quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

"Viver sem tempos mortos"



Durante muito tempo eu tive a péssima mania de não levar casaco para o cinema. E o pior não era passar frio – sempre passava -, mas pensar que eu sabia antes que sofreria com o ar condicionado e que, portanto, rejeitar o agasalho havia sido uma escolha consciente. Eu costumava dizer que não tinha empatia pelo meu eu futuro. Pois era por pura preguiça de carregar o casaco que meu eu presente escolhia ignorar o que sentiria mais à frente.

A falta de empatia pelo meu eu futuro já me colocou em situações inutilmente desagradáveis.

 Mas hoje também vejo que é ela quem me salva de uma vida inerte.

Eu sou aquela pessoa mala que empurra a outra para a piscina. Mas no caso a outra sou eu: meu eu futuro.

É bem verdade: se a gente pensa, não faz. Se a gente tenta imaginar como se sentirá, se a gente se visualiza no desconforto e na dor, a gente se poupa. Por isso é preciso uma dose de “não me importo”, para que a gente simplesmente vá.

No dia em que cheguei nesta cidade eu me lembro de olhar para o céu nublado e para as pessoas barulhentas e para o chão enlameado e pensar: “Eu quis vir. Eu fiz esta escolha. Eu me coloquei aqui.”

É sempre assim: eu me coloco na situação e, uma vez lá, sou obrigada a me virar.

Hoje vejo: estou me virando. E bem. E, já que estou aqui, estou por inteiro, na dor e na graça. Seguindo meus caminhos e muitas vezes me deixando levar. Já dissera Sartre que “o inferno são os outros”. Pois bem: eu desço ao inferno e saio de lá melhor, porque volto pessoa inteira, com meu amor, minha irritação, meu estranhamento e minha compreensão. Isso é paz: não a tranqüilidade dos anjos, mas a permissão de ser inteira, com tudo o que sou.

E cada dia na Índia me tem permitido ser tanto.

Sei que ontem acordei feliz e fui andar pelos ghats. E minha caminhada, como sempre, parecia uma corrida de revezamento. Alguém vinha conversar e ia me seguindo. Quando eu pedia para ficar sozinha, a pessoa saía e logo outra grudava em mim. Depois outra, depois outra. Na última, eu, já irritada, comecei a falar para o rapaz: “Por que é tão difícil andar sozinha? Por que todo mundo tem que te seguir o tempo inteiro?” Ele me respondeu que, se eu não queria conversar, não deveria olhar na cara das pessoas. E simplesmente dizer que me deixassem em paz. “Mas eu até gosto de conversar, eu só não quero que me sigam!” – respondi e saí sozinha, chegando, sem querer, ao maior ghat de cremação. Fiquei por um tempo sentada, olhando os corpos serem queimados. Diante dessa imagem tão concreta da impermanência das coisas, deixei a irritação passar.

Então andei mais um pouco, desta vez no sentido contrário, sentei-me em uma murada qualquer e novamente o último rapaz apareceu. Chamou-me para sentar à margem do rio.

- Estou bem aqui, obrigada.

- Lá você pode ficar sossegada, olhar o rio.

- Mas eu estou bem aqui.

- Como é seu nome?

- Lian. E o seu?

- Carlos.

- Carlos?

- É.

- Carlos?!

- Isso.

- Não me parece um nome indiano.

- Meu nome indiano é Babu. Carlos é o nome que um canadense me deu. Venha! No se pasa nada!

Então pensei “por que não?” e fui. Carlos e seus amigos tomavam banho de rio, só de cueca. Eles soltavam gritos e riam, como crianças. Não. Como brasileiros. E passavam um óleo no corpo. E passavam o mesmo óleo em seus cordões de meditação. E me contavam como o rio era sagrado e não era sujo.

Até que resolvi me levantar e continuar a caminhada.

- Quando te vejo de novo? – ele perguntou, como perguntam todos aqui, sem imaginar que é essa talvez a pergunta que, mesmo no meu cotidiano, é a que mais detesto que me façam. Odeio que me comprometam sem que eu me tenha comprometido.

