terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Complexo do Alemão


Parece mais complexo do que é, esta coisa de andar com fé. E é sempre tão simples.

Desde sempre me perguntam: "Você não tem medo?" De subir no muro, de fazer intercâmbio, de mudar de cidade, de viajar sozinha, de ser assaltada, de brincar com onça, de comer na rua.

E, quando respondo que tenho anjos da guarda e que nada de mal me acontece, olham-me com cara de "espere até alguma coisa acontecer com você!" Mas eu não espero, eu continuo me lançando e sorvendo.

Ontem eu e um amigo tiramos o dia para visitar o Complexo do Alemão. Paramos no ponto, na Lapa, e perguntamos que ônibus deveríamos pegar. "Vocês vão ao Complexo do Alemão?!! Não façam isso, lá é muito perigoso!" - as pessoas do ponto se mobilizavam para nos alertar. Entreolhamo-nos e ficamos a esperar o ônibus. Temos isso em comum: os pés descalços e a confiança de que o mundo é nosso semelhante. Por isso fomos.

Descemos em Bonsucesso, onde há um teleférico imenso, inaugurado alguns meses depois da pacificação da favela. A passagem custa um real e o passeio proporciona a emoção de se flutuar sobre aquela infinitude de barracos, com direito a nuvens, mar e Igreja da Penha. Descemos em uma das últimas estações e nos pusemos a caminhar nas ruas estreitas de casas empilhadas, subindo e descendo ladeiras.

Logo no início da caminhada, um garoto começou a nos fazer perguntas, curioso. Daniel, seu nome. Começamos a conversar e, quando vi que ele continuava nos seguindo, nomeei-o nosso guia. Ele aceitou a função, orgulhoso, e disse que nos levaria a conhecer o campo e a árvore. No caminho, parávamos para conversar com as pessoas sentadas nas ruas, que sempre nos sorriam e cumprimentavam. Um senhor me mostrou seu dente, o último que tinha na boca, explicando que às três da tarde Fulana iria à sua casa arrancá-lo. Perguntei se ele tinha medo da dor, ele respondeu que era tranquilo, pois o dente já estava mole mesmo. Dócil como as crianças que trocam a dentição.

E fomos subindo e descendo ladeira, parando de vez em quando para trocar gentilezas com as pessoas que encontrávamos. No nosso cotidiano burguês, usamos o termo "gentileza" para nos referirmos a palavras e gestos elogiosos ou de superficial delicadeza. Naquele contexto, entretanto, ser gentil era uma abertura que... como explicar? Uma alegria do encontro. Um reconhecimento.

A certa altura, Daniel nos apontou uma árvore: um pé de fruta-do-conde. Meus olhos brilharam. Ele foi trepando nos galhos e eu fui atrás. "Essa está boa, Daniel?" "Não, esta está verde." "Mas como faço pra diferenciar?" "Sente o cheiro!" Abrimos uma fruta e compartilhamos, nós três. Daniel mal queria comer, queria subir na árvore e nos presentear com seus frutos doces, doces. "Já chega, a gente nem consegue comer tanto, Daniel, desce daí!"

Então apareceu Dona Rosália, da casa em frente, dizendo que queria tirar foto conosco. Logo estávamos no quintal de sua casa, sendo apresentados a todos os pés de fruta: o limoeiro, o abacateiro, a goiabeira. Sua filha carregava um neném pretinho, de lindos lábios carnudos, que batia palmas e sorria, sempre que cantávamos "parabéns pra você". Sua nora carregava também um bebê, na barriga. "Você está grávida de quanto tempo?" "Três meses." "Já sabe o sexo?" "Acho que é menino, pois ele mexe muito." "E o nome?" "Lucas." "E se for menina?" "Acho que é menino mesmo". Dona Rosália saiu, sob nossos apelos, para comprar guaraná para nos servir. Ela sente falta de São Paulo, onde vive sua família, e diz que voltará, em nome de Jesus. Ela nos mostra sua casinha sem pintura, diz que quer arrumá-la, colocar uma televisão grande e uma mesa em um cômodo em que mal cabe uma pessoa. Mostra o quadro pintado por seu filho, seu retrato dentro da bíblia e leva-nos para apreciar a vista da laje. Diz que faz faxina em casa de madame e em hospital, mas no momento está desempregada. Se eu souber de alguma coisa... Anoto seu número e sigo, seguimos. A essa altura já perdemos nosso guia, Daniel, nesse mundo imenso de ladeiras e barracos.

