quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Lembro de um texto do Rubem Alves em que ele contava que teve uma infância simples e muito feliz. Até que se mudaram de cidade e ele foi matriculado em uma escola de classe média alta. Lá, começou a fazer comparações. E se tornou pobre, por isso. E infeliz.

Pois meu plano inicial para Varanasi era ficar hospedada no hostel que eu já conhecia. Os quartos eram simples e não havia nada demais ali, além de espaços abertos e vista para o Ganges. Mas era essa vista meu sonho de consumo. Fiz os cálculos: gastaria exatamente metade da minha bolsa mensal só com hospedagem. Mas era um plano possível, já que o custo de vida aqui é baixo e eu gastaria pouquíssimo com alimentação.

Porém, como não havia quartos disponíveis quando cheguei, fiz uma reserva de dez dias em outro semelhante, por perto. Mais pra frente me mudaria para o primeiro e, até lá, iria me virando.

E até que o lugar onde vim parar não é mau. Também fica às margens do rio. Eu lamentava apenas que a minha janela desse, não para fora, mas para um pátio central, de forma que eu tinha que mantê-la fechada o tempo inteiro, para ter privacidade no quarto.

Mas aí comecei a viver. Conversar com as pessoas. E descobri que o preço que eu pagava era irreal.

E depois conheci viajantes que alugavam apartamentos em uma das pontas do rio e pagavam dez vezes menos. Fui visitá-los. Eram apartamentos simpáticos, com uma linda vista da laje do prédio. Sim, em Varanasi, como no Rio de Janeiro, nós adoramos lajes: os famosos rooftops. Mas havia os inconvenientes: a energia elétrica acabava diariamente (“é assim que a população aqui vive” – me disse uma garota, explicando que nos albergues só tínhamos energia sempre graças aos geradores), não havia água quente ou internet ou banheiro nos quartos.

E, sim, é mesmo assim que grande parte dessas pessoas vive.
Então me senti mal pela vida que eu levava. De repente tudo aquilo me parecia meio irreal: a água quente, a energia elétrica, o conforto. E, como no caso de Rubem Alves, mas ao contrário, eu subitamente me descobria rica. E o engraçado era que aquilo fazia com que eu me sentisse mais pobre. E infeliz.

Tudo por comparação.

Saí daqueles apartamentos confusa, tentando decidir meus próximos passos. Tentei me imaginar com outra rotina, entrando em apartamentos escuros, fervendo água para tomar banho, procurando cafés com WiFi para baixar textos ou mandar e-mails.

Confesso: não consegui.

Voltei ao albergue onde estava e conversei com o gerente.

Chegamos a um acordo: eu me mudaria para o prédio vizinho, do mesmo dono, pagando quatro vezes menos. Mas, até que aqueles quartos desocupassem, eu apenas iria para um menor, no mesmo lugar.

Arrumei minhas malas e cheguei ao quarto novo. Ainda tenho tudo o que preciso, mas com muito menos espaço. E o engraçado: gostei bem mais dele. Agora tenho uma janela que posso abrir. E, por ser pequeno, também é mais quentinho, ali.

Talvez por haver mais luz, de repente olhei para o espelho e reparei nas marcas na minha pele. E percebi que fazia tempo que não me olhava, assim de fora para dentro. E que não sabia se emagrecera ou engordara, por exemplo. E que aquilo era bom.

Porque às vezes estar pleno trata-se apenas de parar de se julgar pelo parâmetro do outro, seja pelo mais ou pelo menos.

E encontrar sua própria medida.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Todos os caminhos



Então eu saí decidida a fazer um caminho diferente. Em vez de ir pelos ghats, chegaria ao último deles pela estrada.  Não sou boa de orientação, mas parecia simples: a estrada é paralela ao rio.

Segui.

Passei por vários carrinhos de comida de rua e fiquei maravilhada pelo que pareciam infinitas combinações de pé-de-moleque. Amendoim caramelizado. Arroz caramelizado. Gergelim caramelizado. E vários outros grãos e castanhas que não conheço. Passei por vira-latas magrelos, como são todos daqui. Os mais lindos cachorros do mundo. E sempre perto de alguma brasa, para se aquecer. Brasa sempre. Fogueiras. Fumaça de todos os tipos, para todo lado. Os indianos estão sempre queimando alguma coisa. Acho que passei pelo bairro muçulmano, porque de repente eram tantos com aquela roupa típica, com o chapeuzinho. E as mulheres de burca. E eu passei pelos homens escovando vacas e por um grupo de crianças que corriam.