- Nos vemos por aí. – respondi vaga, porém verdadeiramente. A gente sempre esbarra em todo mundo de novo.

E, como começaria minha primeira aula de yoga na cidade, deixei que me arrastassem para algumas lojas e comprei calças e camisetas. Depois almocei em silêncio no lugar de sempre – já tenho um lugar de sempre – e resolvi passar no hostel para me trocar. No caminho, porém, encontrei uma cerimônia hinduísta só de mulheres. Elas falavam e cantavam. Sentei-me ao lado e fiquei. Uma delas me ofereceu o bindi, aquela manchinha vermelha que eles colocam no terceiro olho. Aceitei. E de alguma forma me senti aceita, também. Saindo dali, encontrei o finlandês que eu conhecera no dia anterior e conversamos até a hora da minha aula. Cheguei meia hora mais cedo, pensando em descansar, esperar e folhear alguns livros de yoga, mas o professor logo me colocou para fazer algumas respirações. E depois de duas horas de aula, me avisou:

- Tem comida para você. Aqui sempre tem jantar para os alunos depois da aula.

É quase impossível me oferecerem comida e eu não ficar feliz. Mas naquele momento fiquei incrédula, pensando que tudo que eu não queria era jantar às seis da tarde, depois de me movimentar por duas horas. Jantei, porém, a comida que uma mocinha me trazia. Chorei muito por conta da pimenta fortíssima, tentando fazer com que ninguém percebesse. Depois saí de lá correndo e voltei para o hostel quase tonta.

Cheguei ao terraço ainda fraca e ali fiquei, olhando a lua cheia no céu. E naquele momento me senti profundamente grata ao universo. Grata por estar aqui. Grata por poder viver tudo isso, com todos os temperos que a vida tem.

E sorri ao pensar que eu me coloquei ali e que agora era obrigada a me virar. Obrigada a viver essa imensidão de vida, que é tudo, menos inerte.


A luz



Eu estava no Dosa Cafe, esse lugarzinho que elegi há mais de um ano. Na mesa ao lado sentou-se um finlandês, de camiseta. Na outra mesa, um casal de canadenses. E, como eram só três mesas, os dois holandeses que chegaram acabaram se sentando comigo. Não tinha importância, porque àquela altura todos nós conversávamos animadamente. Era um cubículo pequeno, o que tornava tudo mais aconchegante.

Eu sentia frio, mas o finlandês (de camiseta, repito) dizia que aquela era a temperatura do verão no seu país. Ele me contava que, em seu inverno, tinham apenas quatro horas diárias de luz, mas que o verão eram três meses iluminados vinte e quatro horas por dia.

Eu não sei o que eu faria com dias inteiros iluminados, mas me vejo assim: como uma errante desvairada. Porque não consigo voltar para casa enquanto há luz do sol. E mesmo o horário de verão do Rio de Janeiro me segura na rua até o último raio de luz, às oito da noite.

E, como falávamos em sol e eu me inundava com a ideia de luz infinita, eis que ela apareceu, como que por um milagre. Não era forte, mas era a luz do sol. E era infinita.

Paguei minha conta e saí a andar pelas ruas.

Preciso explicar que em Varanasi (e na Índia, de uma maneira geral) é quase impossível andar sozinha pelas ruas. Há sempre alguém te seguindo, convidando para olhar sua loja, para tomar chai, perguntando de onde você vem, para onde você irá, quais são seus planos para amanhã e depois e depois.

Mas, como o sol saíra, eu conversei feliz com todo mundo que se aproximou. E aprendi apenas um segredo: dizer à pessoa, honestamente e sem grosseria, que não gostava de ser seguida. E pronto. Eles diziam “oh my god”, despediam-se e saíam, não sem antes me convidar para o chai do dia seguinte.

