas figuras. Eles nasciam assim, já prontos, vindos de fantasias longínquas. Então ela os apreciava reconhecendo de que mitos eram feitas as cores, cada uma delas. Sentia suas texturas, deixava-se deslumbrar, enquanto o tempo tratava de destruí-los, demovendo ladrilho por ladrilho, desbotando cada cor. Então nascia um novo mosaico, de uma nova ilusão. Vinha pronto, como os outros.

Esse era diferente. Ela não conseguiu parir de seus sonhos um lindo mosaico. Teve, pois, de construí-lo, ladrilho por ladrilho, sem saber o que aquilo iria virar. Seria um animal selvagem? Talvez uma triste paisagem, talvez fortaleza ou abstração. Ela analisava cada pedrinha, antes de utilizá-la. Escolhia a tonalidade certa e só colocava um novo ladrilho quando sentia que a figura pedia um contorno a mais.

Talvez aquele mosaico, que nascera da incerteza, ficasse para sempre incompleto. Mas talvez um dia ela terminasse uma surpreendente imagem, que, por ter sido construída com tanto cuidado e espanto, erguer-se-ia com inigualável solidez: eterna.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Dominó




Curioso que meu novo professor de interpretação tem trabalhado conosco sobre nossas bolhas energéticas. São essas as bolhas que dão nome ao meu blog, que fundamentam minha teoria sobre relacionamentos. Eu tenho uma bolha enorme, gigantesca. Não é preciso que se aproximem muito de mim para que eu me sinta invadida, neste espaço que me circunda e que é meu, minha bolha. São poucas as pessoas que conseguem adentrar minha bolha, menos ainda as que me fazem viver nas suas.


Hoje eu voltava para casa de metrô, dentro da minha enorme bolha. Estava sentada e, como de costume, observando apenas com o olhar periférico o que se passava à minha volta. Minha irmã diz que eu rosno quando alguém se aproxima. Pois eu rosnava. Cada vez que a pessoa sentada a meu lado fazia algum movimento que ameaçava aproximação, eu rosnava, ajeitando-me incomodada na cadeira.


Então o rapaz ao meu lado derrubou algo que caiu próximo a minha perna. Afastei-me imediatamente, para que não houvesse o perigo de ele encostar em mim. Ele pediu desculpas, eu olhei para ele e para o objeto caído. Era uma peça de dominó. Ele trazia o jogo em uma lata no colo. Por algum motivo, aquilo me desmontou. Desisti imediatamente de ser grosseira.


Achei terno alguém andando de metrô com um jogo de dominó no colo. Virei-me para o outro lado, achando graça. Então o rapaz puxou assunto e fomos até minha parada conversando animadamente.


Era uma pecinha de dominó, apenas. Mas por um momento caiu ao meu lado, furou minha bolha e me desarmou.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Capadócia

Quando comecei a folhear minhas revistas de turismo, assumi: estou oficialmente de tpm. Então me dei esses direitos: abri meu ovo de páscoa (acreditem, estava intacto até hoje), fiz um chazinho e me permiti ficar acordada até tarde, sonhando com esses lugares que quero conhecer: a Grécia, a Capadócia. Hoje vou sonhar minhas paisagens lunares. Amanhã, a vida mundana continua...

domingo, 8 de agosto de 2010

Pai

Tem uma música do Oswaldo Montenegro que diz: "...mas já não acho a professora a mais bonita e o meu pai o maioral". Eu não me lembro de ter passado por essa fase ingênua, de idealizar os heróis da infância. Não passei por essa fase, em que meu pai era o super-herói, capaz de todas as façanhas e portador de nenhum defeito.

Foi, pois, com a maturidade de certa idade (nem tanta idade assim, não exageremos) e a quebra das ilusões da infância, que hoje tenho certeza de que meu pai é, sim, o maioral. Quanto mais adulta me torno e quanto mais da vida conheço, mais reconheço essa certeza.

Então rejuvenesço a ponto de parecer dessas crianças na escola, contando as façanhas do pai, tão plena de orgulho. E vou enumerando suas tantas atividades, que ele realiza com maestria: meu pai pinta quadros, dá aulas, projeta casas, constrói móveis, escreve livros, faz brinquedos de madeira, artesanatos em papel, cultiva plantas,...

É uma pessoa que se dedica à beleza em suas diversas formas. E quando estou ao seu lado, ouvindo-o contar suas histórias, suas crenças e suas cores, penso que seu mundo me enche de uma grandiosidade que faz com que eu me sinta o mais próximo daquilo que chamo de um Deus.

sábado, 7 de agosto de 2010

Demanda de sorrisos


Um amigo me encomendou um sorriso. Um, não. Vários. Reparara que eu quase não sorrio nas fotos e argumentou comigo que não tiramos fotos para nós, mas para dizer "oi" aos outros. E que esse "oi" deve ser acompanhado de um sorriso.

Discordo. Seja para quem for que tiramos uma fotografia, penso nela como registro de um momento. Algo de nós que é capturado naquele instante. Nada contra sorrir. Porém sou contra a ditadura do sorriso. Penso que o tal de "sorrir para a foto" é uma convenção tão presente que passou a ser considerada como naturalidade. Não é. Com exceção de poucas pessoas sorridentes que conheço, normalmente não se anda por aí mostrando os dentes. Não se senta e não se para com um sorrisão no rosto. Mas, quando alguém lhe aponta uma câmera, o sorriso vem de modo tão automático como se fosse a expressão natural da pessoa. Tanto não é natural que, quando se demora para tirar a foto, o sorriso sempre aparece amarelo. Ficar sorrindo em estátua não é natural. É convenção.

Mas tenho que dar o braço a torcer e reconhecer que comunicação, afinal, se trata de convenção. Palavras e gestos nada mais são do que o comum acordo de um significado por trás. Durante muito tempo ignorei a importância da expressão. Julgava-me transparente e imaginava que o que quer que eu sentisse pudesse ser lido pelos outros. Que tanto meu carinho quanto minha raiva fossem transmitidos pelo simples fato de eu senti-los. Demorei a descobrir que não são. Parece óbvio, mas para mim foi um aprendizado lento reconhecer que, por maior que fosse minha simpatia por alguém, ela não o percebia a menos que eu sorrisse.

Intimidade é conhecer tanto alguém a ponto de ela não precisar se esforçar para comunicar em sinais convencionados o que se passa por dentro dela. Tenho uma grande amiga que, durante o primeiro ano de amizade, eu pensava nunca tê-la visto brava. Tempos depois descobri que, na braveza, ela não gritava, não xingava, não franzia o cenho. Seus olhos brilhavam, apenas isso. Intimidade é conforto, mas, está bem, podemos contar nos dedos de uma mão aqueles que realmente têm intimidade com você. Então concordo que negar a necessidade de comunicação é recusar o próprio princípio do que faz o humano, humano.

