segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados. Mas falemos na vida...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Acontece...




Confesso, com alguma vergonha, que caibo em mim. Pequenamente meus sentimentos ocupam o espaço da praticidade cotidiana. Vivo com reservas, economizando nas ilusões, nos amores e no sangue. Caminhando em um ponto limítrofe, do qual eu talvez possa escapar. Mas eu quero a via crucis. Quero uma vida que não caiba na minha vida. Às vezes isso. Mas às vezes só quero ser simples e leve.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Chegada


Entro. Não sei quanto tempo fico. Sei que fico. Sacudo a poeira trazida de outras terras, dos tantos caminhos que percorri para chegar até você. Eu não sabia aonde ia, tantas vezes me perdi. Tateei cegamente até te encontrar. Aqui ergo minha nova morada. Dispo-me das mantas com que outros me aqueceram, arranco os espinhos com que outros me feriram, livro-me dos adornos, dos odores, dos sabores, dos saberes. Para chegar pura e sem medos.

Minto se disser que te reconheci de imediato. Minto se disser que não hesitei entre permanecer e seguir outros rumos. Mas simplesmente me permiti brincar nos seus jardins e, levianamente, infantilmente, fui sendo feliz. Até perceber que não quero ir embora. Não agora, enquanto ainda há tesouros a serem encontrados.

Porque ainda somos tão novos um ao outro, eu me perco continuamente em seus labirintos. Ainda não aprendi a decifrar sua língua, não me ajustei a seu fuso horário. Tropeço em pérolas e também em pedras. E às vezes olho sua paisagem e me pergunto se ela me será hostil ou suave. E por um segundo tenho medo, depois me encho de mais coragem.

Que marcas vocês imprimirá em meu corpo? Com que cores tingirá minha aura? Com que armas me ferirá? Quais serão nossas coincidências? O que me tornarei depois de você? Qual Lian você despertará em mim? De que sonhos você me alimentará? Qual será sua face para mim? Você deixará um rastro suave ou pegadas indeléveis? Ou simplesmente permanecerá? Ou talvez nem exista?

Não temos ainda uma história, temos perguntas e possibilidades. Todas elas. E a história que construiremos se erguerá sobre novas perguntas e nunca sobre respostas, pois duas pessoas nunca se encerram. Que nosso encontro tenha a suavidade de uma tarde de primavera. Que enfrentemos nossas oposições de peito aberto e coração desarmado. Que sejamos adubo para o sonho do outro, nunca castração. Que desbravemos juntos novos horizontes e que você me aponte um novo ângulo e que eu te apresente uma outra visão. E que possamos, sem receio, desnudar nossos segredos, ânsias e defeitos. E que apesar disso e por isso mesmo sejamos ainda mais amados. Por tudo que somos, incluindo aquela parcela de mim que me será sempre inalcançável e aquela de ti que lhe será inatingível.


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Faz pouco tempo postei um texto chamado "Partida", a partir de um meme cuja proposta era escrever uma carta terminando um relacionamento. Gostei tanto da idéia que me propus, agora, o contrário: um texto iniciando um relacionamento...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vida inventada


Fim de semana cultural na casa do Luís Renato. Pintamos quadros baseados em frases de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, escutamos Maria Gadu, demos muitas risadas e conversamos longamente sobre o momento que estamos vivendo. São muitas as coincidências, os caminhos paralelos. A gente se entende se desentendendo e se desentende até pelo olhar. E aí acontece o entendimento, aquele verdadeiro. A gente não faz sentido, por isso ele é meu companheiro. A gente troca textos que nos tocam, mostra um ao outro músicas, pinturas e coisas bonitas. Ele é meu amigo-poesia, com quem o mundo é leve, bonito e não segue a lógica das coisas mundanas. "Que seja doce." E é.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Desabafo

Dias em que minha vontade é ligar no automático. E viver como zumbi. Saber conduzir todas as situações da melhor maneira possível. Sem ter dúvidas sobre o que é o bom, o que é o correto e, sobretudo, sem ferir. Os outros e a mim. Talvez seja excesso de amor esse medo de decepcionar. Amor pelos desconhecidos, pelos pouco conhecidos, pelas promessas, pelas expectativas alheias. Amor a quê? Não sei. Mas só amor tem poder de aprisionar, disso eu sei. Mesmo que ele seja feito de uma agressividade feroz que às vezes se parece com ódio.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Partida



Parto. Dou-o à luz e que ninguém se engane: a dor é minha. Você que estava recluso em minha escuridão. Que se alimentou do meu sangue, dos meus sonhos. Você que era uterino, que era entranhado. Que eu cultivei dentro de mim, fiz crescer. Você que sugou tudo o que eu era e assim me deu um sentido. Contigo cresci nesta gestação. Hoje te abandono ao mundo. Não sem dor.