Mas encontramos duas meninas sorridentes, eu me sento ao lado delas, meu amigo fotografa. "Vai pro jornal? Vai aparecer na tv?" Ficamos conversando, três meninas. "Sua chapinha não sai com esse calor?" "Eu não estou de chapinha, meu cabelo é assim." "Caraaacaaaa!!!!! Olha o cabelo dela!!" Elas fazem uma festa. Justifico explicando que sou chinesa. Por algum motivo, uma delas começa a me contar que lá muitas meninas engravidam cedo: "Tenho uma amiga de 12 anos que teve gêmeos". Pergunto suas idades, uma tem 12, a outra tem 10. Despeço-me dizendo-lhes que não engravidem tão logo.

Encontramos um campinho, onde meu amigo tira os chinelos e se joga a uma partida de pelada, com os moleques, todos igualmente descalços e contentes, indiferentes aos policiais armados da UPP. Muitas escadas. Subidas e descidas, vamos escolhendo os trajetos. Num beco, um grupo de crianças pequenas brincando, os adultos a um canto. Meu amigo começa a fotografar, elas dão risadinhas envergonhadas. Os pais apontam: "Olha, ele está tirando foto do garoto!", orgulhosos. Uma menininha se aproxima de mim. Agacho-me e ela se aproxima muito, quase me abraça. "Ana Clara, seu nome? Que cabelo lindo!" Ela diz que sua tia da creche fez seu penteado. As outras crianças me rodeiam, mexem no meu cabelo e eu peço-lhes que façam um penteado bem bonito. Estamos absorvidos pela presença uns dos outros. Meu amigo me chama para seguir, saio saltitando, acenando com as mãos e gritando "tchau", com a criançada toda saltitando atrás de mim, no mesmo gesto, "tchau!" "tchau!" "tchau!"... Viro-me novamente, agacho-me e abro os braços. E de repente estou rodeada de crianças, em um grande bolo, até desequilibrarmos e cairmos no chão e ficarmos assim deitados dando risada, nessa súbita percepção de quão grandes somos, nós e o universo.

Ali as crianças ainda brincam nas ruas sem medo. Os vizinhos se conhecem e se cuidam reciprocamente. Ali as pessoas têm rosto e nome. São humanas, são gente, são pessoas. E não estão separadas pelo abismo do dinheiro.

Nunca me senti tão em casa no Rio de Janeiro, como nesse lugar a que tantos me aconselharam a não visitar. Nunca me senti tão humana, tão puramente humana, despida dos excessos de identidade que nunca me definiram.

Nunca me senti tão definitivamente inseparável dos outros que também são humanos e tudo e toda essa sopa de mundo que compomos.

Gente não tem que ter medo de gente, confirmei ali, no Complexo do Alemão.

Parece complexo. Mas é tão simples...


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Vazia

Entre as tantas que gostávamos de pintar, bordar e inventar, um dia resolvemos fazer um quadro de tinta salpicada. Aprendemos a técnica no volume XII do livro "O Mundo das Crianças", que marcou a infância de ambas. Uma das tantas coincidências que nos ligava, além de sermos pó das mesmas estrelas. A técnica consistia em salpicar tinta na tela, utilizando uma escova de dentes e um palito de picolé. Definíamos as figuras com papéis cortados. E ali estávamos nós: meninas de saia feitas da matéria do vazio.