Quando me dei conta, estava completamente perdida. Tentei pedir informação a umas duas pessoas, mas nenhuma delas entendia inglês.

Dei-me por vencida e achei que o mais sensato seria voltar pelo caminho de onde vim – se eu lembrasse.  Por precaução, sempre evito fazer muitas curvas, quando não conheço o lugar.

Mas foi neste instante em que apareceu uma procissão de homens carregando um defunto. O que provavelmente significava que eles iriam ao ghat de cremação. Ou seja: o rio. Resolvi segui-los. Eles andavam rápido, gritando coisas e jogando pétalas de rosas sobre o corpo.

Em certo momento pararam. Colocaram o corpo – envolto por tecidos coloridos vibrantes – sobre o chão. Estariam descansando? Sei que notaram minha presença inconveniente ali, um cochichou com o outro e todos me olharam. É verdade que eu não deveria segui-los, essas procissões são só de homens e eu, afinal, nem conheço o defunto.

Mas eu só queria chegar aos ghats – como explicar-lhes?

Não foi preciso. Eles pegaram o corpo e continuaram a procissão.

E eu continuei a segui-los, tentando desviar dos carros e pessoas e motos e bicicletas, em passos apressados, até perdê-los de vista.

Sim, eu os perdi. E me senti ridiculamente imbecil por conseguir perder um grupo de homens carregando um defunto em tecidos vibrantes.

Então tive que voltar tudo. Andei bastante, no sentido oposto, até conseguir me localizar. Como àquela altura eu já estava esfomeada, resolvi que iria ao restaurante de sempre e só depois recomeçaria meu caminho rumo ao Asi Ghat, meu destino original.

Cheguei ao restaurante, que estava cheio, e acabei compartilhando mesa com um casal de israelenses. Começamos a conversar e eu descobri que eles moravam exatamente aonde eu queria chegar.

- Você quer nos acompanhar, depois do almoço?

- Claro.

E assim a vida tem me guiado, pelos caminhos mais longos e mais certos.


sábado, 10 de janeiro de 2015

Dia de flores


Hoje finalmente saí decidida a comprar um agasalho.
Fui meio correndo, meio saltitando, porque estava alegre. Escolhi um poncho enorme e azul. Dizem que aqui você tem que pechinchar em tudo, mas quando vejo um poncho pela metade do preço que pago para almoçar em uma esquina qualquer a cada dia da minha vida no Rio de Janeiro, não consigo. De qualquer jeito, acabei ganhando um desconto não planejado, porque não carregava dinheiro suficiente na minha carteira. Depois, com as moedas que tinha, comprei um cordão de flores de uma senhora na rua. Coloquei-o em torno do pescoço e fui passear.
As pessoas me perguntavam:
- Você vai ao templo?
- Não, não. Vou só andar.
- Belas flores!
E eram.
E era uma tolice também. Essas flores são vendidas como oferendas aos deuses, não para servir de colar a uma moça que, porque estava alegre, decidiu andar florida.
Mas eram flores lindas e amarelas, que, ao final do dia, entreguei ao rio.
Se há deuses, certamente as receberam.
E ainda deixaram algumas ali, perdidas no meu cabelo.

Difícil Maravilhoso



Às vezes fico me perguntando se um dia as pessoas daqui vão se acostumar comigo. Se vão entender que não estou como turista. Se vão parar de me olhar, de me seguir, de tentar vender coisas.

Às vezes fico me perguntando se um dia vou me acostumar com elas. Se vou parar de me irritar com o fato de ser seguida. Se vou entender o que se passa, quando me olham. Se vou deixar de achá-las incrivelmente belas e fantásticas e misteriosas.

Sentei-me para tomar o café da manhã e estudar no computador. Eu tentava ler um texto, quando um moço se aproximou e veio espiar, não por trás, mas pela frente do meu ombro, o que eu lia. Quando olhei feio, ele perguntou se a internet estava funcionando direito.

- Está funcionando. Mas agora não estou usando a internet. Estou estudando. – frisei o “estudando” para deixar claro que não queria ser incomodada.

