quinta-feira, 6 de junho de 2013

Tererê



Odeio salão de beleza. Odeio. Fazer cabelo, fazer unha e essas coisas todas.

Gosto de pentear meu cabelo com os dedos mesmo. Não tenho pente, nem escova, nem secador e nenhuma dessas parafernálias em casa.

Gosto de mãos limpas. Acho bonito. Unha com cor de unha. Coisa minha.

Mas o motivo principal pelo qual odeio salões é que é tudo tão demorado. Daí a gente passa a tarde lá, esperando. A mulherada conversa sobre tudo. E eu me sinto sempre menos mulher. Pelo menos desse tipo de mulher de classe média que anda com cabelo e unhas arrumados. Meus pés são ásperos de andar no mato descalça. E eu não gosto dessa demora sentada, me sinto um E.T., que não sabe interagir, não sabe conversar sobre a novela, o namorado e as roupas. Não sabe folhear Revista Caras, nem Capricho, nem Marie Claire, sem se sentir meio tonta, meio ansiosa pelas exigências do consumo, meio feia diante das modelos lindas.

Odeio salão de beleza. Odeio.

Mas adoro fazer tererê. Na areia, no calçadão, em alguma cidadezinha perdida por aí.

Acho bonito, também. Mas o motivo principal pelo qual adoro fazer tererê é que demora.

Eu gosto dessa demora sentada, me sinto humana.

Aproveito o tempo para papear. Às vezes passa alguém e gosta, senta ao nosso lado no chão, entra na conversa. Eu pergunto de tudo. Gosto de saber da vida das pessoas.

"A gente passa por muita dificuldade, com polícia principalmente. As pessoas já têm preconceito contra preto. Hippie e preto, então, fodeu." - alguém me conta. De vez em sempre faço tererê com algum dos irmãos latino-americanos: um boliviano, um colombiano, uma argentina. Um deles me contava sobre a violência de seu país, sobre os tantos amigos e parentes perdidos. Eu sempre tento reter, mas confesso que nem sempre consigo entender tudo o que eles dizem.

Certa vez fiquei conversando com um hippie que estava começando a se estabilizar e tinha arranjado uma casinha no morro: "Ainda quero que você conheça a minha casa. Quem sabe um dia a gente acabe se casando." Quem sabe. A gente não sabe de nada, mas eu fico tentando entender.

"Meu tererê é diferente, é indígena." - me explicou um índio, trançando meu cabelo com linhas em estilo macramê. Sinto não saber de que povo ele era. Ele repetiu duas vezes, mas eu, diante da palavra desconhecida, perdi no ar a informação. "Nós não existimos mais como povo, pois nossa área foi destruída." - contou. Perguntei de que estado era a família dele. "Da Amazônia. Na verdade, da Amazônia boliviana, mas pra gente não existe essa diferença, Amazônia é uma coisa só".

"Quer uma miçanga na ponta?" Quero. Uma conchinha também.

De repente está pronto meu tererê.

E vou embora mais mulher.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

A vila


Moro em uma simpática vila de casinhas coloridas e antigas. Às vezes brinco que pretendo desocupá-la, para ocupá-la só com amigos. Ali formaríamos nossa comunidade, brincaríamos e comeríamos juntos, na rua. Poderíamos pintar o asfalto e encher as calçadas de flores, os postes de bandeirolas. Todo início de ano dizemos que, ao final dos próximos doze meses, nossa meta é de ocupação de quatro casas. Mas até hoje só "temos" mesmo uma, onde moro com mais três amigos.

Mas a verdade é que a vizinhança é, de modo geral, bem simpática. A maioria das casas é composta por famílias que vivem aqui há gerações. No fim da tarde, tem-se a paz de crianças correndo com bolas, bicicletas e velocípedes. Às vezes senhoras nas portas esperando a banda passar. E ela às vezes passa. Em uma noite de poesia e beleza largamos o sarau em casa para fazer serenatas na vila. Havia um violino, um violão, algumas vozes. Andamos de janela em janela, cantando. Desde então alguns vizinhos me perguntam, de vez em quando, sobre a próxima serenata.

