quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Blackout




E foi-se a luz. Pior que a luz indo embora foi o ventilador, reduzindo velocidade até parar. Eu já estava na cama, havia três dias que mal saía da cama, o corpo e a cabeça continuavam doendo. Eu poderia virar para o lado e dormir, não fosse o calor. Olhei para a bateria do computador, já quase no fim. Fechei as outras janelas abertas, para ficar só escutando música, pelo tempo que durasse. Não durou.


Na sala, agitação de vozes. De repente alguém me anuncia que vão descer, procurar algo para comer. Quem? Todos nós. E vai me deixar sozinha no escuro? Era só manha. Não tenho medo de escuro. Quer ir? Não. Preguiça de trocar de roupa. E fiquei no silêncio apenas pensando no que fazer com toda aquela escuridão. Fiz massagem nos dois pés, fiz alongamento, cantei em voz alta, bebi coca cola estirada no sofá. Apenas mais um desaforo pro estômago, que me incomodava havia dias e que havia pouco eu enchera de caldo de feijão. Má idéia. Nauseada, entornei o que sobrara de coca na pia. Olhei pela janela e as únicas luzes que via pela rua eram dos ônibus e automóveis. Estou entediada, quem sabe eu pegue um ônibus. Posso ficar olhando a cidade parada ou simplesmente levar um livro para ler. Lembrei das dores no corpo, da náusea. Outra má idéia, que desta vez reconheci antes de colocar em prática.


Com a fraca luz do celular fui escovar os dentes. No meio da escovação recebo uma mensagem, perguntando se poderia me ligar em casa. Por favor. Atendo ao telefone e a outra voz me alegra. Chegam pessoas em casa falando alto: "É o fim do mundo!" Silêncio, estou ao telefone. Curiosamente as pessoas que entraram não são as mesmas que mais cedo partiram. Mais tarde uma delas dirá que isso tudo parece um quadro ou um filme, não me lembro, surrealista. Estão com fome, não há lugar aberto para comer. Pergunto quem são elas. Justifico que não reconheço no escuro. Em pouco tempo chegam outras pessoas, agora sim, as que partiram mais cedo. Trazem cachorro quente, a única coisa que conseguiram encontrar. Vejo um monte de gente acampada na sala, comendo. Lembro um conto de Caio Fernando Abreu sobre os cachorros loucos.


Queria tomar um banho, mas não consigo no escuro. Tem vela, alguém me informa. Então tomo meu banho e penso que mais tarde, se a energia não voltar e eu não conseguir dormir, ficarei tomando banho. A noite toda, talvez. Penso nas coisas que esqueci de dizer ao telefone, digo por pensamento que descobri vela em casa. Saio do banho, pego papéis, lápis de cor, um livro da Clarice. O fogo me dá esse poder. Mas logo mudo de idéia e decido que quero ser examinada, algo sobre homeopatia. Respondo a muitas perguntas. Se meu temperamento varia? Sim. Se sou autoritária ou submissa? Autoritária ou submissa. Se sou isso ou aquilo? Isso. Isso e aquilo. Isso ou aquilo. Um de cada vez. E recebo em resposta que sou um pouco sulfúrica, mas mais fosfórica. Identifico-me com ambas as descrições. Isso. Isso e aquilo.


Resolvo dormir, sopro a vela sobre a mesa e vou para a cama pensando que nem ao menos perguntei se as pessoas que ficaram na sala precisariam de luz. Que desatenção, penso. A essa altura já dormi. A energia volta no meio da madrugada, tenho a leve percepção da Melissa se levantando para ligar o ventilador. Hoje de manhã ela me pergunta se eu estava dormindo quando a luz voltou ou se eu fiquei mesmo muito contente. Então ela diz que se levantou para apagar as luzes, ligar o ventilador e fechar a porta. Que horas eram? Umas cinco da manhã. Eu estava gargalhando. Não, não me lembro. Mas me lembro de ter acordado com minha própria voz, no meio da madrugada, dizendo alto: Intensidade!


Às vezes acontece...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados. Mas falemos na vida...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Acontece...