Então ele se posicionou à minha frente. Não digo que começou a me rodear, porque não tinha por onde. Eu tenho essa mania de me sentar a um canto onde eu possa ter visão de todo o espaço, sem ser vista por trás. Mas ele ficou assim, bem à minha frente, andando de um lado para o outro a me observar. Quando dei uma encarada, ele se desculpou e foi para a porta. E continuou me olhando.
A essa altura, eu estava com os olhos fixos na tela do computador, mas obviamente não conseguia ler. Quanto tempo se passou? Dez minutos. Meia hora. Uma vida. Não sei. Sei que a certa altura ele finalmente foi embora.

Terá ele se acostumado comigo?

Mais tarde, quando saí à rua, estava daquele jeito perdida, sem saber quem eu deixava se aproximar. As crianças, sempre deixo. E sempre me contenho para não apertá-las e espremê-las, quando se aproximam tentando vender alguma coisa. As mulheres, pouquíssimas se aproximam. Na maioria das vezes para pedir esmolas. Mas nunca, jamais, para puxar assunto. Às vezes observam de longe. Eu sorrio e digo “namastê”. Elas sorriem de volta e balançam a cabeça, desse jeito que os indianos fazem. E os homens se aproximam sempre: “Eu falei com você ontem. Anteontem. Antes de antes de ontem.” Todos já falaram comigo. Cada um diz para tomar cuidado com os outros. Mas quem são os outros? Eu nunca sei.

Sei que outro dia, quando ignorei um homem, ele me provocou:

- Eu te vi caminhando com um moço ontem. Você só gosta de brancos, né? Não gosta de homens indianos.

Aquilo me tirou do sério e, quando vi, estávamos os dois discutindo, de dedos levantados e rodeados por uma multidão de platéia.

- Ele te colocou em um “mind game”. – me explicou Babu – Por aqui passam muitos turistas o tempo inteiro. Quando uns vão embora, outros vêm. E eles têm que arranjar um jeito de chamar sua atenção, arranjar argumentos que te façam parar.

Babu, não o do dia anterior, mas o Babu de hoje, ensinou-me um pouco de híndi. Algumas expressões úteis e, o mais importante, os números. Aprender híndi faz parte do meu plano de me misturar. Babu disse se lembrar de mim do ano retrasado. Eu duvidei.

- Perto do Alka Hotel. Te vi andando acompanhada. Eu trabalhava na loja do meu tio e falei para você vir olhar as pashminas. Você disse que iria outro dia. Você ficou menos tempo, três dias talvez. Eu falava com você todos os dias, mas você foi embora e nunca veio à loja.

Era incrível, mas ele realmente se lembrava de mim. Perto do Alka Hotel.

Não sei se um dia as pessoas daqui vão se acostumar comigo.

Eu sei que as acho fascinantes e belas e misteriosas.


Espero não me acostumar com elas. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A enxerga



Estou convencida de que toda alma humana anseia pelo encontro com outras almas humanas.

Chama-se Amor.

Amor não é um valor a ser construído. Mas a realidade última, a ser enxergada.

Nosso corpo tem diversas marcas impressas, queiramos ou não. E as marcas podem ser pontes ou muros, a variar diante do contexto.

Sou mulher. Sou de classe média. Tenho traços chineses. Falo português.

Pontes ou muros.

Muro é aquilo que te impede de enxergar.

O Poder é um muro. Ou neblina.

Amor é realidade última, mas às vezes a neblina cobre tudo.

Levei meus últimos anos tentando suavizar o que o Poder me brutalizou. Ser mulher, ser filha de chineses no Brasil, ser de classe média. Estar envolvida em relações de poder o tempo inteiro. Levantar muros para não ser assediada na rua. Para não ser julgada pelas roupas. Pelo sorriso. Pelo olhar. Levantar muros.

Passei a vida sem olhar, porque não queria ser vista.

Não nessas marcas que meu corpo imprime e que imediatamente me inserem nas relações de poder. Queria ser vista, sim, em minha realidade última. No Amor.

Pois agora essa desbrutalização é um exercício constante de derrubar muros. E é, também, a aceitação cotidiana do conflito. E do risco. Olhar as pessoas na rua. Sorrir para elas. Reconhecê-las como outras pessoas humanas que podem ser enxergadas. E arriscar receber de volta um olhar de assédio - Poder -, não reconhecimento humano. Passo por isso diariamente.

E diariamente busco meios de lutar pelo menos contra esses dois poderes - o machismo e o racismo - sem, no entanto, oprimir. Nunca fui de aceitar provocações calada. Mas cada vez mais procuro argumentos que excluam os poderes que eu também tenho de opressão. Como o de classe. Como o de ser consumidora e poder recorrer ao patrão. É uma busca constante, essa de tentar me libertar sem aprisionar o outro.