Pois há algumas semanas minha irmã veio me visitar, junto com seu namorado. Eles vieram de carro, pois chegavam de Búzios, onde haviam passado alguns dias. Poucas casas da vila têm garagem, o que não tem muita importância, já que todos estacionam nas calçadas em frente às casas. Na minha acontece de ter, mas é ocupada pelas bicicletas, nosso meio de transporte preferido. Muitas vezes um ou outro vizinho estaciona na calçada de nossa casa. Era esse o caso no dia. Por isso minha irmã estacionou na calçada da casa em frente. Os donos saíram para dizer que não estacionassem lá, pois a calçada era deles. Complementaram, dirigindo-se a mim: "Você também pode reclamar quando estacionam em frente à sua casa. A calçada é sua". Limitei-me a dizer que era a primeira vez que tínhamos esse tipo de problema e que isso não me interessava.

A verdade é que não vejo sentido em cada qual resguardar a "sua" calçada. E em seguir essa regra. E em ampliá-la. Por mim, que se misturem os carros e que haja o mínimo deles. Que se misturem as pessoas nas casas. As palavras. A vida em comum.

Que, pelo menos em uma pequena vila de casinhas antigas e coloridas, todos sejam sempre bem-vindos e convidados a entrar.

E que isso seja regra. E que se amplie. No bairro... Na cidade... Até que se eliminem as fronteiras.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dos ciclos

Tudo passa... e retorna.


"Mãe,
Comprei uma passagem para Bali e chego amanhã, sem nada além do dinheiro do visto para entrar no país. Você pode me mandar algum dinheiro para eu sobreviver durante a semana? Desculpe, mas eu precisava muito fazer isso. Prometo que na volta vou me comportar e estudar direitinho.
Beijos,
Lian"

Era mais ou menos assim o e-mail que enviei à minha mãe, antes de me acomodar para dormir na única área permitida do aeroporto internacional de Sydney. Lembro que, ao dar o "enter", meu primeiro pensamento foi: "Espero que meus filhos não sejam como eu". E meu segundo pensamento: "Por outro lado... eu sou tão feliz assim!"

Foram muitos os momentos em que me peguei pensando que seria enlouquecedor ter filhos como eu. Isso acontece especialmente quando me lembro das levadezas da infância, como quando eu me pendurava na varanda do prédio ou no dia em que me atirei de cima do edifício para a janela do andar de baixo. Felizmente, meus pais não tinham a angústia de saber meus passos livres e travessuras, embora tantas vezes tivessem que arcar com meus prejuízos, como a mesa e o ventilador do curso de inglês.

Mas é engraçado como é verdadeiro o que todos dizem sobre, com o tempo, nos tornarmos pais dos nossos pais. Tão verdadeiro quanto o fato de sermos, diante deles, crianças eternas. Meus pais sempre esperaram de mim responsabilidade. Hoje eu espero deles o contrário, com a mesma preocupação. Hoje eu critico a alimentação deles, os remédios alopáticos, o excesso de trabalho. E tenho pena de ser filha, não mãe. E não poder começar lá do início, alimentando-os a meu modo. Acontece que meu modo veio, de maneira torta, do modo deles, que me deram o mundo. Assim como minha liberdade vem de suas responsáveis raízes fincadas no chão. É porque eles estendem as redes que eu me lanço.

