quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Hoje o dia amanheceu um pouquinho mais iluminado.

Eu andei pelo Ganges à procura de um lugar para sentar e ler meu livro, um lugar ao sol. Fui observando os seres, todos radiantes diante daquele solzinho que timidamente surgira. Passei pelo Harishchandra Ghat, o menor dos ghats de cremação. Ao lado, havia uma bandinha tocando, rodeada de pessoas e bichos alegres. E como tenho esse costume de seguir a música, sentei-me ali mesmo e abri meu livro.

Comecei a ler, até que, a certa altura, um senhorzinho pôs-se a espiar o que eu lia, metendo a cabeça entre mim e meu livro. Sorri para ele, que logo puxou assunto. Contou que trabalhava na cremação dos corpos e que aquela banda tocava para que as pessoas ficassem alegres, pois isso ajudaria o morto a ter uma boa passagem. Perguntou se eu queria que ele me explicasse sobre os rituais de cremação. Eu sabia que ele pediria dinheiro por isso, mas aí olhei para o livro, "Banaras - city of light", indicado pelo meu orientador indiano para que eu compreendesse a dinâmica da cidade, olhei de novo para o senhor, que propunha me ensinar sobre um dos rituais mais interessantes da mesma e escolhi ir com ele.

Ele explicou que no ghat maior, o Manikarnika, apenas hinduístas podiam ser cremados, enquanto ali eles aceitavam pessoas de todas as religiões. E que aquela banda e as bandeiras e a movimentação toda do dia era porque hoje seria a cremação de uma pessoa importante, alguém ligado à política. E eu realmente nunca vira aquele lugar assim, tão enfeitado de flores e cheio de pessoas bem vestidas. Subimos a uma construção e fiquei olhando tudo aquilo de cima. Ele ia me apontando as coisas:

- Aquele é o mahabrâman. Ele mora aqui e faz as orações para os mortos.

- Ah, ele é um brâman.

- Maha. Mahabrâman. É o último passo na roda da encarnação, antes de se elevar.

- Ah.

Aquele canto ali é onde as pessoas pobres são cremadas. Há pessoas que não têm dinheiro, então as viúvas me oferecem suas joias, eu cato as madeiras mais baratas e ajudo-as. A madeira mais cobiçada é o sândalo, mas ele é muito caro e vem de longe, de uma região próxima de Goa... E você sabe por que as mulheres não vêm aqui?

- Por quê?

- Existem dois motivos. O primeiro é que tradicionalmente as viúvas se atiravam ao fogo, quando o marido morria.

- E elas ainda fazem isso?

- Não, agora é ilegal. E o outro motivo é que elas choram muito. Mau carma para o morto.

Fiquei mais um tempo ao seu lado, assistindo à preparação do crematório vip. Mas fazia um solzinho. Na cidade, os seres agitavam-se por aí. No mundo não-vip, todos os seres são iguais em sua miséria. Este é o lugar onde bichos e homens se equivalem, em sua selvageria e delicadeza. Quando faz frio, há sempre um fogo que reúne todos: homens, vacas, cães e cabras. E como hoje fazia sol, estavam todos espalhados, apreciando o pouquinho de calor que nos era ofertado. As vacas são sagradas, mas apanham para sair do caminho. Os cachorros levam chutes, mas recebem carícias. As cabras vestem roupas, para sofrerem menos com o frio. E os homens enrolam-se em panos. E é essa a delicadeza sutil dessa gente: um modo de empurrar uns aos outros, de gritar uns com os outros, de proteger uns aos outros. Um modo de equivalência entre todos os seres, dentro de nossa miséria.

Fui andar para apreciar o sol. Era um quase nada. No Rio de Janeiro, nem chamaríamos isso de um dia ensolarado.

Mas, diante da falta, a gente aprende a reconhecer cada gesto de gentileza que o mundo nos oferta.
Ontem fui dormir com uma dor de cabeça fortíssima. Hoje acordei melhor. Mas ainda com aquela sensação de que o cérebro estava solto dentro da cabeça, e de que bastaria um movimento mais brusco para que ele saísse de seu eixo novamente.

Então entrei num modo câmera lenta. Era preciso que cada movimento fosse fluido e sutil. E era preciso que fosse silencioso. E ainda por cima era sábado e sábado sempre é dia de alguma lentidão.

