sábado, 30 de abril de 2011

"E agora, José?"



As férias que eu esperava foram atropeladas por uma avalanche de rotina: compromissos diários que não me permitiram acordar tarde ou passar o dia vagabundeando, como eu planejara para a vida pós-formada. E isso foi bom, pois, tirando o mal-estar físico, não senti a ressaca de quem é jogada ao mundo após a festa. Então é essa a nova rotina? Eu gostei. Ainda sonho que estou chegando atrasada para o último dia de peça, é verdade. Mas também sonho que estou voltando a pedalar e penso que é meu corpo pedindo por essa nova organização. Eu vou em frente e estão tão abertos os caminhos que me torno nostálgica do presente. Acho a vida incrivelmente linda e tenho saudades já no momento em que vivo. Reencontro pessoas antigas, abro-me para novas e velhas. E de repente. Veio. Entro no cinema porque o dia está fresco e amplo, então não quero que ele termine. Mas as próximas páginas estão aí, em branco...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

... nem sei mais quando tudo começou

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"Muitas coisas têm que acontecer para que duas pessoas se encontrem."

Muitas tiveram que acontecer para que tantas se encontrassem. Cada um de um lugar do país, com suas motivações, seus desejos, sua história. Já dizia Vinícius que a vida é a arte do encontro. Pois nos reunimos para fazer arte e, mais do que isso, para fazer vida. Fomos colidindo partículas, gerando e reverberando reações. Caímos no chão de rir, sufocamos de chorar, quebramos tabus, vibramos pelas conquistas individuais e coletivas, nos amamos e nos odiamos e nos reamamos e nos desarmamos. Nesta Babel, procuramos aproximar as línguas e as compreensões. Envelhecíamos à medida que nos tornávamos crianças. Vivemos tudo curiosamente, com intensidade e violência. E, no fim desses três anos, de repente nos damos conta: "Então era amor? Então isso, também, era amor?"

Hoje sei que saio outra, porque transformada por cada um com quem cruzei neste breve, mas infinito caminho. Saio carregada de sotaques, de sonhos, de trocas. Saio com várias camadas expostas, a maioria delas outrora desconhecida até para mim. Tocada por cada mestre, cada um deles com uma lição inesquecível. Venho saída de uma viagem pelo tempo dos Conways, o desagradável de Nelson, o país das maravilhas, os bardos da morte, a aridez de Lorca. E, fechando com chave de ouro, saio hoje desse mundo da incomunicabilidade e dos encontros, em que todos estamos conectados. Mas saio mesmo?

Não sei dizer o quanto sou grata a todas essas pessoas que me cercaram nesse tempo. O quanto sou grata a esse tempo. Aos aprendizados. Às personagens com que fui presenteada. E hoje, em especial, ao Marcelo Mello e à Duda Maia, pelo que fizeram da Mey e pelo que fizeram da Lian.

Quando eu fazia aula no Instituto de Música, aos seis anos de idade, tivemos uma professora que veio de São Paulo especialmente para nos preparar para a apresentação de final de ano. Ela ficou um mês nos ensinando músicas e ensaiando com a gente. Depois da última apresentação, fomos para casa, minha irmã se deitou na cama e chorou como um bebê. Ela ficou uma semana deprimida por causa da tal professora. E hoje, depois de duas décadas, pela primeira vez eu compreendo esse sentimento.

Estou vazia. Mas é um vazio preenchido de amor, de gratidão e de saudades. Nem sei mais quando tudo começou.

domingo, 17 de abril de 2011

Efêmero

Eu queria saber se é normal sentir essa tristeza sempre que estou muito feliz. Se é normal querer chorar quando o dia está bonito ou quando o céu fica vermelho. Eu sinto a passagem do tempo e a passagem das coisas. E preciso ser nada menos do que infinita, para conter tudo que não me basta. Eu tenho medo do futuro, não por temer o sofrimento. Eu tenho medo de tudo lindo que me virá, porque isso também passa. E são os dias infinitos os que mais me doem, porque não cabem. Eu quero conter todos os efêmeros em um só dia e viver sua eterna repetição. Mas posso viver tudo e todos e sempre?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Humano, demasiado humano"


Hoje pela segunda vez na minha vida de Rio de Janeiro fui abordada por brasileiros falando chinês comigo. Eles se aproximaram doces e sorridentes e, a princípio, fingi não entender a língua para que eles não me aborrecessem. Mas, como eram muito educados, acabei parando para dar atenção. Eram, como da primeira vez, testemunhas de jeová. Aprendem mandarim apenas para converterem pessoas da etnia, nunca entendi o porquê. Entregaram-me um panfleto em chinês e outro em português. Os dois foram direto para o lixo.