Então posto aqui esses sorrisos, embora sejam mais risos e momentos de descontração. Posto-os para dizer "oi" a esse amigo. Mas que ele saiba que, por trás de dentes e lábios e olhares e gestos existe um carinho sincero que, a mim, diz mais do que qualquer convenção.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ser mãe


Já faz alguns anos, mas tenho essa lembrança retida de forma tão nítida na memória: Era uma recém mãe que me contava: "A sociedade nos passa constantemente a mensagem de que somos dispensáveis. Podemos ser substituídos no trabalho, nas relações sociais, no casamento. Se você não cumprir sua função, não satisfizer seu companheiro, não atender às expectativas, você é substituível, substituível, substituível. Mas, quando se tem um filho, a primeira certeza que se tem é de que você é indispensável".
Isso ficou marcado em mim. Mas voltou mais forte agora, que me tornei mãe. E logo de uma bebê tamanduá. Já convivi com gatos, cachorros, passarinhos, sempre em relação de amor. Mas era a tia. Com a tamanduá, me conferi o papel de mãe. Responsável por seu bem-estar, por seu crescimento, por seu futuro. Carregando-a nos ombros, fazendo piquenique com ela no quintal, vibrando a cada conquista, as primeiras caminhadas e cavucadas na terra, o primeiro leitinho na tigela. E ficando com o coração partido de preocupação por como ela virar-se-ia sem mim, sonhando com ela já grande, carregando nas costas, um dia, seu próprio bebezinho.
Comecei a entender essa grandiosidade da maternidade. Ser mãe é querer um mundo melhor. Um mundo sem sofrimentos, digno de seus filhos e dos filhos destes. E me peguei assim, por amor a essa bebê, mãe de toda a espécie. Com medo do perigo iminente: a extinção. Revoltada com o relato de um amigo, de que o pai dele encontrou um tamanduá adulto em sua fazenda e o matou. Parei pra pensar que essa deve ser a prática corrente entre fazendeiros, encontrar um bicho estranho e matá-lo, sem nem saber o porquê. Concluí que uma educação ambiental se faz necessária. Não destas de teatrinhos para crianças em escolas, não essas de pieguices e romantismos sobre a natureza. Mas um programa de educação ambiental informativo e conscientizante voltado para os habitantes do meio rural.
E foi assim, tornando-me mãe de uma filhotinha de tamanduá, que me dei conta de que maternidade é ampliar os limites de sua individualidade. É ser indispensável, ser maior do que se é. E sonho com aquele outro mundo, esse que eu criaria para minha bebê, um mundo em que eu fosse, sim, dispensável. Onde eu nem ao menos a encontraria, não seria nunca mãe de um filhote de tamanduá, pois ela estaria tranquila nas costas daquela outra mãe: a que a gerou.
PS: Hoje um amigo me encomendou um sorriso, que adianto na foto deste post, embora prometa ainda escrever sobre o assunto.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tamanduinha - parte II

E em pouco tempo eu me assumi assim: mãe. Respirando devagar para não atrapalhá-la em seu sono. Deitando no chão para aproximá-la da terra e dos formigueiros sem tirá-la da segurança do colo. Dando-lhe mamadeira à força e tomando suas dores. Criando teorias sobre sua psicologia infantil tamanduá. Fazendo pactos com ela, pedindo-lhe que sobrevivesse, que crescesse forte e que um dia tivesse filhos. Vivendo esse paradoxo de mãe: a dor e a alegria de ter filhos para soltá-los no mundo.

sábado, 31 de julho de 2010

A tamanduinha


Ontem cheguei em casa e minha irmã tinha uma tamanduá-bandeira bebê no colo. Ela me explicou que a mãe do animalzinho tinha sido atropelada e que a bebê precisava de atenção integral, mas que desde então passara de casa em casa, pois era uma tamanduá complicada: não ficava abraçada, como as outras filhotes da espécie, chorava o tempo inteiro, recusava-se a mamar e, quando forçada, acabava vomitando. Ajudei a dar mamadeira para a filhote e ela realmente deu trabalho: tive que segurar as patinhas, para que ela não unhasse. À noite saí e, quando voltei, minha irmã e a tamanduá dormiam juntas na cama. Pressenti que, a partir de então, ela se adaptaria à nossa rotina humana.
Vê-la tão assustada me remeteu a um tempo longínquo, em que eu também era filhote e assustadiça. Uma lembrança antiga, de quando eu era muito pequena. Estávamos em São Paulo e, quando chegamos à casa de meus avós maternos, tudo estava vazio e silencioso. Meu avô havia morrido e minha avó estava no andar de cima, chorando. Nesse mesmo dia apareceu uma senhora chinesa que nos levou, eu e minha irmã, para sua casa. Chegando lá, havia um grupo de jovens. A senhora falava em chinês coisas que não entendíamos e as garotas riam, achando graça. Eu e minha irmã pensávamos que riam da gente. Éramos dois bichinhos assustados, naquele mundo de estranhos. E éramos todos humanos.
Olho a bebê tamanduá tão perdida entre nós e a imagem daquela noite persiste em minha mente. Um animalzinho que vivia no meio do mato, grudado nas costas da mãe, e que de repente todo o mundo que lhe é familiar desaba, sendo-lhe imposto um mundo de estranhos. Aos poucos vejo-a se sentindo um pouco menos desconfortável, apegando-se à minha irmã, procurando seu colo. E penso que talvez todos nós tenhamos que passar por isso: essa violência com que somos impelidos a mundos desconhecidos e a busca constante por um colo, aquele colo que devolve a segurança de um mundo familiar.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Noites goianas

Está sendo ótimo reencontrar meus amigos goianos, reconhecê-los, contar as novidades, conversar sobre o passado comum, comer espetinho e rodízio de crepe, beber suco de frutas. E, por algum motivo, acho que não há nada mais prazeroso do que dirigir à noite, sozinha, com o rádio ligado. E às vezes me bate uma saudade besta, como a de voltar de um show no Jaó e parar com os amigos em um pit dog no caminho para tomar creme de morango. São flashes de felicidade que me vêm assim, como uma saudade sem dor.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Coisas que aprendi na Argentina:


Regras da língua:
- Regra da exclusão. ex: próprio/propio
- Regra da inversão. ex: pergunta/pregunta
- Regra da confusão. ex: "prohibido salivar"
Regras de trânsito:
- É obrigatório ser capaz de fazer o quatro, para dirigir.
- Os caminhões devem avançar como homem.
Equivalências:
- Espermatozóide é o cachorro do sapo.
- 35 argentinos equivalem a uma mini hipopótama.
- Um boi equivale a 15 mato-grossenses.
- 37 é o 422 de Buenos Aires.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Volver


E voltei. Ao Rio, a São Paulo, a São Carlos, a Goiânia. E ainda a nenhum lugar, definitivamente. Voltei por uma noite ao Rio, para alimentar a saudade de um abraço de urso (pois saudade não se mata, se alimenta). Por uma manhã a São Paulo, para bater papo com minha tia mais prima do que tia e encontrar minha priminha quase chegando à minha altura, mas que pra mim é sempre bebê. Por uma noite em São Carlos, para comer muita comida chinesa e dormir todas as noites maldormidas anteriores. E, após um dia inteiro de estrada, cá estou em Goiânia. Para curtir a família, os gatos, os amigos. É bom estar de volta.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Esses casais inconvenientes

Eu fico olhando esses casais. Esses que estao sempre grudados, que trocam demonstracoes públicas de afeto o tempo inteiro, que têm uma química de animal no cio. Esses casais inconvenientes, para quem, em um bar, nao é necessário que haja duas cadeiras, pois um sempre está no colo do outro. Esses casais que, mesmo entre amigos, familiares ou multidoes, parecem que estao a sós e que o mundo é aquela pequena bolha de duas pessoas. Esses casais que nos constrangem, quando, no meio de uma conversa, resolvem tascar um super beijo de língua no companheiro. Esses que se enroscam nas praças, nos parques. Esses que nao se desgrudam e passam as madrugadas acordados, com o som ligado no último volume, dando risadas sem se entediarem com a presença constante do outro.