Por isso me levantei tarde e saí de casa mais tarde ainda. Ao meio dia tomava chá e comia torradas e mingau de aveia com banana, no restaurante ao lado. E depois fui comprar pequenas coisas para tornar a casinha nova mais aconchegante. Tapetes ou pantufas, para enfrentar o chão gelado. Escolhi tapete. Pregadores de roupas para pendurar tudo - menos roupas - no varal de fita amarela que atravessa o quarto. Meias para dormir. Frutas para as manhãs.

Fui pela avenida principal, olhando as lojas do caminho. As motos sempre se jogam sobre a gente pelas ruas, eu fico brava e dou um grito. E o motociclista sempre ri da minha indignação. É minha a tarefa de desviar dos veículos, pois eles já fazem a parte deles, que é buzinar.

Incrivelmente hoje eu não me irritei com as buzinas ou com a loucura dos motoristas. Estar ali, naquela avenida, de repente era descanso de tudo. Normalmente passo os dias pelo rio - onde estão todos os viajantes que entrevisto. Então só de ser anônima em um local não turístico era quase como silêncio, embora não fosse.

Voltei para casa (a partir de agora, chamarei-a de casa, mesmo que seja um quartinho de albergue) com as mãos cheias de sacolas, recheadas de objetos que fariam daquele lugar um pouco mais meu. Depois fiquei olhando para as paredes rosadas, com vontade de enchê-las de pinturas. Mas lembrei que aquele quarto era meu, mas nem tanto.

Então fui andar pelo rio. Mas não o lado dos turistas, já que hoje é meu dia de folga. Fui para o lado de lá. Aquele, além do ghat das cremações, que é onde ninguém mais vai.

Fiquei olhando a vida dos que vivem apesar de nós, com meus olhos de câmera lenta. A vida das mulheres que fazem cestas. Das crianças que pedem para ser fotografadas. Das tantas pessoas que vêm falar comigo em híndi, como se aquela fosse a única língua possível. E que não entendem o fato de eu não entendê-las. Fiquei olhando os cachorros e as cabras. E admirei uma ave azul, que um homem veio explicar que era um pássaro pescador.

E, sobretudo, fiquei admirando as tantas pipas no céu. As crianças que as perseguiam e os tantos homens feitos, que as empinavam com a seriedade de missões de vida ou morte. E pensei que talvez eles tivessem razão. Talvez não houvesse no mundo nada mais importante do que empinar pipas. Deixar-se levar pelo vento, mas resistir. Resistir sempre. Sem perder a ternura.

Segui caminhando. Devagar quase divagando.
Desde que percebi que as comidas de rua podem ser o paraíso na terra, resolvi que não deveria mais perder tempo. Dei-me a missão de experimentar cada uma delas. 

Por isso acordei e, depois de ler os textos e fazer as anotações do dia, saí às ruas, procurando algo para fazer de café-da-manhã. Pensei em iniciar com um chai junto ao rio, da senhora que me fora apresentada como de confiança, mas não a encontrei ali. Então fui até a estrada e vi um carrinho de comida, com um amontoado de gente.

- Escolha os lugares com muita gente - me aconselhara um amigo - porque tudo aqui já é frito, você não sabe há quanto tempo aquele óleo está lá, então pelo menos vá aonde haja bastante circulação de comida, pra não dar tempo de as bactérias ficarem se proliferando.

Pois quando vi aquele carrinho com as pessoas em volta, concluí que estava no lugar certo. Pedi um pratinho - não sei o que é - parecido com o que eu havia comido no dia anterior, em algum labirinto cujo caminho preciso aprender. É assim: tem uns bolinhos redondos, acho que de batata, que o homem amassa no prato. Depois joga vários molhos indefinidos e, por cima, quebra uma espécie de pãozinho crocante. Pronto. Saí eu feliz da vida com minha comida de rua. Criança com brinquedo novo.

Quando coloquei o primeiro pedaço na boca, veio-me o pensamento:

- É meio pesado para café-da-manhã, né?

Claro que era.

E de certa forma é o que tenho feito desde que cheguei: ido com muita sede ao pote. E esquecendo, assim, que o tempo das coisas é o tempo das coisas.

- Você já começou tudo errado, agora vai ter que mudar de cidade! - brincou uma brasileira, quando contei das minhas dificuldades aqui.