Hoje o dia amanheceu completamente nublado. Fui caminhar pelos ghats, como tenho feito sempre. Fui caminhar com meu corpo, este com tantas marcas impressas. Fui caminhar como mulher. Fui caminhar como estrangeira. E o mais difícil na Índia tem sido isso: tentar não me brutalizar, quando meu corpo me insere em tantas relações de poder. O que se torna mais complicado, quando não compreendemos os códigos locais.

E, porque já estou perdida e não tenho o que perder, eu apenas testo. Falo com as pessoas na rua e às vezes não falo. Sem culpa. Mas sem perder de vista que não quero me brutalizar.

Pois era assim que eu andava, falando com alguns, ignorando outros. O dia todo nublado e eu tentando enxergar. Como ontem caminhara até um extremo dos ghats, hoje fui decidida a chegar à outra ponta.

No caminho, um senhor, entre muitos, puxou assunto:

- Lembra de mim?

- Não.

- Nós nos falamos dois dias atrás.

- Todo mundo falou comigo. Todo mundo.

E, como todos fazem, ele veio me seguindo e conversando. Sugeriu que eu fosse ao Monkey Temple e disse que, se eu continuasse naquele sentido, eu chegaria à village.

Dei de ombros e segui. E ele também me seguiu.

Naquele momento, eu poderia simplesmente dispensá-lo, como faço tantas vezes. Mas um pensamento me ocorreu: "E se eu sair correndo?" Não porque eu me sentisse ameaçada, nem porque, ali, meu incômodo fosse tão grande. Mas simplesmente porque me dei conta de que nunca havia bancado a louca na vida. Tantas vezes tive vontade de ter comportamentos absurdos e, por algum motivo, não os realizava.

Então saí correndo, sem maiores explicações ou reações. Corri sem olhar para trás, apenas pela beleza do absurdo. Corri até perder o fôlego.

E por um momento quem corria não era uma mulher, uma estrangeira ou uma consumidora, mas apenas um ser livre, suave e incrivelmente absurdo.

Coincidência ou não, a neblina foi embora.

E eu voltei a enxergar.

De estar na Índia...



Antes de vir pela primeira vez, eu já fazia esse exercício: “Faz de conta que estou na Índia”. Era minha prática de resistência e tolerância. Ao imaginar que estava em espaço alheio, eu me forçava a aceitar o difícil e o diferente. Se àquela época eu já fizesse ideia do que é Varanasi, certamente meu exercício seria assim: “Faz de conta que estou em Varanasi”. Então eu estaria preparada para tudo.

Comecei a encontrar os primeiros brasileiros desta viagem. Hoje, um casal de dois homens com quem puxei assunto no almoço. Simpáticos, espantaram-se quando contei que ficarei três meses aqui. Os dois vieram para passar dois dias e já estão tontos do tanto.

- Boa sorte – me desejaram, ao partir – nesse caos!

Ontem, no jantar, uma brasileira que vive em uma cidade próxima de Mumbai, com sua mãe, que veio visitá-la. A mãe é doce e suave. A garota, vigorosa e de uma inteligência – percebe-se na primeira conversa – excepcional. Deu-me várias dicas, ensinou-me expressões gestuais e verbais e me explicou muito sobre a cultura daqui. Vivendo na Índia há um ano, demonstra conhecimento histórico e compreensão da cultura local de quem vive no país há décadas. Mistura-se entre os nativos e encara a vida aqui com abertura. Mas sem condescendência.

Durante a conversa, me confessou:

- Às vezes eu fico tão cansada de tudo, a burocracia, a corrupção, o barulho... que eu preciso fingir que não estou na Índia. Eu compro comida do McDonalds, me tranco no quarto com ar condicionado e penso: “Faz de conta que NÃO estou na Índia!”

Achei engraçada a história e lhe contei das tantas vezes em que fiz o contrário. E depois fiquei pensando que tem hora para estar na Índia e tem hora para não estar na Índia. E que a gente transita entre esses dois pontos, porque somos, afinal, humanos.

Por fim, antes de voltar ao meu hostel, fiquei amiga de um senhor suíço: André. Falamos sobre religiões, sobre o lado negro, yin yang, totalidade, tempo. Ele me mostrou seu caderno de anotações, que usa para aprender híndi. E me contou que é a quinta vez que vem ao país e que, sempre que vem, passa alguns meses. Desta vez está em Varanasi, com tempo de sobra para viver, apenas, longe dos relógios.

