quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Completei quinze dias em Varanasi e nunca entrei em um templo. 

- Qual é o templo mais bonito, que você acha que devo visitar? - perguntei ao senhor do restaurante onde sempre almoço.

- O mais bonito é aquele que fala com o seu coração. - ele respondeu - a aparência não interessa.

Pois nenhum deles havia me chamado, a não ser quando segui uma música e nem era templo o que encontrei.

Sensação que tenho desde a primeira vez que vim à Índia é essa: quando entro em um lugar fechado fico louca para sair. Quero a vida que se passa lá fora.

Mas ontem encontrei um amigo e resolvemos:

- Vamos ao Vishwanath Temple!

Também conhecido como Golden Temple, por ter a parte superior toda coberta de ouro.

Fomos. Quando se vê a fila, finalmente se entende a expressão "fila indiana". Aqui ela funciona e é quilométrica. E eles vão, pacientes e espremidos entre si, para cultuar seus deuses.

Fomos orientados a deixar todos nossos pertences em um armário, pelo qual deveríamos pagar cinquenta rúpias. Passamos pelo detector de metal, fomos revistados e entramos.

O pátio parecia outra cidade, cheio de lojinhas e gente passando. O templo, mesmo, estava protegido por outro grande muro. Procuramos a porta.

- Por aqui vocês não podem entrar!

Andamos em direção à outra porta, que parecia ser a principal. Quando fui entrar, o guarda deu um grito assustado:

- Não!!!

- Não é por aqui?

- Não-hindus não podem entrar no templo!

- Ah, tá .

E já nem tínhamos o que fazer por ali, pois não se via nada por trás daquele muro imenso. Buscamos nossos pertences e fomos andar.

Eu havia decidido que queria começar a experimentar todas as comidas de rua. Por isso, em nosso caminho, parei em uma barraca que parecia interessante. O moço amassava uns bolinhos, jogava um monte de legumes e temperos, quebrava outras coisas em cima...

Peguei um desses e fui andando e comendo.

E foi a comida mais saborosa que eu já provei no país. Vi os deuses, e eles falaram comigo.

Acho meu templo é a rua. 
Amanheceu.

Depois de um dia muito difícil, quisera eu dizer que hoje fez sol. Mas não. Amanheceu ainda mais nublado e até mais frio. E eu ainda estava no processo de reaprender a me mover no mundo dos homens. A confiar nele. 

Forcei-me a sair de casa, porque hoje era o dia do Festival das Pipas, do qual ouvia falar há dias. Eis uma das coisas que acho mais bonitas por aqui: o céu repleto de pipas coloridas. Os meninos e os homens compenetrados, fazendo-as voar.

Pois hoje, que era o dia delas, desci ao rio já olhando pro céu, procurando-as. Mas não. Nunca houve tão poucas pipas no céu de Varanasi.

Apenas neblina...

Saí caminhando e passei por uma multidão que assistia a um espetáculo. Aproximei-me. Um homem cantava e manipulava macacos dançantes, presos por cordas. Não quis olhar ou me avolumar àquela gente. Não quis compactuar, naquele momento, com o mundo dos homens.

Pensei em andar até o último ghat, mas no caminho uma música, meio mantra, me parou. Imaginei que viesse de um templo e subi as escadarias para procurá-lo. Não havia templo ali, apenas aquele som hipnótico, vindo de algum lugar. Então voltei a descer as escadas e me sentei por ali, de frente pro rio, onde ainda podia ouvir a música. Via passarem os barcos, cheios de homens. Via os cachorros andarem pela margem, a procurar comida. Vi um pássaro azul pousado no barco. E depois uma águia, que passou voando. Lembrei a águia de ontem, embrulhada em um tecido. Perguntei-me como pôde alguém aprisioná-la e xinguei, em pensamento, aquele homem.

Depois fechei os olhos e deixei esvaziar.

Então algo aconteceu: fui acordada por uma súbita vontade de levantar e caminhar em sentido contrário, rumo ao ghat de cremação. Em meu caminho, encontrei um português conhecido, junto com um homem enorme, que não me era estranho. Eles mudaram seu rumo e vieram me acompanhando.

Começamos a conversar e esse homem falou sobre uma águia.

- Você é o homem da águia!

Era. Mostrou-me fotos e contou sua história: passara a noite no ghat das cremações – esse que sempre nos chama. Ao amanhecer, encontrou essa águia, mordida por um cachorro. Tinha que salvá-la. Embrulhou-a em um pano e foi arrecadar ajuda pelas ruas:

- Arrecadei mil rúpias. Apenas cem de estrangeiros. Quem me ajudou foram os indianos.