Ela, ao contrário de mim, chegou fechada e sem dar confiança a ninguém. Com o tempo foi aprendendo quem são as pessoas, com quem poderia falar. Enquanto eu cheguei querendo engolir o mundo e instantaneamente já fazer parte disso tudo. Quando me vi vulnerável, percebi que havia trocado os pés pelas mãos.

A gente se atrapalha quando quer mais do tempo do que o tempo oferece.

Por isso às vezes é preciso parar, enxergar tudo de novo, recomeçar. Mudei-me, finalmente, para o novo alojamento. Eu estava em dúvida até o último dia, é verdade, e continuava pesquisando outros lugares. Quando cheguei aqui, não sei explicar o porquê, mas me apaixonei pelo quarto novo, simples como os outros.

- Finalmente um lar! - pensei.

E fui comprar tapetinhos, porque, agora sim, tinha um espaço meu. Um lar, no tempo que a vida me ofereceu.

Passei o dia, contudo, com essa dor de cabeça chata, que eu acreditava ter relação com a comida pesada logo pela manhã.

- Está vendo? Você tem que aprender a não ir com tanta sede ao pote! - falava comigo mesma.

E eu não sei por que as coisas acontecem, mas elas acontecem como se fossem exatamente o que tivesse que ser.

O que aconteceu: Um homem passou por mim. Ainda não consegui entender quem é quem dentro do mundo hinduísta, mas tinha a testa pintada e puxou assunto. Veja bem, aqui até os sadhus, conhecidos como homens santos que se desapegaram do mundo material, pedem dinheiro o tempo todo, ao ver um turista. Ou chegam colocando um bindi, dizem que vão rezar e exigem dinheiro alto (para os padrões locais, claro).

Mas esse homem passou por mim, e eu senti firmeza em sua voz. Perguntou de onde eu era, se eu era casada (sempre digo que sim), quantos filhos eu tinha. Disse que queria me oferecer um prasad - qualquer alimento-oferenda. Recusei, já imaginando que ele fosse exigir dinheiro. Ele fez questão. Tirou uvas passas de dentro de um pote. Distraída, ofereci-lhe a mão esquerda.

- Tem que ser a direita! - ele me corrigiu.

Depois explicou que, na cultura hindu, eu o cumprimentaria da seguinte maneira: abaixou-se e tocou meus dois pés. E depois despediu-se e foi embora.

E eu vejo que há tanto a aprender e tão pouco tempo. Mas que o tempo entrega o que ele tem. E de nada adianta devorar todas as comidas de rua logo pela manhã, se é de tarde que lhe chegará alguém a lhe oferecer um prasad.

E com o tempo eu começo a ter um lar.
Completei quinze dias em Varanasi e nunca entrei em um templo. 

- Qual é o templo mais bonito, que você acha que devo visitar? - perguntei ao senhor do restaurante onde sempre almoço.

- O mais bonito é aquele que fala com o seu coração. - ele respondeu - a aparência não interessa.

Pois nenhum deles havia me chamado, a não ser quando segui uma música e nem era templo o que encontrei.

Sensação que tenho desde a primeira vez que vim à Índia é essa: quando entro em um lugar fechado fico louca para sair. Quero a vida que se passa lá fora.

Mas ontem encontrei um amigo e resolvemos:

- Vamos ao Vishwanath Temple!

Também conhecido como Golden Temple, por ter a parte superior toda coberta de ouro.

Fomos. Quando se vê a fila, finalmente se entende a expressão "fila indiana". Aqui ela funciona e é quilométrica. E eles vão, pacientes e espremidos entre si, para cultuar seus deuses.

Fomos orientados a deixar todos nossos pertences em um armário, pelo qual deveríamos pagar cinquenta rúpias. Passamos pelo detector de metal, fomos revistados e entramos.

O pátio parecia outra cidade, cheio de lojinhas e gente passando. O templo, mesmo, estava protegido por outro grande muro. Procuramos a porta.

- Por aqui vocês não podem entrar!

Andamos em direção à outra porta, que parecia ser a principal. Quando fui entrar, o guarda deu um grito assustado:

- Não!!!

- Não é por aqui?

- Não-hindus não podem entrar no templo!

- Ah, tá .

E já nem tínhamos o que fazer por ali, pois não se via nada por trás daquele muro imenso. Buscamos nossos pertences e fomos andar.

