segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Caos


Comprei um par de havaianas com olhos turcos, para espantar o mau olhado. Um vestidinho branco e esvoaçante, para que fosse leve. Chovia. Eu fui desviando das poças e tomando cuidado para não sujar o branco de um ano novinho em folha, que começava ainda puro.

Cheguei limpa à festa de cujas janelas se via a praia. Encontrei pessoas igualmente limpas, igualmente esperançosas de um futuro que chegaria com hora marcada, com contagem regressiva e tudo. E eu não quis que o ano entrasse por uma janela. Eu queria um ano inteiro, imponente, que dominasse todo o espaço em fogos. Eu queria explosão.

Então desci e fui para a rua contar os últimos minutos. Levemente frustrada por não ter flores para ofertar a Iemanjá, nem biquíni por baixo da roupa, para me atirar ao mar. Talvez eu ainda estivesse branca e limpa, quando o ano invadiu o mundo. Mas de repente fogos, fogos muitos, de todas as cores. E após os gritos e abraços eu parei muda diante das luzes que voavam em nossa direção. O Universo era tudo que se via.

Quando me dei conta, estava molhada de chuva, de espumante e de imensidão. E estava suja. Suja da sujeira da rua. Suja da beleza do mundo.

Voltei livre à festa dos limpos. Mas transformada pelo novo ano. É que eu me dera conta de que a paz, a paz que eu buscava, não estava na limpeza imaculada do branco puro. O Ano Novo me invadia com caos, com a lama que me manchava o vestido, essa harmonia da desordem e da mistura de tudo. Desmascarada, me invadia a paz.

Eu gosto de tudo que molha. Eu bebo de todas as águas, hoje ainda mais. Por isso descemos correndo as escadas, eu e um amigo, em busca do mar. Porque se o tempo vem até você, mesmo que sua passagem seja ilusória, é preciso que se mergulhe nele e que se deixe levar. Então jogamos as havaianas na areia e entramos na água morna. No mar, a passagem dos anos. Pouco importavam as flores que eu não trouxera, agora que me ofertava toda ao oceano.

As havaianas largadas na areia, não preciso dizer, desapareceram após o abandono. E eu fui embora descalça, contente pelos novos aprendizados. Por saber deixar para trás. Por saber me sujar.

Agora eu quero o mar, não o cais.

Agora eu quero o caos.

4 comentários:

Diogo disse...

Om Namah Shivaya!

Tamires Castro' disse...

Muito lindo. Ótima forma de começar o ano... mergulhando, sujando, não ligando pras coisas banais da vida!

Anônimo disse...

Sinto-me molhado...
Andando descalço pela areias sujas...
Impressionando e emocionante texto.
A sensação gostosa de ..."Por saber deixar para trás"...
Obrigado!

Clarice disse...

Que maravilha se deixar invadir pelo mundo e usar o caos para colher chegadas.
Que todos os inícios levem a um prazer e a muita descoberta.
Construa 2012 a seu gosto. Não esqueça de regar. ;)
Abraço.