Mas fazia sol. E eu estava radiante. Então fui caminhar ao longo do Ganges e fazer uma das coisas que mais gosto de fazer na vida: retratos. De pessoas, de cachorros, de bodes, de vacas e de búfalos. Eu gosto de retratos porque para mim os seres são bonitos. E têm uma textura e uma luz e uma nobreza. Pois eu fazia retratos e falava com as pessoas. E constatava que, ao contrário do que dizem, o esporte nacional indiano não é o rúgbi, mas a pipa, com seus meninos e seus homens compenetrados na importante tarefa de manter um papel colorido no ar.

E eu fui andando pelos vários ghats, ao longo do rio. Até que a luz caiu e resolvi voltar. E eu estava feliz e radiante e comunicativa. Mas houve um momento em que um homem passou ao meu lado. E ele falou grosseiramente ao meu ouvido: “very sexy”. Eu juro que desmontei. Eu juro que quis chorar e de repente não queria mais falar com ninguém. Porque faço questão de que não vejam menos do que minha nobreza. Não de classe, não de escolaridade, não de aparência, nem nada disso. Mas minha nobreza despida: essa de ser humano. Ou melhor: de ser vivo.

Levei alguns passos para me reestruturar, neste percurso em que um homem qualquer te faz mergulhar da luz à sombra. E aí você enxerga a sombra, reconhece-a, aceita-a, toma fôlego e sobe de novo à luz. Foi o que fiz, ancorada subitamente por uma lua cheia e imensa que aparecia no céu.

Caminhei hipnotizada pela lua grande e amarela. E, ao chegar à altura do meu alojamento, resolvi procurar um lugar para ficar por ali mesmo, sentindo a força do rio – nada menos do que o Ganges – e do luar. Sentei-me em uma quina, não sei por quanto tempo. Sei que repente havia pessoas ao meu lado. E que um barqueiro puxou assunto e ficamos ali, conversando. E logo um outro moço entrou na conversa. Era um moço moreno, jovem e bonito, que parecia saído de um filme de sessão da tarde. Seu nome era Monu, e foi assim que ele se me apresentou:

- I’m a holy man.

Eu diria que tenho dificuldade para aceitar sempre que alguém se apresenta como santo, sagrado, iluminado ou coisa parecida. Mas não posso bem falar em “sempre”, porque acho que esta foi a primeira vez em que isso me aconteceu. De qualquer jeito, nunca entendi muito quando me falavam coisas do tipo: “ desde que o guru fulano de tal atingiu a iluminação...”. Não penso em iluminação como graduação, assim como não a vejo como elevação, mas sim expansão. E a gente se expande no mundo, não fora dele.

Mas o fato é que ali estava Monu, e ele me parecia mesmo sagrado. Não da sacralidade dos especiais, na qual não acredito, mas da sacralidade de todos os seres. E havia uma lua linda no céu e, naquele momento, eu me deixei ser conduzida pela conversa.

- Este é meu guru, não-sei-o-quê-Baba  (ou Baba-não-sei-o-quê) – e apontou para o homem sentado ao seu lado.

O guru. Acho que a melhor maneira de visualizá-lo é pensar no Chico César, o cantor. Um Chico César afetado, enrolado em um tecido laranja, com um enorme turbante na cabeça. Durante alguns momentos da conversa, o guru me olhou seriamente com um olhar lateral. Nos outros momentos, ele apenas tossia seco. Quando falava, provavelmente em híndi, tinha uma voz rasgada de quem fumou a vida inteira. Falou alguma coisa, que Monu traduziu:

- Ele disse que amanhã vai parar de fumar.

E Monu me perguntou duas vezes se eu não fumava. Eu disse que não. Ele me olhou por mais tempo. Eu repeti que não fumava. Nada.

Ele me falou de uma montanha por perto e também da cidadezinha de Bodh Gaya. Eu lhe disse que queria conhecer ambas. Ele falou que me levaria. Perguntou se eu meditava e se eu praticava yoga. Um pouco, sim, respondi. Ele disse que poderíamos praticar juntos e que me ensinaria várias posturas. E mostrou seu tórax e disse que não precisava de cobertores, pois se aquecia com a respiração de yoga: “eu estou conectado” – explicou. E se colocou na postura de lótus e se equilibrou sobre os dois braços.

