quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Réquiem ao mundo que acaba. Oração ao mundo que vem.

Réquiem ao mundo que acaba


Eu agradeço o encontro, em primeiro lugar. Cada instante em que consegui intimamente te encontrar. Quando fui Terra. Quando fui atravessada por raízes inúmeras, imensas. Quando fui abrigo, sustento, pilar. Quando fui Fogo. Pela intensidade das paixões. Pelo calor com que consumi a mim e aos outros. Quando fui radiante ou febril. Quando fui solar. Quando fui Água e aceitei o fluxo das coisas passageiras. Quando fui cristalina. Pura. Transparente. Por estar em movimento constante. Pelos escafandristas que me atingiram as profundezas. Quando fui Ar. Quando fui leve. Quando fui imensa e permiti voos de liberdade. Por todas as vezes em que pude ser sem pesar. Pelos que fiz flutuar.

Eu agradeço o encontro, sempre. Eu agradeço pelos sorrisos trocados, pelas risadas compartilhadas, pelos olhares de reciprocidade. Eu agradeço as mãos dadas, os caminhos cruzados. Os irmãos de vida, os de todas as vidas. A irmã de vazio, a de pedra, a preta. Os irmãos de passos, de palavras, de poemas. Os que atravessaram comigo. Os que me atravessaram. Eu agradeço tanto, tanto. E agradeço sempre. As almas tocadas. Os corpos. As vidas.

Eu agradeço pelas viagens. Pelos lugares que tive oportunidade de conhecer. As montanhas nevadas. Os mares de peixes, tubarões, leões marinhos. Eu agradeço os desertos e as multidões. O deslumbre, o estranhamento. Eu agradeço sobretudo as viagens outras. Essas que não pedem deslocamento, mas pelas quais todas as pedras se movem. Eu agradeço diariamente pelo poder da transformação.

Eu agradeço, por fim, os caminhos não escolhidos. Pela beleza das possibilidades.

Assim me despeço desse mundo que acaba. Esperando enterrá-lo em um solo fértil de amor, para que um novo mundo floresça.

Oração ao mundo que vem



Que a partir de agora não se possa falar em mim e falar em mundo. Que as palavras não separem o que foi feito um. Nós. Que sejamos juntos e o saibamos sempre. Nós, novo mundo que vem. Nós. Laços. Menos algemas. Mais abraços. Que a lógica do dinheiro não defina nossos passos. Que o trabalho seja digno e não se sobreponha ao tempo da vadiação. Menos máquina. Mais coração. Nós. Iguais. O mesmo. Homem, outro homem, bicho, planta, pedra. Um só. Que seja. Já é. Mas que saiba. Que sinta. Que tempo não seja dinheiro. Que seja fruição. Que as religiões não sejam regras, normas, berços de intolerância. Que sejam comunhão. Ou nem isso. Que sejamos nosso tempo, nosso templo, nossa religião. Sem interferência de instituição. Que sejamos feitos da matéria do Amor. Não é essa a matéria de Deus? Que sejamos, pois, mais deuses e menos divas. Que sejamos plenos ao comportar vazios. Que possamos entender que uma atitude elevada não é se higienizar de mundo, mas aceitar a lama, mas mergulhar mais fundo.

Que seja mesmo novo. Que venha o novo mundo.

Amém.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mergulhar

Ilustração de Daniel Gnattali

Quando anunciei que ia fazer o curso de mergulho, ele me aconselhou, já sabendo que não gosto de conselhos:

- Lian, não quero ser chato, mas... tente não nadar pra longe do grupo, como você sempre faz.

- Não, não é chato. É só um conselho inútil. Porque, se eu achar necessário, eu vou acompanhar o grupo. Mas, se eu tiver vontade, eu vou nadar sozinha.

Ele riu como se suspirasse. Ou suspirou como se sorrisse, não me lembro.

E lá fui eu, quase sem dormir, pegar um ônibus às cinco da manhã para Arraial do Cabo. As aulas teóricas começariam já às nove. A escola oferecia alojamento e toda a estrutura. Cheguei zonza de sono.Muita teoria. Depois aula de piscina. Os exercícios. Tirar a máscara. Tirar o regulador. Controle de flutuabilidade. Resgate. Depois da piscina, almoço. Depois sala de aula novamente. A essa altura, eu já não existia como pessoa. Cansaço. Muito. Um casal mineiro que não parava de interromper a aula. Eu dormia. Acordava. Tentava raciocinar. As tabelas. Prova teórica. Novamente as tabelas. E de repente uma chuva forte. Cama.

Acordei na manhã seguinte ainda lenta. Um barco e o mar. Mais dois dias assim. O mar. Nada mais, entre dormir e acordar. Eu torcendo para acabarem as tarefas, para poder mergulhar livremente. Um dia, enquanto esperávamos para fazer os exercícios de superfície, resolvi dar uma volta. O mergulho. Eu sempre me perco nos mergulhos. Eu sempre me encontro em outras formas. Essa coisa de entrar na floresta e pensar que sou bicho. Entrar no mar e pensar que sou peixe. Seguir os cardumes. Grandes peixes azuis. Pequenos peixes transparentes. De repente um puxão pelas costas. Alguém me leva para a superfície: "Mergulhando sozinha!"- recebo bronca, ainda que simpática.

O fascínio. "Eu vi um peixe que parece uma borboleta! Gorduchinho no fundo, como um avião. Então ele abre as nadadeiras como leques. E elas brilham nas pontas!" É um coió, me explicam. "Tem um outro que parece uma graviola! Um peixe redondo e inflado, com pontinhas que parecem espinhos!" Ah, um baiacu.

Porcaria de nomes que estragam a poesia.

Eu só quero o mar com seus mistérios.

"Deslocada", é o apelido que recebo de um dos instrutores. Porque, no barco, estou sempre longe dos grupos tagarelas, à procura do infinito. Porque no mar quero seguir sozinha. Mas sozinha não, engana-se ele. Quero seguir com os peixes e os seres. E, quando chega o mais esperado momento, o do mergulho livre, me apontam uma garota. O sistema de duplas. Eu saio na frente e novamente me puxam. Tenho que permanecer com minha dupla, com meu grupo.

Mas vejo uma tartaruga e não posso fazer outra coisa, senão nadar atrás em disparada. O instrutor me persegue, segura minha nadadeira, faz sinal para eu voltar. Mais tarde ele dirá: "Nunca faça isso, de seguir a tartaruga. Ela estava indo muito pro fundo. Logo você poderia ter uma narcose por nitrogênio e nem saberia, continuaria perseguindo a tartaruga." E depois completa: "Puxa, você me cansou!" É que por um momento eu penso ser meu este mundo que não é. Água, na ilusão de iludir, revela tão bem. Essa verdade de que estamos todos juntos. Os continentes unidos por ela.

E por um momento eu me vejo peixe-concha-tartaruga-coral. Tudo isso e tudo junto. Parece outro planeta, o mar. Mas é apenas ele, o mesmo mundo. Um espelho. Só que mais fundo.

"Então, Deslocada, como foi?" - ele pergunta. Eu sorrio, apenas. Deslocada. Talvez seja. Peixe fora d'água. Peixe no barco. Mas por que barco, se existe o mergulho? E por que prédios e carros e regras e ruas... se existe o mar? Por que nomes, se os seres são redondos, brilhantes, borboletas e graviolas?

E vejo meus pensamentos se perderem, boiarem. Toda a lógica transfigurada em peixes coloridos.

Tudo perde o sentido, perante a vastidão do mar.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

17 de dezembro


Chovia. Talvez todos os outros desistissem, mas eu lhe pedi que subisse comigo assim mesmo. Mesmo que. "Firmes e fortes", ele respondeu. E me ajudou a escalar quando perdi as forças. Carregou minha mochila quando perdi o equilíbrio. Lavou minhas mãos quando eu perdia sangue. E desde então ele escala comigo. Amigo. Inteiro. Eu invento o rumo e me atiro. Ele me acompanha e cuida para que eu não caia no abismo. Aquele. É ele quem me segura no mundo dos homens. Quem me puxa pelo pé quando nado pro lado oposto. Quem me espera ou me alcança quando saio andando no mato, longe de todos. Criamos um grupo de poesia, chamado "Clubinho Lindo". Como somos os únicos membros, ele é o Rei Lindo e eu sou a Rainha Linda. Escrevemos versos. Eu lhe ensino mandarim e me surpreendo com sua facilidade em aprender. Depois interrompo as aulas por falta de tempo. Invento viagens. Fotografo suas árvores, reclamo de seu enquadramento, faço listas enormes. Viajamos por aí com gorro de passarinho e talvez seja isso mesmo. Voar. Ele voa. Eu prefiro os mergulhos. Eu me despedaço. Ele me refaz em aquarela. Fada. Ser da floresta. Circulíris no céu. Ele conta suas histórias e expõe todo seu processo de pensamento. Transparente. Por isso mesmo, muita luz. Atravessado de amor por todos os lados. Ele que, sem olhar pros lados, atravessa a minha vida. Hoje é dele o dia. Que seja doce a travessia.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta que eu queria ter mandado por pombo-correio à amiga que não tinha nada a ver com isso tudo...






Ontem, procurando presente para uma amiga que vai fazer aniversário, encontrei um livro de cartas trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino. Lembrei tanto de você. Tanto porque tive a impressão de que seriam cartas que nós duas trocaríamos, fôssemos outros. Como esqueci de pedir pro moço da Travessa embrulhar, vim lendo-o no metrô, que peguei na Estação General Osório. Aí o Catete passou e eu deixei o trem ir e voltar, enquanto lia selvagemente as cartas alheias que poderiam não ser.

Mentira. Desci no Catete mesmo, apesar da vontade de continuar lendo no metrô. Mas é desse ponto que nasceu esta carta, que te escrevo agora. Das minhas não-biografias, que, em paralelo, dizem muito mais de mim. Então eu te conto das verdades que não aconteceram, como o dia em que, descendo do metrô, vi dois rapazes passarem com uniformes de futebol, com seus nomes escritos atrás da camisa. Como não lembro os nomes, digamos que um era Ricardo e o outro, Daniel. Chamei um deles pelo nome: "Ricardo! Quanto tempo!" Ele ficou me olhando estarrecido, não fazia ideia de quem eu era. "Você continua lá?" E, quando ele, confuso, perguntou de onde me conhecia, eu disse que era "do curso, ora!" Depois fui embora com ares de intimidade e sumi pra sempre. E ele pra sempre se perguntou quem eu seria, mas mesmo eu quase nunca sei responder.

Em uma das cartas, Clarice lamentava uma crítica de Álvaro Lins a seus livros, dizendo-os mutilados e incompletos. Com desânimo, ela lhe dava razão, concluindo que não se podia fazer arte "só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho". E senti que ela me acertou em cheio, apesar de eu não ser bem infeliz. Pensando melhor, talvez exatamente o contrário, pois diariamente a felicidade em mim mal cabe. Mas melancólica sim, quase sempre, também. Aliás, é meu lado melancólico que escreve, pois o feliz só sente, ama e caminha.

