sábado, 17 de março de 2012

Uma feijoada


Uma boa feijoada é brilhante e homogênea. Ela deve ter o equilíbrio certo de gordura, para que, apesar de brilhar, as coisas não fiquem separadas, mas se misturem em uma coisa só - assim me explicou um amigo. E era bonito ouvi-lo falar desse prato, porque ele tem esse talento pra misturar comida com metafísica. Então é assim a feijoada perfeita? Soava como o mundo ideal. Nós, com nossos pedaços de carne diferentes, unidos em equilíbrio, em uma coisa só. É esse o mundo com que sonho: uma feijoada.

E nos reunimos em torno dela para celebrar os encontros. Porque dois amigos partiam para um início de vida em nova cidade. E, naquela manhã, a avó de uma grande amiga-irmã partia, também. Mas daquela partida maior. Então segui um dia inteiro em câmera lenta, porque era preciso delicadeza no viver, era preciso falar baixo e respeitar o ritmo das coisas breves, infinitas em sua impermanência.

E, quando o sol se pôs, abri as portas de casa. E as pessoas foram chegando, com suas vozes, suas risadas, sua bebidas. E eu confesso que ainda estava meio tonta, de tanta partida. Ela, uma amiga francesa, que vinha de uma longa busca. E ele, um amigo que dizia que estava resolvendo sua relação com o Rio de Janeiro e que fora eu quem o ensinara a ser mais carioca. Não preciso dizer que minha missão fora tão fracassada, que agora ele partia.

As despedidas nada mais são do que o reconhecimento do encontro. Por isso era preciso que estivéssemos ali, celebrando juntos esse eterno movimento do mundo. E era absolutamente necessário que fosse em torno de uma feijoada. Para que não nos deixemos iludir pelos pedaços de carne e tenhamos sempre essa certeza: somos uma coisa só. Apesar das partidas, ilusórias.

Porque brilhamos.

7 comentários:

Flavia Dos Prazeres disse...

Repartir eh preciso...

lindas palavras Lian.

Alice in Wonderland disse...

ai, as partidas... como doem. Mas é tão sábio deixar partir e abrir-se para as novas chegadas!!
Lindo, amigaaa! Amei!

Clarice disse...

Feijoada assim descrita, ercada com essa sensibilidade, abre o apetite do espírito, de nossas fontes mais puras.
Partir e chegar são um fio com duas pontas. A gente faz o que quiser com elas. Você fez poesia.

Leilane disse...

Ahh, chorei!!!

Bianca Strambeck disse...

Olá! Amei seu blog, meus parabéns!!! Visitarei sempre :) Um beijo!

Anônimo disse...

Parabéns...bravo.
Como tudo é belo em tuas palavras,
no teu entendimento e sentimento.
Feliz é e será aqueles que compartilhar a vida contigo!
:).
:**

Amanhecer disse...

Como é bom ler suas palavras. Elas traduzem os pensamentos de uma forma leve e concreta ao mesmo tempo.