segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vila da Alegria



Eu já evitava tomar remédios alopáticos por tudo nesse mundo. Mas aí, depois de passar mais de um mês respirando mal e acabar com febre alta no hospital, achei que seria sensato obedecer à médica.

- Mas... por que você me receitou antibiótico?

- É que seu quadro de sinusite já está muito avançado e...

Ainda tentei uma segunda opinião:

- Você acha que tenho mesmo que tomar esses antibióticos que a médica receitou?

- Lian!

Acabei tomando. E antibiótico, uma vez que você começa, tem que tomar até o fim. Programei o alarme do meu despertador para tocar no horário certo, três vezes ao dia. Mantenho ao lado da cama uma fruta para forrar o estômago. Mas ainda assim. Me sinto envenenada. O estômago que dói. Uma tontura que não passa nunca e faz com que eu sinta que corpo e alma estão desconectados. Então eu fico com raiva de ter começado a tomá-los. E sinto que não consigo me concentrar em nada e que tem uma nuvem dentro da minha cabeça e que tudo me parece alheio e que o mundo está muito barulhento.

Então eu tinha acabado de tomar meu mate com pão de queijo e broinhas de milho, como faço todas as manhãs. E voltava para casa entre apressada e furiosa. A comida que não queria parar no corpo. Eu doida por um repouso, para que o estômago se acalmasse e aceitasse o alimento que ali estava. E, se fosse para sair, que ao menos não fosse no meio da rua.

Ao chegar na vila, encontrei Dona Nazaré. Tenho que explicar que, não importa quão apressada ou furiosa você esteja, ao encontrá-la é preciso parar. Dona Nazaré é de outro tempo: do tempo em que se tinha tempo e que as pessoas se falavam e passavam horas na porta de casa vendo a vida passar. Dona Nazaré é do tempo em que se faziam serenatas na janela, e, não por acaso, foi assim que travamos contato. Estávamos tocando e cantando em casa, quando alguém resolveu que deveríamos andar pela vila. Fomos espalhando música de janela em janela. Quando chegamos na casinha amarela, um moço falou: "Vou chamar minha sogra, ela vai adorar." Cantamos para Dona Nazaré. E desde então ela sempre me sorri e me pára para conversar. E eu gosto de pensar que ainda vivo um pouco neste tempo de Dona Nazaré.

Pois hoje, quando voltava da rua, assim furiosa, assim apressada, assim tonta, assim enauseada, eis que a encontrei. E ela me perguntou, pela centésima vez, meu nome:

- Sempre pergunto, mas nunca consigo decorá-lo. Acho que é coisa da idade.

- É que meu nome é diferente mesmo, por isso é difícil de reter.

- Sabe... quem tem nome diferente são as vizinhas da minha irmã. Uma é Mimosa, a outra é Alegria e a outra é Delícia. Todas são portuguesas.

- Que diferente... são irmãs?

- Nada! Uma não tem nada a ver com a outra! A Mimosa mora na casa da frente. Ela é uma costureira famosa. A minha irmã é síndica na vila dela, sabe? A Alegria vivia rindo... A gente dizia que o nome dela só podia ser esse mesmo.

E de repente eu me esqueço da náusea e da dor de estômago e sou transportada para o tempo de Dona Nazaré e para essa outra vila, em que se tem vizinhas portuguesas chamadas Mimosa, Alegria e Delícia. E a Alegria vive rindo. E a Mimosa é costureira famosa e cheia de tecidos vibrantes. E a casa da Delícia, por que não?, deve ter cheiro de pastelzinho de belém e outros quitutes de ovos açúcar e farinha. E elas devem se reunir na porta de casa para rir da vida e, com esses nomes, só podem ser meio gordas. E, sendo meio gordas, só podem ser muito felizes. E ter maridos bem humorados e de bigode. E filhos e netos cheios de açúcar correndo e fazendo barulho, eufóricos por serem mimados em casa de avó.

Volto ao mundo e Dona Nazaré continua me contando das três portuguesas, vizinhas de sua irmã:

- A Alegria morreu. A Delícia se mudou. E a Mimosa continua lá.

Então eu tenho pressa novamente. Preciso chegar em casa e me sentar. Porque estou fraca. Porque estou tomando antibiótico e me sinto envenenada. Então eu me despeço de Dona Nazaré, entro em casa e me atiro ao sofá.

Seguro o vômito e o choro: porque a Alegria, justo a Alegria, morreu.




10 comentários:

Paulo Francisco disse...

Adorei a foto.
De antibiótico eu sei. Fico na bronca quando o médico receita a porcaria do antibiótico e não passa um outro que possa segurar a irritação no trato digestivo.
Melhoras aí!
Um abraço

Van Gogh disse...