Foi ela quem me explicou o vazio. E, desde então, tem sido muito mais fácil seguir sem susto. E, quando o reconheço e o deixo ser, então ele paradoxalmente deixa de ser. Isso foi ela quem me ensinou. Mas também é ela quem tem as tintas para preencher o espaço em branco de beleza e de sentido. Ela tem esse ponto de interrogação estampado no rosto de criança-filósofa-poeta. Tem a exclamação e as reticências. As palavras e as pausas. Ela é a criança dos "por quês", que não entende por que o mundo é este e não os outros possíveis. Porque vem dela esse senso de justiça e de beleza. Esse questionamento. A indignação. Isso eu admiro profundamente.

"Eu costumava ser mais esperta" - eu às vezes lhe dizia - "mas agora estou convivendo muito com você. A culpa é sua." Ela retrucava: "Ah, Lian, você sempre dá rata, pena que eu nunca consigo me lembrar!"... Sim, eu já fora mais esperta. Eu era esperta de palavras e certezas. Mas com ela aprendi um outro tempo. Aprendi que, quando não estamos completos, podemos ser preenchidos, esvaziados e transformados infinitamente.

É por isso que acredito nela. E, porque acredito nela, acredito em pessoas como ela. E, porque acredito em pessoas como ela, acredito em um outro mundo possível, pulsante, prestes a nascer.

Que lhe sejam dadas as tintas, as escovas de dentes, os palitos de picolé.

Eis alguém que sabe de quantos vazios é feita a matéria do Amor.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um Mágico


Eis que um dia me falaram desse médico: um homeopata mágico. Mágico? É disso que preciso. Lá fui eu marcar consulta. E, quando me perguntavam para que, exatamente, eu ia ao médico, eu respondia que, se ele era mágico, não precisava de uma razão específica, eu apenas lhe pediria que resolvesse todos os meus problemas. Porque na medicina ocidental eu não acredito muito, mas em mágica eu acredito. Cegamente assim.

De preferência que ele tivesse uma grande cartola e tirasse um coelho de dentro. E, se ele me pedisse para levar para casa e cuidar de um coelho branco, então todas as minhas questões seriam magicamente resolvidas. Talvez eu só precisasse de um ser menor e mais frágil para amar incondicionalmente. As outras pessoas que se consultaram com ele saíram grávidas. Pra mim um coelho bastava.

Liguei para sua secretária e consegui consulta para três meses depois, apenas. No dia esperado, agenda em mãos, toquei a campainha. Ela me abriu a porta.

- Oi, marquei consulta com doutor fulano de tal.

- Não. - ela me respondeu secamente.

Essa mulher é louca - pensei - E agora, que devo fazer numa circunstância dessas?

- Marquei sim. - respondi sabiamente.

- Não. Qual seu nome?

- Lian.

- Sua consulta era de manhã.

- Minha consulta é às 16h.

- Eu até te liguei semana passada para confirmar!

- Não interessa, essa consulta está marcada para 16h há três meses!

- Olha, eu vou te mostrar na minha agenda.

- Não, eu vou te mostrar na minha agenda!

E, toda cheia de razão, aponto-lhe minha agenda, na qual está escrito: "10h". Levanto a cabeça, desconsolada, e lhe digo:

- Desculpa, moça. Eu estou louca.

Acho que ela sentiu pena ou medo da minha loucura, pois logo tornou-se dócil:

- Está tudo bem, isso acontece.

Marcamos outra data. Desta vez só para o ano que vem, que já virou o ano de hoje.

Volto de férias um dia antes, resmungando por ter de voltar à cidade maravilhosa, que nessa época nunca me parece tão maravilhosa assim. Pego um ônibus e um táxi, para chegar ao seu novo consultório, no Recreio. Fico hipnotizada por uma escultura em sua mesa: uma mulher sendo puxada de um lado pela figura da morte e de outro por um médico. É meio assustadora a escultura. Procuro o consolo infantil do mágico com cartola, mas não o encontro.

Ele pergunta por que o procurei. Esperança é uma resposta válida? Se eu lhe disser que tenho esperança no mundo e nos homens e que quero que tudo fique bem... será que isso ele pode fazer por mim? Em vez disso, começo a enumerar os problemas de saúde: a rinite alérgica, o cansaço. Ele quer saber quem eu sou. Faz pergunta atrás de pergunta e deve estar confuso com minhas respostas nada objetivas.

