
Nos últimos dias, "Hamlet", com Wagner Moura, esteve em Goiânia. Meus amigos, Erika e Rodrigo, escreveram suas impressões sobre a peça. E, como eu adoro um debate e minha opiniões não caberiam no espaço de comentários, publico aqui o textinho que escrevi quando assisti ao espetáculo. Agora espero os comentários!
Shakespeare, que no século XVII fazia teatro para o mais variado público, formado por desde altas classes até aquelas mais populares, chega ao século XXI com uma aura de hermetismo. Trata-se de um Shakespeare inatingível, cuja compreensão só pode ser alcançada por uma elite intelectualizada e pedante. Em sua montagem de Hamlet, Aderbal Freire Filho destrói esse Shakespeare hermético, destinado aos amantes de línguas mortas, e nos apresenta um teatro vivo, que se aproxima do público, sem que isso signifique profanizar o consagrado autor. Para Aderbal, não há profanização, simplesmente porque não há deificação. A grandiosidade de Shakespeare está em seu alcance, na maneira certeira como atinge as nuances da alma humana, universalmente.
A cuidadosa tarefa para aproximar Shakespeare do público iniciou-se já no trabalho com o texto, cuja tradução foi realizada pelo próprio diretor, juntamente com Wagner Moura e Barbara Harrington. Essa apropriação do texto deu à peça um entendimento uterino, já que cada palavra foi meticulosamente escolhida e digerida pela equipe. Buscou-se uma linguagem sem rebuscamento, mas não menos poética. As palavras, na boca dos atores, descristalizaram-se, enchendo-se de sentido e de sentimentos. A grandeza de tais sentimentos, porém, perdeu um pouco de sua sutileza ao manifestar-se, na atuação de Wagner Moura, como uma grandeza de gestos. Excesso que não passou despercebido pela platéia perspicaz, que encheu o teatro de gargalhadas, quando Hamlet afirmou que teatro nada tem a ver com exagero. A platéia achou graça da contradição, talvez mesmo sem se dar conta.
O cenário quase minimalista e o figurino, uma mescla de roupas atuais com alguns elementos simbólicos que remetem ao contexto da peça, evidenciam o que é constantemente revelado: que o teatro nos transporta, mas não nos ilude. Que estamos diante de uma ficção, que, entretanto, é capaz de nos atingir como talvez poucos fatos reais consigam. Aderbal nos transporta para esse mundo shakespeareano de maneira metalingüística, lembrando-nos que isso é teatro. É teatro e é real. Os atores, diante da platéia, transformam-se e se destransformam, transitando entre ator e personagem. O cenário abriga ambos. Uma câmera de vídeo, manipulada pelos atores em cena, cujas imagens são projetadas em um telão ao fundo do palco, amplia a ficção e sua metalinguagem. E assim Aderbal nos conduz por uma trama em que cada elemento é lucidamente escolhido, cada opção se revela coerente e dotada de sentido, para, enfim, chegar ao resultado esperado: aproximar Shakespeare de cada um de nós. Trazer Hamlet para tão perto, tão perto: para dentro. Se o objetivo foi alcançado, mede-se pela resposta do público, que lota o teatro: aplausos fervorosos e emocionados.