quarta-feira, 5 de junho de 2013

A vila


Moro em uma simpática vila de casinhas coloridas e antigas. Às vezes brinco que pretendo desocupá-la, para ocupá-la só com amigos. Ali formaríamos nossa comunidade, brincaríamos e comeríamos juntos, na rua. Poderíamos pintar o asfalto e encher as calçadas de flores, os postes de bandeirolas. Todo início de ano dizemos que, ao final dos próximos doze meses, nossa meta é de ocupação de quatro casas. Mas até hoje só "temos" mesmo uma, onde moro com mais três amigos.

Mas a verdade é que a vizinhança é, de modo geral, bem simpática. A maioria das casas é composta por famílias que vivem aqui há gerações. No fim da tarde, tem-se a paz de crianças correndo com bolas, bicicletas e velocípedes. Às vezes senhoras nas portas esperando a banda passar. E ela às vezes passa. Em uma noite de poesia e beleza largamos o sarau em casa para fazer serenatas na vila. Havia um violino, um violão, algumas vozes. Andamos de janela em janela, cantando. Desde então alguns vizinhos me perguntam, de vez em quando, sobre a próxima serenata.

Pois há algumas semanas minha irmã veio me visitar, junto com seu namorado. Eles vieram de carro, pois chegavam de Búzios, onde haviam passado alguns dias. Poucas casas da vila têm garagem, o que não tem muita importância, já que todos estacionam nas calçadas em frente às casas. Na minha acontece de ter, mas é ocupada pelas bicicletas, nosso meio de transporte preferido. Muitas vezes um ou outro vizinho estaciona na calçada de nossa casa. Era esse o caso no dia. Por isso minha irmã estacionou na calçada da casa em frente. Os donos saíram para dizer que não estacionassem lá, pois a calçada era deles. Complementaram, dirigindo-se a mim: "Você também pode reclamar quando estacionam em frente à sua casa. A calçada é sua". Limitei-me a dizer que era a primeira vez que tínhamos esse tipo de problema e que isso não me interessava.

A verdade é que não vejo sentido em cada qual resguardar a "sua" calçada. E em seguir essa regra. E em ampliá-la. Por mim, que se misturem os carros e que haja o mínimo deles. Que se misturem as pessoas nas casas. As palavras. A vida em comum.

Que, pelo menos em uma pequena vila de casinhas antigas e coloridas, todos sejam sempre bem-vindos e convidados a entrar.

E que isso seja regra. E que se amplie. No bairro... Na cidade... Até que se eliminem as fronteiras.


4 comentários:

Alice Xavier disse...

Meu sonho morar numa vila assim... e quando for de manhã, a rua esteja coberta de flores... e nos meus ouvidos ainda cante a canção das suas serenatas...
Me chama que eu vou!
Beijo!!!!

Leilane disse...

Logo...!!!

Van Gogh disse...

Que maravilha! ainda há redutos que resistem aos grandes centros urbanos.

Alexandre disse...

Estranho, tenho uma certa simpatia por vilas. Esteticamente falando. Mas não sei bem se gostaria de morar em uma.