quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eu acredito em Papai Noel


Quando pequena, eu temia ter insônia na noite de Natal. Isso porque meu pai dizia que Papai Noel só aparecia quando dormíamos. O velhinho barbudo tinha desses poderes, para saber se estávamos acordados e para entrar por qualquer fresta. É claro que ele, sendo esperto, entrava pela varanda, que era larga e podia abrigar seu trenó com quantas renas, duendes e presentes ele quisesse trazer. Quando abríamos os olhos, pela manhã, lembrávamos que era Natal e corríamos para a árvore montada na sala, sob a qual nos aguardavam os brinquedos.

Certa vez havia vários presentes debaixo da árvore: uns brinquedos, um disco da Angélica, camisetas personalizadas do Garfield (na minha havia escrito "I love lasagna", pois desde criança eu tinha fama de gulosa). Corremos para mostrar aos nossos pais. Meu pai dizia que era improvável que Papai Noel trouxesse tantos presentes e, virando-se para minha mãe, perguntava se ela não tinha posto alguns ali. Para mim aquilo era a prova mais concreta da existência do velhinho. Eu usava tal argumento em todas as discussões com as outras crianças do prédio, que duvidavam de sua existência: "Se fosse mentira, meu pai nunca acusaria minha mãe!"

Eu tinha dez anos de idade quando ganhei o último presente do Papai Noel. Era uma maquininha de tricô. Eu fiquei fascinada com o brinquedo, com que fiz muitos vestidos para a Barbie, gorrinhos para bonecas e centopeias estufadas. Um dia um amigo do meu pai apareceu em casa e me pediu para ver meu presente de Natal. Enquanto lhe mostrava, orgulhosa, ele comentou: "Eu que ajudei seu pai a escolher", ao passo que meu pai lhe dava cotoveladas, sussurrando: "Papai Noel... Papai Noel..." Hoje desconfio que meu pai deve ter encomendado com seu amigo aquele momento de desencanto, afinal, ter uma filha que ao dez anos ainda acreditava em Papai Noel podia ser preocupante.

Voltando à tenra infância...

Ao lado do nosso prédio, havia uma casa onde morava um casal de velhinhos, que carinhosamente chamávamos de vovô e vovó. Tocávamos a campainha em bando, eles vinham nos receber e nos davam balinhas. Saíamos correndo, doces e selvagens.

Por isso, por mais que caluniem Papai Noel, dizendo ser o símbolo do capitalismo, do consumo desenfreado e haja até quem diga que ele é invenção da Coca-Cola, não há quem me faça desacreditar no velhinho bondoso, que passa o ano fabricando brinquedos só para alegrar as crianças no Natal. E, por mais que diariamente eu seja esbofeteada com a violência cotidiana, eu insisto em acordar todos os dias acreditando na bondade ilimitada.

Foi, pois, aos dez anos de idade que me foi revelada a fonte dos presentes que apareciam sob a árvore. Mas foi-me ensinado desde muito pequena que Papai Noel é mágico, que ele sabe quando estamos adormecidos e sabe entrar por qualquer fresta. E coisas mágicas não requerem explicação. Eu creio em um mundo bonito, em pessoas boas, em um querer-bem universal. Eu acredito em milagres.

E eu, sobretudo, acredito em Papai Noel.

6 comentários:

Anônimo disse...

Acho que eu precisava desse texto nesse momento... Acreditar na leveza de certas coisas, como no papai noel...

bjoos

Maria Cristina

Erika Lettry disse...

Que gracinha o texto. Acreditar em Papai Noel era bom, eu me lembro! Agora quero ver a carinha das minhas sobrinhas quando forem esperar o Bom Velhinho..hehee.

Taís Carolina Seibt disse...

Que bom saber que não estou sozinha! Pois também acredito em Papai Noel, gnomos, fadas, anjos e tudo que nos traz coisas boas! E acredito também em você! Obrigada por ser minha prima, mesmo que emprestada! Mas é MINHA prima, que apesar de distante, mora sempre, aqui, no meu coração!

Alice in Wonderland disse...

Ainda bem que acreditei em papai noel. A magia dele ainda existe, essa esperança de que possa existir um ou milhares de bons velhinhos entre a gente. Ainda bem que acreditei porque hoje eu posso cultivar o mesmo sentimento e a mesma esperança nos meus filhos, que escrevem cartinhas, cada um ao seu modo, que contam os dias e as horas pra que o Natal chegue logo. E pra mim, ele ainda vai descer daquele helicóptero no Serra Dourada, que emoção eu sentia, meu Deus!!! Que alegria!!!
Lindo o texto, Lian! Obrigada!

Thiago Panda disse...

Oi!
Cheguei por aqui meio "por acaso" mas depois vi que estava em casa!
Adorei a leveza das palavras e a convicção na existência do Bom Velhinho! Sou um desses também!
Voltarei mais vezes!
Inté!

Clarice disse...

Mais um texto encantador.
Mil histórias sempre acompanham quem conseguiu acreditar em Papai Noel. O meu se foi, mais ou menos aos 9 anos, quando minha amiga teve a casa queimada na noite de Natal,enquanto estava de férias, bem longe. Acho que foi naquela noite que deixei de ser criança comum.
Hoje acredito em lapsos de bondade e admiro a persistência do mundo em manter o mito de bondade enquanto o rsto do munid..., bem, deixa prá lá.
Abração.