Eu olho esses casais, esses inconvenientes casais, entre constrangida com a excessiva exposiçao de afeto e a sensaçao de que estou sobrando. E eu confesso que sinto uma ponta de inveja desse modo de amar sem ressalvas. Eu que amo comedidamente, discretamente. Eu que amo do outro lado da mesa, atrás de taças e talheres. Eu que amo em entrelinhas. Eu olho esses casais inconvenientes e, secretamente, desejo um amor incontido.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dia do amigo


Amanhã é o Dia do Amigo. Ainda bem que em nosso país essa data ainda não é super explorada comercialmente. Aqui em Buenos Aires, entretanto, há em todas as lojas anúncios, sugestões de presentes, etc. E parece que, além de trocarem presentes, as pessoas aproveitam a data para comemorar com os amigos. Amanhã eu e a Carol vamos entrar de penetra em duas dessas comemorações. Mas confesso que, nesse dia, eu queria tantas outras pessoas por perto. Essas que agora estão longe e que tornam minha vida mais divertida e mais plena de sentido. Um abraço aos meus amigos!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Buenos Aires Newsletter


- Ontem foi votada a lei que permite casamentos gays aqui na Argentina. Voltando de ônibus e passando na frente do Congresso, vimos uma manifestaçao contra a tal lei. O inacreditável é que o protesto era formado por jovens. Acho triste ver tantos jovens assim conservadores e preconceituosos.

- Meu primeiro problema para usar os computadores aqui na Argentina foi encontrar o " @ ". Agora que estou acostumada, vejo que é facílimo: é só apertar Alt 64. Nem entendo por que os estrangeiros ficam perdidos.

- Demoramos para entender o sistema de cobrança dos ônibus. Depois descobrimos que, quando passamos a entender e pagar sem precisar perguntar, entao há lugares para sentar de costas. No dia em que nem precisarmos perguntar o trajeto, haverá lugares para sentar de frente.

- A minha companheira de viagem nao acredita em paredes e é alérgica a alegria.

- Descobri uma ótima maneira de secar rapidamente as calcinhas: colocando na calefaçao. O problema é que é rápido demais. Ontem a minha acabou queimada!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Buenos días en Buenos Aires


Já no aeroporto o funcionário perguntou: "Vocês portam algum objeto cortante, como tesoura, faca, pinça...?" Como assim? Pinça??!! Quando preparei a mala, eu até pensei bem se poderia levar a pinça na bolsa, mas acabei concluindo que teria que cutucar muito para cortar alguém com aquilo. Mas, já que nao podia, nao podia, ok... No fim das contas foi até boa a precauçao, pois era bom manter a Carol, amiga que me acompanhava, longe de qualquer arma em potencial. Já no balcao de embarque ela me avisou que tinha pavor de aviao e que desta vez eu a veria histérica. Entao eu nunca a havia visto histérica? Seria a primeira vez? Ok, fiquei com medo. Quando o aviao decolou, ela comecou a ficar vermelha e orar. Eu quis entoar o mantra que usávamos no "Livro Tibetano dos Mortos", mas ela nao gostou nada da ideia.

Chegamos no frio de Buenos Aires e fomos recebidas na casa de um argentino hippie muito gente boa. Fizemos um pacto, obedecendo às regras do manual, de que só falaríamos espanhol. Passamos por vários momentos hilários, incluindo uma longa discussao filosófico-sociológico-existencial com argentinos. Como mandam as regras de etiqueta, discutimos também religiao, futebol e política. Acabamos concluindo que espermatozoide é o cachorro do sapo. E, no fim de tudo, resolvemos sair e é claro que quem tinha de dirigir era a pessoa mais bêbada da mesa. Depois de entrar na contramao fomos parados por um carro de polícia e me parece que o problema foi resolvido à moda brasileira.

Tivemos altas crises de riso, especialmente ao ver a placa, no ônibus, dizendo que era proibido fumar e "salivar"! Conheci um bassehound com cara e pelagem de pastor alemao, criamos uma gramática castelhana, várias regras para o manual, um milhao de teorias. Enfim, esta está sendo uma viagem que, no mínimo, vai render boas histórias para contar. Aguardem!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Dicas de futebol


Acompanhando os jogos da Copa, descobri que já sei tudo sobre futebol. Tanto é que no jogo de hoje, em que o Brasil foi eliminado, tive muita vontade de ser a técnica do jogo, pois eu sabia tudo que ia acontecer.
Vão aí minhas últimas reflexões sobre o esporte:
Escanteio - Os escanteios são ótimas oportunidades de se fazer gol, mas, como há uma mistura de jogadores de ambos os times, só é possível fazer gol de cabeçada. Nesse caso, os times que têm mais jogadores carecas têm vantagem, pois as cabeças lisas dão precisão à bola, enquanto os cabelos amortecem o impacto, tirando a força da jogada, além de causarem um desvio angular.
Formiguinhas - Quando um jogador se aproxima do gol, tem que chutar logo a bola. Se ele fica enrolando, descem as formiguinhas do time adversário, tornando impossível acertar o gol. Quando é um jogador do time adversário que se aproxima, nossas formiguinhas devem descer rapidamente, para não dar espaço ao outro. Portanto a fórmula para se fazer gol é sair correndo, um ou dois jogadores, mas bem rápido, de forma que os adversários não te alcancem. Sem as formiguinhas, a área fica livre para marcar o almejado gol.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Amo muito tudo isso!


Quando vi, já era. Nunca descobri qual foi o momento em que "esse garoto" tornou-se um dos personagens principais da minha vida. Ele chegou deslizando de patins, com um sorriso enorme no rosto, embaralhando mil ideias na cabeça, fazendo planos pro fim de semana, falando rápido e sempre. Ele trazia tardes inteiras de vagabundagem em boa companhia, inventava cinemas depois da aula, gargalhava comigo de coisas que só nós dois desentendíamos. Ele aprendia comigo a experimentar novas frutas, a comer colorido, a fazer presentes personalizados. Ele me incentivava a pagar todos os micos. Ele dividia lanche comigo na aula, aprendia minhas preferências e me ensinava mais sobre seu gosto de criança. Ele me levava para o seu mundo em Jacarepaguá e me tirava da correria da cidade. Ele borrava os quadros que pintávamos juntos e, com sua característica "espermatozóide", dava um toque especial aos nossos artesanatos. Ele me apresentava a poesia, em prosa ou em verso, que tocava sua alma. Ele dizia que tinha uma ideia e mordia os lábios, assim eu já sabia que ele tinha pensado uma besteira e adorava.

Por isso ele entrou na minha vida de um jeito irreversível "como os dentes" e me conquistou arrebatadoramente. Ele é minha gelatina de guaraná, meu sanduíche da padaria da Marina. Ele é meu casamento pra sempre com marido vivo. Ele é padrinho da minha filha pretinha cantora do Michael Jackson. Ele é meu sócio no centro cultural. É meu companheiro no nonsense, é minha criatura nas histórias, é meu garoto nas bagunças. Ele é meu yogoberry, meu fofo de tirar do lugar, meu baby beef, minha ligação de 25 centavos.

Fundamental, apenas.

Parabéns pelo seu aniversário, Luís Renato!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Desapego


Hoje, ao descer as escadas da CAL para ir embora, eis que meu chinelo arrebenta. Da última vez em que isso me aconteceu, um rapaz tirou de dentro da mochila um par de havaianas tamanho 43 e eu cheguei na casa do André com duas pranchas de surf. Como hoje não apareceu ninguém com um par de calçados extra, aproveitei o dia para praticar o desapego e, ao mesmo tempo, fazer exercício de Gurdjieff. Peguei o ônibus do metrô, depois o próprio, e fui pra casa como se nada estivesse acontecendo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Eu hoje...

