sexta-feira, 21 de junho de 2013

Relato de guerra

( relato originalmente postado em rede social em 21/06/13)




Depois de dois dias grudada no computador, lendo e debatendo muito sobre nossos caminhos, ontem acordei buscando movimento. Computador desligado. Era hora de me alimentar de outras energias. Fui à papelaria comprar cartolina e, chegando em casa, espalhei as tintas e pincéis no chão. Isso por si só é alegria. Fiquei pensando no que escrever no cartaz. Pensava em frases das canções do Belchior, que são lindas, atuais e me acessam muito diretamente. Palavras de amor, sentido último e primeiro. Escrevi qualquer coisa assim, frente e verso, mas logo quis comprar outra cartolina. Senti necessidade de ser pontual, para deixar claro qual é minha luta. Afinal, a favor do amor todos somos. Pelo menos em teoria.

Saí de casa com o rosto pintado de índia: outro posicionamento estampado na cara. Quis clareza, desta vez, em meio a esse campo obscuro das lutas. Peguei o metrô com três amigos, que estavam vibrantes por participarem de uma manifestação. Desabafei que não estava na mesma sintonia. Ia. Mas com um frio no peito. Tinha medo. Uma das amigas, sorrindo, disse "eu não". Repliquei que respirara gás - muito gás - no domingo. É. Agora já conheço o medo. Vinagre na mochila, por garantia. Pés no chão. Um deles ainda machucado da manifestação anterior, mas insisti nos chinelos.

Cheguei à Presidente Vargas levantando meu cartaz. De um lado, a obviedade de que o custo do "não-aumento" das passagens tem que ser retirado do lucro das empresas de ônibus. Do outro, a frase "Faça amor, não faça agronegócio", sugestão da minha amiga Júlia. Mal chegamos, me separei do grupo que saiu de casa comigo. Minha energia era outra. E eu me sentia só. Saí andando, cartaz no alto, para que o máximo de pessoas lesse meu recado. Senti que, naquele momento, aquilo valia mais do que gritar os uníssonos.

Assim foi por muito tempo. Um exercício de me posicionar e observar. Depois fui seguindo o fluxo da multidão, andando em direção à Prefeitura. Então a violência. Bombas de gás lacrimogêneo, vinagre e tudo isso que, infelizmente, deixou de ser novidade na minha realidade, embora nunca o fosse, na realidade de tantos outros. Então juntei minha voz às outras para chamar a polícia de covarde e cantar a música dos Titãs. Fora isso, levantava a voz para gritar que as pessoas não corressem, para que elas não se apavorassem, para que não nos pisoteássemos.

Então apareceu um grupo, rosto coberto e aparência de periferia. Quebravam tudo, com chutes, pedras e bombas. Eu só tinha vontade de pedir que não destruíssem o pequeno comércio. O pequeno. A multidão gritava "sem violência", chamando-os de vândalos e bandidos. E eu só me perguntava quem éramos nós para dizer que não quebrassem a cidade, que nunca foi deles. A violência policial, que agora se voltou também a nós, essa sim sempre lhes pertenceu. E fiquei muito triste e também temerosa. Não era um espetáculo bonito. Mas eram os frutos do que sempre plantamos, que, de súbito, se tornavam visíveis, ali, quiséssemos ou não. Uma aula de história que se nos apresentava. Pena que muitos não puderam enxergá-la. "O que a polícia tem usado contra a população são armas de guerra, para serem usadas nas favelas, não na cidade" - me vinha esse texto à cabeça (que agora reproduzi em minhas palavras), que li recentemente e nunca engoli. Então, naquele momento, me senti extremamente confusa. Se, por um lado não os apoiava, quem era eu, ou quem éramos nós, para julgá-los a partir dos critérios de uma sociedade que nunca os enxergou como iguais?

Seguimos. Entramos na Rio Branco. De repente, polícia e "bandidos". Todos soltavam bombas. Os "bandidos" soltavam bombas nas coisas, embora estilhaços tenham alcançado alguns manifestantes. Os policiais atiravam bombas de gás, não para atingir as coisas, mas as pessoas. E a classe média corria, apavorada, cercada por todos os lados. Após pedir várias vezes que não corressem, acabei correndo também. E depois de tentar entrar em várias ruas e ser impedida, voltei pela Rio Branco, cruzei a nuvem de gás na Presidente Vargas e não sabia o que fazer, quando vi um grupo de manifestantes parado em uma esquina. Perguntei aonde eles iam, pois não queria seguir sozinha. Eles disseram que eu me juntasse a eles. Paramos na porta de um hotel, São Francisco, se não me engano. Eles tentavam se comunicar pelo celular, para descobrir se havia por onde sair. Não havia. Pedi ao gerente do hotel que nos deixasse entrar, e a resposta foi negativa. A polícia passava em seus tanques, apontando metralhadoras. Quando jogaram uma bomba de gás bem na nossa frente, o gerente abriu a porta e pediu que entrássemos com calma, um a um, e ficássemos na recepção.