Eu havia decidido que queria começar a experimentar todas as comidas de rua. Por isso, em nosso caminho, parei em uma barraca que parecia interessante. O moço amassava uns bolinhos, jogava um monte de legumes e temperos, quebrava outras coisas em cima...

Peguei um desses e fui andando e comendo.

E foi a comida mais saborosa que eu já provei no país. Vi os deuses, e eles falaram comigo.

Acho meu templo é a rua. 
Amanheceu.

Depois de um dia muito difícil, quisera eu dizer que hoje fez sol. Mas não. Amanheceu ainda mais nublado e até mais frio. E eu ainda estava no processo de reaprender a me mover no mundo dos homens. A confiar nele. 

Forcei-me a sair de casa, porque hoje era o dia do Festival das Pipas, do qual ouvia falar há dias. Eis uma das coisas que acho mais bonitas por aqui: o céu repleto de pipas coloridas. Os meninos e os homens compenetrados, fazendo-as voar.

Pois hoje, que era o dia delas, desci ao rio já olhando pro céu, procurando-as. Mas não. Nunca houve tão poucas pipas no céu de Varanasi.

Apenas neblina...

Saí caminhando e passei por uma multidão que assistia a um espetáculo. Aproximei-me. Um homem cantava e manipulava macacos dançantes, presos por cordas. Não quis olhar ou me avolumar àquela gente. Não quis compactuar, naquele momento, com o mundo dos homens.

Pensei em andar até o último ghat, mas no caminho uma música, meio mantra, me parou. Imaginei que viesse de um templo e subi as escadarias para procurá-lo. Não havia templo ali, apenas aquele som hipnótico, vindo de algum lugar. Então voltei a descer as escadas e me sentei por ali, de frente pro rio, onde ainda podia ouvir a música. Via passarem os barcos, cheios de homens. Via os cachorros andarem pela margem, a procurar comida. Vi um pássaro azul pousado no barco. E depois uma águia, que passou voando. Lembrei a águia de ontem, embrulhada em um tecido. Perguntei-me como pôde alguém aprisioná-la e xinguei, em pensamento, aquele homem.

Depois fechei os olhos e deixei esvaziar.

Então algo aconteceu: fui acordada por uma súbita vontade de levantar e caminhar em sentido contrário, rumo ao ghat de cremação. Em meu caminho, encontrei um português conhecido, junto com um homem enorme, que não me era estranho. Eles mudaram seu rumo e vieram me acompanhando.

Começamos a conversar e esse homem falou sobre uma águia.

- Você é o homem da águia!

Era. Mostrou-me fotos e contou sua história: passara a noite no ghat das cremações – esse que sempre nos chama. Ao amanhecer, encontrou essa águia, mordida por um cachorro. Tinha que salvá-la. Embrulhou-a em um pano e foi arrecadar ajuda pelas ruas:

- Arrecadei mil rúpias. Apenas cem de estrangeiros. Quem me ajudou foram os indianos.

- E eu pensei que você fosse golpista! – confessei.

- Eu percebi. Mas não faz mal, porque, por sua causa, uma família indiana se aproximou e colaborou com cem rúpias. Foi a maior doação.

Depois ele contou que procurara três veterinários até, por fim, levar a águia a um homem de confiança em Sarnath.

- Eu estive em Sarnath, ontem!

- Está vendo? Poderíamos ter dividido o rickshaw.

E explicou que se mudaria para Sarnath, pois sua missão agora era cuidar da águia, até que ela se curasse:

- Então vou soltá-la, para que ela voe livre.

Aqui em Varanasi é assim. Apenas no Festival das Pipas, não há pipas no céu. Mas há a imagem de uma águia atacada por um cachorro. Uma águia salva por um homem. Uma águia livre.

Voltei a confiar no mundo dos homens.
Acordei de mau humor. Era TPM mesmo. O bom de entender o ciclo hormonal é que começamos procurando motivo no mundo para nos sentirmos daquela forma e de repente nos damos conta: “Peraí, que dia é hoje?” Aí a gente continua se sentindo um lixo, mas pelo menos sabe que vai passar. 

Acontece que estar de TPM e estar em Varanasi ao mesmo tempo pode ser muito intenso para uma pessoa. 

Quando me dei por mim, estava folheando meu guia da Índia, em busca de um plano de fuga. Um buraco qualquer para me esconder, onde ninguém me encontrasse. Primeiro pensei em passar o dia trancada no quarto. Mas havia todas aquelas vozes ao redor e eu continuava me sentindo tão ali.