E quando resolvi me levantar para ir embora, ele perguntou quando iríamos juntos para a montanha. Expliquei que acabara de chegar e que vim para estudar, então não sabia ainda quando teria tempo para passear. Então ele me olhou muito sério e questionou:

- Qual é seu problema?

- Eu não tenho problema.

- É que eu estou vendo aqui – e apontou para a região do meu cenho – e não vejo luz.

- Você está me olhando e não vê luz?

- É.

Por um momento eu tive dó. Pois bem sei que até um ser como eu, em minha infinita pequeneza, tem alguma luz. E até eu vejo que todos os seres são nobres e sagrados.

Antes de eu ir embora, ele ainda me perguntou:

- Você não vai deixar nenhuma contribuição para o Baba?

- Hoje não.

E fui embora banhada de luz do sol e da lua. Pena que ele não pôde enxergar.


domingo, 4 de janeiro de 2015

Da (im)permanência



Chovia.

Fiquei tentada a almoçar no restaurante do hostel, mas havia também aquela busca que eu queria fazer: encontrar as referências que eu guardara da visita anterior. Salvei em meu celular os mapas de três lugares: Yoga Training Center, Dosa Cafe e Blue Lassi. 

No primeiro eu fizera uma aula de yoga e decidi que seria minha escola durante esses três meses. 

No segundo eu almoçara quase todos meus dias em Varanasi, da primeira vez em que vim. Dosa é uma espécie de panqueca indiana, e a de lá é a melhor que já comi. O lugarzinho era simples, apenas um cubículo pequeno com três mesas. O dono era um senhor contido, o que costumo chamar de simpático por dentro. Sempre preferi os simpáticos por dentro aos simpáticos por fora. Ainda havia uma sobremesa deliciosa criada por ele, um idli (espécie de bolinho) de chocolate. O preço das refeições era baixíssimo. E o lugar me ganhou de vez no dia em que apareceu uma vaca. Ela parou e colocou a cabeça dentro da porta, esperando. O dono do restaurante contou que fazia alguns meses que ela aparecia ali diariamente, ele lhe dava uma dosa, que ela comia e saía a andar. Achei aquilo curioso e doce: uma vaca solta pela rua que sabia que, em um estabelecimento específico, havia sempre um senhor que lhe ofereceria comida com as mãos.

E por fim o Blue Lassi, um lugarzinho também simples, como o é tudo em Varanasi, e azul, como diz o nome. Lassi é o iogurte indiano, presente em todos os lugares, o tempo todo, e que pode ser servido doce, salgado, com frutas, com condimentos e com vários etecéteras possíveis. Eu, que não sou tão afeita a derivados de leite, aderi rapidamente ao hábito do lassi. Costumava pedir o “masala lassi”, ou “special lassi”, que era misturado com açúcar e condimentos como cardamomo e açafrão.

Certa vez, em Pushkar, acordei e pedi um “special lassi” no restaurante do hostel. O atendente questionou:

- Special lassi? De manhã?

- Por quê? Não se toma special lassi de manhã?

- Não.

- Está bem, então me traga um sweet lassi. – pedi, já pensando em todas as vezes em que, por ignorância, desrespeitei a cultura local.

Porém, ainda curiosa, perguntei:

- Afinal, do que é feito o special lassi?

- De maconha.

- Ah.

Entendi enfim de quantos possíveis sabores um lassi podia ser.

Mas voltando ao Blue Lassi...

Era um lugarzinho assim simples e assim azul. O moço ficava sentado ao lado da porta, batendo o iogurte à vista de todos. Havia várias opções de sabores, e o meu preferido era o de romã (“anaar”, a única palavra em híndi que aprendi). Era um lugar um tanto surreal, em parte pelo estranho ambiente azulado, em parte porque ficava no trajeto do Ghat das cremações, de forma que, enquanto tomávamos nosso lassi, víamos pessoas passarem carregando defuntos o tempo inteiro.

