Tudo começou com um biscoito. Queria mergulhá-lo em algum lugar, para morder parte molhada e parte seca e sentir, na boca, o contraste do crocante com o macio. Pensando melhor, não começou com o biscoito, começou com um final de tarde fresco, que, por sua vez, começou com um dia quente. E tudo começou muito antes e veio de uma história de lugares, pessoas, sensações. Mas aí corro o risco de ficar subjetiva e não contar minha história de hoje.
O dia amanheceu quente, quase infernal. Vivi e me locomovi nesse dia quente. De repente olho para o lado e vejo uma chuvinha fina. Volto a mim. Olho para o lado novamente e vejo o céu limpo. E de uma hora para outra o tempo está fresco e o céu azulado e amarelado. Um livro em mãos e uma música no ambiente. O livro era "O jogo das contas de vidro", de Herman Hesse, e o CD, "The soul sessions", de Joss Stone, para quem quiser repetir a experiência e ver se funciona. E o biscoito, que é de onde começamos a história. E o chá, eleito para molhar o biscoito. E, em dez minutos, a vida inteira valia a pena. E em dez minutos eu vivia minha vida inteira. Todos os afetos, todas as lembranças que a memória não alcança e que não cabem em um fluxo de pensamento, mas que estão registradas nas células.
E eu que comecei o texto pensando em falar sobre chás...
Agora nem sei mais se chá cabe na minha história. Enfim, o de hoje era de erva doce, minha fase atual. Mas cada chá tem sua fase, suas circunstâncias e suas consequências. Chá Mate quentinho e com açúcar, por exemplo, é o sabor de tardes de infância na casa das avós de minhas amiguinhas. Erva doce tem sido o sabor das noites aqui no Rio. E tem o eterno favorito, Jasmim, cujo aroma recupera toda minha vida, minha casa, minha família, biscoitos, casadinhos, aulas de estatística no domingo, China, Goiânia. E o melhor de tudo é segurar a xícara entre as mãos e respirar o vapor perfumado e quente que sai.
Minhas emoções sempre foram olfativas. E juro que nunca tomei chá de cogumelo. Por incrível que pareça, nem hoje.