Eu hoje instituiria a lei de que todos meus amigos deveriam ter um blog e atualizá-lo pelo menos de dois em dois dias. Então, nesses dias em que minha vontade é ficar quietinha e querendo bem, eu visitá-los-ia, de janelinha em janelinha, para ver como eles estão, o que fazem, o que sentem.

Mas chegará o dia em que todos eles estarão perto e em que o tempo vai abrir uma brecha, o tempo de dentro do tempo. Então o computador permanecerá desligado e eu irei visitá-los, um por um. E me serão oferecidos casadinhos, bolos e chás. E conversaremos horas a fio sobre todas as desimportâncias que nos são caras. E minha casa, também, estará aberta, com um sofá macio, guloseimas e brincadeiras. E todo dia será um Natal dos Amigos.

Fuga...


Ando em uns dias em que eu finjo que não é comigo. Nada demais, apenas necessidade de férias. Mas esse tal de viver, fazer as coisas, ser responsável, me importar, etc. e etc. cansa. Então eu finjo que não sou eu, que minha vida não é comigo. Eu sigo distraída pra esperar passar. Mais três semanas de aula, uma peça, trabalhos, e eu decidida a me fazer de desentendida. Eu preciso deixar de lado minha rotina de responsabilidades. Deixar de lado as expectativas, algumas pessoas que amo (o amor, essa prisão), algumas coisas que gostaria de fazer, mas em outro momento, com outra disposição.
Hoje eu quero virar hippie, fazer bonecos de papel, tomar sol na piscina. Hoje eu quero cachoeira, adolescências, chocolate. Uma passagem pra Grécia, um dia inteiro debaixo do edredom. Quero luau na praia. Master e Imagem e Ação com os amigos. Clube da Luluzinha, Fran's Café. Quero festa junina com bandeirinhas coloridas e canjica e crepelito. Quero passar o dia vestindo roupa de menino. Quero sair à noite de pijamas.
Hoje eu quero férias de mim pra poder ser eu.

domingo, 20 de junho de 2010

Jacarepaguá liberta

É, sim, longe pra caramba. Mas, como eu vim da Barra e de carro, não precisei vir amarrada. Jacarepaguá é Goiânia na minha infância. É casa de campo, de praia, da montanha. Aqui a gente faz saladinha com verduras buscadas no mercadinho em frente, onde há detergentes caseiros embalados em garrafas de guaraná. Há detergente lilás, amarelo, azul. A gente passa a madrugada recortando papel. A gente entra de sunga e camiseta alaranjada na piscina. Enquanto é inverno no Rio de Janeiro, aqui é verão ensolarado. A gente atravessa a rua descalça. Passa o dia com roupa de menino e com a cueca do amiguinho. Faz torcida em jogo do Brasil com apenas três pessoas. Que se bastam. A gente faz bolinha com nossas apostas para o jogo. Toma suquinho de maracujá. Às vezes, pra fugir do mundo, só é preciso ir a Jacarepaguá.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Brincadeira de Barbie



Continuando na vibe "histórias da infância"...


Quando pequena eu e minha irmã brincávamos muito de Barbie. Tínhamos várias delas e de Kens, mas o elenco sempre era complementado por pônei, ursinho cor-de-rosa, um Chaves, uma cenoura de pano e outros bichinhos bizarros, que faziam a vez de meninas e meninos. Além disso, minha irmã tinha uma coleção de cachorrinhos de plástico, cada qual de uma raça. E após escolher o contexto da brincadeira e os núcleos (quais bonecos compunham a família, quais eram os amigos,...), ela sempre escolhia o cachorrinho de estimação da família.
Pois bem. Eu queria fazer a Barbie ir à escola, ao shopping, trocar de roupa, ser popular. Mas nunca consegui ter uma brincadeira normal. Minha irmã conduzia o enredo de um modo trágico. A mãe tinha câncer. As pessoas começavam a desaparecer misteriosamente, perseguidas por um psicopata. Eu ficava tensa. Chorava. O cachorrinho era pano pra muita manga. Podia morrer atropelado. Podia padecer de doença misteriosa. Havia infinitas possibilidades de sofrimento e morte:
- Esse é o cachorro da família.
- Ah, eu não quero que eles tenham cachorro.
- Por favor!
- Se tiver cachorro eu não brinco.
- Eu juro que ele não vai morrer!
- Mas você sempre diz isso e ele morre mesmo assim.
- Desta vez eu juro, ele não vai morrer!
- Nem ficar doente, ser mutilado, torturado?
- Nada disso, juro!
- Está bem.
E o cachorrinho morria.

domingo, 13 de junho de 2010

As festas que meu pai me preparava

Quando eu era criança, minha mãe preparava minhas festinhas de aniversário. Encomendava bolo, docinhos, fazia brigadeiro com a empregada. Tudo daquele jeito bem-feitinho, como é próprio de mães. Até que ela foi morar no Rio, para fazer doutorado, deixando-nos em Goiânia. Então meu pai passou a ser o responsável pelas minhas festas. Quando me lembro delas, desses anos e dos aniversários passados com meu pai, acho graça e me emociono. Porque os grandes gestos de amor dele vinham revestidos de uma falta de jeito que me comove. Ele comprava um bolo retangular que vinha pronto, no Carrefour. Os brigadeiros, ele também comprava desses prontos, de supermercado, brigadeiros gigantes, que ele tratava de dividir em bolinhas menores. Mas comprava os melhores balões, de bichinhos diferentes que sempre eram disputados ao final da festa.

Eu não esqueço um desses aniversários, em que, quando os convidados foram embora, entramos eu e minha irmã no quarto e encontramos dois jogos embaixo da estante. Um tinha a caixa azul e chamava-se "Pássaro na mão", o outro, da caixa vermelha, era um de monstros. Ficamos intrigadas, pois não sabíamos quem tinha levado aqueles presentes. Cogitamos alguns nomes, alguns amigos. Até que resolvemos perguntar ao meu pai, que confirmou que os presentes foram deixados por ele. Pode parecer trivial, mas, para quem conhece a dificuldade que meu pai tem para comprar presentes e, mais ainda, fazer surpresas, aquele foi um gesto de indescritível doçura. Um desses momentos que ficam permanentemente inscritos na memória, como um dos meus tesouros.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Copa do Mundo



Confesso: Na última Copa do Mundo eu torci para a República Tcheca. É verdade, fiquei encantada por um jogador tcheco, Rosický, que, ainda por cima, fez dois ou três gols contra os Estados Unidos. Sem contar com o fascínio que eu tenho pelo país, desde que conheço a literatura de Milan Kundera.
Mas, antes que me crucifiquem, deixem que eu me explique: a primeira vez que acompanhei uma Copa do Mundo com emoção foi em 1994. Ouvia falar em tetra, tetra, e perguntei ao meu pai do que se tratava. E ele me explicou que o Brasil fora campeão mundial três vezes e que nenhum país era tetracampeão. Se o Brasil ganhasse, seria o primeiro. Nesse ano nosso país ganhou o campeonato, nos pênaltis, em uma disputada partida contra a Itália.
Desde então aprendi a acompanhar os jogos da Copa, mas sempre desejando disputas acirradas e fortes emoções. Adquiri a mania de torcer por empates, só para o jogo ser decidido no pênalti. E não me interesso em assistir aos primeiros jogos do campeonato, pois só vejo graça quando a partida decide a saída ou permanência do time.
Vibrei no tetra. Vibrei no penta. Depois já achei que era demais.
Se não deixarmos outros países nos alcançarem, que graça vai ter?