Pois desta vez saí à procura dessas três referências. Estava decidida a almoçar a dosa, depois tomar um lassi e talvez identificar a escola de yoga, quiçá já me inscrever para as aulas. Por causa da chuva, o chão estava mais lamacento do que o normal (“Aquilo não é lama!” – diria mais tarde Umi, o senhor de Delhi que, àquela altura, já poderia ser chamado de amigo, defendendo, não sem razão, que Varanasi é a cidade mais suja que já conheceu). 


Durante vários momentos, acossada pelo barro, pensei em voltar. Mas sujava meus pés e seguia. Até chegar a um ponto em que era inútil pensar em voltar, tão perdida que já estava. Foi aí que me ocorreu que talvez eu não devesse procurar as referências de antes, pois era impossível repetir o passado. E que eu deveria me abrir para aquele mundo absolutamente novo que se abria diante de meus olhos. Dei-me conta de que Varanasi era muito maior do que eu imaginara e me consolei pensando que eu não viraria menina de rua. Sempre que me perco, lembro que sou adulta e que não preciso do desespero da infância, em que se perder dos pais representava a possibilidade de me tornar menina de rua. Pois saí quase segura de minha adultice, andando entre os vendedores que tentavam me puxar para suas lojas, os motoristas de tuk tuk que queriam me levar sabe-se-lá-para-onde e os rapazes que sabe-se-lá-por-quê puxavam assunto a todo custo.

Até que, entrando por uma ruela, ouvi vozes ritmadas de homens atrás de mim. Imaginei o que aquilo significava e olhei para trás: eles carregavam um corpo, coberto, como os outros, por tecidos vibrantes. Mas aquilo significava um pouco mais: significava que eu estava perto do Blue Lassi. Segui por aquela rua e constatei que estava certa. Lá estava o moço batendo o iogurte de sempre. Tirei os chinelos e entrei. Pedi o lassi de romã. Olhei em volta e tudo aquilo me parecia ainda mais estranho do que já fora. Na parede, várias fotos e mensagens deixados por turistas de todo o mundo. Eu, que não deixara um sinal, via fantasmas por todo lado: de um alguém que fui há pouquíssimo tempo. De um alguém que não era mais, que nunca mais seria.

Saí de lá um tanto nostálgica, um tanto enjoada, não sei se do lassi ou de uma certa angústia, que subitamente se formara. E, como essa porta do passado se abrira, magicamente cheguei à porta do Dosa Café. Entrei. Procurei no cardápio aquele que, em um passado recente, fora eleito meu prato preferido. Reconheci-o ali: o special masala dosa.

Enquanto meu prato não chegava, comentei com o senhor, aquele mesmo:

- Eu estive aqui há um ano...

- É, eu me lembro de você. – e fez um sinal, mostrando que se lembrava do meu rosto.

- Naquela época tinha uma vaca... Ela ainda vem?

- Vem sim. Quase todos os dias.

Sorri. Mais de um ano se passara, quase nada na minha vida permanecera o mesmo, desde então.

Mas a vaca ainda vinha.

E aquele homem ainda se lembrava do meu rosto.

Alguma permanência, em meio a tudo.

Comi minha dosa com duas limonadas, forçando para colocar pra dentro o que quase não entrava, tão cheia eu já estava do lassi misturado com passado. Ficamos eu e o senhor naquela sala agradavelmente silenciosa, enquanto, pela janela, eu via a vida passar. Passavam vacas e passavam meninos. E, enquanto tudo passava, eu percebi quão ilusória era a permanência, mesmo a da vaca, que voltava diariamente.

- Hoje ela já veio?

- Já. Hoje ela veio por volta de onze da manhã, comeu sua dosa e passou.

