domingo, 18 de maio de 2008

Medo antigo


Não é de hoje que os desentendimentos marcam minha vida. Não é de hoje esse medo de perder as pessoas que eu amo e a sensação de eterna partida...


Quando eu era criança, tinha medo de ser levada embora. Medo de ficar longe da minha família, de ficar desamparada. Acho que é o medo primeiro de toda criança. Mas eu tinha motivos. Ou, pelo menos, acreditava neles.


Desde que me entendo por gente, a pessoa "da creche" tocava a campainha de casa. Minha mãe atendia e pagava uma quantia. Era uma doação para a LBV, mas isso eu não entendia.


Um dia minha mãe foi embora. Ela foi fazer seu doutorado no Rio de Janeiro e vinha mensalmente nos visitar. Ficamos em Goiânia com meu pai.


Mas as visitas da "creche" não cessaram. Periodicamente, alguém tocava a campainha e meu pai se aborrecia. Tinha que pagar "a creche". Eu tentava entender do que se tratava. E o modo como as coisas se encaixaram na minha cabeça foi o seguinte:


"Minha mãe foi embora. Eles (nunca tive clareza de quem eram "eles", algo como o "governo" ou um poder superior) não vão nos deixar morar com meu pai. Vão nos levar embora, para a creche. Por isso meu pai tem que pagar uma taxa periodicamente e por isso ele se aborrece, pois não quer que nos levem embora."


A cada visita da "creche", eu me escondia em um canto, pensando que seria desta vez que eles me levariam. Não era. E eu respirava aliviada, mas sempre com medo da próxima vez.


Quando minha mãe voltou a morar em Goiânia, eu já tinha crescido o suficiente para entender que aquela "creche" era a LBV. E que a quantia paga não era nada mais além de doações.


Mas esse medo de ir embora, esse medo de perder as pessoas que amo... nunca passou.

2 comentários:

Cristina Sartori disse...

Lian,

Ê importante falar dos medos. A maioria das pessoas diz que não tem ou tem medo de revelar.
Por sermos mortais, frágeis e adoecíveis, todos temos medo.

Um Abraço

cris.vilaalba@terra.com.br

Taís disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, prima!
RI TANTO QUE CHOREI DESSSE SEU MODO DE INTERPRETAR AS COISAS QUANDO ERA CRIANÇA! VC ME LEMBROU O FANTÁSTICO MUNDO DE BOB QUE PASSAVA NA TV!
ADORO VC QUERIDA! VC NUNCA ESTARÁ SOZINHA!
BEIJOS!