Meu Museu de Imagens do Inconsciente - I


Sonho da madrugada de 04/06: Coelho levita, levando tartaruga e mariposa consigo.

sábado, 5 de junho de 2010

Eu tô tão feliz!


Estou com um novo blog no ar, junto com meus amigos André Locatelli, Luís Renato Oliveira e Marina Mota. É o espaço onde registraremos nossas conversas e debates do dia-a-dia. Pra quem quiser conferir: http://www.eutotaofeliz.blogspot.com/ .

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Frankenstein


Este é um texto escrito conjuntamente, por mim, Luís Renato Oliveira e Marina Mota. É resultado daquela brincadeira em que uma pessoa escreve um trecho, a outra lê apenas a última frase, dá continuidade e assim por diante. Não tem pé nem cabeça, mas nós temos feijões mágicos!
***
Ele andava pelas ruas procurando algo interessante, não importava a natureza desse "algo". Catava pedaços de comida pelo chão e colocava na boca. Sabores diferentes, inusitados. Era definitivamente diferente de comer o que lhe era oferecido sobre a mesa. Às vezes se cortava com objetos que apalpava. Queria sentir as texturas. Texturas que faziam parte da minha vida e eu nem sabia que existiam.
Assim como ele. Estava sempre presente, mas eu não sabia. Mentira! Sabia sim, só não queria enxergar, porque para isso eu precisaria me descobrir, entender, e eu não estava preparado para isso. Então resolvi ir embora e procurar um ofício verdadeiro. Alguma coisa em mim dizia que minha vocação era ser sapateiro, pois eu tinha loucura por sapatos. Andava pela rua olhando para o chão, me fascinavam os sapatos em movimento, com suas cores e seus brilhos.
E neste quadro multicores ela se via, como num espelho em que toda sua história era contada. Sua infância e seus sonhos, as fadas brilhantes e os contos que seu pai contava. Assim, se lembrou de um dia em que seu cachorro saiu correndo pela chuva e se machucou numa lata de lixo. Confusão! Todos saíram correndo, menos o pobre tamanduá, que ficou ali parado, todo molhado e com muita dor na cabeça.
Depois de horas, uma jovem chinesa com uma máscara para queimaduras apareceu e levou o coitadinho pra casa. Sua cara estava avermelhada, mas ele não tinha vergonha, pois aprendera a assumir sua essência. Os dois andaram lado a lado, com um sorriso no rosto e de mãos eternamente coladas.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Coisinhas


Quando minha irmã veio ao Rio, no ano passado, estávamos fazendo coisinhas (no sentido Lian, não no sentido LR), quando ela me pediu uma borracha. Respondi que não tenho nenhuma. Tenho canetinhas, lápis de cor, papéis coloridos, tesoura ziguezague, carimbos, etc. e etc., mas não tenho borracha. Afinal, escrevo a caneta, pois não tenho paciência para a lerdeza exigida pelo atrito do grafite. E, quando erro, não apago, rabisco. Ainda assim ela achou um absurdo: "Como uma pessoa pode não ter borracha em casa?!!" Então pensei melhor e me lembrei de uma borrachinha colorida que ganhara tempos antes. Busquei-a feliz da vida, entregando-a para minha irmã, que respondeu: "Isso não é borracha, é balinha". E iniciou-se uma discussão sobre a natureza daquele objeto colorido dentro do plástico. Ela me desafiou: "Prova!" Tirei a suposta borracha do plástico e lambi. Era balinha.

domingo, 23 de maio de 2010

Minuto de silêncio


Eu também gostaria de ter conhecido esse homem que partiu. Partiu algo em mim, também. E, diante da impotência das palavras, menino, recordo seu rosto. De onde vem essa força que te antecede? De onde vem o brilho dos olhos, o negro da pele? E vejo que amo esse homem em você, meu menino. Esse homem que não conheço. Reconheço. E que não partiu. Repartiu.

sábado, 22 de maio de 2010

Auto-mimada

Um dia desses minha professora fez uma crítica a essas pessoas que não necessariamente foram mimadas pelo pai ou pela mãe, mas que se auto-mimam. São essas que têm que se satisfazer o tempo todo. Ela exemplificou dizendo que nós temos necessidade de comer toda aula (isso numa aula que dura cinco horas e não tem intervalo). Nesse momento, eu me identifiquei inevitavelmente.

Eu me presenteio, eu me satisfaço, eu me compreendo, eu me perdoo. Eu não deixo meu estômago vazio por muito tempo. Gosto de recompensá-lo com comidinhas, capuccino, yogoberry. Se vem o prato, mas não o talher, eu enfio a cara no feijão. Eu me dou presentinhos ao longo do dia, porque gosto de me ver feliz por coisas pequenas. Eu me compro um picolé ou faço um chá. Eu tenho vontade de falar o que não devia e acabo me dando o direito. Eu pago mico e não finjo que não me conheço. Eu erro e me perdoo. É fácil me perdoar, porque eu compreendo facilmente minha atitudes. E, mesmo quando não compreendo, imagino que eu deva ter um bom motivo. Eu sou auto-condescendente.

Acho que sou auto-mimada, sim.

domingo, 2 de maio de 2010

Mãe


Próximo domingo é Dia das Mães. Hoje é dia da MINHA MÃE. Essa taurina, como eu. Teimosa, como eu, que sou tão como ela. Que assim aprendi a ser a partir do que ela não me ensinou. Minha mãe não me ensinou a desconfiar. E aprendi a alegria de acreditar nas pessoas. Ela não me ensinou as primeiras lições da puberdade. E aprendi a me apaixonar e me jogar em um mundo tão estranhamente desconhecido. Ela não me ensinou a ir ao salão semanalmente, a andar arrumada, a me embonecar. E aprendi a beleza da simplicidade e da autenticidade. E assim, a partir das não-lições, minha mãe me guiou por uma vida que a ela dedico. Porque, à medida que me aproximo do melhor de mim, mais retorno a ela, minha mãe. E sinto que sigo pela vida, pelos lugares, pelos encontros, procurando eternamente essa sensação de aconchego, um porto seguro, um colo de mãe.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hora do rush


Ultimamente tenho me sentido velha, severa, impaciente. Indignada demais com as incivilidades cotidianas. Irritadiça com a pessoa que joga lixo na rua, com o colega que suja a classe e não limpa, com o homem que se senta no assento preferencial do metrô e não se levanta quando entra um idoso, com quem se senta em um assento não preferencial e finge que não é com ele.


Mas às vezes me pego pensando se eu tenho o direito de exigir de todos essa polidez burguesa. Se eu posso esperar da caixa do supermercado que ela dê um bom dia sorridente após pegar dois ônibus lotados e passar o dia trabalhando duro. Se eu posso esperar que o jovem exaurido de seu longo dia ceda seu lugar a um idoso.


A verdade é que eu, também, tenho esse lado demasiado humano. Profundamente cansado, esse lado que nega amparo. Esse meu pedaço egoísta e avaro. Eu, também, saio de meu mundo de delicadezas burguesas, para caçar na selva.