- Você é autoritária?

- Olha, o teste do Adorno que a mulherzinha aplicou na aula falava que eu era a pessoa menos autoritária da turma. Mas as pessoas me entendem mal, sabe? Elas pensam que eu sou autoritária porque sou muito seca e direta. Por outro lado, não sou nada autoritária em termos de valores, sou muito relativista...

- Então quer dizer que você manda, mas não suporta ser mandada.

- Hum... é....quer dizer...

- Quais são seus medos?

Como lhe falar da solidão que não tem a ver com falta de companhia, mas com o abismo da incomunicabilidade? Como explicar os abismos?

Fico em silêncio. Ele tenta facilitar:

- Vou te dizer uma lista de medos, aí você me diz se tem algum: Medo de altura? Medo do escuro? Medo de bichos? ...

- Não, não, não e não. É outro o meu medo de escuridão.

Acabo me passando por uma mulher valente, apenas porque meus medos não seguem listas. Mas gosto de espaços abertos, de lugares amplos, de ar fresco, tento acrescentar.

No fim da consulta, ele me receita um papelzinho: argentum titanium. E pede que eu não o aproxime de aparelhos celulares e outras coisas com eletricidade.

- Por quê?

- Porque ele tem energia.

Alguns dias depois, me percebo sem crises alérgicas e enxaquecas. Bendito médico mágico sem cartola, mas com energia!

Então de repente uma tarde de inverno em pleno verão carioca. Porque chove e o céu é de um escuro nublado. E eu percebo que não fui curada da melancolia da tarde sem luz. Tire isso de mim! - eu quero pedir ao médico. Será que eu me esquecera de lhe contar que o que eu mais quero é luz? Que não há nessa tarde fria. E, porque a chuva me prende em casa, sem parques, mares ou bicicleta, eu começo a chover por dentro também. E eu tento conter as lágrimas e me distraio com um livro de Lygia Fagundes Telles na China. Ela do outro lado do mundo, em plena década de sessenta. E eu hoje em casa. E, porque há movimento na cozinha, eu me lembro de repente de alguém que nunca lembro, em uma tarde assim, na cozinha de uma casa em uma cidade qualquer, muitos anos atrás:

- Deixa que eu lavo a louça - eu lhe disse - enquanto você vai arrumar as malas.

Ele me entregou a esponja com um beijo no rosto e disse, como que despercebido:

- Obrigado, linda. Eu te amo.

Pela primeira vez ele falava em amor. E quando meses depois o meu acabou, eu justifiquei contando sobre essa frase que ele nunca me dissera. Ele respondeu:

- Disse sim. Aquela tarde, na cozinha, você deve ter ouvido alguma coisa.

Eu fingira que não, porque cismei que um "eu te amo" dado assim, entre louças e malas, não valia.

Será que algum médico há de curar minha melancolia de chuva? E meu medo do amor, essa escuridão?


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um outro encontro

Ela está encolhida sob o piano. Como um indiozinho, tem o cabelo muito liso cortado em cuia. "É menina ou menino?"- alguns perguntam, quando vêem-na pendurando-se sobre os galhos das árvores ou correndo descalça pela calçada. Hoje sua fragilidade entrega: É menina. Porque sei que tem medo, aproximo-me devagar. É preciso que ela veja que também sou criança, para que ela não fuja. Somos bichos, eu e ela. Piso devagar e cuido para que a respiração quase ofegante saia silenciosa. Basta um gesto mais brusco para que desabemos precipícios de medo. Somos bichos. Arbitrariamente jogadas na selvageria do mundo dos homens. Sento-me ao seu lado:

- Eles não vão te levar - digo, tentando confortá-la.

Ela me olha espantada. Nunca contara seu medo. A ninguém. Seu mundo nunca coubera no mundo dos outros.

-Eles. As pessoas da creche. Eles não vão te levar. - repito.

Seus lábios tremem, como indecisos entre rir ou chorar.

- Pode chorar. Eu também choro.

- Você também? Mas você não é adulta?