Tive essa experiência alguns anos antes. Uma garota bonita e simpática se aproximou de mim, me entregou um panfleto em chinês, que não entendi nada, até me convidou para uma aula de mandarim. A pronúncia dela era melhor do que a minha, e ela era brasileiríssima. Achei interessante. Depois ela apareceu no pensionato onde eu morava na época, acompanhada da irmã dela, e me entregou um outro panfleto, desta vez em português. Quando li aquilo, fiquei horrorizada. O panfleto criticava as "falsas religiões", apontando-as como tolerantes com uma porção de coisas, incluindo o "sexo imoral", como o homossexualismo.

À medida que os anos passam, cada vez me vejo mais religiosa sem religião. Vejo mais valor no sentido do sagrado, da religiosidade que não é institucionalizada, preenchida de regras e, principalmente, de proibições. Tenho em mim essa necessidade de comunhão, de pertencimento ao universo que sou eu, que é Uno, que são todos. E que se realiza na trindade: Religiosidade, Arte, Amor. Esse é meu deus, que não tem desejos, pecados, castigos, regras. Que não aponta caminhos, que não pune, que não se vinga, que não condena.

Nesse deus demasiado humano, eu me recuso a acreditar. Deus não exclui.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mendigos e cães

Não costumo dar esmolas. Mas confesso que, sempre que vejo um mendigo com um cachorro, fico tentada a dar. Divirto-me ao ver cachorrinhos equilibrando-se em carrinhos cheios de papelão e sucata. Comovo-me ao presenciar o compartilhamento de calor e de comida. Gosto quando um ser cuida de outro ser. Dessa consciência tão simples e profundamente humana e canina de que precisamos uns dos outros. Os mendigos sabem disso. Os cães também.

domingo, 10 de abril de 2011

Meu reino


Durmo com desejo de petit gateau e acordo sonhando com uma mandala na parede. E lá vou eu pegar escada, tintas e pincéis. Saio para comprar um mural e cabides e volto com a carteira de motorista, que havia perdido semanas atrás. Pinto uma citação do Caio Fernando Abreu e subitamente ela me salta aos olhos como uma inscrição de Igreja Universal: "O Senhor é meu pastor. E nada me faltará." Aceito a semelhança e a sacralidade deste espaço que agora é meu, tão meu que povoado por tantas pessoas que amo. A foto da família, o porta-retrato das menininhas de saia, a página de gibi-imã (eu nunca ganhei um elefante na vida), o quadro pintado com o amigo, a caixa personalizada, a caixa de presente, a tamanduinha-pelúcia, a esteira que virou tapete. E dou meu colorido a este novo lar, enquanto prenuncio novas cores na alma e na vida. Que seja doce. Amém.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Previsões para o futuro


- Daqui a 10 anos não existirá mais cinema com filme em 3D:

É simples. O 3D só tem graça enquanto efeito, ele não só não ajuda na imersão na história, pelo contrário, ele chama a atenção é para a tecnologia. Assim, tão logo ele deixe de ser novidade, as pessoas vão querer assistir aos filmes em 2D mesmo.

- Daqui a 300 anos o mundo será vegetariano:

Não sou, mas acredito em minha previsão. O que vemos como crueldade depende daquele que vemos como igual. De forma que aquele que está além da fronteira do que nos define pode ser destruído sem que nos perturbemos. Houve a época em que pessoas de outras etnias eram escravizadas sem grandes escândalos, pois não eram consideradas "pessoas". Pois eu acredito que um dia os outros animais serão considerados nossos iguais. E aí será chocante lembrar que um dia os armazenávamos em açougues e os comíamos. Serão lembranças de um tempo de selvageria.