Engraçado como, em tempos de internet, melancolia seja quase uma contravenção. Outro dia chovia. Chovia muito e eu tinha dormido pouco. Escrevi um texto melancólico no blog. Aliás, uma carta também. Uma carta direcionada a ninguém em especial e talvez a alguém. Um Ricardo ou Daniel dos caminhos paralelos. Sempre acho que os homens podem ser divididos entre esses dois nomes. Tenho um amigo, chamado Tiago, foi assim que o conheci:

- Seu nome é Daniel de quê?
- Tiago.
- Daniel Tiago?
- Não. Meu nome é Tiago.

Mas, voltando, escrevi então uma carta melancólica. Logo que a postei, minha mãe telefonou desesperada. Queria saber se estava tudo bem. "É só a chuva, mãe!", eu expliquei. É que eu falara em morte. Mas é que eu sempre penso na morte como medida da vida, especialmente quando viajo. O ir embora. Também por isso viajo tanto, como um modo de morrer. Daí vem a vida, maior.

É que sobre alguns assuntos não se fala, estou aprendendo.

Mas Clarice me atingiu em cheio. Será que é possível fazer arte só por ter um temperamento feliz, melancólico e doidinho? Pior. Será que é possível ter a vida que tenho? Ser eu? Eu sinto que sempre me equilibro entre dois lados, mas vai aparecer um terceiro e me desmontar inteira. Uma perdição. Uma salvação. A mesma coisa. Tenho pressentimentos e também alguns planos secretos. Te conto sobre eles pessoalmente.

Vou a Goiânia daqui a alguns dias. Vou a Goiânia e quero te ver. Quanta saudade. Eu sempre te escrevo cartas mentalmente, pois sinto que você vai entender sem susto minha divagações felizes, melancólicas e doidinhas. E as cartas, as concretas, devo tantas a tanta gente. Cansei de escrevê-las quando elas tornaram-se relatórios. Eu não quero falar sobre os fatos, eles estão espalhados por aí. Eu quero falar é da terceira via, esta que vem e que vai destruir tudo que eu conheço.

Estamos a alguns dias do fim do mundo. Eu vou a Goiânia te visitar. E, depois que o mundo acabar, vou pro Pantanal. Vou visitar os índios Terena e depois eu quero virar bicho. A terceira via, talvez.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Um grito


Se eu disser que éramos grandes amigos, estarei mentindo. Em realidade, nem chegamos a ser amigos. Éramos colegas, conhecidos. Ele passava no corredor da faculdade e era boa sua presença. Boa porque presente. Não como aquelas presenças que quase se ausentam. Ele não. Ele estava lá e era. E é sempre bom quando alguém é.

Eu cursava Jornalismo. Ele, Radialismo e Televisão. Seu nome era Lucas. Era moreno e alto. E, talvez pelo constante brilho nos olhos, seu rosto tinha um ar infantil. Naquele início de faculdade em que grande parte das pessoas ainda estava se definindo, ele era homossexual assumidíssimo.Militante. Fundou um grupo, dirigiu ONGs, organizou paradas do orgulho LGBT.

O contato mais forte que tive com Lucas foi em um congresso de Comunicação Social, que aconteceu em Maceió. Depois de dois dias apertados em um micro-ônibus da faculdade, todo mundo acampado em uma quadra. Lembro dele vestindo uma longa saia branca. Linda saia. Lindo ele. Animada, resolvi criar uma nova moda. Abri minha mala e saí distribuindo minhas saias para os rapazes. E saíamos em bando, homens e mulheres, gays ou não, todos de saia pelas ruas. As pessoas da cidade faziam piada. Diziam provocações. Não ligávamos. Éramos esvoaçantes e livres.

Naquele congresso, os estudantes criaram e votaram algumas categorias, fizeram medalhas de papelão. Eu ganhei uma medalha de "mais bicho-grilo". Lucas ganhou uma medalha de "mais gay". Ambos em saias. A dele, longa e branca. Eu tenho essa imagem dele: um anjo alegre de olhar infantil.

Não mantivemos contato. Não éramos amigos, embora irmãos.

Na madrugada de ontem, antes de pegar o avião de volta ao Rio, tive notícias suas: "Jornalista goiano é encontrado morto em praia de Pernambuco". Um soco no estômago. Eu novamente vomitando todas as esperanças que me forçava a engolir. Porque preciso de força. Porque preciso me alimentar, por isso me obrigava a engolir tantas esperanças, a crer em alguma parcela de amor. "Mas você ainda crê em alguma coisa?" - perguntou uma grande amiga há algum tempo, também desiludida com o futuro do mundo. "Pelo menos no amor, no amor em pequena escala, eu tenho que acreditar, senão..." Senão o que. Eu me pergunto agora.

É que às vezes não parece fazer sentido mesmo.

Os detalhes do crime, eu li. Encontrado de cueca na praia. Ele que era moreno e alegre. Assim, ensanguentado. Olhos brilhantes infantis. Sinais de espancamento, foi isso. Ele que era vivo, presente. O corpo jogado. Ele não se calava. Crime de cunho homofóbico. Um soco. Um soco. Um soco.

Pode?

Eu tento acreditar todos os dias na possibilidade do amor maior, esse amor que é olhar mundo e se ver inteiro. Quando não dá, eu tento me agarrar ao amor pequeno, pelo menos neste. O olhar o outro e ser junto. Algum amor tem que ter. Mas e se não? E se nem isso?

Às vezes não. Mas hoje tenho nojo do mundo e sinto vergonha de ser gente, se gente é essa coisa que não se enxerga em amor. Hoje eu tenho nojo de fazer parte desse mundo de intolerância. Nojo de tudo que se diz maior que a vida.

Lucas era vida.

Que hoje ele seja grito.




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carta para alguém



"Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria..." (Rubem Braga)

... Então eu quis te escrever. Eu quis te escrever porque é o terceiro dia em que chove, e eu não tenho vontade de fazer outra coisa senão de chover palavras... porque esse tempo branco e frio me deixa melancólica... talvez angustiada, falei outro dia e alguém me disse que tínhamos que descobrir o motivo, eu falei que angústia é a própria angústia e que não há além. Só a chuva, talvez. A chuva traz à tona o vazio, que dialoga comigo diariamente. Eu quis chorar palavras, mas  se você estivesse ao meu lado talvez eu vomitasse silêncio. Talvez eu até colocasse esta carta em um envelope, como faço sempre para meus amigos que têm nome e endereço. Mas desta vez resolvi escrever esta carta para alguém, e alguém é tão amplo. 


Segunda-feira fez sol, veja só. Eu mergulhei no mar e voltei preta, ardendo. Terça amanheceu chovendo, eu amanheci muito cedo, fazendo cinema. É sempre bom fazer cinema, e eu tenho uma história bonita com este filme, cheia de sincronicidades. À tarde o frio doeu em mim tão fundo, eu tendo que fazer mala para viajar e carregando essa melancolia que não me soltava. E terminei o dia gravando para publicidade, entre pessoas boas e uma preocupação com o voo na manhã seguinte, que acabei perdendo. Devo ter assustado o taxista, com meu rosto de maquiagem borrada, fazendo-o voar pela Avenida Brasil. Depois andei por todas as companhias aéreas do aeroporto, procurando voo para o mesmo dia em vão. Voltei para casa, comecei a trocar mensagens com amigos e, quando me dei conta, já não fazia sentido o que eu escrevia. Apaguei em um profundo sono flutuante. Quando acordei, resolvi ir pra Barra cortar meu cabelo com Claudinho, um querido. "Fofo de tirar do lugar". Depois fui almoçar e, na saída do restaurante, meu telefone tocou. Paguei a conta falando e saí ao telefone. A alguns metros da saída, um senhorzinho me cutucou: "Com licença, essa salada é minha." E me dei conta de que carregava uma sacola do restaurante, tão distraída estava. Pedi desculpas e devolvi sua salada. 


Confesso que continuo como que adormecida, mas é um adormecimento que dói, machuca. Faz frio aqui. Fizesse sol, eu iria subir pedra e mergulhar no mar. Mundo muda tudo e cura sobretudo adormecimentos involuntários. Escaladas e mergulhos são escavações. É pegar a matéria de que somos feitos e misturar com terra. Sendo terra, fica tudo bem. Parece que durmo há três dias. Durmo e tenho sonhos desconexos e às vezes penso em você. Mas pensar em você é tão amplo... Como se pensa em alguém? Mas penso. E sonho. Acho que envelheci. O sol de segunda-feira envelheceu minha pele, vejo-a toda marcada. Mas sei que é chuva que envelhece o avesso da pele.


Perdi o voo e as expectativas que tinha para a viagem. Mas sou mestre de reconstrução e amanhã recomeço tudo de novo. Vou, inclusive, refazer a mala, que já não cabe nos planos iniciais. Todo mundo que me conhece sabe que adoro viajar. Talvez até você saiba, mesmo que eu não saiba ao certo quem você é. O que eu não costumo falar é que sempre penso na viagem como uma possibilidade de morte. Tem uma frase que diz que devemos sair como se fugíssemos de casa. Eu saio de casa como se morresse. Juro. Não é por causa da chuva, não. Nas minhas últimas férias, viajei acompanhada. Talvez por isso não pensasse na morte e não sentisse a passagem sólida do tempo. Estranho viajar sem morrer. Na maioria das vezes, eu encaro esse destino possível com tranquilidade. O que sou até agora basta, mesmo que eu busque o infinito. 


Agora a chuva deu uma trégua, embora o céu permaneça todo cinza. Vou aproveitar e sair para comer, de preferência algo quente. E, já que escrevi para alguém, e alguém é tão amplo, imagino que alguém seja leve, talvez as nuvens brancas que andam sobre os morros. E, já que esta carta não vai para os Correios, que suas palavras se dispersem, como se fossem, também, nuvens. E que amanhã venha o sol.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Jonas e a Baleia

Joninhas fotografado por Pietro Feliciano


Tudo que eu sabia, a vida veio imensa e engoliu. Hoje só sei que a vida engole. Qual baleia. Grande, ela, nesse mar. Tudo que eu sabia eu não sei mais.

Às vezes fico olhando pro Jonas, espantando-me com sua vidinha de gato. Jonas sendo engolido pela baleia. Ele também.

Eu o adotei em maio do ano passado, ele tinha então aproximadamente dois meses de idade. Fora resgatado, junto com seus irmãos, por uma menina, dessas que dá gosto saber que existe. Ela, que eu não conhecia, compartilhou foto dos gatinhos, que outra pessoa compartilhou e, na rede, chegou a mim. Pegamos o Jonas porque queríamos uma companhia para o Serafim, o gato cinza de olhos amarelos que tínhamos em casa, e que era sempre tão só.

Jonas chegou assustado, pequenino. Escondia-se sob a pia, o sofá, a máquina de lavar. Eu lhe dei colo e carinho, para que ele encontrasse aconchego. Nas primeiras noites, montei acampamento na sala, para dormir com ele e amenizar o desamparo da casa estranha.

Serafim não o recebeu bem. Rodeava-o hostilmente. Ameaçava atacá-lo. Quando dormíamos juntos, eu e Jonas, o outro se aproximava encolerizado, no meio da madrugada. Ficava ao redor, emitindo sons de raiva e angústia.