- E eu pensei que você fosse golpista! – confessei.

- Eu percebi. Mas não faz mal, porque, por sua causa, uma família indiana se aproximou e colaborou com cem rúpias. Foi a maior doação.

Depois ele contou que procurara três veterinários até, por fim, levar a águia a um homem de confiança em Sarnath.

- Eu estive em Sarnath, ontem!

- Está vendo? Poderíamos ter dividido o rickshaw.

E explicou que se mudaria para Sarnath, pois sua missão agora era cuidar da águia, até que ela se curasse:

- Então vou soltá-la, para que ela voe livre.

Aqui em Varanasi é assim. Apenas no Festival das Pipas, não há pipas no céu. Mas há a imagem de uma águia atacada por um cachorro. Uma águia salva por um homem. Uma águia livre.

Voltei a confiar no mundo dos homens.
Acordei de mau humor. Era TPM mesmo. O bom de entender o ciclo hormonal é que começamos procurando motivo no mundo para nos sentirmos daquela forma e de repente nos damos conta: “Peraí, que dia é hoje?” Aí a gente continua se sentindo um lixo, mas pelo menos sabe que vai passar. 

Acontece que estar de TPM e estar em Varanasi ao mesmo tempo pode ser muito intenso para uma pessoa. 

Quando me dei por mim, estava folheando meu guia da Índia, em busca de um plano de fuga. Um buraco qualquer para me esconder, onde ninguém me encontrasse. Primeiro pensei em passar o dia trancada no quarto. Mas havia todas aquelas vozes ao redor e eu continuava me sentindo tão ali.

Então me veio à cabeça: Sarnath.

É o lugar onde Buda teria proferido seu primeiro sermão e fica a aproximadamente uma hora daqui. Já em meus primeiros dias eu havia tentado identificar os lugares próximos para viagens curtas. Sarnath era o mais simples. Mas, não sendo budista, nunca havia me batido uma vontade real de ir até lá.

Hoje bateu.

Então tracei minha estratégia: “ando até o restaurante fingindo que sou invisível, almoço e depois pego um rickshaw até Sarnath”.
Andei até o restaurante. Cabeça baixa, braços cruzados. O rosto ainda inchado de chorar – sim, eu chorei pela manhã. Mas acho que meu plano de invisibilidade não funcionou tão bem, porque no caminho um homem se dirigiu a mim. Não era indiano, ou pelo menos não aparentava ser, com seus cabelos loiros e grandes olhos azuis. Ele tinha algo enrolado em um pano e veio me mostrar:

- Uma águia.

- Uma águia?

- É. Ela vai ao médico.

- Ela vai ao médico?

Eu acho que fiquei uma eternidade de centésimos de segundo presa naquela dimensão do absurdo, do não entendimento.

Mas ele continuou:

- Você pode doar dez rúpias para o tratamento médico dela?

Aí entendi. Um golpe. Saí andando e pensando que era uma pena que aquela ave fosse escravizada assim.

Entrei no restaurante, comi minha dosa, tomei meu chá. Perguntei pela vaca:

- Ela já passou?

Já. E soube também que hoje a vaca teve frio. Depois comi minha sobremesa observando os filhotes de vira-latas lá fora. Quando eu cheguei, eram pequeninos e magrelos, com as costelas aparecendo. Hoje estão maiores e quase gorduchinhos. Sempre me arrependo por não tê-los fotografado logo no primeiro dia, para comparar daqui a três meses.

Então saí do restaurante e fui procurar um rickshaw. É incrível como o mau humor nos dá uma ótima capacidade de negociação.

- Quanto fica pra ir pra Sarnath?

- Ida e volta, seiscentos.

- Não! – e saía.

Eles me seguiam:

- Espere! Qual é a sua proposta?

- Eu não tenho proposta! Eu não quero!

Vinha um outro:

- Quinhentos!

- Não!

Quase fechei com um. Mas, antes de sair, ele perguntou:

- Quanto tempo você pretende ficar?

- Não sei.

- Meia hora? Uma hora? Duas horas?

- Como vou saber, se nem estou lá?

E desci do veículo. O motorista gritando que eu esperasse, os outros todos me seguindo, e eu andando impaciente.

- Vamos negociar!

- Não estou a fim!

No fim, fechei com um por quatrocentos, e ele que me esperasse o tempo que eu quisesse, pois, se eu ia a Sarnath, era para buscar paz.