Peço-lhe que não me peça que fique. Que não me pergunte se ainda há amor. Sempre haverá. O mundo sem você me assusta, pois era você o horizonte que eu seguia. Hoje não tenho rumo e é esse fio de passado que me sustenta enquanto caminho perdida. Com a liberdade das possibilidades e a pobreza dos sentidos. Mas você, que é névoa e vento e orvalho, você me conduz ao avesso. E sigo em frente.


Ter-te amado tanto faz com que eu tema a morte. Aqui nossos caminhos se separam pela eternidade. Nunca mais é grave e arde como um grito não dado. Mas, ah, os caminhos. São tantos os que preciso descobrir, desbravar. Com você entranhado em meu corpo era-me impossível. Amar pesa. Pressinto que sem você eu tropece em muitas pedras, me fira em muitos espinhos. Pressinto que em muitos momentos eu me desesperarei ao me encontrar só e perdida. E que conversarei com você, mesmo em sua ausência. E te contarei meus pensamentos, descobertas e todas as coisinhas cotidianas que sei que você gostaria de ouvir.


E sigo mais corajosa porque coberta com todas as delicadezas com que você me vestiu. O lanche que preparava para eu levar para a aula. A mesa de quebra-cabeças. A atenção sincera dada àqueles que amo. As flores escolhidas a dedo, as flores colhidas em árvores. O poema transcrito em caprichada caligrafia. As palavras cruzadas. A casinha de praia. As tartarugas, os pinguins, os coelhos, os peixes, a cachorrinha bassê, o gato. O mate na jarra. O quadro. Os textos lidos lado a lado. As discussões filosóficas. A comida que eu gosto preparada com carinho, mesmo errando o ponto ou a mão no sal. A cachoeira gelada. O arroz com hortelã que me fez passar mal e estragar a viagem que lhe dera de presente. O colo em que eu dormia 48 horas seguidas nos longos percursos de ônibus. As músicas em que desafinávamos juntos. O jogo de xadrez que eu sempre perdia. Os chuviscos. O cheiro de sal no corpo. As constelações. As noites de despedida em que o mundo podia acabar. As longas cartas. As saídas noturnas para procurar as comidinhas que eu quase gravidamente desejava. Os apelidos diários que inventávamos. O sorvete de creme com nutella.


Sei que tantas vezes faltei com você. E gostaria de lhe ter dado um amor perfeito, mas era eu, imperfeita, com o melhor que soube dar. E meu melhor foi tão pouco e tudo que eu tinha. Sei que meu amor sempre foi uma oscilação entre o querer e o não querer. Sei que a necessidade da sua presença se completava com uma necessidade profunda de saudade e solidão. E que tantas vezes precisei me afastar. E agora ainda mais. E definitivamente. Definitivamente só e saudosa de ti. E por isso te amo mais.


Talvez algum dia nos cruzemos ao acaso. Que não haja mágoas entre nós. Que as doces lembranças superem as vezes em que te feri. Que seja permitido um abraço forte e sincero. Que nos seja permitido sorrir. Que nos seja permitido chorar. E que cada um siga seu caminho sabendo que somos maiores por termos tido o outro em nossa história. E me lembrarei que um dia fui imortal porque te tinha a meu lado. E seguirei. E seguirás. Que sejamos felizes.



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Esse texto é um meme proposto por Isa Sousa. A idéia é escrever um texto como se rompesse com alguém. Regras do meme: 1) Escrever uma carta como se estivesse rompendo com seu namorado. 2) Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme. 3) Indicar cinco pessoas.

Li o texto do Renato Cirino em seu blog e fiquei morrendo de vontade de escrever o meu. Então fiquei super contente de ele ter me indicado. Escrevê-lo foi uma espécie de catarse, deixar fluir o dito e o não-dito ao amor simbólico, esse que é feito dos amores do passado, da experiência presente e da projeção de futuro. Espero que as pessoas que eu indicar também gostem da idéia e se divirtam. São elas: Erika, Alice, Mayara, Doug e Gustavo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Caio em mim

O Pablo era paixão antiga, mas um dia o relembrei de repente e me veio essa vontade súbita de revisitá-lo. De Pablo passei para Affonso. E agora Caio, minha nova paixão. Fecho-me no quarto para ficar, em silêncio, a sós com ele. Caio me entende como ninguém. Ou melhor, Caio me entende como alguém. Como Clarice. Caio me traduz. Ele encontra essa ferocidade em mim, essa ânsia, essa solidão profunda, indevassável. E me reconta com uma aspereza quase suave, que não me assusta. Nos encontramos em emoção ritualística. Tenho vontade de chorar. Acontece quando encontro um dos meus. Grito no silêncio absoluto da reclusão com Caio. Caio em mim. No infinito do meu ínfimo. Caio.... Caio...caio...