Ali ficamos um tempo. Alice, Leo, Nini e Olívia, o grupo que me protegeu. Sentados no sofá do hotel ainda desolados, diante do sem-sentido que se escancarara aos nossos olhos. Mais tarde o gerente disse que mandara o segurança à esquina e que a rua já estava mais tranquila, pedindo que nos retirássemos. Agradecemos e saímos. Após um tempo conseguimos um ônibus para o Méier. Só queríamos sair dali. Lá, pegamos um taxi para a Tijuca, onde uma das garotas morava, e eu segui nele para casa, dando uma volta grande, já que ouvíramos no rádio que havia confusão na Lapa, e o túnel Santa Bárbara estava fechado também.

Entrei em casa e, para meu alívio, os amigos que haviam saído junto comigo já estavam todos lá. Tentei entrar em contato com a Márcia, amiga que desencontrei. Temi por todos. Os que estavam na manifestação. Mas também por todos nós.

A manifestação de domingo me inaugurou no medo. Mas era tudo mais claro. A de ontem me apavorou. Sim, pela polícia. Mas também por nós, essa massa cuja heterogeneidade a princípio parecia positiva, mas que se mostrava cada vez mais autoritária na exigência ultra ideológica de apagar todas as ideologias. Depois soube dos acontecimentos de São Paulo, o que reforçou minha percepção. E meu medo.

Virei a noite acordada, tentando encontrar algum sentido no que não tem. Lembrei de Walter Benjamin dizendo sobre a incapacidade de os soldados narrarem suas experiências de guerra, simplesmente porque era impossível significar suas experiências. Elas nascem do absurdo. É claro que o que vivi foi em uma escala absolutamente menor. E ainda assim foi absurdo. Fiquei pensando nos discursos tão repetidos nas manifestações, sobre impeachment da presidente. Li muito. Fiquei juntando os cacos. Tive medo de estar dando volume a uma manifestação que começou bonita a partir de um movimento político (não se enganem, tudo é político, inclusive sua negação) e que ganhou uma cara que não é minha. Que é o meu oposto. E penso que as pessoas não percebem o quanto essa manifestação que pede desenfreadamente a saída da presidente, atribuindo a ela responsabilidades que nem são de sua competência, é perigosa. Que dá abertura a golpes. Militares, inclusive. E que isso não é improvável, porque uma parte muito grande dessa massa que vai às ruas é conservadoríssima. Estamos em um momento da história que parece se repetir. Algo que não vivemos, mas nossos pais sim.

É preciso cuidado. O momento é delicado.

E, assim, me retiro das manifestações.


PS:  E depois desse relato longuíssimo esqueci um detalhe importante: ontem de madrugada, desabafando com minha amiga Joyce, ela me falou que mora muito mais perto dos morros do que eu. Conhece as pessoas de lá. E que esses que quebraram tudo são DIFERENTES. Fisicamente diferentes, ela disse. Opa. Tem uma peça aí que se encaixa com uma desconfiança nossa.

4 comentários:

Van Gogh disse...

"Vou-me..
entrego as armas,
as coloco no chão.
Faço as malas,
entro no prumo...
Rendo-me ao descontrole,
aquele que certamente me salvará.
Deixo neste instante a mentira de que sou...
algo que nem sei o que é.
Minha identidade já perdi nem sei quantas vezes...
no correio não está.
Vou-me,
sair dos becos escuros,
lá não eu não quero mais flanar
Se alguém ainda acredita,
com isso não posso importar.
Vou buscar tudo o que me foi dado,
e que eu não pude cuidar
assim minhas digitais
finalmente encontrar!"

Van Gogh disse...

Se esses que estão no poder e os que o almejam tivessem um milésimo de sua dignidade! Talvez assim pudéssemos ter uma pontinha de esperança!

Frida Ryvera disse...

Adorei seu blog.
Você foi pra rua e fez sua parte para mudar a história desse país.São pessoas como você o que o país precisa.

Anônimo disse...

Olá Lilian
Vivo em Lisboa e acompanho diáriamente os relatos que nos chegam pelos media, è absolutamente estrondoso o que se passa no Brasil, o que se passa no mundo.
Por todo o lado ouvimos guerras e guerrinhas e nada de concreto se faz, nada de útil floresce dessas guerras. Geram-se conflitos pela religião, pelas terras, pela vida.
Por Portugal também temos feito algumas manifestações, todas pacificas até agora (que assim continue) no entanto apenas serve para demonstrar aos nossos governantes a nossa insatisfação o nosso descontentamento em relação à gestão do nosso Portugal.
Gostei muito do seu texto, demostra uma revolta pela paz que tanto queremos.
Anabela Alves