Sorri diante da constatação: Tudo, tudo passa.

E um dia também as lembranças passarão.

O segundo sol



Na minha primeira noite em Varanasi, um sonho se repete em minha mente. É uma imagem: um espaço retangular, visto de cima, como o galpão de uma fábrica. Tem uma máquina no canto, e eu me pergunto o que fazer com ela, o que fazer com aquele espaço, para transformá-lo em um lar.
E é esse meu primeiro susto: como transformar tudo isso em um lar? E minha primeira constatação: a diferença entre estar a passeio e estar em missão.
É verdade que eu já me havia dito que, se eu não pudesse seguir pelo caminho fácil, eu seguiria pelo difícil mesmo. E, obviamente, se eu procurasse conforto, eu não teria vindo justo para Varanasi. E eu vim preparada para quase tudo: menos para o frio. E eu, que só trouxe um casaquinho para não congelar no avião. O guia dizia que a melhor época para vir à Índia era de outubro a abril, logo após as monções. Em 2013 vim em outubro e desta vez coloquei na cabeça que outubro e janeiro eram a mesma coisa.
Mas quem me dirá que nada nunca é a mesma coisa?
Pela experiência anterior, eu vim avisada de que a azia do primeiro dia era muito mais devida ao cansaço da viagem do que ao impacto da comida. Eu vim avisada de que o trajeto não seria fácil e de que o taxi não poderia me deixar na porta do alojamento: ainda haveria um caminho meu a ser percorrido a pé, arrastando mala por becos literalmente lamacentos. Eu sabia tudo isso: que viria cansada, com o corpo quebrado de horas de avião. Pois vim conformada, arrastando minha mala, sendo abordada por vários indianos, que é como eles fazem. No fim, um garoto me acompanhou, conversando e indicando-me o caminho. Ao me deixar no hostel, disse que voltaria mais tarde para me trazer um chá. Tudo que eu não queria era que um estranho me trouxesse um chá. “Se você não estiver ocupada” – ele completou. “Hoje vou descansar” – eu disse. E ele entendeu, pois graçasadeus não voltou. Mas eu teria aceitado se, em vez de dizer que sou forte, ele tivesse se oferecido para carregar minha mala pelas escadarias.
Tenho tido alegrias estranhas. A de descobrir que meu vôo ou que meu hostel existem mesmo. Eu sei, é bobo, eu fiz reserva e tudo, mas é que às vezes me parece uma invenção da minha cabeça. Por isso fiquei muito feliz ao chegar e ao descobrir que tenho, de fato, um quarto reservado para mim. E é um quarto grande e frio. Quando entro, o piso ainda está molhado, então tiro as sandálias e sinto o chão gelado aos meus pés. Sento-me na cama e me pego pensando algumas coisas: que não trouxe capa de chuva ou roupa de dormir, porque contava com o calor da última vez. E o moço me conta que esta é a época mais fria do ano, mas que em um mês estará melhor. Eu fico triste, porque preciso de pouco, muito pouco para viver. Mas preciso de sol.
Saio para dar uma caminhada, tentando reter os caminhos, para conseguir voltar. Encontro o hostel onde fiquei no ano retrasado e que desta vez não tinha vaga. Faço uma reserva maluca para alguns dias mais à frente. Ando a esmo e, como sempre, os indianos me seguem, fazendo perguntas e falando sem parar. Mas hoje estou cansada, muito, e peço que me deixem andar a sós. Volto para meu quarto e durmo de quatro da tarde a oito da noite. Só me levanto porque preciso comer alguma coisa, menos por fome do que por precaução. Não há comércio aqui por perto e me lembro de que no dia seguinte terei que comprar algum biscoito ou coisa do tipo para manter no quarto.
Chego ao restaurante do hostel e peço uma panqueca e uma salada de frutas. Pergunto se a maçã na geladeira está à venda. O moço ri e responde que não. Um senhor me ouve gravando uma mensagem e pergunta se sou da América do Sul. Ele é de Delhi, mas morou quatro anos na Espanha e reconhece meu “meio espanhol”. Explico que estou ali para fazer minha pesquisa de doutorado. Ele engata um assunto, fala sobre religião e sobre como as pessoas estão a cada dia mais materialistas. Concordo.
Volto ao meu quarto. A energia elétrica acaba e volta, inúmeras vezes. Leio até cair no sono e, por fim, durmo de onze da noite até oito da manhã. Durante toda a noite, esse maldito galpão no meu sonho. E a questão: como fazer disso um lar?
Amanhece. Chove e faz frio.
Fiz questão de escolher um lugar às margens do Ganges, mas hoje não o vejo, coberto que está pela neblina branca.
Preciso fazer com que isso tudo caiba na palavra lar.
E preciso encontrar meu próprio sol.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Do ano