Na terceira noite, decidi que Joninhas tinha que se virar. Voltei a dormir no meu quarto.

Na manhã seguinte, um dos amigos que mora comigo apareceu com uma foto: Jonas e Serafim juntinhos, compartilhando cama. Tenho até hoje essa cena como fotografia mental. Mágica. Desde então, os dois tornaram-se amigos. Mais que isso. Irmãos. Serafim era líder. Jonas, como bom irmão caçula, seguia seus passos, seus pulos. Serafim tinha necessidade de independência, ficava na porta a miar, pedindo para sair. Jonas sentava-se a seu lado, lambia-o, como a lembrá-lo de sua presença. Os vizinhos não gostavam, mas às vezes tínhamos dó de Serafim e abríamos a porta. Jonas não saía, mas passava a noite na janela, a esperá-lo. Serafim passava a madrugada fora. Quando resolvia voltar, já quase de manhã, Jonas estava em alerta. Ia miar em frente ao meu quarto, para que eu abrisse a porta para o irmão.

Os dois andavam juntos pela casa. Era uma parceria bonita. Jonas sentia-se tão protegido por Serafim, que não queria saber de amor humano. Fugia de nossos abraços e mãos grudentas. Era muito amoroso, ele. Mas todo amor que ele tinha era direcionado a um só ser: o gato cinza de grandes olhos amarelos, seu guia e protetor.

Éramos, em casa, quatro pessoas livres e dois gatos presos. Um ao outro, inclusive. E, como éramos livres e cada qual tinha seu caminho, chegou a hora de discutir separações, bens e dessas coisas de divórcio, que nada têm a ver com amor. No meio disso tudo, surgiu a questão: quem ficaria com os gatos? Entramos numa quase unanimidade de que, não importava onde eles ficassem, não deveriam ser separados. Uma das pessoas não concordou. Foi ela quem, ao ir embora, levou consigo o Serafim.

Jonas sendo engolido pela baleia, e eu espantada, tão impotentes que somos perante a vida.

Ele que construiu sua vidinha de gato em torno desse irmão mais velho, companheiro de brincadeiras e explorações pela casa. Ele que se viu diante da ausência súbita. As despedidas felinas não são preenchidas de cartas, visitas, telefonemas para matar a saudade. Serafim tornou-se vazio, apenas.

Mas também não são assim as nossas despedidas humanas, aquelas reais?

Foi nesse período de um Jonas cabisbaixo e constantemente escondido que fui viajar. Passei quase quarenta dias fora e, quando voltei, tudo em casa parecia mudado. Quando abri a porta, apareceu Ringo, um cachorro simpático e orelhudo, latindo pra mim. Subi as escadas e me deparei com outro novo morador: Xavier, um gato que se pensa cachorro, com boca arfante constantemente aberta.

Vi Jonas hostilizar Ringo, por sua natureza canina, e tentar encontrar Serafim neste novo gato que chegava. Mas Xavier é Xavier. É sempre outro, mesmo que com doçura.

Às vezes Jonas aproxima-se de Xavier, procurando a mesma proteção. Este o morde, simplesmente porque neste momento não está a fim. Depois caminham juntos, depois se lambem. Penso que também é amor, porém outro. Ambos se unem contra Ringo, o cachorro. Inicialmente, sentiam-se ameaçados. Acredito que hoje sejam inimigos por esporte. Talvez também seja amor. Mas outro. Sempre outro.

Eu, que tanto fui Jonas, observo-o com espanto. É assim assustadora a inevitabilidade das mudanças e a inexorável falta de controle que temos perante essa baleia imensa.

De tudo que se tem, hoje só tenho esse pasmo.

Só sei que a vida engole...




quinta-feira, 18 de outubro de 2012

As pegadas e a náusea


Adoro encontrar pegadas de cachorro no cimento. Pegadas de gente não gosto, acho sacanagem. Mas gosto da imagem do cachorro passando desavisado, o cimento no meio de seu caminho. Talvez ele percebesse que de repente o chão se tornasse pegajoso. Talvez nem isso. Gosto da cena. Me faz lembrar que existem seres completamente alheios à lógica desse mundo que criamos. Que, de uma forma mínima que seja, é possível a subversão.

É bonito que sejam eles, nossos amigos fiéis, a trair o mundo dos homens. Com suas pegadas desajeitadas involuntariamente desafiando nossos ideais de dominação e controle. É preciso que sejam eles, esses seres quase perfeitamente domesticados, que aprenderam a depender de nós. E que tantas pessoas clamam: "Eu prefiro os cachorros, porque eles obedecem quando a gente chama". Eu, também, adoro cachorros. Mas os amo, sobretudo, quando se alheiam de nós. 

Às vezes repito na minha cabeça as cartilhas de escola: "A vaca é nossa amiga porque nos dá o leite. A galinha é nossa amiga porque nos dá os ovos. O burro é nosso amigo porque transporta nossa carga,..."  E eu sempre me pergunto: E nós, somos amigos de quem?

Então, caminhando pela calçada, me deparo com as pegadas, essas adoráveis pegadas caninas. É tão bobo isso. Pequeno demais pra gerar esperança. Mas estão lá, as pegadas, eu as vejo. Puras, como a flor desbotada e feia de Drummond. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Um telefonema não dado



Gosto de um texto do Rubem Alves, em que ele fala sobre as coisas que "não aconteceram, para que aconteçam sempre". Ele referia-se às histórias das lendas, mitologias e religiões. Mas me fez pensar sobre os fatos da minha vida. Eles, os não acontecidos, que se atualizam diariamente em mim. Tudo que não acontece tem vida própria, pois pertence a uma outra dimensão: esse espaço desmesurado das abstrações, que, por ser composto de vazios, comporta amplitudes homéricas do que não foi.

Ontem eu contava a um amigo sobre um desses fatos, um que aconteceu e desencadeou um não-acontecimento, que, ao longo da minha vida, aconteceu sempre em mim. Ou fez acontecer. Coisa assim. Já devem ter se passado dez anos, eu morava em Goiânia, caminhava por um shopping center da cidade. Foi quando o vi passar. Era um homem e era adulto. Não sei precisar a idade, mas "adulto" era a categoria genérica em que cabiam esses muitos e em que até hoje tenho dificuldade para caber.

Ele passou sozinho, de cadeira de rodas, e o que me chamou a atenção foi um papel colado na parte de trás de sua cadeira. No papel, sua data de aniversário e seu telefone, junto à mensagem: "ME LIGUE". Fiquei um tempo olhando, tentando entender. Ao se saber observado, ele virou-se para mim:

- Você está lendo meu cartaz?

- É... do que se trata?

- Todo ano eu passo meu aniversário sozinho. Ninguém me liga, e eu passo o dia chorando. Este ano resolvi tomar uma providência. Anotou o meu número?

- Ainda não... Peraí.

Anotei. E, sob seu pedido de que não o esquecesse, fui embora balançada e cambaleante, como se de súbito perdesse, eu também, a capacidade de andar sobre duas pernas.

Durante dias, segurei aquele papelzinho, onde fizera a anotação. Tirava-o e guardava-o na gaveta. Ficava horas absorta, amassando-o entre os dedos. Em minhas mãos, o mundo: todo o abismo, a solidão e também o poder da alegria. Que fosse breve, que fosse de um dia. Ilusória, alguém diria. Mas não. Pois a efemeridade é substância real, e o sorriso esperançoso de felicidades futuras já é felicidade presente, ainda que tímido. Durante todos aqueles dias eu sabia que tinha o poder do sorriso, mas também o pudor do medo.

Então chegou o dia do aniversário daquele homem. Ele que tivera a coragem dos grandes, a coragem dos solitários. Ele que circulava com desenvoltura em sua cadeira de rodas, escancarando sua solidão. Mas eu precisava de duas pernas, de dois pilares, de duas pedras que me protegessem do abismo. O meu e o alheio. Pois a miséria alheia é sempre nossa também. Eu tive medo de abrir portas.

Hesitei o dia inteiro entre pegar e não pegar o telefone. Até que o dia acabou.

O telefonema não dado. Ele ainda vive em mim. Ele toca, às vezes. Eu o atendo e dialogo com ele. Nós nos perdoamos porque somos humanos e abstratos. Temos longas conversas e atualizamos as possibilidades de alegria. Às vezes eu tento de outras formas, por outros meios, através de outras pessoas, telefonar para aquele homem. Talvez um sorriso reverbere no outro. Talvez.

Eu sei que tudo volta, mesmo o não sido. O que "não aconteceu nunca para que acontecesse sempre". É um toque de telefone que me chama, que me acorda diariamente para o mundo. E que, por não ter acontecido, cai no rol dos meus mitos, minhas lendas pessoais. Essa narrativa que me dá sentido e que se repete sempre, ampliando meus vazios.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Amar e mudar as coisas


Há alguns dias minha amiga Júlia postou um texto em seu blog (http://juliaemexcesso.blogspot.com.br) sobre suas reflexões a partir de músicas do Belchior. Li-o saudosa de tantas coisas: das longas conversas em que refletíamos sobre a vida; das músicas do Belchior que eu tanto ouvi, algumas das quais já nem me lembrava; dos seus shows aonde íamos juntas, antes de ele desaparecer pelo Uruguai.

Relembrando suas velhas canções, um trecho permaneceu em minha cabeça: "Amar e mudar as coisas me interessa mais". Já discutimos tanto a essência, a existência e o fenômeno, para chegar até aqui. Talvez seja este meu atual tema de vida: "amar e mudar as coisas", depois de a linguagem ter falhado e de a filosofia nunca ter respondido às minhas questões primeiras. Hoje é o simples do amor e suas perguntas que me interessa mais.

Em uma rodoviária na Bolívia, quando eu dava dinheiro a uma velhinha, meu companheiro questionou: "Por que você fica dando esmolas, se no Brasil você não dá?". Ele tinha razão, quase não dou esmolas por aqui, o que se deve, em parte, pela consciência da minha incapacidade de assim transformar qualquer coisa. Respondi que não dou esmolas, mas que, quando dá na telha, eu dou. O que também é verdade.

E meu dar na telha é sempre assim arbitrário. Um capricho, quase. Tenho essa aversão a pedir, como tenho a que me peçam. Nasci para o mundo de graça e assim passei a esperar que as coisas fossem sempre. É dessa forma que me posicionei na vida: "quando me dá na telha" é o único quando que sei proceder. E é assim, também, que às vezes egoisticamente dou esmolas. Quase nunca quando me pedem.

Pois dois dias atrás eu caminhava para o mercado e cruzei com um mendigo que dormia sobre a calçada. E me "deu na telha" fazê-lo sorrir. Já no mercado, separei uma sacola de compras para ele, com comidinhas e suco de frutas. Meu plano era deixar ao seu lado, para que ele encontrasse o pacote ao acordar. Mas, quando passei por ele novamente, ele já abria os olhos e pedia dinheiro aos passantes, ainda deitado. Uma senhora entregou-lhe alguma coisa, enquanto eu parei ao seu lado. Dei-lhe "boa tarde" e entreguei, eu também, as compras que tinha feito. Ele abriu um sorriso lindo e levantou os braços, mais num gesto de alegria incontida do que de louvor, dizendo: "Está vendo como deus é justo?". Saí sorridente de seu sorriso. Naquela tarde havia me dado na telha sorrir alguém para me alegrar. Aquilo não transformava nada da realidade do mundo, senão o meu dia.