Então me veio à cabeça: Sarnath.

É o lugar onde Buda teria proferido seu primeiro sermão e fica a aproximadamente uma hora daqui. Já em meus primeiros dias eu havia tentado identificar os lugares próximos para viagens curtas. Sarnath era o mais simples. Mas, não sendo budista, nunca havia me batido uma vontade real de ir até lá.

Hoje bateu.

Então tracei minha estratégia: “ando até o restaurante fingindo que sou invisível, almoço e depois pego um rickshaw até Sarnath”.
Andei até o restaurante. Cabeça baixa, braços cruzados. O rosto ainda inchado de chorar – sim, eu chorei pela manhã. Mas acho que meu plano de invisibilidade não funcionou tão bem, porque no caminho um homem se dirigiu a mim. Não era indiano, ou pelo menos não aparentava ser, com seus cabelos loiros e grandes olhos azuis. Ele tinha algo enrolado em um pano e veio me mostrar:

- Uma águia.

- Uma águia?

- É. Ela vai ao médico.

- Ela vai ao médico?

Eu acho que fiquei uma eternidade de centésimos de segundo presa naquela dimensão do absurdo, do não entendimento.

Mas ele continuou:

- Você pode doar dez rúpias para o tratamento médico dela?

Aí entendi. Um golpe. Saí andando e pensando que era uma pena que aquela ave fosse escravizada assim.

Entrei no restaurante, comi minha dosa, tomei meu chá. Perguntei pela vaca:

- Ela já passou?

Já. E soube também que hoje a vaca teve frio. Depois comi minha sobremesa observando os filhotes de vira-latas lá fora. Quando eu cheguei, eram pequeninos e magrelos, com as costelas aparecendo. Hoje estão maiores e quase gorduchinhos. Sempre me arrependo por não tê-los fotografado logo no primeiro dia, para comparar daqui a três meses.

Então saí do restaurante e fui procurar um rickshaw. É incrível como o mau humor nos dá uma ótima capacidade de negociação.

- Quanto fica pra ir pra Sarnath?

- Ida e volta, seiscentos.

- Não! – e saía.

Eles me seguiam:

- Espere! Qual é a sua proposta?

- Eu não tenho proposta! Eu não quero!

Vinha um outro:

- Quinhentos!

- Não!

Quase fechei com um. Mas, antes de sair, ele perguntou:

- Quanto tempo você pretende ficar?

- Não sei.

- Meia hora? Uma hora? Duas horas?

- Como vou saber, se nem estou lá?

E desci do veículo. O motorista gritando que eu esperasse, os outros todos me seguindo, e eu andando impaciente.

- Vamos negociar!

- Não estou a fim!

No fim, fechei com um por quatrocentos, e ele que me esperasse o tempo que eu quisesse, pois, se eu ia a Sarnath, era para buscar paz.

Sobre o caminho... dizer o quê? Era Índia. Eram motos e carros e bicicletas e pedestres e vacas e bodes e cachorros, todos em todas as direções. Houve um momento em que olhei para um cão acuado entre as motos que passavam e a parede. Ele parecia querer sair de lá, mas estava completamente espremido.

Encontrei-me com ele em pensamento: “Esse mundo dos homens não é fácil!”

Depois chegamos a Sarnath e eu fui caminhar.

- Você quer um guia? – me perguntou um... guia.

- Não, obrigada.

Dois minutos depois ele reapareceu:

- Olha, eu não sou exatamente um guia, eu sou um budista que...

- Escuta, eu não quero um guia, nem um budista, nem ninguém. Eu só vim até aqui porque eu preciso ficar sozinha, você entende?

Acho que não entendeu, mas saiu mesmo assim.

E de repente eu estava em um lugar amplo e tranquilo. Havia uma grande Stupa, algumas ruínas, um grande Buda, uns templos. Havia alguns poucos turistas e monges budistas que não queriam guiar ninguém. E havia, sobretudo, muitos jardins. E uma imensidão de silêncio.

Lá fiquei. Perdi-me em um tempo interno e penso que, no tempo do relógio, nem era tanto assim. O motorista ficou feliz ao me ver voltar:

- Já?

O suficiente.