Confesso, com alguma vergonha, que caibo em mim. Pequenamente meus sentimentos ocupam o espaço da praticidade cotidiana. Vivo com reservas, economizando nas ilusões, nos amores e no sangue. Caminhando em um ponto limítrofe, do qual eu talvez possa escapar. Mas eu quero a via crucis. Quero uma vida que não caiba na minha vida. Às vezes isso. Mas às vezes só quero ser simples e leve.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Chegada


Entro. Não sei quanto tempo fico. Sei que fico. Sacudo a poeira trazida de outras terras, dos tantos caminhos que percorri para chegar até você. Eu não sabia aonde ia, tantas vezes me perdi. Tateei cegamente até te encontrar. Aqui ergo minha nova morada. Dispo-me das mantas com que outros me aqueceram, arranco os espinhos com que outros me feriram, livro-me dos adornos, dos odores, dos sabores, dos saberes. Para chegar pura e sem medos.

Minto se disser que te reconheci de imediato. Minto se disser que não hesitei entre permanecer e seguir outros rumos. Mas simplesmente me permiti brincar nos seus jardins e, levianamente, infantilmente, fui sendo feliz. Até perceber que não quero ir embora. Não agora, enquanto ainda há tesouros a serem encontrados.

Porque ainda somos tão novos um ao outro, eu me perco continuamente em seus labirintos. Ainda não aprendi a decifrar sua língua, não me ajustei a seu fuso horário. Tropeço em pérolas e também em pedras. E às vezes olho sua paisagem e me pergunto se ela me será hostil ou suave. E por um segundo tenho medo, depois me encho de mais coragem.

Que marcas vocês imprimirá em meu corpo? Com que cores tingirá minha aura? Com que armas me ferirá? Quais serão nossas coincidências? O que me tornarei depois de você? Qual Lian você despertará em mim? De que sonhos você me alimentará? Qual será sua face para mim? Você deixará um rastro suave ou pegadas indeléveis? Ou simplesmente permanecerá? Ou talvez nem exista?

Não temos ainda uma história, temos perguntas e possibilidades. Todas elas. E a história que construiremos se erguerá sobre novas perguntas e nunca sobre respostas, pois duas pessoas nunca se encerram. Que nosso encontro tenha a suavidade de uma tarde de primavera. Que enfrentemos nossas oposições de peito aberto e coração desarmado. Que sejamos adubo para o sonho do outro, nunca castração. Que desbravemos juntos novos horizontes e que você me aponte um novo ângulo e que eu te apresente uma outra visão. E que possamos, sem receio, desnudar nossos segredos, ânsias e defeitos. E que apesar disso e por isso mesmo sejamos ainda mais amados. Por tudo que somos, incluindo aquela parcela de mim que me será sempre inalcançável e aquela de ti que lhe será inatingível.


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Faz pouco tempo postei um texto chamado "Partida", a partir de um meme cuja proposta era escrever uma carta terminando um relacionamento. Gostei tanto da idéia que me propus, agora, o contrário: um texto iniciando um relacionamento...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vida inventada


Fim de semana cultural na casa do Luís Renato. Pintamos quadros baseados em frases de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, escutamos Maria Gadu, demos muitas risadas e conversamos longamente sobre o momento que estamos vivendo. São muitas as coincidências, os caminhos paralelos. A gente se entende se desentendendo e se desentende até pelo olhar. E aí acontece o entendimento, aquele verdadeiro. A gente não faz sentido, por isso ele é meu companheiro. A gente troca textos que nos tocam, mostra um ao outro músicas, pinturas e coisas bonitas. Ele é meu amigo-poesia, com quem o mundo é leve, bonito e não segue a lógica das coisas mundanas. "Que seja doce." E é.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Desabafo

Dias em que minha vontade é ligar no automático. E viver como zumbi. Saber conduzir todas as situações da melhor maneira possível. Sem ter dúvidas sobre o que é o bom, o que é o correto e, sobretudo, sem ferir. Os outros e a mim. Talvez seja excesso de amor esse medo de decepcionar. Amor pelos desconhecidos, pelos pouco conhecidos, pelas promessas, pelas expectativas alheias. Amor a quê? Não sei. Mas só amor tem poder de aprisionar, disso eu sei. Mesmo que ele seja feito de uma agressividade feroz que às vezes se parece com ódio.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Partida



Parto. Dou-o à luz e que ninguém se engane: a dor é minha. Você que estava recluso em minha escuridão. Que se alimentou do meu sangue, dos meus sonhos. Você que era uterino, que era entranhado. Que eu cultivei dentro de mim, fiz crescer. Você que sugou tudo o que eu era e assim me deu um sentido. Contigo cresci nesta gestação. Hoje te abandono ao mundo. Não sem dor.