"Amar e mudar as coisas..."

Então me dei conta de que talvez eu nunca possa mudar as coisas.

Mas posso ainda amar e fazer sorrir e me alegrar com a gratuidade do amor. 

Amar e amar e amar. Me interessa mais.




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Bolívia



O mais importante sobre a Bolívia é que ela me chamou. E, mesmo que eu não saiba o que isso significa, eu atendi a seu chamado. A verdade é que até o ano passado não me havia ocorrido visitá-la. Mas então começaram a aparecer os pequenos sinais. O livro "Expedição BraBo", da minha amiga Daniella Barbosa, sobre sua experiência no país. As fotos incríveis do meu amigo-irmão grego Stelios. E, assim por diante, outros sinais foram aparecendo no meu caminho. Eu entendi que a Bolívia me chamava e fui até ela.

"O que será que me espera aqui?" - às vezes eu me perguntava. Seria um amor, uma descoberta, uma chance? Não estou à procura de um amor. Talvez uma descoberta, ou uma chance... de quê? Para o que quer que fosse... eu fui. Achei bonito entrar no país a pé. Passei pela polícia federal do Peru e caminhei até a da Bolívia, no outro lado. Depois foram só alguns minutos de ônibus até Copacabana, minha primeira parada.

Era fim de tarde quando chegamos. O sol se punha sobre o Lago Titicaca. E eu repetia que ia ser bom, que podia pressentir os bons ventos que sopravam: "Tem alguma coisa, sabia? Não sei o que é, mas tenho uma conexão com esse país. Faz um tempo que a Bolívia me chama, não te falei?" E ser recebida assim, por pura beleza, confirmava minhas expectativas.

Tinha que ser bom. E foi. Mesmo que eu tenha passado tão mal no barco para a Isla de la Luna e a Isla del Sol. Àquela altura, não aguentava nem mais um barco no caminho, mas pensara que num lago a coisa seria diferente. Acho que subestimei o poder e a vastidão oceânicas do Titicaca. "Tiene que pagar", já diziam as criancinhas pequenas, habitantes das ilhas, mal olhávamos pro lado. Elas, também, filhas desse nosso mundo do dinheiro.

Teve o Salar de Uyuni com seu infinito branco debaixo do céu azul. As lagoas coloridas e as montanhas. Os encontros, as pessoas, as trocas. Os longos caminhos de carro ao som das mesmas músicas andinas. E, ao fim de um desses caminhos, teve talvez o momento mais estranho da viagem: deixar parte do grupo na fronteira do Chile. Engraçado entregar pessoas assim em um outro país, como entregássemos crianças na escola.

E depois teve La Paz, que eu amei muito antes de conhecer. Já no ônibus, fui listando nomes de cidades do mundo, à procura de outro tão bonito. Não encontrei. "La Paz invadiu o meu coração...", vinha-me assim, na voz de Gil. É que, se eu viesse parar neste planeta por acaso e pudesse escolher qualquer lugar para viver, não teria dúvidas em escolher uma cidade com este nome. Foram tardes de caminhadas tranquilas. Foi um domingo em que as pessoas invadiram a avenida principal, para brincar e assistir apresentações artísticas. Jogar xadrez. Empilhar blocos. Observar outras pessoas. Eu viveria em um lugar assim. La Paz.

É claro que eu gostaria de dizer que já andei no Trem da Morte, como era o plano inicial. Mas o Tempo, sempre ele, chegou atropelando, junto com as atividades que me esperavam com urgência no Rio. Então comprei uma passagem aérea e voltei, sem jamais entender por que a Bolívia me chamara.

Quando voltei, fiquei por um tempo assim, meio espantada com a vida. É que, no tempo em que eu estive fora, tanta coisa acontecera. A morte do pai de uma amiga. A vida que começava no ventre de outra. Em casa, encontrei um gato e um cachorro novos, o que me deixou espantada também pela vida do Jonas, nosso outro gatinho, com suas mudanças repentinas. Sempre elas, as despedidas. E também sempre os novos encontros.

Então, mesmo que eu não entenda nunca o chamado da Bolívia, às vezes penso que ela me chamou para isso: para me falar da vida e das pessoas, que algum dia acabamos deixando em algum deserto.

domingo, 26 de agosto de 2012

Peru



Em parte por falta de tempo, pelo trânsito natural das coisas, pelos compromissos atrasados que me esperavam na volta. Mas em boa parte porque este fosse o país mais difícil de processar. E ainda não consegui entender seu impacto em mim. Eu fiz rabiscos, rascunhos. E faltava sempre. Por isso hoje me sento à frente do computador, forçando-me a relatar algo que talvez não baste, que permanece indigesto, em processo. 

Eu esperava a identificação fácil, já que me considerava andina de alma, pelo espírito indígena, pelas cores, pela paixão por montanhas e milhos. E o que encontrei no Peru foi escavação. Foi denso, lento, profundo. As paisagens misturavam extremos de beleza e melancolia. "Parece que tudo por aqui está em construção", me disse meu companheiro de viagem, enquanto olhávamos as casas sem pintura. "Serão construções ou ruínas?", eu brincava, diante das cidades das antigas civilizações que visitávamos. 

Foram longos os trajetos, os dias nas estradas. Às vezes algumas paradas. Mulheres cozinhando nas ruas, vamos jantar por aqui. E os senhores comiam seus pratos fartos, conversando sobre os caminhos. E sempre me pareciam tão dignos os tais senhores. 

Eu escolhera pelo guia a trilha que queria fazer na Cordillera Blanca: "Não exige técnica, basta que a pessoa esteja aclimatada". Após dois dias em Huaraz, pensei estar. E iniciei uma trilha que iniciou, também, em mim, caminhos novos. Foram muitas as inaugurações: o primeiro acampamento selvagem, baixíssima temperatura, altitude. Tinha sempre o ar que me faltava. As dores de cabeça, apesar de todas as formas de coca (com exceção de cocaína) que consumi. À noite, o frio que congelaria os sonhos, se me fosse possível adormecer. 

Foram quatro dias em que cada passo era árduo. A cada nova subida, eu pensava em desabar, parar, ficar por ali mesmo, não fosse a necessidade de uma barraca que quase amenizasse o frio da noite. O inferno era os outros, como já sabia Sartre. Não bastasse uma aversão que já tenho a acompanhar o ritmo alheio, desta vez eu nem conseguia acompanhá-los, ainda que quisesse. Não queria. Eu lera que cada pessoa reage de modo diferente à altitude. Mas não estava preparada para reagir da pior maneira. Eu que sou acostumada a ser pequena em tudo, menos em transitar em meio à natureza. Eu que só sabia ser pequena sozinha, sem depender de ninguém. Tive que aceitar ser ainda menor. 

Alguns dias antes de iniciar a viagem, eu levara um amigo à Pedra da Gávea. A certa altura, ele brincou: "Vou te ofender: quer ajuda?" Era piada, mas revelava tanto. É que, no espelho, eu era a menina que sempre recusava quando alguém me oferecia a mão. 

E súbito descobri meu real tamanho. Ser menor, sempre menor. Crescer para aprender a ser pequena. E levar esta lição para as novas trilhas, para os novos trilhos, para os trens. 

E houve tanto mais. Machu Picchu e suas ruínas, talvez um dia eu fale disso. Houve as estradas, os estragos. É que tanto de mim eu encontrei ali, não no modo simples e esperado da identificação fácil. Mas na dor da escavação. 

Eis-me aqui: Ruína e construção.




sábado, 18 de agosto de 2012

Equador


O plano era este: sair de Galápagos e descer o mais rápido possível para o Peru. O tempo era curto e a expectativa dos outros ares vinha de longa data. Mas fomo-nos deixando ficar. Pouco. Pouquíssimo. Três noites em Quito e uma em Cuenca, apenas. Mas ainda mais do que o programado e muito mais do que o calendário apertado permitia.

Eram sempre as coisas pequenas que nos seguravam. As caminhadas e os sorrisos. Os sabores. As tardes vadias. Tão surpreendente ser arrebatada pelas esquinas cotidianas. A vizinhanca. Mariscal.

Sempre dávamos uma volta da nossa hospedagem, atravessando uma grande avenida, até chegar à rua do burburinho: Mariscal Foch. Apenas no último dia descobrimos que aquela era a nossa própria rua e que a volta era absolutamente desnecessária. Engracado ela ter se tornado exatamente a parte mais necessária daqueles dias. Estavam nos caminhos tortos, os encontros.

Depois da primeira caminhada passando por restaurantes mexicanos, americanos e argentinos, decidimos comer em um lugarzinho simples, de comida típica, bem na frente do hotel. Talvez fosse El Chicharron o nome do estabelecimento. Nunca tive memoria boa para nomes. Mas o sabor e os afetos permanecem frescos.

No restaurante, apenas uma mesa ocupada. Um grupo de senhores, incluindo o dono do lugar, bebia e jogava cartas.

- Tem cardápio?

Não tinha. Em vez disso, uma pequena lista de pratos na janela.

- O que é isso? O que é aquilo?

O senhor se dividia entre as vontades de nos atender com solicitude e de voltar logo ao seu jogo.

- É gostoso, é gostoso. - ele nos respondia.

E seus amigos vinham até nossa mesa, olhos curiosos infantis, nos explicar do que era feito cada prato. No fim, o dono resolveu quase arbitrariamente nos trazer uma porção de choclo mixto para provarmos: uma espiga de milho cozido, grãos amarelos de milho tostado e crocante, grãos gigantes e brancos, carne de porco assada e sequinha, um pedacinho de pele de porco crocante, uma massa deliciosamente feita de batata, banana frita, abacate e queijo. Temperávamos tudo isso com um molhinho ao estilo ceviche que ficava sobre a mesa.

E o milho, ou choclo, como explicar? Pra começar, devo dizer que sempre fui uma amante desse alimento e de todos os seus derivados. O que eu não sabia era que eu era completamente ignorante daquilo que eu pensava conhecer e amar. Acontece que só entao, naquele restaurante em Quito, eu experimentei o verdadeiro milho: uma espiga branca, macia e suculenta, com grãos gigantes e gordos. Fui ao céu e voltei. Fui novamente com o copo de limonada refrescante, receita secreta, da qual só podíamos saber que levava limão e água gaseificada. Depois de terminar a refeição, pedi outro prato repetido. Uma satisfação generalizada dominava o ambiente. A felicidade da boa mesa. Os senhores, orgulhosos, retornando ao seu jogo de cartas.

Voltamos na tarde seguinte ao restaurante, pedindo o mesmo prato. O dono anunciou, diante da minha decepção, que não havia choclo aquele dia. Mas nos trouxe um prato de hornado, que era quase igualmente delicioso. Ele jogava cartas com senhores diferente da noite anterior e era gozado como ele sempre se dividia, tentando nos agradar e ao mesmo tempo voltar o mais rápido possível ao seu jogo. Enquanto isso, seus amigos tentavam prolongar o papo conosco, quase desejando estar no lugar do homem que nos atendia.