Os duplos e dúbios papéis. Um dia tive a sensação clara do que é ser filha. Instantaneamente, me imaginei mãe. É isso, então? A tensão entre medo e coragem. Foi da última vez em que minha mãe veio me visitar. Ela quis conhecer a Pedra da Gávea, de que tanto falo: "Dependendo da minha disposição, podemos subir até a metade". Respondi que não, até a metade ela não conseguiria, quem sabe até a cachoeira. Mas deixei a ideia crescer. Não gosto de metades. A ideia crescendo: o topo. O diabinho sussurrava: "é só irmos devagar". Fomos. As subidas. Os degraus. As pequenas escaladas. Em um momento minha mãe escorregou e ficou pendurada apenas pelos braços, agarrada a um gancho na pedra. Ela, que não aprendera na infância a subir em árvores. E que tinha tendinite no ombro. Foi meu primeiro momento real de preocupação materna. Seguiram-se outros. Mas chegamos à carrasqueira, o famoso e temido pedaço de escalada, já quase no topo, que muitos preferem subir munidos de corda e equipamentos de proteção. Orientei-a: "Vou subir e você fica aqui olhando. Depois desço de novo e vou na sua retaguarda". Comecei a subida e notei que a pedra, molhada, estava escorregadia. Pensei novamente em seu ombro. Em sua falta de habilidade em se pendurar nas coisas (Mais tarde ela contaria à minha irmã: "A Lian tem várias técnicas... de macaco!"). Desci e, de uma maneira inédita, propus: "Acho melhor não continuarmos".

É isso, então, a responsabilidade.

Meus amigos brincam que eu traumatizo as pessoas na Pedra da Gávea, pois "obrigo-as" a subirem, mesmo quando ficam apavoradas. Admito que, até então, nunca aceitara voltar com ninguém, apesar de algumas súplicas. Mas é também verdade que a insistência sempre valeu a pena, pois é bonito ver as pessoas transformadas após superarem uma dificuldade. E é bonito fazer parte disso. Mas desta vez era minha mãe, que estava ali comigo. E, naquele momento, ser mãe era como ser filha. E ter mãe era como ter filha. Eu entendi o cuidado extra. O limite. E também o orgulho extremo de ela ter chegado até ali, com toda a perseverança e determinação do mundo. Quem já chegou até a carrasqueira sabe do que falo. "Muito respeito pela sua mãe" - me diria o namorado da minha irmã, ainda na metade daquela mesma trilha.

Os pais nos ensinam. A gente aprende tudo diferente. E ensina de novo.

Minha mãe, que não aprendera a subir em árvore, aprendendo comigo a subir pedra. Um dia talvez eu lhe ensine a andar de bicicleta.

É que o tempo não anda em uma só direção.

Eu, aos meus filhos, gostaria de entregar o mundo. Aos meus pais também.

E, dizendo isso, me vem à cabeça a imagem de uma mãe e um filho que conheci recentemente, na vivência com os índios Yawalapiti. Era uma artista plástica francesa, chamada Naïg, e seu filho, de uns doze ou treze anos, chamado Jean. Os dois faziam juntos uma viagem de cinco meses pelo Brasil. E, apesar de juntos, não ficavam grudados. Naïg passava o dia observando e pintando a vida na aldeia. Jean era o único branco que acordava cedinho junto com os índios e ia tomar banho gelado no rio. Sem dizer uma palavra, vivia a vida daquele povo. Ficou muito amigo de Xé, o índio sorridente e mais calado ali presente. Nenhum dos dois falava. Mas passavam o dia correndo um atrás do outro, brincando e rindo. No último dia era tão bonito olhar para Jean e ver aquele menino loiro com uma pena colorida na cabeça, transformado em índio.

Isto eu queria para meus filhos: a terra, a água, as raízes. Sem a velha ideia burguesa de ter que comprar um terreno para ter um pouco de paz isolada do mundo. Eu não. Quero para eles o mundo inteiro. Para que eles saibam de onde vieram. Plantar, colher, comer. O ciclo.

Eu quero apenas o tempo não-linear para doar o mundo aos meus filhos. E devolvê-lo aos meus pais.

E, nesse mundo reconquistado, ensinar minha mãe a subir em árvores e escalar pedras. E, quando ela se lançar em voos de liberdade, poder segurar as redes e ser raiz.

Nós sempre voltamos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sangrar


Sangro.

Assim, neste exato momento. Deste sangue que desce por cinco dias, todo mês.

E, enquanto torno isto público, imagino alguns leitores pensando: "Você poderia ter me poupado desse detalhe!" O mesmo comentário que sempre fazem quando alguém, por exemplo, resolve anunciar que vai "fazer xixi".

