domingo, 26 de dezembro de 2010

Partida - parte II

Eu hoje saio de tua estrada. Eu que nela entrei quase que por acidente, mas com o planejamento de milênios, pela força dos astros e das marés. Eu que me sujei de teu pó, comi de teus frutos, arranhei-me em teus espinhos. Hoje saio de teu caminho.

Eu que vim de outras terras até te encontrar. Eu que vim por acaso e quase sem procurar. Vim por engano, seguindo um rastro de bicho, um cheiro de flor, uma folha ao léu. Eu que vim perseguindo uma bola de meia, correndo atrás de uma pipa, de um avião de papel. Eu que vim de bobeira, mas predestinada. Eu hoje saio de tua estrada.

Parto sangrando. E talvez seja isso um parto normal. Eu vou para o mundo e vou só, sem meu cordão umbilical. Aprendendo a respirar sozinha, a procurar meu próprio alimento, a caminhar com meus pés. E tão logo parto me vejo adulta e inteira: deixei de ser teu neném. E tenho que encarar meu novo alguém.

Mas não sem antes dizer que explorei teu terreno com a avidez não de quem procura um tesouro, mas de quem o tem em mãos. Provei de todos os frutos, as ervas, as sementes. Provei dos venenos. Cem vezes morri de frio e de calor. Nadei em teu rio, bebi de tu'água. Subi em todas as árvores, caí de algumas delas.

Eu vivi o teu terreno pensando ir embora e, no fundo, desejando ser enterrada ali. Eu temi a força com que tuas águas me puxavam. A mata fechada, a areia movediça e sobretudo a fauna. Quantas vezes fui arranhada pelas garras dos animais selvagens, enquanto suas patas macias me aconchegavam.

Eu criei subterfúgios para sobreviver à tua natureza hostil. Tentei fincar minha bandeira, levantar edifícios, fundar civilizações. E, da minha maneira torta, fui desequilibrando teu ecossistema, quando tudo que queria era plantar sementes.

Hoje parto com os pés descalços e sujos de tua terra. Parto com flores nas mãos, carregando teu perfume. Olho em frente com coragem, sigo alguns passos e, quando sinto o coração parar, paro eu também, hesitante. E me permito olhar pra trás, recuar. E novamente sigo em frente, esquecida de onde venho, afinal. Hoje saio de tua estrada. Hoje morro de parto normal.

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Em agosto de 2009 postei um texto chamado "Partida", como uma brincadeira proposta pelo meu amigo Renato Cirino, a partir de um meme. Em seguida, dando continuidade à brincadeira, escrevi outro texto chamado "Chegada", em outubro do mesmo ano. Mas, como a vida é uma sucessão de chegadas e partidas, parto de novo...

7 comentários:

Maria Cristina disse...

ih..

Erika Lettry disse...

Mas olha, vc partindo ao menos deixa uns textos que são lindos de viver!

no mundo da lu(a) disse...

Você escreve muito bem!
Parabéns.
abraço,
lú.

Daniel Borges disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniel Borges disse...

Lian, parte assim não. Doi!!!

bjus

G£0rgiA disse...

Vc é menininha mas escreve como gente grande! Orgulho da mamãe!

Ark disse...

Nooooossa... que lindo. Mas não parta pra longe não, menina, fica por aqui. Eu sou um estranho, mas teus amigos sentirão muito a tua falta.