- Estou satisfeita, mas frustrada por não ter comido milho.

- Eu vi uma loja de milho mais adiante, vamos lá?

Los Desgranados, chamava-se. Era uma lanchonete em que você recebia um copinho de milho (o choclo suculento e gorducho), escolhia um molho e acrescentava por cima queijo ou carne. Não quis molho nenhum, senão uma manteiguinha. E pedia o mínimo possível de queijo, embora ele fosse saborosíssimo.

- Qual o nome dele?

- Esse é o queijo equatoriano, muito comum nas montanhas.

Descobrimos que aquele era o dia da inauguração do estabelecimento. Que fosse um dia de sorte. Seu dono chamava-se Fabian. Ele tambem adorava viajar e por isso nos deu várias dicas dos lugares por onde passou. Desenhou-nos mapas de Quito. Recomendou-nos programas, comidas. Retornamos no mesmo dia. E no outro. E no outro. E ali retornaríamos sempre, não fosse a partida. Era o milho suculento. Eram as amizades. Era Fabian e suas dicas. Carlos, o outro atendente, e seus sorrisos. E depois a mãe de Carlos, uma arquiteta simpática. Os novos clientes e amigos que iam aparecendo.

É claro que teve o teleférico, a Mitad del Mundo, a caminhada noturna pelo centro historico, La Ronda. Teve a procura por balas de coca, para prevenir contra os problemas com a altitude: o soroche.

- Sabes donde compramos caramelos de coca?

- Caramelos de coco?

- No, de coca.

- Coca?!

Os velhinhos da rua nos olhavam com cara de espanto. Encontramos. Mas só depois descobrimos que, ao contrário do Peru e da Bolívia, a coca era ilegal no Equador. Ops.

Mas, muito acima dos programas turísticos, tinha o trajeto diário: as amizades que fazíamos no caminho. Fabian, no Los Desgranados. As tardes na Republica del Cacao, provando chapéus panamá, recortando revistas e recolhendo dicas para o restante da viagem.

Na última noite, descobrimos um restaurantezinho da comunidade negra. Comida baratíssima e de mãe. O atendimento não era lá essas coisas, até porque os garçons estavam muito mais preocupados em prestar atenção à briga que se desenrolava na porta do restaurante. Mas o prato era justo. Aconchegante.

- Podemos almocar aqui amanha.

- Mas não temos relação emocional com ninguém aqui. Se formos ao restaurante do senhor das cartas, vamos fazê-lo feliz.

Fomos. O restaurante estava lotado na hora do almoço e o dono era uma pessoa completamente diferente do senhor que ansiava por voltar ao seu jogo. Agitado e compenetradíssimo no trabalho. Alegramo-nos por saber que aquele lugar era tão movimentado. Ao nos ver, no meio da agitação, ele exclamou:

- Hoje tem choclo!

Anunciamos:

- Mas hoje queremos hornado!

Enquanto comíamos, ele aproximou-se da nossa mesa:

- Então vocês gostaram do hornado?

- Muito!

Despedimo-nos dele avisando que estavámos de partida.

- Se nao tivéssemos voltado hoje, ele para sempre pensaria que não retornamos por não gostar do hornado.

O que, definitivamente, não era verdade.

Refizemos nosso trajeto. El Chicharron, Los Desgranados, Republica del Cacao. Encontrávamos sempre alguém pelo caminho. O casal que eu escolhi chamar de argentino, embora ela fosse espanhola e ele, italiano. A criança no ônibus que me enumerava receitas: "Salsa de tomate, queso, un limonzito. Es riquissimo!"

E foi rapido. Rapidissimo. Mas a impressão era sempre de que eu poderia ficar. Chegada do nada. Fugida da prisão, talvez por transportar balas de coca. De que eu poderia ser ninguém ali e ainda assim ir ficando. Criando laços. Repetindo os sabores. Viver pelos caminhos tortos e pelas esquinas cotidianas.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Galapagos


Tinha sempre uma mão amiga me puxando pelo pé:

- Lian, todo mundo está do lado de lá!

- Mas tem uma tartaruga do lado de cá!

Mais tarde ele me diria que, toda vez que olhava, via o grupo nadando junto, como fomos orientados a permanecer, e uma pessoa isolada, nadando pro lado oposto. Era sempre eu, MARavilhada, perseguindo um bicho qualquer.

Um dia fiquei sozinha com dois leões-marinhos. Eles se aproximavam, quase nariz com nariz, e, no último minuto, davam uma cambalhota. Eu, também, dava voltas na água, rindo abobalhada pelo tubo do snorkel, enquanto fingia ignorar os chamados do grupo, que já me esperava no barco.

Era esse meu inferno: um barco qualquer, que cheirava a combustível e chacoalhava em alto mar. Meu paraíso era mergulhar. Eu ia de um a outro, sofrimento e redenção. Às vezes passava o dia sem comer para minimizar o enjoo. Às vezes frio, vento e uma fumaça que me impedia de respirar. Às vezes uma pedra no oceano, uma ave, um detalhe qualquer, que fazia o tempo parar.

- Eu vi o rosto do tubarão! Que expressão engraçada ele tem!

Os segredos do fundo do mundo me sendo revelados. E quem sou eu para ter acesso a tanto? - às vezes eu me perguntava. Ver tartarugas gigantes, iguanas em bandos e rosto de tubarão nos faz parecer tão pequenos.

E, por ser pequena assim, eu merecia aquilo: o céu e o inferno. Era por isso que, sempre que alguém reclamava da falta de infra-estrutura, eu no fundo agradecia. Era preciso que estivéssemos em desconforto para que ficasse bem claro que éramos invasores e que aquele não era nosso lugar. Eu ouvia falar em desenvolvimento do turismo local e torcia pelo contrário. Torcia para que o turismo ali fosse sempre assim, parcialmente sofrido, para que nunca tivéssemos dúvidas de que aquela área não nos pertencia. Que o luxo e o conforto não alcancassem o local, para não atrair turistas que ali pisassem como se tirassem férias no Caribe. E, sobretudo, que o dinheiro nunca os atingisse, com sua lógica da destruicao e embalagens de sorvete atiradas à praia.

A vida que insistia em ser vida diariamente me dava bofetadas e me fazia questionar que direito eu tinha em estar ali. Mesmo que eu falasse baixo, pisasse leve e saísse pedindo desculpas, era sempre a casa do outro: a tartaruga que se escondia no casco, a iguana que cuspia quando ameaçada ou os leões-marinhos, que tentavam tomar seu sol em paz. E, quando eu via fotos de satélite das ilhas, me dava uma tristeza ao comparar o que elas foram ao que elas são. A área habitada crescendo, as cidades invadindo aquele pouco de mundo até então preservado.

Um guia nos explicou que em Galápagos houvera treze espécies de tartarugas gigantes. Com a recente morte de Lonesome George, sobravam dez, apenas. Tão perto de nós, a extinção das espécies. A vida que deixamos escapar, nossa vida que se extingue.

E todos os dias eu me envergonhava por ser gente. Eu me perdoava por ser gente. Então eu entendia. E aceitava. E agradecia. Toda gente é também bicho: seu lixo, seu rumo, seu rosto.

Estar no mundo é uma forma de alegria.

E posso sempre nadar pro lado oposto.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Área de refúgio



Segue-se o tráfego de homens e máquinas. E, no meio da estrada congestionada, uma placa: ÁREA DE REFÚGIO. Vejo uma entradinha que dá para a mata. Pergunto, em meus parcos conhecimentos sobre trânsito e estradas:

- É por ali que se entra para a área de refúgio?

Escuto as risadas. Não é. Fico sabendo que a placa referia-se apenas a uma espécie de acostamento. Bobagem minha pensar que existe esse lugar, um portal na floresta para onde correr, após abandonar o carro e, com ele, o mundo dos homens e máquinas.

É bobagem sim. Mas ainda assim.

Eu te daria as mãos e nós dois saberíamos. Despir o corpo da pressa e da poluição. Deixar. Seguir.

Eu te daria a mão.

Dentro da mata, um caminho estreito. No fim do caminho, um caminho. Área de refúgio. Se eu te pintasse de índio. Terroso. Urucum. Se eu te moldasse no barro. E súbito me desse conta: do mesmo barro somos feitos. No mesmo barro somos um. Milho, mandioca, batata doce. Meu universo te sonhou antes de eu acordar. Estrela cadente, estrela do mar. Tubérculo, raiz. Refúgio não é fuga. É fundo. No meio do mundo mais mundo. Eu mais feliz.

Parei o tempo pra te contemplar. Quem te untou de azeite, manteiga? Quem te salgou no mar? Brasa, fogueira, explosão solar. Mamífero, leite, via láctea. Eu me antropofagio de você. Eu me refugio em você. Calor e alimento. Vida e sustento.

Mas foi só bobagem, bobagem.


No meio da estrada, só um acostamento.



terça-feira, 3 de julho de 2012

Carros chineses


Meu pai tem mania de ficar feliz ao ver carros chineses:

- Não é mania! - diria ele - Também não é nacionalismo!

E, enquanto buscamos explicações, ele resmunga:

- Vocês não entendem.

Nós não entendemos, por mais que tentemos penetrar nessa lógica tão dele.  Às vezes me atrapalho tentando seguir esse mundo que não entendo. Certa vez, conversávamos sobre aniversários e datas especiais. Ele dizia que não gostava de nada disso. Eu disse que tudo bem ignorar dia dos pais, das crianças e afins, mas que aniversário era uma data importantíssima. Ele me respondeu que esse era meu pensamento, mas que ele era diferente de mim. Naquele ano, mesmo sem compreender, resolvi respeitar seu sentimento em relação à data. Mesmo lembrando, fingi ignorar seu aniversário, para que ele não se sentisse desconfortável. Fiz o mesmo no dia dos pais, ainda que a mídia e a publicidade obviamente impossibilitassem o esquecimento. Mais tarde, soube por minha mãe que ele havia se chateado. Fui tirar satisfação e ele me respondeu:

- Não gosto de festa, não ligo para presente, mas ninguém gosta de ser esquecido.

Entendi. Nem sempre eu entendo.

Mas quem disse que se pode apreender racionalmente a alegria de alguém? Meu pai gosta de ver carros chineses. Quando o encontro ele me conta:

- Hoje vi dois.

Eu vejo o brilho em seus olhos e os meus brilham também. Às vezes, quando estou com ele, em Goiânia, no meio do trânsito, ele dá um berro:

- Olha, olha!!!!
- O quê??
- Um carro chinês!
- Ah, era isso? Ufa, que susto você me deu!

E vou achando graça das manias do meu pai. Quase sem perceber que o amor nos lega, também, suas manias. A minha é ficar alegre por sua alegria, mesmo que imaginária. Por isso, sempre que vejo um carro chinês, onde quer que eu ande, eu penso que o meu pai ficaria feliz, se estivesse aqui. Me ocorrem pensamentos do tipo "vou contar pra ele" ou "vou tirar uma foto e mandar por e-mail". Não faço nada disso. Só imagino sua satisfação e então fico, eu, feliz. 

