quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Coisas da vida e da morte


Às vezes fico intrigada com a morte. Não o depois, mas o logo antes. Ou melhor, fico intrigada com a vida no quase depois. Aquele último momento e que, portanto, demanda tudo de si, pois já não há disfarces, não há negociações. O que se sente quando se quase morre? O que se quer? Talvez naquele momento se revele o mais verdadeiro de alguém. Já dizia Janis Joplin, não sei se em composição própria ou não, que “liberdade é apenas não ter nada a perder”. Então o estar para morrer é ser livre.

Até hoje tive duas experiências que me trouxeram tais reflexões. Nenhuma com pessoas, ainda bem. Mas quase. Quase pessoas. Um cachorro e um passarinho. O cachorro ficou comigo por dezesseis anos. O passarinho, por um dia. E a relação que tive com ambos foi de amor.

Comecei a pensar nisso por causa do Toquinho, meu cachorro. Eu e minha irmã o ganhamos na infância, e ele foi quase um irmão. Passou por tudo ao nosso lado. Nossa infância, entrada na e saída da adolescência. Nós passamos por tudo com ele. De bebê a velhinho. Atropelamento, parvovirose, surdez, cegueira, problema no coração. E era forte porque amava a vida. Guloso até o fim. Às vezes tínhamos vontade de alimentá-lo sem parar, para ver o quanto ele agüentaria. Nunca tivemos coragem, pois agüentava. Um dia meu pai inventou de comprar um tal de spaguetti vegetal. Parecia um melão, do qual se tirava algo como macarrão. Quando começamos a comer e percebemos que era intragável, lá se foram três pratadas direto para o prato do Toquinho. Este comeu avidamente. Também era generoso. De uma generosidade que pode ir além da humana. Amava sua bola de tênis e morria de ciúmes dela. Mas se recebia em casa visitas caninas ou felinas menores do que ele, cedia tudo, até a bola. Oferecia tudo o que tinha para qualquer animal pequeno que aparecesse.

Mas se o Toquinho me fazia pensar na morte, era porque às vezes passava mal. Engolia tudo o que aparecia em sua frente, então era natural ter suas dores de barriga. Pois tinha. E quando isso acontecia, seu comportamento tornava-se estranho. A solidão ficava insuportável. Sabíamos quando ele não se sentia bem, porque não desgrudava de mim ou de minha irmã um minuto sequer. Seguia-nos pelo apartamento inteiro. Se entrávamos em um cômodo e fechávamos a porta, ele a arranhava desesperadamente. Nada fazia, senão seguir. Seguir e ficar parado, ao nosso lado. Mas sozinho não ficava. Se íamos ao banheiro, lá vinha o Toquinho atrás a nos esperar. Se íamos à cozinha, também.

Eu me questionava a respeito do comportamento do Toquinho, e o pensamento que me ocorria era que, ao passar mal, ele tinha o sentimento instintivo de que poderia morrer. E a última coisa que ele procurava em vida era aquilo: companhia. Simples assim. Verdadeiro assim. Queria estar ao lado de alguém que amava, alguém cuja presença trouxesse um pouco de conforto.

Então ele ficou muito doente. Já era bem velho e havia superado tantas coisas. Dessa vez sentíamos que era pra valer. Teve sucessivas crises, estava fraco. Eu já estava longe, não acompanhei esse período. Mas sei que ele foi internado em uma clínica veterinária. Recebia visitas diárias de minha irmã. Ele na clínica, já por morrer. Um dia minha irmã chegou para visitá-lo. Foi informada pelo veterinário de que ele estava praticamente morto, estava já inconsciente, mas por alguma força seu coração insistia em bater. Minha irmã foi até ele, pegou seu estetoscópio e escutou seu coração batendo. Cada vez mais fraco. Até parar. Esperou ela chegar para parar de bater.

Também teve o passarinho. Minha irmã apareceu em casa com ele dentro de uma caixinha. Se eu lhe pedia para ver o passarinho, ela emendava: “O nome dele é Pardal Bebê”. Como se Pardal Bebê fosse mais nome do que Passarinho. Ela recomendou que eu abrisse a mão, para senti-lo. Tive medo. Nunca tivera algo tão frágil e vivo dentro de minhas mãos. Mas abri. Ele veio de leve e se aconchegou. Cativou-me imediatamente. Não queria ficar na caixinha, deitado no chumaço de algodão que era sua cama improvisada. Queria ficar na mão. Então passei o resto do dia com uma vida, literalmente, em minhas mãos. Estudava virando as páginas com a direita e segurando-o com a esquerda. Dava-lhe mamão e água. E se tentava devolvê-lo à caixinha, ele piava até eu pegá-lo de volta.