É isso que André faz: estar na Índia e não estar na Índia. Mais: estar em Varanasi e estar na Suíça.
Os extremos. Transitar entre eles.

Pois hoje caminhei até o último ghat, no ponto final da cidade. Dera-me conta de que nunca havia passado do ghat das cremações, então resolvi seguir. Provavelmente o fato de estar acompanhada de um amigo que encontrei no caminho mudava muita coisa (ser mulher desacompanhada na Índia é tarefa duríssima), mas ainda assim senti diferença brusca entre um e outro lado da cidade. É que, passado aquele ponto, chegamos a um lugar onde os turistas nunca vão. E por isso tudo ali era mais delicado: já não éramos seguidos ou abordados com a insistência e a agressividade com que sempre fôramos. Olhados sim, muito. Pois estarmos ali era ainda mais inusitado. Mas naquele momento pudemos apreciar a beleza e a simplicidade de uma Varanasi subitamente suave.

Chegamos ao final da cidade, ao ponto em que o Ganges seguia sozinho. E de repente estar no extremo de Varanasi era não estar em Varanasi. Ou estar muito mais.


E percebi que, estando na Índia, é preciso seguir até o fim, para alcançar o mundo inteiro. Está tudo lá.

O sangue



Não me lembro de nenhum primeiro dia de escola, nem quando eu era pequenininha, em que eu tive tanto medo como hoje.

Medo de quê?

São irracionais, os medos.

Nunca temi bichos, escuro, altura ou nada disso. Mas até hoje penso que o professor ou o síndico vão me dar uma bronca. Trago isso da infância: um certo pavor de hierarquias ou situações de opressão. Talvez por isso eu tenha chegado à Banaras Hindu University um tanto assustada. Teria que resolver questões burocráticas e seria, também, o primeiro encontro com o meu orientador daqui.

Cheguei bem mais cedo do que combinara, pois assim eu conseguiria me localizar. Fui ao centro de estudantes internacionais, onde o moço me explicou tudo que eu precisava fazer para me afiliar formalmente à Universidade.  Burocracia. Dinheiro. Muito dinheiro. Mais burocracia. Pra completar, ele entregou um papel que eu deveria levar ao centro médico:

- Lá eles vão tirar uma amostra do seu sangue, para testar se você não tem HIV.

Estou mais do que acostumada a fazer exames de sangue, sem contar que, no período em que tive peso para isso, fazia doação regularmente, de três em três meses. Mas hoje meu instinto disse:

- Meu sangue não!

Saí com o papel em mãos e acabei adiando a questão ao me dar conta de que, se não queria me atrasar para a reunião, já deveria começar a procurar a minha faculdade. Levei exatos cinqüenta minutos dando voltas pela Universidade, até encontrar o Centro de Ciências Sociais. Subi as escadas e, chegando ao último andar, perguntei pelo meu orientador.

- Ele desceu enquanto você subia. – me respondeu um funcionário simpático, orientando que eu fosse ao prédio ao lado, onde ficava o Centro de Exclusão Social e Políticas Inclusivas – do qual passo a fazer parte.

Fui. Encontrei-o em sua sala, grande e elegante.

- Eu te vi, mas não sabia se era você. – ele contou – Pelo seu nome, eu não sabia se você era menina ou menino.

Conversamos sobre meu projeto. Como primeira orientação, eles recomendou alguns livros e o melhor: que na primeira semana eu apenas caminhasse pelos ghats, a observar. Coisa que tenho feito desde que cheguei. E que eu cuidasse da minha saúde. E tomasse cuidado com estranhos. E me alimentasse bem. E, caso a burocracia da Universidade me enchesse demais, que eu apenas a ignorasse, pois ela não era necessária. Falou em voz alta: “Ronaldo!” Quando não entendi, ele repetiu: “Ronaldo! É um jogador brasileiro, né?” E deu risada.


Fui embora leve e perdida como sou, naquele lugar imenso. Acabei chegando ao templo da Banaras Hindu University, mas não, não rezei.  Apenas ri do quanto consigo ser boba, às vezes. E me senti aliviada por, pelo menos hoje, não ter precisado dar meu sangue por qualquer coisa. As melhores coisas da vida sempre me caíram do céu. E suponho que ser feliz já seja em si uma oração.