Peço-lhe que não me peça que fique. Que não me pergunte se ainda há amor. Sempre haverá. O mundo sem você me assusta, pois era você o horizonte que eu seguia. Hoje não tenho rumo e é esse fio de passado que me sustenta enquanto caminho perdida. Com a liberdade das possibilidades e a pobreza dos sentidos. Mas você, que é névoa e vento e orvalho, você me conduz ao avesso. E sigo em frente.


Ter-te amado tanto faz com que eu tema a morte. Aqui nossos caminhos se separam pela eternidade. Nunca mais é grave e arde como um grito não dado. Mas, ah, os caminhos. São tantos os que preciso descobrir, desbravar. Com você entranhado em meu corpo era-me impossível. Amar pesa. Pressinto que sem você eu tropece em muitas pedras, me fira em muitos espinhos. Pressinto que em muitos momentos eu me desesperarei ao me encontrar só e perdida. E que conversarei com você, mesmo em sua ausência. E te contarei meus pensamentos, descobertas e todas as coisinhas cotidianas que sei que você gostaria de ouvir.


E sigo mais corajosa porque coberta com todas as delicadezas com que você me vestiu. O lanche que preparava para eu levar para a aula. A mesa de quebra-cabeças. A atenção sincera dada àqueles que amo. As flores escolhidas a dedo, as flores colhidas em árvores. O poema transcrito em caprichada caligrafia. As palavras cruzadas. A casinha de praia. As tartarugas, os pinguins, os coelhos, os peixes, a cachorrinha bassê, o gato. O mate na jarra. O quadro. Os textos lidos lado a lado. As discussões filosóficas. A comida que eu gosto preparada com carinho, mesmo errando o ponto ou a mão no sal. A cachoeira gelada. O arroz com hortelã que me fez passar mal e estragar a viagem que lhe dera de presente. O colo em que eu dormia 48 horas seguidas nos longos percursos de ônibus. As músicas em que desafinávamos juntos. O jogo de xadrez que eu sempre perdia. Os chuviscos. O cheiro de sal no corpo. As constelações. As noites de despedida em que o mundo podia acabar. As longas cartas. As saídas noturnas para procurar as comidinhas que eu quase gravidamente desejava. Os apelidos diários que inventávamos. O sorvete de creme com nutella.


Sei que tantas vezes faltei com você. E gostaria de lhe ter dado um amor perfeito, mas era eu, imperfeita, com o melhor que soube dar. E meu melhor foi tão pouco e tudo que eu tinha. Sei que meu amor sempre foi uma oscilação entre o querer e o não querer. Sei que a necessidade da sua presença se completava com uma necessidade profunda de saudade e solidão. E que tantas vezes precisei me afastar. E agora ainda mais. E definitivamente. Definitivamente só e saudosa de ti. E por isso te amo mais.


Talvez algum dia nos cruzemos ao acaso. Que não haja mágoas entre nós. Que as doces lembranças superem as vezes em que te feri. Que seja permitido um abraço forte e sincero. Que nos seja permitido sorrir. Que nos seja permitido chorar. E que cada um siga seu caminho sabendo que somos maiores por termos tido o outro em nossa história. E me lembrarei que um dia fui imortal porque te tinha a meu lado. E seguirei. E seguirás. Que sejamos felizes.



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Esse texto é um meme proposto por Isa Sousa. A idéia é escrever um texto como se rompesse com alguém. Regras do meme: 1) Escrever uma carta como se estivesse rompendo com seu namorado. 2) Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme. 3) Indicar cinco pessoas.

Li o texto do Renato Cirino em seu blog e fiquei morrendo de vontade de escrever o meu. Então fiquei super contente de ele ter me indicado. Escrevê-lo foi uma espécie de catarse, deixar fluir o dito e o não-dito ao amor simbólico, esse que é feito dos amores do passado, da experiência presente e da projeção de futuro. Espero que as pessoas que eu indicar também gostem da idéia e se divirtam. São elas: Erika, Alice, Mayara, Doug e Gustavo.