Lian, é impossível não dar gargalhada.
Eu também tinha aversão, como você, a medicamentos. Não tomava nem aspirina, mesmo se estivesse com uma forte dor de cabeça. Mas há dezoito anos não tenho mais essa escolha, pelo fato de ter desenvolvido um distúrbio auto-imune grave.
(Temos que sempre manter o riso, mesmo quando a vida nos diz o contrário.)
Os problemas com os antibióticos ocorrem por causa do uso indiscriminado. Quando bem indicados e tomados adequadamente...
Você deixou que a doença se agravasse, e a médica, provavelmente, receitou um antibiótico mais potente.
Logo logo você estará bem.

Anônimo disse...

Uma dica: o numero 3 do Almeida Prado. Minha sinusite atacou, quando não ouvia mais nada e o rosto doía, fui a farmacia.
Incredula, tomei e no mesmo dia não senti mais nada.
Da proxima, experimente.

Van Gogh disse...

Brasileiro não perde essa mania: a de receitar medicamento para os outros. Com saúde não se brinca! A homeopatia não soluciona absolutamente nada.

Lian Tai disse...

A experiência que tenho com homeopatia é excelente. Acredito muito mais nela do que na nossa medicina tradicional ocidental.

Van Gogh disse...

Mas você teve que tomar os antibióticos.

Apenas a medicina convencional pode resolver, ou se não resolver, pelo menos buscar um recurso paliativo eficaz para conter o avanço e os danos causados pela doença, como no meu caso.

Há dezoito anos venho lutando contra um grave transtorno auto-imune. A história é pouco longa, mas tentarei resumir.

Tive complicações devido ao uso de antiinflamatórios esteróides e não esteróides. Sofri três seríssimas
cirurgias dentro de um período de um ano e sete meses.

No último episódio, o caso era de urgência.

Quando cheguei ao hospital, particular, haviam se passado oito horas. Neste hospital, que é referência, ainda tive que aguardar mais quatorze horas até entrar para sala de cirurgia.

A dor era extrema, e nem mesmo as duas aplicações de morfina fizeram efeito. O médico de plantão queria que a enfermeira me aplicasse uma terceira dose, o que não foi permitido por minha irmã.

Após a cirurgia, o cirurgião relatou-me que houve um verdadeiro
milagre de eu não ter morrido, e que nunca havia presenciado, em quarenta anos de medicina, um caso parecido. Relatou-me também que a dor que eu sofrera é a maior delas, a dor causada por uma isquemia.

Uma outra questão é que eu não poderia mais fazer uso de antiinflamatórios, e precisava de um medicamento biotecnológico que é bastante caro.

Travei uma luta na justiça durante três longos e intermináveis anos para consegui-lo.

Lian Tai disse...

Não conheço seu caso. Tomei antibiótico porque fui a um hospital convencional, não a um homeopata, por questão de horário e de plano de saúde. Preferiria um homeopata. E, fora a opção de cada um pelo tipo de medicina em que acredita, fiz questão de te responder principalmente porque acho agressivo você vir ao meu espaço criticar o comentário de outra pessoa que me deu um conselho bem intencionada.

Van Gogh disse...

Complicada a saúde brasileira, não é mesmo, Lian? Desculpe se invadi o seu espaço. Quando a questão de saúde é séria, não há escolha. Se fui agressivo... eu apenas me referi ao que realmente ocorre.

Julia Lemos disse...

Que fofa essa Dona Nazaré! Lian, muita coincidência, também tomei antibiótico essa semana por conta de sinusite!! Eu já vinha resistindo há alguns anos, porque um médico já tinha me falado que sinusite é um dos casos específicos para antibióticos. Até chorei de raiva por ter que tomar, acredita? Também senti a cabeça bem pesada no começo, mas minha mãe disse que é justamente porque está limpando os seios nasais da inflamação. Eu resisti e li muito sobre o assunto. No final das contas, hoje penso que temos que ter uma opinião equilibrada sobre o assunto. Porque do mesmo jeito que remédio elaborado faz mal em determinadas situações, o natural o faz em outras. O tal de chá de boldo é um exemplo. Já me prejudicou muito quando eu não tomava remédio pra gastrite. Tem outros exemplos. Acho que no caso da saúde, fico com a ética do meio termo, rsss!!!

Thiago Domingues disse...

Lian!
Que saudade de pessoas como a Dona Nazaré!
Lendo seu texto, me senti ouvindo as histórias de um contador que gosto muito! O nome dele é Daniel Munduruku!
Poxa vida, melhoras para você! Espero que entre todos, escrever tenha sido para você um santo remédio!
;D