Não sei o que responder. Sou?

- Talvez. Mas eu choro.

- Pensei que as pessoas, quando crescessem, aprendessem a controlar o choro.

- Eu também pensei. Mas veja só: não aprendi. E sabe o que mais? Você também não aprenderá.

- Mas, quando eu choro, eu sempre levo bronca.

- Não é você quem está errada.

- Eu sei. Porque não é de propósito. E quanto mais me mandam calar, maior é a força...

- Um dilúvio.

Entreolhamo-nos. A imagem do dilúvio reverberando. Somos pequenas para contê-lo. Precisamos chorar, eu sei.

- É como aquele dia, em que ela partiu.

E, porque falamos a mesma língua de bicho, não é preciso que ela saiba quem sou, ou que entenda. Nós nos entendemos.

- Sim, é como aquele dia. - ela concorda - Eu não conseguia parar de chorar. Foi o dia em que minha mãe foi embora. Ela me explicou que tinha que ir pro Rio de Janeiro fazer doutorado. E disse que vai voltar.

- Mas dói, né?

- Dói. Doía tanto que eu não conseguia dormir sozinha, por isso eu fui pra cama da minha irmã. Mas eu chorava muito, sabe?

O dilúvio, eu pensava. Eu sei.

- Mas acho que meu pai pensou que eu e minha irmã estávamos brigando, porque ele entrou no quarto e me mandou voltar pra minha cama. - ela continuava - Mas eu continuava chorando e continuava doendo. E doía tanto a falta, que era insuportável estar sozinha. Por isso eu voltava sempre pra cama dela.

- E o meu pai, quer dizer, seu pai... sempre te mandava de volta pra sua cama.

- Eu queria explicar que não estávamos brigando, que eu chorava porque estava triste, porque minha mãe tinha ido embora, porque sentia saudades...

- Mas quer saber? Hoje acho que talvez ele soubesse. Quer dizer, não que ele soubesse, mas talvez ele não pensasse que vocês estavam brigando...

- Então por que ele me mandava pra minha cama?

- É que os adultos também são crianças. É que talvez essa dor que era sua também fosse dele. E talvez a única coisa que ele pudesse fazer fosse mandar a dor de fora se calar, ou sair de seu lugar, já que aquela, que era a dele, não obedecia.

- Eu não entendo.

- Nem eu entendo direito. Mas é que a gente pensa que os adultos sempre têm uma razão em suas atitudes. Mas eles são como nós. Eles também não entendem. A falta também dói neles, como dói na gente.

Vejo confusão em seus olhos. Ela tem apenas sete anos de idade. Ela confia que exista uma lógica no mundo dos adultos, tão distante do seu. Mas eu, que estive lá, preciso lhe contar do que vi. Porque ela tem sua lente própria. Porque seu universo tem esperanças e medos e sonhos e monstros e um imenso desamparo. Porque, se ela dissesse temer bicho-papão, qualquer adulto lhe diria que ele não existe. Mas ela não abre, Pandora às avessas. Ela não fala. Ela sobe em árvores e se esconde sob o piano, apenas.

- Lembrei de algo que preciso lhe dizer.

Ela me olha curiosa. Continuo:

- Se você engolir semente de laranja, nada vai lhe acontecer.

- Mas meu pai disse que um pé de laranja iria brotar na minha barriga.

- Era uma piada. Ele não achou que você acreditaria e muito menos que choraria de medo sempre que engolisse uma, imaginando uma laranjeira crescendo em você e explodindo seu cérebro.

Ela que confiava no mundo dos adultos.

Eu estive lá e voltei. Somos tão iguais. Estamos caladas, pensativas, quando ela interrompe o silêncio, retomando nosso primeiro assunto:

- Você disse que eles, as pessoas da creche, não vão me levar.

- É verdade.

- Você tem certeza? Eu acho que eles querem me levar pra morar na creche, já que minha mãe foi embora. Sempre que eles chegam meu pai fica chateado.

- Essa creche não é para você, é para crianças carentes. Eles são da LBV, vêm apenas recolher doações.

