terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Faxina - parte II

Depois de dispensar sacos e sacos de lixo, imaginei que finalmente tivesse me livrado das tantas tranqueiras depositadas em meu quarto. A verdade é que tenho um talento especial para o acúmulo. Mania de querer guardar a vida toda no presente e de encontrar um valor sentimental em cada objeto. Quando comecei a morar no Rio, meu quarto era vazio. Rapidamente ele se encheu de coisas que não sei de onde vieram. A Marina, ao me visitar no ano passado, ficou escandalizada com minha bagunça: coisas nos dois armários, na estante, nas mesas, gavetas, na cama que outrora fora da Érika, no chão. Mas logo ela aprendeu a se divertir com meu caos particular, revirando meu quarto e encontrando coisas que ela pudesse aproveitar. Agora tenho dois quartos superlotados: o do Rio e o de Goiânia. Divido-me. A cada cd ou livro que resolvo levar para o Rio, me dói um pouquinho. Ainda não me acostumei com a idéia de estar saindo de casa.

Enfim, pensei que me livrara do excesso armazenado em meu quarto de Goiânia, quando dei por falta de um texto, um artigo científico fictício que escrevi há alguns anos, sobre a Teoria dos Alimentos de Júlia Lemos. Então resolvi abrir a parte de cima do armário, que passara ignorada na minha faxina. Para minha surpresa, havia ali montes e montes de cadernos antigos, pastas lotadas de papéis, folhas soltas, textos, poeira. Ao encontrar aquela bagunça tão bem escondida, fiquei feliz. Ainda há bagunça em meu quarto! E percebi que não quero me higienizar e me organizar. Não quero ser sempre previsível e encontrável. Quero esse monte de papéis amontoados e, sobretudo, quero neles encontrar, um dia, uma linha que me emocione. Quero, com um susto, encontrar meus pedaços em meio a esse ser caótico que sou.

Um comentário:

Alice disse...

Que interessante Lian. Eu adoro jogar as coisas fora, depois de ter guardado tanto a minha vida toda. Chegou um tempo em que eu parei de guardar e começei a queimar, literalmente. Mas acho que não dá pra ser tão radical. Tem coisas que a gente arruma, outras que devem ir pro lixo mesmo. Algumas coisas acham gaveta, canto certo, mas outras certamente devem ficar amontoadas, como você disse, esquecidas, pra de repente, num breve encontro, uma bela surpresa.
Bjo pra você e obrigada pelo carinho de sempre!!!!