Hoje voltei com um amigo no metrô, na hora do rush, sentido zona norte. Propus a ele que seguíssemos até a primeira estação da zona sul, para, sentados, voltarmos. Assim fizemos. Logo que nos sentamos, afirmei que hoje não cederia lugar para ninguém. Estava exausta. Em uma das estações, entrou uma mulher com um bebê de colo. Eu e meu amigo nos entreolhamos: era a primeira provação. Fiz como as tantas pessoas que desprezo: fingi que não era comigo. Uma moça ao nosso lado levantou-se, para que ela se sentasse. Respirei aliviada.


Em seguida, vi, entre a multidão espremida, um velhinho. Cabelo branco, rosto enrugado, costas curvadas. Ele estava em pé, quase do outro lado do vagão. Eu podia fingir que não o via, dentro daquele metrô lotado. Mas a verdade é que o via, tão bem que tinha de desviar o rosto, para não me deparar com a vergonha de minha própria imagem: esse bicho egoísta, que não cederia seu conforto para outrem. O trem deslizava por estações e estações. Eu espiava aquele senhor, que permanecia em pé, com suas costas curvadas e cansadas. Eu indagava se resistiria, se cumpriria meu pacto de ficar sentada, de não ceder, de não doar. Às vezes pensava em desistir, em chamá-lo, em limpar minha consciência, minha vergonha. Mas aí sentia o calor, o ar abafado, olhava para as tantas pessoas espremidas, encostando-se. Então olhava para baixo e continuava fingindo que não podia enxergá-lo, que não podia enxergar-me.


E eis que percebo: com minhas mãos limpas e pele descansada é fácil ser gentil e exigir a mesma delicadeza das pessoas que me cercam. E com meu banho tomado eu vocifero contra a selvageria do mundo, essa selvageria que está em mim e que se manifesta tão logo se apresentem as condições adequadas.
Hoje, no metrô, passei por mim rapidamente. E não me reconheci.

domingo, 18 de abril de 2010

Bolhinhas de abril


- Abril começou todo errado, com chuva, gripe, briguinhas e tudo o mais que podia acontecer. A frase "já pode ser maio?" virou bordão entre mim e meus amigos atingidos pela maldição do mês. A boa e inesperada surpresa é que a onda de má sorte se aplicava somente à primeira quinzena do mês. A partir do dia 16, começou a dar tudo certo e espero que continue assim pelo resto do ano.
- Houve uma época em que eu mantinha um caderninho ao lado da cama, para anotar os sonhos que tinha durante a noite. Depois perdi o hábito e hoje mal consigo me lembrar deles. Mas por conta da minha curiosidade em explorar meu inconsciente, pretendo recomeçar a registrá-los. Esta noite tive dois sonhos dos quais me lembro. No primeiro, uma mulher fazia acrobacias perseguida pelo seu cão, um poodle que mais parecia um sheepdog cor-de-rosa. Acordei dando risada. No segundo sonho, eu ia de barco às praias de Niterói, quando cheguei a um museu na Europa. Lá havia vários itens relacionados a "Alice no País das Maravilhas". Havia em uma mesa vários ratinhos de brinquedo, um deles começou a andar pelo salão. Subi as escadas do museu, que mais parecia um casarão abandonado, passando por um grande colchão mofado, e cheguei ao andar de cima. Lá estava meu professor em uma mesa e, em um canto, vários jornais de 1949, que falavam sobre Chaves e Chapolin Colorado. Entre os jornais, encontrei um exemplar do "Caiacanga", que desta vez era o jornal revolucionário que eu editava na época do colégio.
- Recentemente encontrei no Facebook um amigo da época em que fiz intercâmbio nos Estados Unidos. Fiquei tão contente em ver que ele se lembra de tantas coisas das quais eu havia esquecido. Ontem comentei com meus amigos que estava feliz porque reencontrei "um amiguinho" da época do intercâmbio, ao que o André me respondeu: "Você fez intercâmbio quando tinha cinco anos de idade?"

terça-feira, 13 de abril de 2010

Noite adentro


Eu sou uma pessoa de vida noturna movimentada. Não, não sou baladeira. Mas também não durmo com os anjos. Não que eu me lembre. O que eu queria era saber com quem eu durmo. Eu me sou um mistério, é verdade, e acho isso a injustiça das injustiças. Como assim, não tenho acesso ao meu inconsciente, se ele é meu?


Do que me lembro, sei quase nada. Do que me contam, ainda muito pouco. Sei que falo durante o sono. Às vezes, rio, choro, suspiro. Quase sempre me movimento bastante. Cruzo as pernas, coloco-as sobre a parede, dou voltas de 360 graus na cama.


Esta noite, a Melissa, que virou a madrugada estudando na sala, disse que me ouviu gargalhar a madrugada inteira. Presumo que minha noite tenha sido boa. Não me lembro. Constantemente me relatam frases que falo durante o sono, nonsenses, sempre. E eu tomo para mim as palavras de Alice: "Mas em que sentido? Em que sentido?"


Aquilo que a memória retém pode sempre ser organizado em um fio lógico. Mesmo que inventado. Sonhei que eu era a Rita Lee, disso eu me lembro. Que era seu (meu) primeiro dia de aula e veio um hippie deitar em meu colo. E eu, Rita Lee, o acolhi e andei com ele eternamente grudado em meu pescoço. Inventei um milhão de interpretações para meu sonho, todas plausíveis. Se verdadeiras ou não, quem é que vai dizer?


Mas e aquilo que está em nós, sai de nós, foi pensado por nós e não temos nenhuma lembrança? Aquilo que existe como se não existisse? Aquilo que só tem um indício de realidade se exteriorizamos e se há alguém por perto e acordado o suficiente para perceber? Do que é feito esse outro eu? Esse eu que me foge...


quarta-feira, 7 de abril de 2010

As luzes da cidade

Outro dia a Melissa levantou um questionamento: Por que esses edifícios de escritório ficam com várias luzes acesas durante a madrugada? Será que há tanta gente trabalhando nesse horário? A minha teoria é de que os recintos iluminados são as salas dos seguranças.

Depois de tentar dormir, levantei da cama por causa de uma super gripe que me pegou e vim pra sala tomar remédio e um chá. Então a Melissa me indicou o prédio da Petrobrás, que podemos ver da nossa varanda, perguntando: "Você acha mesmo que todas aquelas salas com luzes acesas estão ocupadas por seguranças?" Olhei para o prédio. Respondi que sim, mas que não há um segurança por cada janela, mas que às vezes eles acendem todas as luzes do andar para poderem circular. A Leilane achou minha resposta absurda, pois ela acha mais plausível que advogados fiquem trabalhando até tarde. Não duvido que advogados trabalhem durante a noite, mas penso que eles levam o serviço para casa.

Alguém tem uma resposta melhor?

Pedido a São Pedro

São Pedro,

Há muito tempo você me contraria. Quando planejo praia, você manda chuva. Quando tenho compromisso, você manda sol. Você tem enganado o climatempo, de forma que, sempre que faço planejamentos tendo em vista a previsão, tenho uma má surpresa. Apesar disso tudo, acredito que você seja uma alma bondosa, embora talvez excessivamente brincalhona. Acreditando na sua bondade, venho encarecidamente fazer meu pedido:

Que os dias sejam amenos, com céu azul e aquele amarelinho de tempo ensolarado. Mas que os raios de sol estejam lá apenas para dar pinta, não para esquentar. Que haja uma brisa refrescante, não fria. E que nossa sensação seja de alternância entre morninho e frescor. Céu limpo, com apenas algumas nuvens, não de chuva, mas daquelas redondinhas e fofas, como de desenho de criança.