A sociedade asséptica, que renega a própria carne.

Ironicamente, eu tinha uma colega, na turma de teatro, que costumava me dizer: "Lian, eu não te imagino fazendo cocô. Eu consigo imaginar todo mundo fazendo cocô, menos você, porque você é tão delicada!" Outro amigo completou dizendo que eu fazia bolhas de sabão. Rimos todos da piada.

Logo eu, que sangro tanto.

Mas, se hoje falo em sangue, é porque tenho me deixado sangrar por todos os caminhos. Aprendi a aprender com ele. Especialmente a fluidez.

Passei uma semana convivendo com índios da tribo Yawalapiti, do Xingu. No contato inicial, meu primeiro espanto: a língua deles me soava exatamente como as línguas chinesas. Eu via neles meus parentes, como se seus corpos fossem transparentes e de repente toda a verdade transparecesse. Então somos um só povo. Eu já sabia. Soube de novo.

O mesmo sangue humano. A mesma seiva terrena.

E fui vivendo lá, tomando banho no rio, dançando, brincando, comendo milho assado na fogueira e ralando mandioca pra fazer beiju. Também comecei a aprender sobre seus costumes, entre eles, a sangria. Funciona assim: eles têm um objeto, uma arranhadeira, feita de cabaça com dentes do peixe cachorra, se não me engano. Com ele, arranham o corpo inteiro ou partes específicas. Ao sangue que sai, misturam extratos de raízes diversas, cada qual com uma finalidade. Os garotos, quando entram na puberdade, passam por um período de reclusão, que pode durar até cinco anos, para se tornarem lutadores. Neste período, podem se arranhar mais de uma vez ao dia, utilizando raízes que os fortificam. Uma delas, brava, arde e dá febre durante dias. O índio que ousa enfrentá-la sai um grande lutador.

Mas, mais do que passar medicamentos efetivos por entrarem diretamente na corrente sanguínea, a prática da sangria tem também um sentido espiritual. A purificação do sangue que sai. A proteção do mundo que entra. O atravessamento, mais uma vez.

Então eu me recordo de uma noite de lua cheia, em dezembro do ano passado. Eu fora recebida no Pantanal por um casal: Marcelo, indígena da tribo Kadiwéu, casado com Mirjam, uma bela suíça que me explicava sobre a terra e as forças da natureza. Era ela que, em torno de uma fogueira, me falava sobre o privilégio de ser mulher e poder sangrar todo mês. Ela chegou a mencionar que os homens, que não tinham o mesmo dote, acabavam tendo que provocar a sangria, mas eu, que àquela época não conhecia a prática, não entendi. Foi isto que ela me explicou: que mensalmente nosso corpo se abria. Com essa abertura, também a outra, espiritual, ocorria. E também isto: que nós, mulheres, mesmo quando não estamos grávidas, estamos. Somos sempre essa potência de terra. Daí eu intuo que, mesmo sem filhos, somos sempre mães.

E acho bonito poder pensar e dizer isso logo agora, que é mês das mães. E, por acaso, também é o dia, o dia exato da minha mãe. E também é meu mês. Aliás, eu também nasci no dia das mães. E por aí vão os milhares de fios que me tecem à essência da maternidade.

A gente gesta. A gente gera. A gente sangra.

Parte do mesmo ato.

Todo do mesmo parto.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

A palavra



As histórias precisam ser contadas. E recontadas. E lembradas. Postei isso há pouco tempo aqui no blog. E desde então continuo me alimentando delas, digerindo-as, regurgitando-as. Sinto-me impotente diante das margens do mundo. A palavra não basta. Ponte ilusória. Mas, ainda, é o que tenho.