Facebook fez uma retrospectiva do meu ano: constavam ali as fotos mais populares, aquelas com mais curtidas. Mas não constava meu ano.

Ele não percebeu que a essência de 2014 foram as "medidas impopulares".

Pouco antes do meu aniversário, minha terapeuta tirou tarô para mim. A primeira carta a sair foi a da morte.

A morte - a grande impopular - reinou. Eu tive que morrer diversas vezes, para perder padrões que carregava. Tive que deixar morrer um modo específico de estar no mundo. Matei em mim pessoas que eu amava. Não o Amor, que ele vive sempre.

Foi um ano de mortes em todos os sentidos. Aquelas de fim de ciclo e aquelas inexplicáveis. Foi um ano de suicídios: os que não conseguiram confrontar a própria sombra. Foi um ano de separações: os que não conseguiram confrontar a sombra do outro. Ou melhor: a própria sombra que se vê no espelho do outro.

Mas só depois de morrer muito a gente entende que a vida é muito forte.

Por isso o mais bonito foi a redescoberta das amizades.

Porque quando cada um abaixou suas espadas e seus escudos e suas máscaras e suas vestimentas, aí pudemos nos enxergar. Cada um com sua luz e sua sombra. E enxergar a sombra do outro - e ser enxergado - confirmou a solidez do encontro. E de repente minhas amizades de anos ganharam, em um ano, quilômetros de profundidade.

E é por causa desses - os verdadeiros amigos - que não consegui lamentar as mortes. Elas eram apenas a sombra que dava contorno à luz. Ficou mais fácil enxergar: a vida. Há muita vida.

Então eu digo aos meus amigos: Agora nós vamos juntos, nós vamos de mãos dadas. Eu aceito a sua sombra, que te faz pessoa inteira e humana. E eu lhe permito ver, também, o oceano que sou. Com as minhas profundezas.

Neste ano aprendemos que não temos o controle de nada. Mas temos uns aos outros.

E isso é tudo.


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Da experiência do Sagrado



Era uma tarde de outono em Verona. Chuviscava de leve, mas fazia muito frio. Eu andava a esmo. Havia decidido que minha missão naqueles dias era comer, só isso. Mas àquela altura já havia almoçado e acabei ficando meio perdida. Como fico perdida sempre que não tem sol.

Resolvi que precisava entrar em um lugar, qualquer lugar - para me aquecer e escrever no meu caderninho.

Então entrei em uma igreja: a Chiesa di San Lorenzo.

Havia um som que vinha de sua lateral. Vozes femininas. Repetiam algo como uma oração ou um mantra. Eu não podia vê-las, mas, em minha falta de experiência com igrejas, pensei que fosse uma missa.

Perguntei-me, por um instante, se eu poderia estar ali, em minha maneira pagã, só para me aquecer e escrever. E logo me respondi que sim: "Se essa é a casa de Deus, então tudo é permitido". E imediatamente me dei conta de que meu raciocínio era praticamente o inverso de Dostoievski, que anunciara que "se Deus não existe, tudo é permitido". Achei graça disso.

