quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Revolução será fofa!



Semanas atrás, flagrei uma foto de Floffy cheia de espuma entre os dedos, resultado do grande buraco que ela abria no sofá.  Os mais conservadores tacharam-na de vândala e baderneira. Hoje ficou provado: não era. Floffy apenas construía sua casinha, operária que é, com sua garra e o suor de seu trabalho. Pelo direito à moradia.

À la Che, Floffy não perde a ternura jamás. Esfrega-se em nossas pernas e sobe em nosso colo na primeira oportunidade. Aliás, ela sabe reconhecer as oportunidades. Manifesta-se pelas causas que julga importantes, nos momentos mais apropriados. Quando estudo, por exemplo, ela resolve ocupar a mesa e deitar-se exatamente sobre o livro que leio, ou o caderno onde faço anotações. Ela sabe que, para transformar, tem que desorganizar um pouco. Floffy reivindica visibilidade. Às vezes tenho que tirá-la à força. Ela sabe que as forças são desiguais, mas ainda assim não deixa barato: revida com uma patada.

Floffy não se alia às forças repressoras masculinas. A luta é solitária. Jonas e Xavier estão organizados em associação e conquistaram, por isso, o direito de comer primeiro.  Floffy fica com a ração que sobra, mas ainda assim engorda. Gorda e forte, defende seu humilde sofá-casa recém conquistado. Jonas e Xavier rodeiam-no, e ela, com suas patas afiadas, protege seu território.

E protege também seu corpo e seu direito sobre ele. E, sobretudo, não esquece sua história de dominação. Ela traz a viva memória de sua castração, anos atrás. E por isso rejeita Nathália, que a levou para o veterinário, cuidou dela e trocou seus curativos no período, como já fui, também, rejeitada por Jonas pelo mesmo motivo. Na época, eu queria explicar-lhe que era para seu bem. Mas como dizer-lhe isso, se nem eu estava convencida? Era para seu bem ou era para a tranquilidade de nossa casa, com seus móveis e moradores? Era por bem ou por controle? Eu não sabia. A verdade é que levei-o para ser castrado por insistência dos outros habitantes da casa. É que sobre o poder há um outro poder e assim por diante. 

Depois Jonas esqueceu e parou de se esconder ao me ver. Mas Floffy não esquece. Ela sabe que, para que a luta tenha sentido, não pode perder a história de vista. A memória é arma.

Mas Paulo Freire já dizia que, "quando a educação não é libertadora, o oprimido quer ser opressor". Floffy quer. E por isso se alia ao Poder Econômico: nós, os humanos. E adquire alguns privilégios, como dormir na cama quentinha. Sim, ela se alia a nós e se opõe aos outros gatos. Mas sabe bem quem somos e não perde oportunidade de pisar sobre mim durante a noite ou de, sorrateiramente, beber água do meu copo sobre a mesa. 

E, sem que se perceba, Floffy muda a rotina e a geografia da casa. Come flores e vomita suas pétalas pelo chão. Constrói uma casinha no buraco que abre no sofá. Derruba a pilha de livros sobre a cômoda. Ocupa os espaços, todos eles.

A Revolução será fofa!


7 comentários:

Leilane disse...

Mentira que ela fez isso!!! Rindo muito!

Munir Kanaan disse...

<3

Van Gogh disse...

De todos os textos que li, este foi o único de que não gostei: é meio comunista e meio gay.

Lian Tai disse...

Van Gogh, eu sou meio comunista e meio gay.

Van Gogh disse...

Lian, não tenho nada contra a sexualidade de ninguém. Posso ser ignorante, mas não a esse ponto!
Sou contra sim a todo e qualquer sistema de governo opressor.
Quando algo foge aos padrões, as pessoas reagem de imediato. E, geralmente, costumam reagir de forma violenta. São pessoas sem o mínimo de senso crítico e senso de humor. Estão muito bem adaptadas ao sistema. Creio que não seja o seu caso. Quanto a gata... talvez ela tenha mesmo mais consciência política do que a grande maioria dos brasileiros.

Lian Tai disse...

Ok, Van Gogh, mas aviso que você vai surtar com o próximo texto que pretendo escrever. É sobre meu outro gato, o Jonas. Ele sim é comunista e muito gay. =)

Clarice disse...

Craques para encontrar coisinhas e coisonas pra brincar, destruir, reformar... Passar a casa em revista para não estimular danos é um fardo, mas arranca boas risadas cada novo registro.
Vai ver ela sabia que o inverno estava aí,. =^.^=