Ando me alimentando de açaí e Galeano. Juntos, normalmente. Uma colherada e algumas linhas a mais. De vez em quando rio. De vez em quando choro. Normalmente fico engasgada, o choque silenciado na garganta. O ser humano é capaz do maior ato de beleza e também de horror - constato pela milésima vez, com o pasmo original. Leio sobre as vidas das pessoas em um contexto específico - as ditaduras militares na América Latina. O contexto é específico. As pessoas não. Humani nil a me alienum puto - Nada do que é humano me é estranho. - já disse Terêncio, há mais de dois mil anos. As histórias que outros homens e mulheres viveram. Tudo pode ser eu, o amor e o ódio. É preciso que saibamos. Somos isto: monstruosos e divinos.

Pois eu vinha andando pela Rua do Catete e, na minha frente, passava um homem que cheirava a lixo. Alheio a todas as outras pessoas, ele entrou na lanchonete da esquina, procurou algo nas lixeiras e já estava saindo, quando o abordei:

- Oi. Você quer que eu compre um lanche pra você?

Ele não me respondeu. Ele não me olhou. Mas parou.

Entramos juntos. Apontei para a vitrine de salgados.

- Qual você quer?

Ele permaneceu cabisbaixo. Depois de um tempo, fez um gesto vago.

- Um destes, por favor - pedi para o moço do balcão. Você quer um refresco? Tem de maracujá e de caju, qual você prefere?

Desta vez, nenhum gesto.

Escolhi um qualquer e lho entreguei.

Ele pegou o lanche e saiu, enquanto eu pagava. Saí da lanchonete e ele estava encostado na parede, comendo. Dei tchau.

Ele não respondeu. Ele não sorriu.

Mas me olhou, desta vez.

E seu olhar era tão grave, que me deu medo.

Um homem que não tinha sorriso e não tinha palavra. Tão diferente do mendigo que fica na frente das Lojas Americanas e que me disse no outro dia: "Olha, você é muito maneira!" Tão diferente da senhorinha em frente ao Banco do Brasil, que me pediu uma moeda, depois me pediu um lanche e, depois de todos seus pedidos atendidos, pediu que eu lhe comprasse uma caixa de remédios para anemia, o que recusei.

Tão diferente dos que pedem e agradecem. E provavelmente tão igual a tantos outros.

Eu tive medo do seu olhar de bicho. Da sua condição de bicho.

Mas tenho medo, sobretudo, de não conseguir enxergar as histórias que precisam ser contadas. Desses seres humanos que, de tantas e tão necessárias histórias, já não têm palavras para dizê-las.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Outra história de amor



Essa história foi minha irmã quem contou. Eu achei-a bonita e quis escrever. É a história de um amor grande e gordo. Quase desajeitado, como são os amores que mal cabem.

Essa é a história de uma família que vive em uma cidadezinha do interior de Goiás. Não sei os fatos com detalhes. Sei que eles salvaram um bebê de um incêndio, que matou a mãe e os irmãos da criança. E que depois eles levaram o bebê para casa. Deram-lhe um nome: Tobias. Cuidaram dele. Amaram-no. 

É a história de uma família que recebeu Tobias como um filho. Alimentavam-no. Colocavam-no para dormir na cama que lhe arranjaram. Davam-lhe banho. 

Um filho.

O detalhe é que Tobias é uma capivara. E só de pensar em uma capivara-menino chamada Tobias andando por aí, já transbordo de afeto. É fato que em qualquer outro caso sou contra animais silvestres sendo criados como domésticos. Mas, vejam bem, aqui eu falo de amor. Tobias foi salvo de um incêndio e foi amado e cuidado. 

Passou-se um tempo até que a família adotiva fosse informada: é ilegal criar animais silvestres. Foram corretos: procuraram o Ibama. Entregaram seu filho, em nome da lei. 

Ao ser criado em ambiente doméstico, um animal silvestre perde a capacidade de sobreviver em seu habitat natural. Por isso essa família foi tão criticada, me contou minha irmã. Mas, como cada caso é um caso e, neste caso, não se trata de uma família que comprou ilegalmente uma ave silvestre para exibir em seu viveiro, como neste caso não se trata de uma arara azul sendo traficada para gringos exibirem seu exotismo brasileiro, como neste caso não se trata de um quati ou tamanduá andando de coleira acompanhados de donos estúpidos por puro capricho... Como se trata de uma capivara chamada Tobias que foi salva de um incêndio e cuidada, por uma inocente ignorância da ilegalidade de seu ato de afeto... Eu, em meu nenhum poder, os absolvo em nome do amor. Eu, em meu nenhum poder, os bendigo e abençoo. 