Mas caso queira mandar chuva, que ela seja forte e acompanhada de muito frio. E que seja num feriado. Mas me mande também para um chalé bem aconchegante, com namorado ou bons amigos. Que haja uma lareira, um violão e jogos de tabuleiro. Não se esqueça do chocolate quente, chazinho, sopas, casadinho, pães e bolos. E que venha a chuva.

E caso queira mandar um solzaço, desses de queimar a pele, me mande para uma praia bem distante, com direito a acompanhantes. Que o mar seja de águas calmas, em um azul transparente sem fim. Que haja uma cabana pequenina quase caindo na areia. Que tenha uma varanda com uma rede, que tenha vários coqueiros. Que haja sempre à mão sucos de frutas, água de coco, frutos do mar. E que venha o sol.

Agradeço desde já.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Certos dias de chuva...

Ontem, após uma sucessão de pequenos desastres, decidi que era um dia para me trancar em casa e não sair mais. Como não resolvesse e as tragédias mundanas continuassem a me perseguir, me fechei no quarto. Talvez fossem elas apenas um aviso da chuva que estava para chegar. Cidade alagada, Rio transbordante.

Hoje amanheci com uma chuvinha fina e todos em casa, inclusive uma amiga ilhada que se refugiou aqui. A segurança pública recomendava que não saíssemos de casa, contou alguém que assistira ao noticiário. Há muito desisti das notícias tristes do mundo.

Como ainda não sei com que sorte acordei e tampouco se o carma de ontem continua a me perseguir, resolvi passar o dia acampada na cama, por precaução. Um copo de Mate e uma dose de Rubem Braga trarão um pouco de delicadeza para meus ásperos dias de chuva.

sábado, 3 de abril de 2010

"Tudo numa coisa só"

Todos nós temos que viver cada situação por todos os ângulos possíveis: é o que estive pensando nos últimos dias. Talvez só assim aprendamos a nos respeitar mais.

- Todo mundo tem que ser pedestre, pegar ônibus, metrô, trem, avião, ser piloto, caminhoneiro, motorista de ônibus, de carro, andar de bicicleta, de moto, de patins.

Ontem fui andar de bicicleta e pensei seriamente sobre o assunto. Apesar de o passeio ser delicioso, percebi que me estressei muito com o trânsito na ciclovia. Muitas pessoas simplesmente ignoram o fluxo de bicicletas e caminham na pista como se estivessem desfilando, ou sentam na calçada e esticam as pernas no caminho, ou atravessam a ciclovia sem ao menos olhar para os lados, forçando-nos a frear repentinamente. Eu também confesso que nunca fui uma pedestre muito atenta para as bicicletas, até começar a pedalar e ver a coisa pelo outro ângulo. Também não era muito atenta aos carros, até começar a dirigir. E quem não pega transporte público não tem ideia da desumanidade que é entrar em um vagão sendo empurrado e espremido. Quem não é pedestre não sabe a humilhação de ser molhado por um carro apressado que passa em poça em dia de chuva. E fico imaginando as experiências pelas quais nunca passei. Nunca dirigi um ônibus, mas observo a vida dura dos motoristas que, além de lidar com o trânsito, ouvem diariamente impropérios dos passageiros.

- Todo mundo tem que ser aluno, professor, diretor de escola, coordenador, faxineiro e bedel.

Quando eu era apenas uma aluna, dei muito trabalho para os professores. Quando fui professora paguei pelos meus pecados, mas, ao mesmo tempo, procurava preparar aulas muito mais interessantes, ao me lembrar do que me atraía para o aprendizado nos meus tempos de estudante. Ao mesmo tempo, passei a ser muito mais compreensiva como aluna, pois sabia que o professor é só mais uma pessoa como nós, que está em uma posição como um alvo fácil. Não passei pelas outras funções, apenas tento imaginar...

- Todo mundo tem que ser protagonista e figurante.

A gente tem que ser protagonista para saber o gosto do poder e da responsabilidade. A gente tem que ser protagonista pra reconhecer o valor da privacidade. A gente tem que ser protagonista seja em um filme, peça, ou na vida de alguém. E a gente tem que ser figurante para aprender a enxergar aquela pessoa que a gente nunca enxerga. O figurante é aquele que chega antes de todos, vai embora depois, trabalha o dia inteiro e recebe mal. O figurante às vezes come separado do resto da equipe, com uma comida bem piorzinha. Hoje fui gravar um comercial, cheguei às nove da manhã e fiquei na sombra esperando minha cena. Comecei a olhar os figurantes gravando, debaixo do sol, correndo de lá pra cá. Eles haviam chegado às cinco da manhã, tinham que comer depois de todo mundo, só podiam se trocar depois que todos desocupassem a van do figurino. Acho desumano. Todo mundo tem que ser figurante, seja em que situação for, para aprender a enxergar essas pessoas, os invisíveis.

A gente tem que ser todos. A gente tem que ser tudo. Ou isso. Ou apenas a empatia salva o mundo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Por inteiro


Eu não quero nada pela metade.
Eu não quero receber presentes sem cartão,carta, palavra ou sinal de que foi algo pensado, elaborado e dado com coração. Eu não quero o embrulho da loja. Não quero aproximações se não houver interesse genuíno. Não quero amizades pequenas. Não quero e-mails que não sejam direcionados exclusivamente para mim. Não quero mensagens genéricas de aniversário por Orkut. Não quero me casar se não for para sempre. Não quero meias-palavras, não quero meias verdades. Não quero ler o livro até a metade. Não quero conversas fáticas. Não quero fazer o social. Não
quero abraços sem ternura. Não quero chuva sem frescor.
Eu até como maxi goiabinha no avião. Eu até acho graça na falta de comunicação. Eu até me distraio com simulacros de amores. Eu posso ser cordial com aproximações de interesse duvidoso. Eu digo que adorei as flores. Eu sou condescendente com as mensagens secas de acordo com o protocolo. Eu faço vista-grossa para um punhado de coisas. Eu me esforço pra prestar atenção na conversa desinteressante. Eu finjo que acredito. Quando o mar está agitado, eu tomo banho de chuveiro.
Eu até margeio o que me é dado pela metade. Mas só mergulho no que me é dado por inteiro.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tudo e nada


Sei que tenho andado em dívida com este blog ultimamente. É que tenho passado por ele como pela vinte e cinco de março. Sabe quando você está em um loja e encontra apenas uma coisa de que gosta? Assim é fácil ter certeza do que levar. Mas quando entramos em um lugar com várias e várias coisas de que gostamos, acabamos não comprando nada. Assim tem sido minha mente. Não falta de assunto, mas excesso. Pensando e repensando meu mundo, encontrando, desencontrando e reencontrando pessoas, bolhas, lugares. Eternamente fugindo e voltando. É o meu caminho, suponho...

sábado, 6 de março de 2010

Discurso de Formatura


Nesses dias tenho conversado muito com meus amigos de faculdade sobre o que a graduação significou para nós. Depois de quatro anos passados, vemos com certa distância o que éramos naquele tempo e o que nos tornamos depois. Ontem foi a colação de grau da minha irmã e, enquanto o orador da turma proferia seu discurso, fiquei pensando no que eu vivi durante meu curso e resolvi escrever aqui não meu discurso, já que anos depois posso dispensar as formalidades inerentes ao ritual, mas meu depoimento de formatura:

Em 2001 ingressei na Faculdade de Comunicação da UFG. Era uma garota que adorava escrever e que queria mudar o mundo e, por isso, escolhi a profissão: jornalista. Não se passou um mês para que eu percebesse que escolhera o curso errado. Mas o que demorei a perceber era que o curso errado era tão certo em minha vida.