Sobre o caminho... dizer o quê? Era Índia. Eram motos e carros e bicicletas e pedestres e vacas e bodes e cachorros, todos em todas as direções. Houve um momento em que olhei para um cão acuado entre as motos que passavam e a parede. Ele parecia querer sair de lá, mas estava completamente espremido.

Encontrei-me com ele em pensamento: “Esse mundo dos homens não é fácil!”

Depois chegamos a Sarnath e eu fui caminhar.

- Você quer um guia? – me perguntou um... guia.

- Não, obrigada.

Dois minutos depois ele reapareceu:

- Olha, eu não sou exatamente um guia, eu sou um budista que...

- Escuta, eu não quero um guia, nem um budista, nem ninguém. Eu só vim até aqui porque eu preciso ficar sozinha, você entende?

Acho que não entendeu, mas saiu mesmo assim.

E de repente eu estava em um lugar amplo e tranquilo. Havia uma grande Stupa, algumas ruínas, um grande Buda, uns templos. Havia alguns poucos turistas e monges budistas que não queriam guiar ninguém. E havia, sobretudo, muitos jardins. E uma imensidão de silêncio.

Lá fiquei. Perdi-me em um tempo interno e penso que, no tempo do relógio, nem era tanto assim. O motorista ficou feliz ao me ver voltar:

- Já?

O suficiente.

Sei que, seja lá o que eu fora resgatar em Sarnath, estávamos salvos. Cheguei a Varanasi quase calma. Quase leve. Encontrei na rua duas brasileiras que eu conhecera ontem. Elas estavam paradas em frente a uma loja, e o dono nos ofereceu uma comida de rua – o que era aquilo? Tão, tão bom. Depois fomos nos sentar ao Ganges e elas me apresentaram a vendedora de chai de sua confiança.

- Ela não prepara o chai com a água do rio? – perguntei, lembrando o que um amigo finlandês me contara sobre os vendedores de rua.

- A água é do rio, também.

- Tudo bem, então.

E ficamos naqueles degraus conversando. Era bom que elas fossem brasileiras. E era bom que elas fossem meninas. E que, bebendo do Ganges, eu restabelecesse a confiança no mundo dos homens.

Sabendo que amanhã é um novo dia.
Lembro de um texto do Rubem Alves em que ele contava que teve uma infância simples e muito feliz. Até que se mudaram de cidade e ele foi matriculado em uma escola de classe média alta. Lá, começou a fazer comparações. E se tornou pobre, por isso. E infeliz.

Pois meu plano inicial para Varanasi era ficar hospedada no hostel que eu já conhecia. Os quartos eram simples e não havia nada demais ali, além de espaços abertos e vista para o Ganges. Mas era essa vista meu sonho de consumo. Fiz os cálculos: gastaria exatamente metade da minha bolsa mensal só com hospedagem. Mas era um plano possível, já que o custo de vida aqui é baixo e eu gastaria pouquíssimo com alimentação.

Porém, como não havia quartos disponíveis quando cheguei, fiz uma reserva de dez dias em outro semelhante, por perto. Mais pra frente me mudaria para o primeiro e, até lá, iria me virando.

E até que o lugar onde vim parar não é mau. Também fica às margens do rio. Eu lamentava apenas que a minha janela desse, não para fora, mas para um pátio central, de forma que eu tinha que mantê-la fechada o tempo inteiro, para ter privacidade no quarto.

Mas aí comecei a viver. Conversar com as pessoas. E descobri que o preço que eu pagava era irreal.

E depois conheci viajantes que alugavam apartamentos em uma das pontas do rio e pagavam dez vezes menos. Fui visitá-los. Eram apartamentos simpáticos, com uma linda vista da laje do prédio. Sim, em Varanasi, como no Rio de Janeiro, nós adoramos lajes: os famosos rooftops. Mas havia os inconvenientes: a energia elétrica acabava diariamente (“é assim que a população aqui vive” – me disse uma garota, explicando que nos albergues só tínhamos energia sempre graças aos geradores), não havia água quente ou internet ou banheiro nos quartos.

E, sim, é mesmo assim que grande parte dessas pessoas vive.
Então me senti mal pela vida que eu levava. De repente tudo aquilo me parecia meio irreal: a água quente, a energia elétrica, o conforto. E, como no caso de Rubem Alves, mas ao contrário, eu subitamente me descobria rica. E o engraçado era que aquilo fazia com que eu me sentisse mais pobre. E infeliz.

Tudo por comparação.