- Não são mensalidades?

- Não.

Quisera eu que, vinte e dois anos atrás, alguém tivesse me explicado isso. Pouparia uma infância inteira do constante medo da partida. Vejo o alívio em sua face:

- Ufa! Agora sei que ninguém vai me levar embora daqui...

- A creche não vai te levar embora. Mas eu vou.

Saio puxando-a pela mão. Ela vem sempre comigo. A criança e seu eterno pátio de desamparo e ilusões.



sábado, 14 de janeiro de 2012

Intersecções


Eu confio mais nas pessoas que gostam de crianças e bichos. Eu confio em quem sabe se apequenar, porque quando a gente encolhe em poder, a gente amplia em amor. Não sei de nenhum outro caminho, senão o de ser mais mundo do que gente. Engraçado isso, de ser menos eu para que um outro eu tenha espaço. Esse alargamento.

Eu me quero interseccionada com tudo. Eu quero tudo interseccionado com tudo. É muito? É mundo em estado de amor, apenas.

É que todos somos bons no limite do eu, no limite do igual. O que muda é a margem que define a alteridade. Em "O livro do riso e do esquecimento", a personagem Tamina vai parar em uma terra só de crianças, que, em determinado momento, passam a agredi-la. Kundera explica que essas crianças não são más, pelo contrário, elas sacrificam a mulher, oferecendo seu espetáculo umas às outras, em ato de pura bondade. É Tamina quem está fora do círculo do eu.

Eu acredito na expansão dos círculos de nós, embora às vezes testemunhe circunstâncias que me façam desacreditar de tudo. Eu vi um mendigo apanhando de três policiais, no meio de uma praça cheia de gente. Eu subi no ônibus e não fiz nada, e imagino que ninguém tenha feito. Ele estava fora do círculo de nós, cidadãos. Como também sempre estiveram fora os outros povos, que eram escravizados e dizimados. Como estão fora os animais, que comemos. Eu apostei que em trezentos anos a humanidade será vegetariana, embora eu também não o seja e embora eu nunca conseguirei conferir.

É que eu acredito nesse dia em que... não os bichos terão status de gente, mas a gente terá status de criança, de bicho, de planta, de mundo. Essa fé no amor é meu jeito fanático de ser religiosa, ainda que eu rejeite as instituições.

Eu tinha começado este texto apenas para contar uma história da infância, mas vim divagando até aqui. A minha história tinha a ver com uma menina que conheci há muitos anos e com a fé que ela tinha no mundo dos adultos. Mas, até que tudo se interseccione, já é outra longa história...

Gostemos das crianças, por ora.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Hoje é Natal


Apesar de seu bom português, minha mãe, nas conversas cotidianas, traz um vício de sua língua materna: ela ignora o tempo verbal pretérito e conta todas as histórias no presente. De forma que se misturam os anos, as ações, as gerações. Às vezes a pego contando sobre meu avô, por exemplo, que faleceu quando eu ainda era criança pequena: "O seu avô é muito exagerado. Quando eu falo que quero comer alguma coisa, ele compra uma caixa inteira." Nós a corrigimos: "Ele não compra, mãe, ele comprava. Você fala como se ele ainda estivesse vivo".

Outro dia me ocorreu a dúvida. É que de repente eu percebi que o português errado talvez revelasse uma verdade certa. É que, como numa corda bamba, nós caminhamos sobre esse tempo que inventamos linear e tratamos de dividir em calendários e relógios. E acabamos acreditando nesse mundo, em que deixamos um passado para trás e seguimos em direção ao futuro. E esquecemos que o "eu sou" compreende um eu que fui e um eu que serei, e que separamos por questões metodológicas, já que nos é impossível compreender esse eu que transcende a linguagem.