Sei que, seja lá o que eu fora resgatar em Sarnath, estávamos salvos. Cheguei a Varanasi quase calma. Quase leve. Encontrei na rua duas brasileiras que eu conhecera ontem. Elas estavam paradas em frente a uma loja, e o dono nos ofereceu uma comida de rua – o que era aquilo? Tão, tão bom. Depois fomos nos sentar ao Ganges e elas me apresentaram a vendedora de chai de sua confiança.

- Ela não prepara o chai com a água do rio? – perguntei, lembrando o que um amigo finlandês me contara sobre os vendedores de rua.

- A água é do rio, também.

- Tudo bem, então.

E ficamos naqueles degraus conversando. Era bom que elas fossem brasileiras. E era bom que elas fossem meninas. E que, bebendo do Ganges, eu restabelecesse a confiança no mundo dos homens.

Sabendo que amanhã é um novo dia.
Lembro de um texto do Rubem Alves em que ele contava que teve uma infância simples e muito feliz. Até que se mudaram de cidade e ele foi matriculado em uma escola de classe média alta. Lá, começou a fazer comparações. E se tornou pobre, por isso. E infeliz.

Pois meu plano inicial para Varanasi era ficar hospedada no hostel que eu já conhecia. Os quartos eram simples e não havia nada demais ali, além de espaços abertos e vista para o Ganges. Mas era essa vista meu sonho de consumo. Fiz os cálculos: gastaria exatamente metade da minha bolsa mensal só com hospedagem. Mas era um plano possível, já que o custo de vida aqui é baixo e eu gastaria pouquíssimo com alimentação.

Porém, como não havia quartos disponíveis quando cheguei, fiz uma reserva de dez dias em outro semelhante, por perto. Mais pra frente me mudaria para o primeiro e, até lá, iria me virando.

E até que o lugar onde vim parar não é mau. Também fica às margens do rio. Eu lamentava apenas que a minha janela desse, não para fora, mas para um pátio central, de forma que eu tinha que mantê-la fechada o tempo inteiro, para ter privacidade no quarto.

Mas aí comecei a viver. Conversar com as pessoas. E descobri que o preço que eu pagava era irreal.

E depois conheci viajantes que alugavam apartamentos em uma das pontas do rio e pagavam dez vezes menos. Fui visitá-los. Eram apartamentos simpáticos, com uma linda vista da laje do prédio. Sim, em Varanasi, como no Rio de Janeiro, nós adoramos lajes: os famosos rooftops. Mas havia os inconvenientes: a energia elétrica acabava diariamente (“é assim que a população aqui vive” – me disse uma garota, explicando que nos albergues só tínhamos energia sempre graças aos geradores), não havia água quente ou internet ou banheiro nos quartos.

E, sim, é mesmo assim que grande parte dessas pessoas vive.
Então me senti mal pela vida que eu levava. De repente tudo aquilo me parecia meio irreal: a água quente, a energia elétrica, o conforto. E, como no caso de Rubem Alves, mas ao contrário, eu subitamente me descobria rica. E o engraçado era que aquilo fazia com que eu me sentisse mais pobre. E infeliz.

Tudo por comparação.

Saí daqueles apartamentos confusa, tentando decidir meus próximos passos. Tentei me imaginar com outra rotina, entrando em apartamentos escuros, fervendo água para tomar banho, procurando cafés com WiFi para baixar textos ou mandar e-mails.

Confesso: não consegui.

Voltei ao albergue onde estava e conversei com o gerente.

Chegamos a um acordo: eu me mudaria para o prédio vizinho, do mesmo dono, pagando quatro vezes menos. Mas, até que aqueles quartos desocupassem, eu apenas iria para um menor, no mesmo lugar.

Arrumei minhas malas e cheguei ao quarto novo. Ainda tenho tudo o que preciso, mas com muito menos espaço. E o engraçado: gostei bem mais dele. Agora tenho uma janela que posso abrir. E, por ser pequeno, também é mais quentinho, ali.

Talvez por haver mais luz, de repente olhei para o espelho e reparei nas marcas na minha pele. E percebi que fazia tempo que não me olhava, assim de fora para dentro. E que não sabia se emagrecera ou engordara, por exemplo. E que aquilo era bom.

Porque às vezes estar pleno trata-se apenas de parar de se julgar pelo parâmetro do outro, seja pelo mais ou pelo menos.

E encontrar sua própria medida.