No início os novos colegas pareceram estranhos e ameaçadores a mim, que estudara a vida inteira em colégios burgueses e era acostumada a pessoas uniformes, uniformizadas. Com o tempo aquela mistura de pessoas diferentes, vindas de diversos lugares e classes sociais, começou a tomar forma e alguns rostos passaram a se destacar. Os rostos amigos: aqueles que partilhavam das afinidades. O jornal literário, os saraus, as coreografias, o grupo de Antropologia, as discussões filosóficas.

Houve as disciplinas essenciais, as inesquecíveis. As aulas da Selma, que nos dava as primeiras noções de cultura e relativização. A leitura sistemática de textos filosóficos com o Jordino, em longas aulas sobre o ser do ente. As inter-relações entre Nietzsche e Dostoievski que geravam interessantes discussões nas aulas da Cláudia. Os trabalhos do Signates, que me forçavam a pensar a institucionalização sistêmica dos meios de comunicação. Houve a disciplina da mulherzinha, que aproveitei por teimosia, já que fazia questão de estudar e tirar boa nota como resposta a sua mediocridade. Houve as inúmeras disciplinas que cursei como núcleo livre na faculdade de Filosofia: Lógica, Filosofia da Mente, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Linguagem,... Houve as aulas de fotografia e produção audiovisual, em que passei tardes entretida ampliando fotografias ou noites gravando curta-metragens. E houve também as disciplinas que cursei porque eram obrigatórias, mas pelas quais não tinha o mínimo interesse, já que não pretendia ser jornalista.

Vendo, hoje, à distância, percebo que tanto aprendi quando pensava estar perdendo tempo. Enquanto matava aula para comer coxinhas na Faculdade de Artes, enquanto brigava com a professora que nos acusou de cola injustamente, enquanto trocava bilhetinhos nas aulas. Aprendi sobre a vida e as pessoas, com uma dimensão impossível de ser apreendida em salas de aula.

Saí da faculdade em 2006 com um diploma em uma mão e tesouros muito mais preciosos na outra: amizades verdadeiras, idéias expandidas, experiências impagáveis. E hoje, passados quatro anos, afirmo com certeza: se eu fosse escolher um período da vida para o tempo se congelar, eu me eternizaria naquela garota de saia longa, passeando pelos corredores da faculdade, comendo coxinhas e suco de cupuaçu, ao lado das melhores companhias do mundo. Ser feliz com o máximo de intensidade: eis outra lição que aprendi na faculdade.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Jardim Japonês

Eu passo por Goiânia, cidade passada e presente. Eu passeio pelas ruas, dirijo na estrada, cantando com o rádio. Eu gosto de dirigir no fim de tarde, quando o céu é tão lindo. Eu já havia reparado, quando morava aqui, que o céu de Goiânia é assim tão limpo e claro? Eu fico com a cabeça e os olhos nas nuvens. Quando entro no condomínio aproveito o silêncio para escancarar as janelas do carro e deixar o vento entrar.

Eu encontro meus amigos, meus amigos do peito, para falar sobre a vida. Eu reencontro tanta gente que há tempos não via. A gente faz sarau, churrasco, almoço, clube da luluzinha. A gente canta e faz coreografia. Eu coloco meu futuro em pauta e deixo todo mundo dar palpite. Às vezes eu me canso de ouvir conselhos e declaro encerrado o assunto.

Eu como pamonha, cachapa, arroz com pequi, rodízio de crepe. Eu como o arroz branco da minha casa, que é único porque tem gosto de arroz de casa e eu tanto sinto falta quando não estou aqui. Eu tomo sorvete todos os dias com bananas e cereais e às vezes jogo um pouquinho de batida por cima e a mistura fica até bem gostosa.

Eu monto um quebra-cabeças defeituoso que estava guardado há vários e vários anos, porque eu não tinha paciência de ficar juntando tantas peças quebradinhas que não se encaixavam com perfeição. Eu fico espantada ao terminar de montar e constatar que não há nenhuma peça faltando. Eu começo a fazer metáforas com a minha vida, eu relembro uma música de que gostava do Pato Fu e penso que o quebra-cabeças, a música e meus sentimentos são peças que se encaixam.

Eu pinto retalhos da saia no quadro que deixei inacabado, em que me retrato sozinha no universo, mas levando na saia pedaços de tudo que me é significante. Eu pinto elefante, pinguins, coruja, envelopes, avião, a Muralha da China, tênis vermelhos, macieira, jasmim-manga, cachoeira. Mas o retalho mais doce talvez seja o das cravíneas que plantei um dia.

Eu brinco com onças crianças e elas pulam em cima de mim feito malucas e querem arrancar o meu cabelo. Eu carrego quatis e tamanduás, eu tiro fotos de todos os bichos, menos das aves, porque meu negócio é com os mamíferos. Eu saio toda suja e arranhada, bem que a Marina avisou para não ir de shorts e para usar roupas resistentes e que cubram meu corpo. Eu volto pra casa com a blusa rasgada e com terra até dentro da orelha.

E eu passeio por Goiânia e vou passando por tudo isso, mas às vezes acho que fiquei presa entre pedras e pontes e fontes, onde um dia se abriu uma brecha no tempo e no espaço, para se criar a materialização do que é a eternidade: aquele Jardim Japonês.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um acidente lamentável


Foi no sábado de Carnaval que o inefável aconteceu. Brincávamos felizes em um bloco e não me ocorreu que ele fosse por demais frágil, ou que ele estivesse tão desprotegido. Repetíamos o bordão "PQP! É a gordinha mais gostosa do Brasil!", enquanto ela, a gordinha, apontava a mangueira para a multidão, molhando-nos e refrescando a tarde de verão carioca.


Apenas mais tarde, quando já havíamos saído do meio da multidão e fomos lanchar em um shopping próximo, que percebi que ele estava estranho. Ele não se comunicava mais comigo. Tentei secá-lo delicadamente, mas ele não dava sinal de vida. Morreu afogado - pensei. A volta para casa foi solene, fiquei tentando imaginar como seguiria sem ele.


Assim que cheguei em casa, deitei-o na varanda. Tinha esperança de que um pouco de sol talvez o salvasse, embora fosse noite, vá entender. Não é que na manhã seguinte ele deu um sinal de vida? Eu já ouvira falar de casos assim, aqueles que acordam do coma, depois de um afogamento. Pensei que, a partir daí, ele teria recuperação normal e eu voltaria a levá-lo em meus passeios. Ledo engano.


Hoje ele está vivo, ao menos. Mas é uma sobrevida dessas que nos faz questionar se vale a pena. Preso a cabos, constantemente internado. E nem assim ele funciona em sua plenitude. Fiz o teste hoje: se alguém liga, ele toca, toca, até desligar sozinho. E não registra quem ligou. Se efetuo uma ligação com ele, mesmo na tomada ele funciona por um instante e em seguida apaga. Talvez um transplante de bateria resolva. Talvez não.


Moral da história: Por enquanto estou meio indisponível pelo número da Tim, mas há outras maneiras de se comunicar comigo: 1) Pelo velho e bom telefone fixo (o de Goiânia, no caso, durante o mês de fevereiro); 2) Pelo já conhecido número da Claro, que é o que a maioria das pessoas já conhece; 3) Mandando um torpedo para meu Tim (para os que querem aproveitar as vantagens do Infinity Pré), eu troco os chips de aparelho e retorno por 25 centavos para falar o tempo que quiser!