Porque na verdade meu avô é. Ele faz. Ele compra caixas inteiras de comida. Ele toca piano, tem uma cadeira de balanço e trata bem todos os funcionários. Meu avô tem uma pizzaria com portas que abrem e fecham sozinhas. Eu tenho medo do porão da casa enorme, mesmo que eu não consiga ver esta entre as infinitas faces da esfera. Por isso eu penso que os sustos com as outras crianças no porão são um fragmento separado do que sou. E insisto em localizá-lo atrás de mim, nesta corda bamba que inventamos, frágil que nos é a vida. E assim criamos o finito. Com a necessidade de pontuar isso que parece muito maior do que nós, mas que é nossa medida exata: o tudo. Esquecemos, mas somos que não acaba mais.

Todo ano eu e meus amigos comemoramos juntos o Natal, em uma festa que denominamos (sem criatividade nenhuma, é verdade) de Natal dos Amigos. Por vezes alguém me pergunta por que celebramos o Natal em janeiro, ou fevereiro, ou março. Eu sempre explicava que valia a data em que conseguíamos nos reunir, até me dar conta de que vale qualquer data porque não importa a data. É sempre hoje. Somos sempre Natal.

E eu sou essa conjunção de tudo que vive e morre e por isso vive sempre. E ao mesmo tempo a ilusão de que me encerro no tempo e me encerro em mim. Mas, já que precisamos dos calendários e relógios para administrar as ilusões, também escolhemos um dia no calendário para ritualizar o Amor: esta lembrança de que somos Uno. A comunhão.

Juntemo-nos, pois, à mesa, para celebrar a Vida, que sempre é.

Hoje é Natal.

Que seja.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A um menino de skate

(Da pequena menina balinesa ciclista. Da doce chinesa de olhar distante. Da menina dos sonhos e signos. Da menina das bolinhas. Da menina saída dos filmes de Kar Wai Wong.)


Já havia tempos que o tempo havia me dito sobre as novas trilhas a seguir. Mesmo que vislumbrássemos um no outro as nuvens e pérolas... faltaram as frestas. Eu não encontrei mansidão nas águas para o mergulho, como você não deve ter encontrado as pedras da escalada. Assim é. E, se assim é, assim deve ser.

Foi bonita a estadia mesmo que breve, brevíssima, em Paraisópolis. Foi bonito você ter passado pela vila de skate e ter aberto as portas da muralha que construí. Porque eu saí de lá outra e reaprendi a manejar as entradas e saídas. Aprendi a aceitar invasões, ainda com susto, mas sem as tantas pedras na mão.

Há tempos que o tempo me diz sobre isso: um novo tempo. As portas que você me abriu para que eu saísse assim, desorganizada. É que cada pessoa é um ladrilho, um pedacinho do caminho para nos ajudar a ir não sei aonde. Não sei aonde vou, mas sei que um tempo atrás vim desse susto: você. Um tombo. Um esbarrão entre uma menina descalça e um poeta de skate. Desse breve encontro nasceu uma cidade, Paraisópolis. Nasceram fogueiras e bandeirinhas, talvez porque fosse junho. Talvez porque fosse frio.

Mas talvez nunca é o que é, apenas. E o que é foi um vento descompassado, que assim deveria ser. Porque as minhas pedaladas apressadas te arderam em febre. E a tesoura com que modelei seus cabelos te deu uma face que não era sua. E porque ambos nos alimentamos de uma escuríssima doçura, ou de uma dulcíssima escuridão. E trazemos esse movimento, esse eco do início de tudo. Nós dois conhecemos o abismo e talvez por isso o recuo, um pé que sempre insistiu em fincar-se no chão.

Nisso somos iguais: merecemos que, se nos tocarem, que seja para vibrar. E seguimos em frente quando nossos dedos e nossas cordas deixaram de produzir as ondas que balançam o mundo. Mesmo que em algum canto ainda reverbere aquele momento, lá atrás, em que cantamos em uníssono.

Não nego que coração silenciou um minuto inteiro ao ler suas palavras, que já eram minhas. Recolho o silêncio e sigo as estradas. Desejando que em sua nova escalada haja sempre onde se agarrar. Que ela te eleve. E que você encontre as nuvens, aquelas já conhecidas. Mas já outras.

Te vejo no palco. Te vejo no alto, sempre. Te aplaudo.

Mando um beijo do elefante marinho.