É que eu, que me declaro ateia, só poderia conceber um Deus que não tivesse leis humanas. Que não escolhesse uns em detrimento de outros. Que não bradasse regras. Que não exigisse ser cultuado.

Eu só aceitaria um Deus que recebesse qualquer um em sua casa, ainda que fosse uma pessoa perdida em meio ao frio, que não acreditasse nele e só quisesse um lugar para escrever ideias mundanas.

Então me sentei em um banco lá no fundo, abri meu caderninho e tentei escrever.

Mas aquele som que me soava como um mantra, aquelas vozes femininas repetindo as mesmas frases continuamente, aquela vibração em palavras que eu não compreendia... De repente tudo aquilo me hipnotizou. Larguei o caderno e fiquei ali, só estando ali.

Até que, não sei quanto tempo se passou, aquelas vozes se calaram. Ouvi uma movimentação de pessoas se levantando. Pensei que fosse terminar a missa. Mas não. Agora que ela começaria. As freiras, donas daquelas vozes, apareceram à vista. Também um padre, que se pôs no altar. E pessoas. Fiéis.

Fiquei sem saber o que fazer. Pensei em levantar, ir embora. Mas fiquei.

Assisti à missa inteira. Estava eu, também, inteira.

Acho que me ajudou ouvir uma missa em outra língua, sem entender as palavras e as regras demasiadamente humanas.

Naquele momento, aceitei Deus.

Mas só aceitei aquele Deus que me aceita.





sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Guariroba



A guariroba é uma espécie de palmito amargo, bem amargo, lá da minha terra.

Aqui no sudeste pouca gente a conhece, a não ser pela breve referência na música do Gil. Mas meu pai, como bom chinês goiano, sempre soube apreciá-la. Foi ele quem, na minha infância, me apresentou à guariroba. Pra falar bem a verdade, ele dispensou apresentações. Eu cheguei à mesa do almoço e lá estava ela, cortada em grandes rodelas, em uma travessa. Pensei que fosse palmito e, encantada pela sua abundância, pus logo um pedaço imenso na boca. Meu pai não disse nada. Ficou olhando, divertido, para minha cara de pavor, assim que senti seu sabor amargo.

Foi assim que descobri a existência da guariroba. Uma decepção (ou, sendo mais dramática, um trauma) grande o suficiente para que eu nunca tenha esquecido aquele dia.

Durante toda a minha vida, desde então, passei a recusá-la, até que, cerca de dois anos atrás, vi minha mãe colocando um pouquinho em seu prato.

- Ué, mãe, você come guariroba?

- Resolvi comer. Estou aprendendo a gostar aos poucos.

Simples assim. E, inspirada pela minha mãe, resolvi aprender a gostar de guariroba também. Mais: resolvi aprender a aceitar o amargor. Pois me dei conta disso: que eu colocava uma comida na boca e, ao perceber o amargo, imediatamente desqualificava a comida.

Mas e se não fosse errado ser amargo?

É claro que não passei a amar guariroba de uma hora para outra. Mas, sempre que tinha oportunidade, comia um pouquinho. E então passava pelo processo, esse diálogo interno tão frequente:

- É ruim.

- É ruim por quê?

- É amargo.

- Qual o problema em ser amargo? O amargo é um sabor como todos os outros.

- É mesmo.

E pronto. De lá pra cá, aprendi a gostar de guariroba. Assim, com um questionamento e uma decisão.

É que o amargor nunca é só da guariroba. E a vida nunca é só doce. E nem deve ser.

Eu nasci gostando da luz e me forcei a desbravar o escuro. Nasci gostando do conforto, mas tive que aceitar a dor. Nasci gostando do doce, mas aprendi a encarar o amargo. Por isso hoje gosto mais ainda da luz, do conforto e do doce, em sua forma óbvia e em seu contrário. E a vida passou a ter mais intensidade, desde que aceitei todos os seus sabores.

Junto com a guariroba, passei a apreciar também o jiló. E, graças à aceitação do amargor, tive essa deliciosa descoberta:

- O jiló é doce!