sexta-feira, 7 de março de 2014

O Carnaval da Comlurb



Saímos da manifestação dos garis e nos sentamos para almoçar. A Tathiana, que é essa amiga querida que vibrou comigo e cantou comigo e lutou ao meu lado, perguntou, quase afirmando:

- É claro que você vai escrever sobre hoje, né?

- É... Talvez...

Eu não sabia. Como poderia escrever sobre tanto, se pra falar do dia de hoje eu teria que falar sobre Carnaval e sobre opressão e sobre a minha infância.. e depois cada fio que puxava outro fio, o que tornava quase impossível a concatenação de palavras coesas. É que, de tanto a ser dito, aquilo tudo se misturava em um todo inefável, que eu poderia chamar de minha vida ou de nossa vida ou de história do mundo. Parecia grande assim.

O fato é que eu ainda vestia aquela camisa alaranjada: o uniforme da Comlurb que um gari tirou do corpo e me ofereceu de presente:

- É seu.

- Tem certeza?

E me curvei um monte de vezes e agradeci, com a mão no coração e a emoção à flor da pele.

Vesti a camisa. Mas o engraçado era que, mesmo uniformizada como eles, havia algo em minha testa, ou em meu corpo, ou em minha cor, não sei bem, que denunciava que eu não era um deles. Uma coisa de classe média que se entrega e me fazia tão facilmente reconhecível ou distinguível ali no meio. Eles passavam e agradeciam o apoio, brincando e rindo, que é esse jeito de ser alegre apesar de.

Eram quase todos pretos. E estavam indignados, mas batucavam, pois desse sangue é feito o samba. Aprendiam ali, naquele momento, a serem visíveis. Um deles me explicou:

- Nós finalmente nos unimos para lutar pelos nossos direitos. Foi por causa das manifestações do ano passado, que a gente viu que era possível.

As manifestações do ano passado. Que bonito vê-las reverberarem logo assim.

Quando saí de casa pela manhã, eu temia e esperava por violência policial. Por isso fui, também. Para não deixar só uma classe que já é diariamente oprimida. Mas, em vez de violência, houve Carnaval. Mais até do que aquele que mal acabara na quarta-feira de cinzas.

Foi na terça à noite, na verdade, que eu me dei conta de que o Carnaval terminara. Era o Aterro do Flamengo e era a Orquestra Voadora. Um momento olhei pros lados e me ocorreu: "isso não é Carnaval, é balada". E fui embora.

Carnaval, para mim, é quando as pessoas brincam e se falam e se olham sem medo. Balada é uma aproximação mais agressiva, é uma coisa de querer "pegar", beijar, sexualizar. Não tem enxerga, mas desejo cego. É essa coisa de querer. E eu que não suporto que queiram nada de mim...

Gosto de Carnaval pela energia de sermos um e de estarmos juntos. Hoje, na manifestação dos garis, éramos assim: juntos. E gritávamos palavras de ordem, batucávamos, cantávamos.

Uníamos o que fora segregado tempos atrás, por uma estrutura que nos foge. Vem de muito antes, mas, no tempo de mim, volto à infância. Lá, quando corríamos atrás do caminhão do lixo, gritando: "Lixeiro! Lixeiro!" Até que eles nos perseguissem e fugíssemos para a proteção do prédio. Eu era muito pequena e acho que acreditava que, se eles nos pegassem, levariam-nos embora em seu caminhão. E não consigo me lembrar se era apenas uma brincadeira ou se tinha um julgamento de valor. Mas sei que mais tarde tinha, quando eu, já maior, estudava em uma escola burguesa e católica. Tínhamos olimpíadas anuais entre as turmas. Cada uma delas vestia uma camisa de cor diferente, para que diferenciássemos as equipes. Havia sempre algum time de uniforme alaranjado. E nosso modo de ofendê-los era gritando: "Gari! Gari!" Como se fosse algo menor. Ou como se equivalessem, eles próprios, ao lixo.

Que nós jogamos, diga-se de passagem.

Então hoje, enquanto cantava com eles, me ocorria tudo isso: palavras como dignidade, igualdade social, humanidade. E eu vestia a camisa deles e, embora permanecesse do outro lado da fronteira, aquela da visibilidade, eu tentava me redimir. E ser humana, apenas.

E eis que é Carnaval.


3 comentários:

Leilane disse...

Agora sim me deu vontade de estar aí!

Rayanne Santos disse...

Lindo blog!! AMEI..
Participa de volta?

http://meunovodiariodeumameninacomplicada.blogspot.com.br/

Anônimo disse...

Acompanho seu blog. Não a conheço, mas me identifico muito com o que escreve. E desta vez, vc foi no ponto!

Certa vez eu disse a um amigo: próxima encarnação quero nascer homem! Lógico que eu estava no auge do cansaço. Pq é isso. Ser mulher é muito difícil e só outras mulheres entendem. Cansa mesmo.

Ao contrario de vc, sou muito aberta, muito espontânea e é dureza conviver com pessoas que confundem educação e simpatia com "receptividade". Uma vez escutei essa de um cara, que era legal, até que "partiu pra cima de mim" e na minha recusa (atônita), ele "mas vc estava tão receptiva!", isso pq eu sorrio e converso.

Resultado: depois de tantas "fugas", hoje, balzaquiana, aprendi que os dentes só podem ser mostrados em "ambientes confiáveis".

Tudo muito triste.

Bom caminho!
Anna