terça-feira, 10 de setembro de 2013

Devaneios de um domingo de sol



Um dia, depois de longos dias de chuva, nós amanheceremos juntos e haverá sol. Então nós desceremos da arca e sairemos a andar de mãos dadas. Aonde vamos? A andar. Pelas ruas haverá pés de pitanga e de amora. E nós subiremos nas árvores como fazíamos quando éramos crianças e sabíamos que o mundo nos oferta tudo, e que amora é amor, sim. Vou contar pro seu pai que você namora. Pequenas bobagens. A gente se lembrará de tudo, da sua infância e da minha, porque será como se a gente se conhecesse desde sempre. E você dirá que eu te empurro da cama, e eu explicarei que apenas tentava me fundir a você, e que, se você não chegar pro lado e deixar que eu te aperte, quem sabe não voltemos a ser uma coisa só. E a gente correrá pelas praças, dando risada dos cachorros, porque eles são engraçados e doces e desajeitados. E eu vou querer subir na maior árvore que aparecer em meu caminho. E reclamarei do dedo fraturado, que me impede de utilizar os pés como garras. E você me dará bronca por não ter procurado um médico por mais de dois meses e dirá que eu preciso aprender a me cuidar e deixar de ser durona. E todo mundo saberá que sou durona, mas só você saberá que eu me quebro como vidro, e dos dias que levam para que eu recolha os pedaços. E vai ser reconfortante e assustador que alguém saiba dos meus segredos mais recônditos. Então a gente entrará em um museu qualquer e dirá que aquele é o museu mais interessante que existe, porque fala de nós. E a gente trocará olhares de espanto e nos perderemos entre corredores infinitos. Então eu entrarei sozinha em uma sala escura e, quando sair, já não te encontrarei. E eu andarei pelos corredores que subitamente se tornarão vazios. E chegarei a um ambiente de esculturas religiosas antigas e eu terei medo de me encontrar no meio de tantos cristos crucificados sangrando. Eu sempre tive medo desse universo de dor. E sairei apressada e perdida dentro de um museu estranho. E, até te encontrar novamente e correr para os seus braços, eu terei medo.

Terei medo de que tudo aquilo tenha sido apenas um sonho, e que eu seja mesmo sozinha como sempre fui, em um corredor qualquer, e que o mundo continue sendo o mesmo.

O mesmo mundo de antes de você.

8 comentários:

Julia Lemos disse...

Lindo e doído. Bem doído.

Van Gogh disse...

Tenho a impressão de já ter lido este texto. Ou será que estou enganado?

Giordano Maçaranduba disse...

sunForte e real! Bastante real! Uma realidade lúdica, mas a percepção mais verossímil desse mundo de sensações e não das coisas-em-si as quais perdemos o acesso! Talvez só ludicamente possamos voltar a ter acesso a realidade!

Van Gogh disse...

Bem, Lian, não me lembro exatamente a impressão que o texto causou-me quando o li pela primeira vez. Ao reler, uma pausa se fez, me deixei levar. E sem que eu pudesse analisá-lo, fui tomado por uma agradável emoção.

http://www.youtube.com/watch?v=UgBpgwGEPpI

Suzi disse...

Um dia... de tanto sonhar com a vida que nos espera, viveremos os sonhos que temos...

Vanessa Viéu disse...

Seu blog é repleto de sentimento, gostei tanto que serei visitante assídua!
Adoraria que também pudesse visitar o meu.
Bom resto de semana!

Clarice disse...

Vive l'amour!
Aquele que cutuca, que transforma, que busca cheiros e cores já vistos e visitados. Aquele que dá voltas e nos muda para aquilo que sempre fomos.

Lindo! A foto é genial!
Abraço.

Daniel Gnattali disse...

Sempre lendo, sempre lindo, sempre linda.