Pois essa família, que amou Tobias como um filho e ainda assim o entregou às autoridades competentes, voltou um tempo depois para visitá-lo. Ao vê-lo, choraram. Tobias jazia triste e esquecido a um canto. Magro. Ferido. Ali, Tobias era burocraticamente mais uma capivara, sem a singularidade do amor. 

Então essa família entrou na justiça, vejam só, pela guarda da capivara. Encontraram uma brecha na lei. Algo sobre idosos com mais de sessenta e cinco anos com depressão. E era tudo verdade. A mãe, senhora idosa, também com depressão por causa de Tobias. Pela lei do amor, eram eles próprios a brecha. 

Conseguiram e seguiram as condições impostas pelo Ibama: construíram um espaço adequado, comprometeram-se a submeter Tobias a exames anuais. Foi aí que minha irmã, veterinária, conheceu essa capivara tão amada. "Eles pagaram duzentos reais pelos exames" - ela me contou. "Mas eles tem dinheiro ou só tem amor?"- perguntei. "Só amor. O pai trabalha em uma lavoura de laranja. Eles disseram que já vão começar a juntar dinheiro para os exames do ano que vem."

Então ficamos as duas, eu e minha irmã, assim, aéreas devaneantes pensativas suspirantes sonhadoras.

- Normalmente sou contra. Mas neste caso... 

- É... neste caso...

Há casos em que o amor abre frestas. É por elas que entram os dilúvios.





terça-feira, 12 de março de 2013

Quando fui mãe



Todos os meus amigos conhecem essa história. Muitos a acompanharam naquela época. Ou leram aqui no blog, ou me ouviram falar. E por que trago-a de volta, agora, que tanto tempo já se passou? É que as histórias precisam ser contadas. E recontadas. E lembradas. É o que tenho me dito nos dias de caos. Dias em que parece que sempre tem alguma coisa fora do lugar. As intolerâncias. As desumanidades (ou seriam superumanidades?). Há o pasmo com que vejo o dia de hoje. O desenrolar das notícias. E há o pasmo maior, de saber que cada dia da história é também um dia de hoje. 

Esses dias parei para assistir ao documentário "Timor Leste - a história que o mundo não viu", produzido e dirigido pela amiga Lucélia Santos. Terminei o filme ainda em estado de choque, como já me aconteceu tantas vezes, ao ter contato com determinadas realidades. Na minha época de vestibular, a questão timorense estava em alta. Aprendíamos na escola. Mas, como na escola, aprendemos sempre a ter distanciamento da vida. E, quando o mundo me joga aquela vida na cara, e que eu vejo pessoas reais, com suas dores, seus amores, sua história... pessoas matando e morrendo... eu sempre tenho esse primeiro choque. E penso: as pessoas precisam ver, as pessoas precisam saber. E penso novamente que as histórias precisam ser contadas, pois são sempre atuais. E somos sempre nós, as personagens.

Mas, por ver guerras e intolerâncias e covardias, é que quis falar sobre Amor: essa história que precisa ser recontada sempre, para que lembremos quem somos. 

E eu quis contar do dia em que fui mãe. 

Eu estava de férias em Goiânia, e minha irmã, que é veterinária e trabalhava com animais silvestres, trouxe para casa uma bebê tamanduá. Eles tinham esse projeto de rastreamento e preservação de tamanduás-bandeira, espécie em risco de extinção. Como tantos outros, essa tinha ficado órfã, após a mãe ser atropelada. Quando os filhotes ainda eram pequenos, precisavam de atenção integral, daí um dos integrantes do projeto levá-los para casa. Ao ganharem um pouco mais de autonomia, voltavam para o local do projeto, para, mais tarde, serem soltos na natureza.