Agora, sempre que vejo um desses carros circulando pela rua, sinto uma alegria inefável, dessas que, por não caber em nenhuma explicação, só tem cabimento na linguagem do amor. E encontro, enfim, uma razão. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Caminhos


Eu tenho uma teoria.

Várias, é verdade. A dos três estômagos, a da fetichização da velocidade, a do nível de sobremesidade das coisas e algumas outras, diante das quais uma grande amiga costuma dizer: "O pior é que a Lian é louca mas tem razão". Mas, entre as tantas, tenho uma que me é especialmente cara e que levo especialmente a sério. É que ela me diz quem sou e a que venho, mesmo que seja invenção. Não são inventadas as verdades? E não são verdadeiras as criações?

Pois bem, eu tenho uma teoria. Começa assim: O objetivo do ser humano é atingir a comunhão. Isso eu inventei, a partir da minha única amostragem: eu. Se meu objetivo fosse ganhar na loteria, por exemplo, eu igualmente poderia ampliá-lo e dizer que é este o objetivo da humanidade. Não é. O objetivo do homem é atingir a comunhão, repito. É este meu pressuposto básico, que fundamenta toda minha teoria. Vejam como ela é frágil, sustentada que está sobre um pilar de névoa:  a convicção esvoaçante de uma menina de chinelos.

Comunhão: o saber-se maior do que os limites do próprio corpo. O saber-se tudo. O saber-se mundo. Ser todaparte-todotempo.

Se comunhão é o fim, são três os caminhos: Amor, Arte, Religiosidade.


O Amor de que falo não é específico. Tanto pode ser o de um relacionamento amoroso, quanto o de amigos ou até estranhos, até o amor não-direcionado, que se volta ao universo. O eu no outro, que, através do Amor, não se encerra em si. 


Ao falar de Arte, falo da experiência artística: o transcender. O contato pelo qual nos expandimos. O desvelamento desse além que não sabíamos dentro. O outro no eu.


Quanto à Religiosidade, refiro-me a essa busca espiritual que nos é inerente, não às religiões institucionalizadas, embora não as exclua completamente.


Portanto, como três caminhos para um mesmo fim, concluo, em minha teoria, que Amor, Arte e Religiosidade são, em última instância, a mesma coisa: essa busca pela transcendência que seria a comunhão. O eu fazer parte de tudo, e o tudo ser uma coisa só. Temos, pois, o fim e três caminhos. Porém este fim nunca é atingido plenamente. Ele é vislumbrado, visitado. É este ser escorregadio que nos escapa sempre que o agarramos. Mais: supomo-los pleno. Mas não contamos que a plenitude é repleta de vazio. É este o segredo. Procuramos o Amor (a Arte, a Religiosidade) esperando que ele nos preencha. E surpreendentemente ele, quando acontece, nos esvazia. Apenas vazios podemos ser plenos de Universo. É preciso que sejamos pequeníssimos para que possamos experimentar a infinita grandeza. 


O caminho é vasto. O amor é vasto. E se saber amando é de magnitude extrema. Olhar algo ou alguém e se pegar espantado por ele existir fora de você, tão intrinsecamente feitos são da mesma matéria. A beleza que lhe fala profundamente. Isso é Arte. Isso é profundamente religioso. 


Eu pensava que mágica pertencia a um outro plano. Só depois descobri que, ao contrário, mágica é aquilo que está firmemente enraizado no que somos, de modo tão amplo que nos escapa. Fazer mágica é conectar.  O verdadeiro contato faz brilhar. São três os caminhos. E eles se entrelaçam de tal maneira que, ao experimentar qualquer um deles, nunca estaremos certos de qual seguimos. É tudo uma coisa só. De Amor fomos feitos. Somos caminho. 




quarta-feira, 20 de junho de 2012

Junho


Eu vim em passos hesitantes porque não queria entrar no mês de junho. Queria o "infinitamente maio" de Guimarães Rosa, maio de touros e de voo e de terra e pedra e ilha. E eu entrei em junho doente e desejando voltar. E junho entrou em mim anunciando inverno. Chovia. Eu não queria entrar.

Então me afundei em um tempo longínquo... No tempo do tempo do qual não entendo nada. Eu estava no chamado "segundo jardim" da escolinha, tinha quatro ou cinco anos de idade. Na minha classe havia esse garoto: as fotos delinearam seu rosto em minha memória, mesmo tantos anos depois. Nós dois vestidos de caipiras, na festa junina. Ele rechonchudo, com bigode pintado, eu magrela com pintinhas no rosto. Fazíamos par. Mais do que isso: os adultos insistiam em dizer que éramos namoradinhos. Não éramos. E eu não gostava nada dessa história. O fato é que não me lembro de brincarmos juntos, não me lembro de nossas conversas, se é que havia. Eu era uma criança calada.

Mas de uma coisa me lembro...

Todo recreio, nós nos dávamos as mãos e saíamos a andar, assim, de mãos dadas. Nunca entendi o motivo e nunca soube do início. De quem foi essa ideia? Quando, pela primeira vez, nos demos as mãos e por iniciativa de quem? Sei que andávamos juntos, todo dia, religiosamente e em silêncio. Era nosso ritual cotidiano de caminhar pelo pátio. Diariamente nos dávamos as mãos, com a confiança da criança que não tem motivos. Seu nome era Junho, como o mês.

E, porque é junho de novo, eu penso que devo seguir. "É preciso continuar a travessia" - fui me repetindo enquanto subia a Pedra sozinha e descalça, já que meus chinelos se perderam no caminho. Era a primeira vez que subia sozinha. Era a primeira vez que fazia todo o trajeto descalça. A primeira vez que voltava no escuro, com uma lanterninha em mãos. Confesso que no final do trajeto tive medo, ao ouvir os barulhos da floresta. Desses medos inexplicáveis que não são de gente, nem de bicho e nem de fantasma, mas um medo instintivo e enigmático que vem de se estar à noite sozinha no meio da mata.

Medo da solidão.

Mas é junho. Junho, como o garoto. É preciso seguir. E, mesmo que eu não entenda, será mais fácil se alguém me pegar pela mão.

Continuar a travessia é sempre inauguração.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Bolhinhas da Júlia


Recebi um pacote com bolhinhas lindas da minha amiga-irmã Júlia Lemos, de aniversário. Acho que é a primeira vez que posto por aqui um texto não escrito por mim, mas é que desta vez é tão pedaço... Eis sua carta:

"Lian,

Eu louvo a sua existência nesse mundo todos os momentos em que saio das gaiolas tão rígidas da minha razão sistemática e entendo o mundo em comunhão com o meu vento que ri. Você é esta parte tão perigosa desta vida que quer ser séria: você a quebra em mil pedacinhos sem sentido e os joga para o alto. É o perigo mais necessário deste mundo cheio de leis.

Eu sempre soube que você é a minha parte que voa por aí, pés quase descalços que viajam o mundo, braços que se arriscam a novos abraços, olhos que namoram a lua, corpo que se lança ao topo das pedras e garganta que suporta todas as tempestades sem perder a voz para os maiores gritos de alegria. Eu sempre soube que você me salva de ser engolida pela estrutura totalitária que ocupa uma parte. Pois você é essa outra parte minha que voa e que não larga as suas asas: é no céu aberto que nos encontramos.

Mas, dias atrás, lendo Rubem Alves em "Variações sobre o prazer", eu tive a confirmação: é a vida inteira, o planeta todo que louva a sua existência, pois você não salva só a mim, mas o mundo todo. Você é a parte-mundo que desconfia de toda rigidez, é esse pedaço pequeno e frágil que o desfragmenta e bagunça tudo para torná-lo em riso e beleza, para soprá-lo no sem sentido do amor sem razão. O Rubem Alves diz que essa é arte de tomar o mundo só com o corpo... E você sempre soube disso muito bem... você sempre me falou dessa coisa de pensar o corpo, prestar atenção nele. "A razão é totalitária. O que ela deseja é dominar o objeto por meio da compreensão. O sistema é gaiola dentro da qual a razão pretende engaiolar a vida. Não há pássaros soltos de voo imprevisto. O corpo, ao contrário, deseja "fazer amor" com o seu objeto. Daí o seu método fragmentário: provar pequenos pedaços. (...) A razão é séria. Exige o sistema. O corpo é brincalhão, ri da razão." (p.34)

Você é essa menina do corpo brincalhão e é por isso que eu sei que no seu aniversário toda criança que ri, todos os pés que viajam, toda onda que cai, todo tamanduá que é neném, todo ronronar de gato, toda flor de jasmim, todo vento da Gávea, todo brilho da lua, todo "frozen" do yogurt, toda roda de bicicleta, todo "crec" de Skiny, todo poema e toda filosofia louvam a sua existência.

Eu sou apenas um pedacinho destas tantas bolhas que dou a minha melhor parte a esse mundo pra exaltar a sua existência. Porque embora eu também seja esta infância mundo, eu preciso tantas vezes que as suas asas se colem às minhas e me levem para o alto. Hoje quero que você voe longe, que vá bem alto mesmo celebrar o seu dia, que eu vou nas suas bolhas ao vento."  (Júlia Lemos)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pangeia

Eu soube desde o princípio que somos feitos da mesma matéria. Eu vejo pela costa, pelos recortes que se encaixam. Eu vejo pela pele - os diferentes tons de areia. Dela somos feitos. Permeáveis. E o mar é a medida exata da distância que nos une. O mergulho. Quisera eu também brincar sobre as ondas. Quisera ter este domínio impossível sobre a mar. Ato falho. O mar. Lá eu cavaria meu buraco de minhoca, por que não? Quem inventou o tempo e o espaço? Quem inventou de separar os continentes? Outro dia conheci um francês que se encantou com farofa. Disse que, do Brasil, levaria farofa para o mundo, para assim disseminar a paz mundial. Ele não conheceu feijoada, nossa mania de ser homogeneamente diferentes. E de brilhar, quando juntos. Será que o brilho vem da manta ou da cartola do mágico? Tem um adocicado que fica lá no fundo, no final do sabor. Lancheiras abastecidas. Índios voltando ao continente perdido.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Aniversário


Talvez fosse a proximidade dos dias que mudariam a contagem dos anos. Talvez a chuva que voltasse pro oceano. Mas é que maio é mês de travessia, e eu, que ritualizo tudo, fui me vestindo de nuvem. Evaporar. Desvanecer.

- Eu tenho tido dejà vu todos os dias, todo o tempo.

- Talvez o tempo seja circular.

- Uma amiga me disse que leu em algum lugar uma explicação sobre o fenômeno, algo sobre conexões neuronais.

- Existem várias explicações possíveis, nunca saberemos.

- É... mas acho que a hipótese mais plausível ainda é a dos universos paralelos.

- A mais plausível? Pensei que você fosse dizer...

E o tempo me repetiu. Tudo que era já tinha sido, quiçá fosse sempre. Talvez para que eu não temesse a passagem. São de versos os caminhos, qual escolher? Quisera eu guiar, mas não calculo pedras.