Saí daqueles apartamentos confusa, tentando decidir meus próximos passos. Tentei me imaginar com outra rotina, entrando em apartamentos escuros, fervendo água para tomar banho, procurando cafés com WiFi para baixar textos ou mandar e-mails.

Confesso: não consegui.

Voltei ao albergue onde estava e conversei com o gerente.

Chegamos a um acordo: eu me mudaria para o prédio vizinho, do mesmo dono, pagando quatro vezes menos. Mas, até que aqueles quartos desocupassem, eu apenas iria para um menor, no mesmo lugar.

Arrumei minhas malas e cheguei ao quarto novo. Ainda tenho tudo o que preciso, mas com muito menos espaço. E o engraçado: gostei bem mais dele. Agora tenho uma janela que posso abrir. E, por ser pequeno, também é mais quentinho, ali.

Talvez por haver mais luz, de repente olhei para o espelho e reparei nas marcas na minha pele. E percebi que fazia tempo que não me olhava, assim de fora para dentro. E que não sabia se emagrecera ou engordara, por exemplo. E que aquilo era bom.

Porque às vezes estar pleno trata-se apenas de parar de se julgar pelo parâmetro do outro, seja pelo mais ou pelo menos.

E encontrar sua própria medida.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Todos os caminhos



Então eu saí decidida a fazer um caminho diferente. Em vez de ir pelos ghats, chegaria ao último deles pela estrada.  Não sou boa de orientação, mas parecia simples: a estrada é paralela ao rio.

Segui.

Passei por vários carrinhos de comida de rua e fiquei maravilhada pelo que pareciam infinitas combinações de pé-de-moleque. Amendoim caramelizado. Arroz caramelizado. Gergelim caramelizado. E vários outros grãos e castanhas que não conheço. Passei por vira-latas magrelos, como são todos daqui. Os mais lindos cachorros do mundo. E sempre perto de alguma brasa, para se aquecer. Brasa sempre. Fogueiras. Fumaça de todos os tipos, para todo lado. Os indianos estão sempre queimando alguma coisa. Acho que passei pelo bairro muçulmano, porque de repente eram tantos com aquela roupa típica, com o chapeuzinho. E as mulheres de burca. E eu passei pelos homens escovando vacas e por um grupo de crianças que corriam.

Quando me dei conta, estava completamente perdida. Tentei pedir informação a umas duas pessoas, mas nenhuma delas entendia inglês.

Dei-me por vencida e achei que o mais sensato seria voltar pelo caminho de onde vim – se eu lembrasse.  Por precaução, sempre evito fazer muitas curvas, quando não conheço o lugar.

Mas foi neste instante em que apareceu uma procissão de homens carregando um defunto. O que provavelmente significava que eles iriam ao ghat de cremação. Ou seja: o rio. Resolvi segui-los. Eles andavam rápido, gritando coisas e jogando pétalas de rosas sobre o corpo.

Em certo momento pararam. Colocaram o corpo – envolto por tecidos coloridos vibrantes – sobre o chão. Estariam descansando? Sei que notaram minha presença inconveniente ali, um cochichou com o outro e todos me olharam. É verdade que eu não deveria segui-los, essas procissões são só de homens e eu, afinal, nem conheço o defunto.

Mas eu só queria chegar aos ghats – como explicar-lhes?

Não foi preciso. Eles pegaram o corpo e continuaram a procissão.

E eu continuei a segui-los, tentando desviar dos carros e pessoas e motos e bicicletas, em passos apressados, até perdê-los de vista.

Sim, eu os perdi. E me senti ridiculamente imbecil por conseguir perder um grupo de homens carregando um defunto em tecidos vibrantes.

Então tive que voltar tudo. Andei bastante, no sentido oposto, até conseguir me localizar. Como àquela altura eu já estava esfomeada, resolvi que iria ao restaurante de sempre e só depois recomeçaria meu caminho rumo ao Asi Ghat, meu destino original.

Cheguei ao restaurante, que estava cheio, e acabei compartilhando mesa com um casal de israelenses. Começamos a conversar e eu descobri que eles moravam exatamente aonde eu queria chegar.

- Você quer nos acompanhar, depois do almoço?

- Claro.