No dia seguinte, foi igual. Mas à tarde, quando todos já tinham saído, tive que sair, eu também, para trabalhar. Coisa rápida. Dar uma aula de uma hora e meia e voltar. Deixei o passarinho em sua caixinha, com água e mamão, e fui, com saudades daquele que já estava se tornando um pedacinho de mim, tão grudado estava no meu corpo. Quando voltei, fui direto à caixa do passarinho. Ele estava estabanado, caído. Não conseguia se manter em pé. Coloquei-o na mão. Ele desequilibrava-se. Dei-lhe água e mamão. Ele bebeu e comeu. Depois foi ficando quietinho, quietinho. Morreu ali, em minha mão. Ainda passei vários minutos chamando-o, pedindo-lhe para acordar. Não sabia o que fazer com um passarinho morto na mão. Mas foi assim, como o Toquinho. Não morreu só. Esperou-me voltar para, enfim, deixar-se descansar.

Desconfio que nós, humanos, também tenhamos essa necessidade: morrer ao lado de quem se ama. E, se não queremos morrer sós, é porque também não queremos viver sós. No último minuto de nossas vidas, aquele em que somos mais livres, só podemos desejar o que há de mais verdadeiro, mais significativo. E, se estar ao lado de quem se ama é o mais importante na hora da morte, é porque é também o mais importante da vida.

Essa é a lição que aprendi com meus amigos Toquinho e Passarinho. E sei que, como eles, vou querer estar ao lado daqueles que amo no último minuto da minha vida. Mais: vou querê-los ao meu lado durante todo o percurso, desde agora, desde sempre. Também são lições que aprendi com a morte. Porque a morte nos ensina muito sobre a vida.

5 comentários:

Erika disse...

Meu periquitinho, o Quito, também morreu na minha frente. Brinquei com ele, que estava velhinho, e quando fui devolvê-lo pra gaiola ele simplesmente caiu de lado e morreu. Era tão lindo ele, tinha uma estrela na testa...Vc falando dessas histórias aí me lembrei dele. Beijos!!!

Taís Carolin Seibt disse...

Nossa! Sinceramente, nunca li algo tão lindo, tão puro, tão verdadeiro...me comoveu profundamente!
Também tive um piriquito...ele não vivia só...tinha mais dois com ele na mesma gaiola...
Um dia, percebi que ele estava bastante doente...e respirava com dificuldade e dor...
Não tive tempo de levá-lo ao veterinário...E presenciei uma coisa triste...
Dentro da gaiola havia uma casinha que tínhamos colocado para os periquitos fazerem o seu ninho...
Ele simplesmente entrou no final da tarde...quando eu fui alimentá-los...cantou um pouquinho...colocou a cabecinha de fora da casinha, como se estivésse dizendo Adeus...baixou a cabecinha e ficou quietinho...
Pensei que ele tinha ido dormir...
Antes de ir dormir, fui olhá-los e reparei que os outros dois periquitos estavam em silêncio e acordados...e seus olhinhos miudinhos marejados de lágrimas...e percebi que o branquinho não havia saído da casinha...Peguei a gaiola...e Quando abri a casinha...ele estava lá...morto...senti uma dor enorme de não poder ter feito nada...
Então, no outro dia resolvi que nenhum bichinho morreria preso...E soltei os outros dois...Pois todos nós merecemos viver e morrer em liberdade...
Me senti feliz quando os soltei...mas preocupada com a sobrevivência dos dois...
Mas se morrerem no caminho, pelo menos desfrutaram por algum momento a LIBERDADE!
Beijos!

Lian Tai disse...

Nossa, meninas, assim já podemos publicar um livro só sobre histórias de bichinhos! Bjs!!

Marina disse...

Lian, estou chorando horrores. Nao faca mais isso.

mahh disse...

Ah.. acima nao sou eu tah? Eh outra Marina ;9 eu nao chorei mas tive vontade..