Eu só preciso que alguém me diga que subirá comigo, mesmo se o céu desabar. É possível que haja debandada, mas eu sou taurina, esqueceu? E é maio. É lua cheia. Preciso muito subir. Sumir. Circulíris no céu.

- Circulíris? Bonito isso, gostei.

- Gostou? Eu te dou.

E eu, vestida de nuvem, viro dona de um circulíris azulado.

Amanhece um céu clarinho, tudo fica branco, branco-céu, branco-lua. Em breve ela desaparecerá. E eu, que já estava apegada. Assim é a vida. E é maio, mês de travessia. Eu atravessando nuvens brancas, experimentando o desaparecer. Ser lua. Talvez o tempo seja mesmo circular. Mas o apego, que fazer?

Está tudo bem, a gente pega um barquinho para atravessar. Alguém jogou um pedaço de terra no meio do mundo. Ou alguém jogou um mundo no meio do mar. Sabe-se lá. Eu já me havia dito que neste aniversário queria me isolar. "Sabia que a palavra 'isolar' vem de 'ilha'?" Eu não sabia. SorRio no mar.

Numa outra vida eu quero ser cachorro em um lugarzinho assim, tudo perdido no meio do nada. Eles passeiam no mato, deitam na areia, saem a conversar com toda a gente na rua. Às vezes escolhem alguém e sentam ao lado, somente. E encontram seus amigos cachorros para brincarem em bandos.

Mas desta vez vim gente e me pergunto se as areias daqui cantam por serem mais aeradas, o que vira uma discussão, dessas boas, em que o que menos importa é ter razão. Mas aposto que os cachorros em bando não latem sobre as areias. Ou não. "Tem sempre um 'ou não' do ladinho".

Estamos desaparecidos, leves. Névoa. E de repente tudo é nuvem. E tudo é branco. Então pegamos um outro barco para voltar ao mundo que existe. A ilha desvanecendo ao fundo.

- É, vamos voltar a dois mil e doze.

- Poxa, vou sentir falta de dois mil e nunca.

- O que você disse?

- Dois mil e nunca.

- Que pena. Tinha entendido dois mil e nuvem.

Que seja. Será.

Melhor parte da travessia é se deixar atravessar.


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Equilíbrio


"Azar no jogo, sorte no amor", é o que dizem.

Eu nunca ganhei um sorteio. Uma rifa. Nem um bingo de escola. Nem figurinha premiada.

Sorte na vida, é o que tenho. Vida, Amor, quase a mesma coisa, quando em maiúsculo. Esse maior ampliado. Sorte eu sempre tive. Uma amizade bonita com o Mundo. Ele jogando beleza no meu caminho, como espalhasse sementes. Eu colhendo. Às vezes peço. Ele entrega. Às vezes tenho desejo fundo, desses de nem saber. Ele entrega também, e eu de repente saibo. E, quando entro no mar, sempre agradeço. O mergulho é minha forma de oração. Mergulho e repito: "Obrigada, Deus. Obrigada, Mundo. Obrigada, Universo". Felicidade também é oração.

Mas Universo não pode ser gentil assim com uma pessoa o tempo todo. Tem que haver um equilíbrio. Então ele encontrou um mecanismo de compensação: São Pedro. É como se fosse meu inimigo, mas não é. Estamos em um jogo. Eu faço meus planos, ele os estraga. Às vezes eu o desafio, acho graça. Mas logo me coloco em meu lugar, bem sei que comprar briga com santo não é bom negócio.

Ontem combinei de levar uma amiga para conhecer a Pedra da Gávea. Havia tempos ela me pedia, e sempre aparecia um empecilho que me impedia de cumprir a promessa. Nos encontramos em Ipanema. Chovia forte.

- E agora, seguimos?

- Eu tenho uma teoria (eu sempre tenho uma teoria)... Esse tipo de chuva é só um teste. É pra saber quem vai e quem desiste. Nós devemos seguir, pois na hora H a chuva vai parar. E, quando estivermos no topo, ainda vai abrir um solzinho e teremos uma vista linda lá de cima.

- Eu acho que a natureza está com ciúmes da gente. Ela sente que chegamos muito perto, por isso ela está aplicando o teste de chuva.

Demos risada e seguimos. O tempo, como na minha previsão. A Pedra esvaziada dos turistas barulhentos domingueiros, que foram espantados pela chuva-teste. As nuvens formando um teto sobre nós, sem encobrir nossa vista da cidade. Os morros ao longe de um azul-lilás. Tudo pintado de aquarela.

- Viu, Natureza? Nós não temos medo de você! - minha amiga comemorou.

- Mas também não estamos te desafiando, tá? - completei.

Reconheço seu poder.

Universo é muito meu amigo, isso sim. Ele brinca de me fazer feliz, mesmo que às vezes se vista de São Pedro, para brincar de me contrariar. O equilíbrio, eu sei.

Hoje eu havia combinado de subir a Pedra de novo, com outra amiga. Acordei cedinho, fiz algumas tarefas rotineiras, tomei um banho e resolvi me dar o direito a outro cochilo. Durante o banho eu ficara pensando em algo que eu queria, quero muito, mas que só naquele momento me ocorreu. Levantei com a boa notícia, o desejo que eu havia feito no chuveiro. Então é assim? Eu mal penso e meu desejo cai do céu? Sorri para o Mundo. Obrigada, Universo. Como se fosse um mergulho.

Saí para a rua, a Pedra da Gávea. O tempo chuvoso. Fui pronta para enfrentar outro teste. Tempestade. Insisti e, encharcada, continuei a caminho. Minha amiga mandou mensagem avisando que na Barra também chovia torrencialmente. Vencida, abortei a missão.

Eu, a filha mimada pelo Universo. São Pedro, o contraponto. Entendi tudo.

Volto pra casa e digo a São Pedro: "Você venceu. Mas saiba que vou tomar um banho bem quente e perfumado. E beber chazinho com bolo."

Não posso reclamar. Tudo que eu tenho me caiu dos céus.

Até chuva.


quarta-feira, 28 de março de 2012

O ponto onde as ruas mudam de nome


Estou aprendendo a andar em Niterói. Quer dizer, aprender a andar em Niterói é exagero. Estou aprendendo a andar da Estação das Barcas ao campus onde tenho aulas, no Ingá. Tento dar cada vez menos voltas e perguntar menos vezes o caminho. Quem conhece meu senso de direção sabe que não é tarefa fácil. Às vezes preciso prestar atenção às ruas e placas, eu que ando sempre em outro mundo.

Outro dia parei em um cruzamento, a ler os nomes das ruas. Eram duas ruas que se cruzavam, mas, a partir daquele cruzamento, cada uma tinha um nome diferente. Sorri diante da minha constatação, mesmo que aquilo nada significasse: "Então é aqui! O ponto onde todas as ruas mudam de nome!" Era como se fosse um portal, uma senha, um acesso mágico, sabe-se-lá para onde.

Quando crianças, eu e minha irmã saíamos pelas ruas brincando de, quer dizer, brincando não. Sendo detetives. Com uma lupa em mãos íamos analisando as calçadas, as árvores, os edifícios. E de repente nos detínhamos em um detalhe qualquer e gritávamos, triunfantes: "Olha! Uma pista!" Mesmo sem saber o que buscávamos. E foi assim, com o mesmo triunfo, que anos e anos depois eu encontrei aquela pista: O ponto onde todas as ruas mudam de nome.

Voltando um pouquinho no tempo...

Eu tive um professor, no curso de teatro, chamado Lourival Prudêncio, mais conhecido como Lolô. Nunca esqueço sua primeira aula, em que todos meus colegas chegaram cedinho e puseram-se a falar sobre o novo professor: que ele não permitia atrasos, que era assustador, que a aula era pesada, etc. E eu me lembro de recebê-lo com um misto de excitação e de medo: aquela figura tão ímpar, baixa, morena e muito forte, que ditava suas regras com seu jeito imponente. E eu me lembro tão bem do respeito que, já no primeiro dia, eu passei a lhe devotar, não pela imponência, mas pelo entendimento que se fez em mim sobre a arte de atuar, logo naquela primeira aula.

Lolô nos pedia que ficássemos concentrados em determinada posição, incômoda, mas que não desistíssemos: "Vai dar vontade de coçar, vai dar vontade de sentar, vai dar vontade de mexer. Vai doer. Mas permaneça na posição." E explicava: "O corpo do cidadão procura conforto. Se dá fome, ele come. Se dá cansaço, ele descansa. Se a posição está incômoda, ele se acomoda. O ator é o contrário. O espaço do ator é o espaço do desconforto." E dava vontade de coçar. Dava vontade de sentar. Dava vontade de mexer. Doía. E eu permanecia. Em seguida, quando íamos fazer alguma cena, algo tinha acontecido. Porque a disciplina, o desconforto, a concentração tiravam de mim alguma coisa que eu não conhecia. E que era minha. Esse revirar, desenterrar as camadas.

Arte. Lolô me deu esse entendimento. E, junto com suas aulas, em que eu tanto aprendia, tinha também aquela presença bruta, em que fui descobrindo uma doçura e uma humanidade que pulsavam junto com os tambores, trilha sonora em nossas atividades. Dava vontade de ter um Lolô de bolso. Como um bonequinho exótico para colocar na estante e contemplar. E, de vez em quando, tirar da prateleira e dizer: "Me ensina, Mestre?" Um guia.

Um dia descobri que trouxe, sim, Lolô no bolso. Não só para me guiar na arte, mas também para me guiar na vida. Sempre que eu me cansava, sempre que eu tinha vontade de parar, me vinha à cabeça sua voz: "O espaço do ator é o espaço do desconforto." Ele falava de teatro. Mas eu descobri em minha atriz uma pessoa melhor. E levei a artista para a cidadã. Isso me fez compreender as crises como necessárias. Aceitar os vazios. Suportar as dores. Apaziguar-me diante do não-entendimento. Porque o caminho conhecido só te leva a outro caminho conhecido. E o desconhecido é sempre desconfortável. Eis a chave: o ponto onde todas as ruas mudam de nome.

Por isso, quando o caminho é áspero ou íngreme, eu me digo: continua. Quando me dou conta do cansaço ou da dor, eu repito: continua. Quando tenho medo, permaneço: continua, continua. Levo isso para as pequenas coisas: as formiguinhas e insetos que andam sobre a minha pele, fazendo cócegas, e não expulso mais do corpo. E para as grandes coisas: os abismos emocionais. As portas que passei a abrir e que me levam a estradas desconhecidas. Por essa lição sou profundamente grata ao Mestre, Lolô, meu guia de bolso. Pelo aprendizado do desconforto.

Porque é preciso que as ruas mudem de nome, para que a gente se perca e descubra caminhos inexplorados. As nossas matas fechadas.


sábado, 17 de março de 2012

Uma feijoada


Uma boa feijoada é brilhante e homogênea. Ela deve ter o equilíbrio certo de gordura, para que, apesar de brilhar, as coisas não fiquem separadas, mas se misturem em uma coisa só - assim me explicou um amigo. E era bonito ouvi-lo falar desse prato, porque ele tem esse talento pra misturar comida com metafísica. Então é assim a feijoada perfeita? Soava como o mundo ideal. Nós, com nossos pedaços de carne diferentes, unidos em equilíbrio, em uma coisa só. É esse o mundo com que sonho: uma feijoada.