E assim a vida tem me guiado, pelos caminhos mais longos e mais certos.


sábado, 10 de janeiro de 2015

Dia de flores


Hoje finalmente saí decidida a comprar um agasalho.
Fui meio correndo, meio saltitando, porque estava alegre. Escolhi um poncho enorme e azul. Dizem que aqui você tem que pechinchar em tudo, mas quando vejo um poncho pela metade do preço que pago para almoçar em uma esquina qualquer a cada dia da minha vida no Rio de Janeiro, não consigo. De qualquer jeito, acabei ganhando um desconto não planejado, porque não carregava dinheiro suficiente na minha carteira. Depois, com as moedas que tinha, comprei um cordão de flores de uma senhora na rua. Coloquei-o em torno do pescoço e fui passear.
As pessoas me perguntavam:
- Você vai ao templo?
- Não, não. Vou só andar.
- Belas flores!
E eram.
E era uma tolice também. Essas flores são vendidas como oferendas aos deuses, não para servir de colar a uma moça que, porque estava alegre, decidiu andar florida.
Mas eram flores lindas e amarelas, que, ao final do dia, entreguei ao rio.
Se há deuses, certamente as receberam.
E ainda deixaram algumas ali, perdidas no meu cabelo.

Difícil Maravilhoso



Às vezes fico me perguntando se um dia as pessoas daqui vão se acostumar comigo. Se vão entender que não estou como turista. Se vão parar de me olhar, de me seguir, de tentar vender coisas.

Às vezes fico me perguntando se um dia vou me acostumar com elas. Se vou parar de me irritar com o fato de ser seguida. Se vou entender o que se passa, quando me olham. Se vou deixar de achá-las incrivelmente belas e fantásticas e misteriosas.

Sentei-me para tomar o café da manhã e estudar no computador. Eu tentava ler um texto, quando um moço se aproximou e veio espiar, não por trás, mas pela frente do meu ombro, o que eu lia. Quando olhei feio, ele perguntou se a internet estava funcionando direito.

- Está funcionando. Mas agora não estou usando a internet. Estou estudando. – frisei o “estudando” para deixar claro que não queria ser incomodada.

Então ele se posicionou à minha frente. Não digo que começou a me rodear, porque não tinha por onde. Eu tenho essa mania de me sentar a um canto onde eu possa ter visão de todo o espaço, sem ser vista por trás. Mas ele ficou assim, bem à minha frente, andando de um lado para o outro a me observar. Quando dei uma encarada, ele se desculpou e foi para a porta. E continuou me olhando.
A essa altura, eu estava com os olhos fixos na tela do computador, mas obviamente não conseguia ler. Quanto tempo se passou? Dez minutos. Meia hora. Uma vida. Não sei. Sei que a certa altura ele finalmente foi embora.

Terá ele se acostumado comigo?

Mais tarde, quando saí à rua, estava daquele jeito perdida, sem saber quem eu deixava se aproximar. As crianças, sempre deixo. E sempre me contenho para não apertá-las e espremê-las, quando se aproximam tentando vender alguma coisa. As mulheres, pouquíssimas se aproximam. Na maioria das vezes para pedir esmolas. Mas nunca, jamais, para puxar assunto. Às vezes observam de longe. Eu sorrio e digo “namastê”. Elas sorriem de volta e balançam a cabeça, desse jeito que os indianos fazem. E os homens se aproximam sempre: “Eu falei com você ontem. Anteontem. Antes de antes de ontem.” Todos já falaram comigo. Cada um diz para tomar cuidado com os outros. Mas quem são os outros? Eu nunca sei.

Sei que outro dia, quando ignorei um homem, ele me provocou:

- Eu te vi caminhando com um moço ontem. Você só gosta de brancos, né? Não gosta de homens indianos.

Aquilo me tirou do sério e, quando vi, estávamos os dois discutindo, de dedos levantados e rodeados por uma multidão de platéia.

- Ele te colocou em um “mind game”. – me explicou Babu – Por aqui passam muitos turistas o tempo inteiro. Quando uns vão embora, outros vêm. E eles têm que arranjar um jeito de chamar sua atenção, arranjar argumentos que te façam parar.

Babu, não o do dia anterior, mas o Babu de hoje, ensinou-me um pouco de híndi. Algumas expressões úteis e, o mais importante, os números. Aprender híndi faz parte do meu plano de me misturar. Babu disse se lembrar de mim do ano retrasado. Eu duvidei.

- Perto do Alka Hotel. Te vi andando acompanhada. Eu trabalhava na loja do meu tio e falei para você vir olhar as pashminas. Você disse que iria outro dia. Você ficou menos tempo, três dias talvez. Eu falava com você todos os dias, mas você foi embora e nunca veio à loja.

Era incrível, mas ele realmente se lembrava de mim. Perto do Alka Hotel.

Não sei se um dia as pessoas daqui vão se acostumar comigo.

Eu sei que as acho fascinantes e belas e misteriosas.


Espero não me acostumar com elas.