quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Australia - terceira parte: ÁGUA


(Cairns e a Grande Barreira de Corais)

A praia era lamacenta e a cidade nao era especialmente bonita. Mas, por algum motivo, eu caminhava nela com uma felicidade crescente, que beirava o êxtase. Talvez eu fosse uma pessoa climática, foi o que me ocorreu. Dê-me um sol de leve e uma brisa fresca que eu me torno facilmente a pessoa mais feliz do mundo, explosiva de prazer.

E as pessoas ali nao eram festa. Eram pessoas, apenas. Conversavam sobre viagens e livros e comidas. E essa convivência que flui com a simplicidade me agradava, me agrada.

Entao parti naquele barco, animada porque conheceria a Grande Barreira de Corais. O mar estava agitado e sacudia o barco até nao poder mais. Eu fui me sentindo mal e, com o enjoo, também veio uma tristeza. Debruçada sobre o mar, vomitei o café da manhã, depois o copo d'água que bebi. Naquele momento, decidi nao colocar no corpo mais um grão de comida e nem uma gota de água enquanto não estivesse em terra firme, o que cumpri ate o fim.

Lá estava eu, sentada no chão no barco, arrasada, pensando em como faria para fugir daquele lugar e me odiando por ter me metido em um passeio de dois dias, quando um só já seria o suficiente, e recordando o dramin que eu deixara na mala, no hostel. E eu me lembro de olhar para o mar, de um azul escuro agitado, e de repente me sentir pequena, muito pequena e muito frágil. E de me sentir traída por aquele azul infinito em que tantas vezes desejei me confundir. O universo subitamente me parecia hostil e eu queria escapar de alguma maneira. E eu, que sempre busquei o infinito, me vi questionando se não acabaria nunca o eterno movimento do mundo.

Ventava muito e eu me encolhia naquele barco, repleta de agasalhos que não me esquentavam. Disseram que a água era morna, entao fui fazer snorkel e achei complicado e tive medo. E eu era tão vulnerável naquele momento, se ao menos pudesse sumir, desaparecer no mar, mas não aquilo, nao me agitar, ter frio, calafrios.

Algumas pessoas que tentavam mergulhar voltavam rapidamente, dizendo se sentirem mal ou não serem capazes. Como eu seria capaz, então, eu, que nem podia mais com o movimento das coisas e que já achara dificil nadar com snorkel?

Mas então ele me pegou pela mão e, quando vi, estava imersa no silêncio do oceano. "But it's calm under the waves, in the blue of my oblivion"... esta música, que minha irmã costumava escutar na adolescência, me vinha como um mantra. Porque o silêncio do fundo do mar comportava uma vibração religiosa. Eu não tinha mais um corpo, eu não tinha frio, eu não tinha medo. E, sobretudo, eu não pensava ser possivel ver as imagens que estavam à minha frente, meu deus! Os corais, os peixes coloridos e todos aqueles seres... o que seriam? Eu havia visto fotos, videos, mas isso existia no mundo real? Uma pessoa comum pode ver isto em vida?

E de repente me ocorreu que meu problema era com a superfície. Eu gosto do mergulho e de tudo aquilo que com ele advém. Tambem me ocorreu que o oceano é esse misterio, esse vai e vem, esse leva e traz. E o melhor que eu podia fazer, mesmo em meio às perdas e ao caos da imensidão, era mergulhar, mergulhar.

Eu gosto do fundo das coisas. Eu gosto das pessoas que são pessoas, não festas, não shows. Por isso, naquela noite, vestida para sair e encontrar um grupo grande e barulhento, nao resisti quando ele, uma pessoa que gosta de livros e que acha que uma vida nao é o bastante, me convidou para compartilhar seu jantar. Era a primeira vez que cozinhava abóbora.

Em terra firme, depois de dois dias de frio, enjoo, fome e contato com o divino, eu comia um prato aconchegante, feito por mão amiga.

Um dia alguém me disse que minha onda era me aproximar e recuar. Não era. Basta essa mão amiga que me convide ao mergulho. E um oceano aberto e transparente, com peixes coloridos. E mergulhamos em músicas, em listas infinitas, em desenhos, em supermercados.

Depois disso eu seguiria para um lado e ele para outro. Então resolvemos, na última noite, preparar um outro jantar, o jantar de despedida. Compramos batata, aspargos, carne e salada. Ele cozinhou, eu comi e comi. Ele ficou feliz porque não sou dessas que comem só meio aspargo e dizem estar satisfeitas. Eu não. Eu mergulho. E celebramos o encontro e a partida, aceitando que assim é a vida, tal qual o mar. Ele traz, ele leva. Cabe a nós mergulhar.

E fiquei em paz com o eterno movimento do mundo.


5 comentários:

Mr. G disse...

fico cada vez mais com vontade de viajar c vc! rs!

sobre a música, um dia canto p vc, mas... adorie o comentário, rs!

Daniel Borges disse...

Lian, já falamos disso. Não tinha dúvidas que amaria. Deixa o tempo nos permitir tempo que vamos fazer um mergulho juntos...

bjus

Julia Lemos disse...

ai Lian, poderia ler dez vezes seguidas esses texto. é daquele tipo que me pega de jeito. obrigada por escrever.

Erika Lettry disse...

Eita viagem que está boa...Tô sentindo que vc vai voltar mudada...hehe.

Subs disse...

Otima escrita !!