E nos reunimos em torno dela para celebrar os encontros. Porque dois amigos partiam para um início de vida em nova cidade. E, naquela manhã, a avó de uma grande amiga-irmã partia, também. Mas daquela partida maior. Então segui um dia inteiro em câmera lenta, porque era preciso delicadeza no viver, era preciso falar baixo e respeitar o ritmo das coisas breves, infinitas em sua impermanência.

E, quando o sol se pôs, abri as portas de casa. E as pessoas foram chegando, com suas vozes, suas risadas, sua bebidas. E eu confesso que ainda estava meio tonta, de tanta partida. Ela, uma amiga francesa, que vinha de uma longa busca. E ele, um amigo que dizia que estava resolvendo sua relação com o Rio de Janeiro e que fora eu quem o ensinara a ser mais carioca. Não preciso dizer que minha missão fora tão fracassada, que agora ele partia.

As despedidas nada mais são do que o reconhecimento do encontro. Por isso era preciso que estivéssemos ali, celebrando juntos esse eterno movimento do mundo. E era absolutamente necessário que fosse em torno de uma feijoada. Para que não nos deixemos iludir pelos pedaços de carne e tenhamos sempre essa certeza: somos uma coisa só. Apesar das partidas, ilusórias.

Porque brilhamos.

domingo, 4 de março de 2012

Havaianas


(ao meu irmão grego, no dia de sua partida)

Eu gosto dos seus pés que andam mundo em chinelos de dedo, com essa bandeirinha do Brasil. Eu gosto dos seus pés em havaianas, pés que caminham e não temem os caminhos. Os seus pés que te trouxeram até aqui (e neste momento quase plagio Neruda, mas fazer o quê, se é exatamente isso o que preciso dizer?). E, mesmo que eu te mande pro chuveiro porque seus pés estão imundos, eu gosto dos seus pés empoeirados. Gosto sobretudo da poeira. Gosto de quem se deixa sujar.

Eu gosto quando você fala grego, porque acentua o quanto nós falamos a mesma língua, nesse entendimento, o outro. Gosto do fato de você ter vindo de longe e me guiado por aqui, nas minhas estradas. Dos rituais diários de "bom dia" e "boa noite". O Toddynho, o Guaraná. As caminhadas noturnas do meu açaí e seu cigarro. Eu gosto de ter te encontrado por acaso numa festa, do pinhole e das risadas. Da conversa homérica e abissal assim que nos olhamos novamente. Da identificação inevitável. Do impulso do lançar, escancarar, abrir, viver. E da coragem, da coragem, da coragem.

Gosto de você acampado na minha sala. Do colchão compartilhado com todas as visitas, o colchão mais frequentado no Carnaval. De quando você acordava falando espanhol. De quando você dormia ao computador. Das viagens de metrô em que eu me perdia em meus pensamentos e você sabia que eu pensava em coisas boas e bonitas, porque não conseguia esconder o olhar distante e o sorriso bobo no rosto. E eu te pedia pra parar de ler minha mente. E todas essas coisas que se passavam em mim, a beleza, o amor, o movimento e seu súbito entendimento, tudo isso era mais bonito porque eu tinha um irmão ao lado.

Eu gosto do seu jeito de transitar entre as idades. De como seu rosto, de homem mais velho do que é, subitamente se iluminava e ganhava ares de menino de oito anos de idade, bastava um sorriso com uma encolhida de ombros. Gosto de você em camisa verde-xadrez. De chegar em casa no meio da noite em silêncio, para não atrapalhar seu sono. De quando eu me arrumava para sair e você abria um sorriso que tornava o elogio completamente dispensável.

Eu não gosto de ver a casa agora assim: vazia de você.

Mas gosto de pensar que suas havaianas continuam te (e)levando por aí, nesse mundo de irmãos.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Complexo do Alemão


Parece mais complexo do que é, esta coisa de andar com fé. E é sempre tão simples.

Desde sempre me perguntam: "Você não tem medo?" De subir no muro, de fazer intercâmbio, de mudar de cidade, de viajar sozinha, de ser assaltada, de brincar com onça, de comer na rua.

E, quando respondo que tenho anjos da guarda e que nada de mal me acontece, olham-me com cara de "espere até alguma coisa acontecer com você!" Mas eu não espero, eu continuo me lançando e sorvendo.

Ontem eu e um amigo tiramos o dia para visitar o Complexo do Alemão. Paramos no ponto, na Lapa, e perguntamos que ônibus deveríamos pegar. "Vocês vão ao Complexo do Alemão?!! Não façam isso, lá é muito perigoso!" - as pessoas do ponto se mobilizavam para nos alertar. Entreolhamo-nos e ficamos a esperar o ônibus. Temos isso em comum: os pés descalços e a confiança de que o mundo é nosso semelhante. Por isso fomos.

Descemos em Bonsucesso, onde há um teleférico imenso, inaugurado alguns meses depois da pacificação da favela. A passagem custa um real e o passeio proporciona a emoção de se flutuar sobre aquela infinitude de barracos, com direito a nuvens, mar e Igreja da Penha. Descemos em uma das últimas estações e nos pusemos a caminhar nas ruas estreitas de casas empilhadas, subindo e descendo ladeiras.

Logo no início da caminhada, um garoto começou a nos fazer perguntas, curioso. Daniel, seu nome. Começamos a conversar e, quando vi que ele continuava nos seguindo, nomeei-o nosso guia. Ele aceitou a função, orgulhoso, e disse que nos levaria a conhecer o campo e a árvore. No caminho, parávamos para conversar com as pessoas sentadas nas ruas, que sempre nos sorriam e cumprimentavam. Um senhor me mostrou seu dente, o último que tinha na boca, explicando que às três da tarde Fulana iria à sua casa arrancá-lo. Perguntei se ele tinha medo da dor, ele respondeu que era tranquilo, pois o dente já estava mole mesmo. Dócil como as crianças que trocam a dentição.

E fomos subindo e descendo ladeira, parando de vez em quando para trocar gentilezas com as pessoas que encontrávamos. No nosso cotidiano burguês, usamos o termo "gentileza" para nos referirmos a palavras e gestos elogiosos ou de superficial delicadeza. Naquele contexto, entretanto, ser gentil era uma abertura que... como explicar? Uma alegria do encontro. Um reconhecimento.

A certa altura, Daniel nos apontou uma árvore: um pé de fruta-do-conde. Meus olhos brilharam. Ele foi trepando nos galhos e eu fui atrás. "Essa está boa, Daniel?" "Não, esta está verde." "Mas como faço pra diferenciar?" "Sente o cheiro!" Abrimos uma fruta e compartilhamos, nós três. Daniel mal queria comer, queria subir na árvore e nos presentear com seus frutos doces, doces. "Já chega, a gente nem consegue comer tanto, Daniel, desce daí!"

Então apareceu Dona Rosália, da casa em frente, dizendo que queria tirar foto conosco. Logo estávamos no quintal de sua casa, sendo apresentados a todos os pés de fruta: o limoeiro, o abacateiro, a goiabeira. Sua filha carregava um neném pretinho, de lindos lábios carnudos, que batia palmas e sorria, sempre que cantávamos "parabéns pra você". Sua nora carregava também um bebê, na barriga. "Você está grávida de quanto tempo?" "Três meses." "Já sabe o sexo?" "Acho que é menino, pois ele mexe muito." "E o nome?" "Lucas." "E se for menina?" "Acho que é menino mesmo". Dona Rosália saiu, sob nossos apelos, para comprar guaraná para nos servir. Ela sente falta de São Paulo, onde vive sua família, e diz que voltará, em nome de Jesus. Ela nos mostra sua casinha sem pintura, diz que quer arrumá-la, colocar uma televisão grande e uma mesa em um cômodo em que mal cabe uma pessoa. Mostra o quadro pintado por seu filho, seu retrato dentro da bíblia e leva-nos para apreciar a vista da laje. Diz que faz faxina em casa de madame e em hospital, mas no momento está desempregada. Se eu souber de alguma coisa... Anoto seu número e sigo, seguimos. A essa altura já perdemos nosso guia, Daniel, nesse mundo imenso de ladeiras e barracos.

Mas encontramos duas meninas sorridentes, eu me sento ao lado delas, meu amigo fotografa. "Vai pro jornal? Vai aparecer na tv?" Ficamos conversando, três meninas. "Sua chapinha não sai com esse calor?" "Eu não estou de chapinha, meu cabelo é assim." "Caraaacaaaa!!!!! Olha o cabelo dela!!" Elas fazem uma festa. Justifico explicando que sou chinesa. Por algum motivo, uma delas começa a me contar que lá muitas meninas engravidam cedo: "Tenho uma amiga de 12 anos que teve gêmeos". Pergunto suas idades, uma tem 12, a outra tem 10. Despeço-me dizendo-lhes que não engravidem tão logo.

Encontramos um campinho, onde meu amigo tira os chinelos e se joga a uma partida de pelada, com os moleques, todos igualmente descalços e contentes, indiferentes aos policiais armados da UPP. Muitas escadas. Subidas e descidas, vamos escolhendo os trajetos. Num beco, um grupo de crianças pequenas brincando, os adultos a um canto. Meu amigo começa a fotografar, elas dão risadinhas envergonhadas. Os pais apontam: "Olha, ele está tirando foto do garoto!", orgulhosos. Uma menininha se aproxima de mim. Agacho-me e ela se aproxima muito, quase me abraça. "Ana Clara, seu nome? Que cabelo lindo!" Ela diz que sua tia da creche fez seu penteado. As outras crianças me rodeiam, mexem no meu cabelo e eu peço-lhes que façam um penteado bem bonito. Estamos absorvidos pela presença uns dos outros. Meu amigo me chama para seguir, saio saltitando, acenando com as mãos e gritando "tchau", com a criançada toda saltitando atrás de mim, no mesmo gesto, "tchau!" "tchau!" "tchau!"... Viro-me novamente, agacho-me e abro os braços. E de repente estou rodeada de crianças, em um grande bolo, até desequilibrarmos e cairmos no chão e ficarmos assim deitados dando risada, nessa súbita percepção de quão grandes somos, nós e o universo.

Ali as crianças ainda brincam nas ruas sem medo. Os vizinhos se conhecem e se cuidam reciprocamente. Ali as pessoas têm rosto e nome. São humanas, são gente, são pessoas. E não estão separadas pelo abismo do dinheiro.

Nunca me senti tão em casa no Rio de Janeiro, como nesse lugar a que tantos me aconselharam a não visitar. Nunca me senti tão humana, tão puramente humana, despida dos excessos de identidade que nunca me definiram.

Nunca me senti tão definitivamente inseparável dos outros que também são humanos e tudo e toda essa sopa de mundo que compomos.

Gente não tem que ter medo de gente, confirmei ali, no Complexo do Alemão.

Parece complexo. Mas é tão simples...