Eu achei um acontecimento ter um tamanduá em casa, mas minha irmã me informou que já havia levado vários. Ela a chamava de tamanduinha e pediu que eu ajudasse a escolher um nome para a bebê.

- Eu gosto de Tamanduinha.

- Mas, Lian, todas que trago são tamanduinhas. Tem que ter um nome diferente.

Eu, que tinha acabado de ler “O amor nos tempos do cólera”, só conseguia pensar em “Fermina Daza”. Mas achei que não combinasse esse nome com uma tamanduinha, que pra mim já era Tamanduinha mesmo.

- Mafalda – minha irmã decidiu – eu gosto de Mafalda.

Mas pra mim ficou Tamanduinha pra sempre.

Então minha irmã contou sua história: A bebê já havia passado por outras duas casas diferentes, antes de chegar às nossas mãos. Era uma bebê problemática. Tinha medo de seres humanos. Não aceitava a mamadeira por nada. Quando forçada a se alimentar, acabava vomitando. Não podia continuar assim, senão acabaria morrendo.

Lembrei da minha infância e dos momentos de profundo desamparo. Tentei imaginar-me no lugar dela, que perdera a mãe e agora era passada de casa em casa, em meio a seres estranhos. E quis confortá-la. Quis protegê-la. E, mais que isso, quis muito que ela vivesse. Que ela crescesse, tivesse filhos. Em nome dela, em nome da espécie, em nome da vida.

E aí nasceu uma mãe em mim.

Eu a levava nos braços de um lugar a outro. Ela se agarrava em meus ombros e, quando eu tentava soltá-la, cravava as unhas em mim. Eu tomava banho com ela ao lado, chorando a falta de colo, no banheiro. Eu e minha irmã nos uníamos para dar a mamadeira. Uma segurava as patas, a outra a alimentava à força. Mas ela não mais vomitava. Outra vitória. Quando a ensinei a beber leite na tigela, foi o dia de glória. Esperei ansiosamente a chegada da minha irmã para contar a novidade.

Cada passo era uma festa. Era vida aprendendo a viver. Quando eu a soltava no chão, ela desesperava-se, novamente órfã. Então passei a levá-la ao quintal todos os dias. Eu sentava-me na grama, embaixo de uma árvore, com ela ao colo. Aos poucos, ela passou a sentir confiança: eu estava sempre lá. Descia do meu colo, cutucava a terra um pouquinho, voltava correndo. No dia seguinte, ousava um passeio mais longo, antes de subir correndo em minhas pernas.

Minha irmã não a deixava dormir comigo. Era preciso que ela não se apegasse tanto aos seres humanos, pois o medo a protegeria, quando ela estivesse solta na natureza. Mas todas as manhãs minha irmã levava a Tamanduinha à minha cama, enquanto ela cuidava de outras coisas. Eu, de férias, dormia até tarde com seu focinho sobre meu pescoço. Posteriormente, na volta ao Rio, eu acordaria com frio no pescoço durante um mês inteiro.

Eu conversava com Tamanduinha e lhe dizia sempre que esperava que ela vivesse, que ela fosse forte, que ela tivesse filhos. E desejava mais ainda que o mundo fosse bom. É que, quando se é mãe, a gente descobre que é também mãe do mundo. E de repente somos responsáveis pelo futuro da Vida.

Então eu aprendi várias coisas sobre o amor. Sobre a doação. Sobre o sentido da vida residindo na própria vida. E sobre como tamanduá nos dá uma real dimensão do que é ser mãe. Enquanto criamos gatos e cachorros para nos fazer companhia e, de certa forma, nos servir, criamos tamanduás para o mundo. Só queremos deles que eles vivam. Assim é, ou deveria ser, com nossos filhos. Não são nossos.

Com Tamanduinha aprendi esse amor muito puro. E depois voltei ao Rio, com uma lição e uma responsabilidade imensa pelo mundo.

Tamanduinha ficou mais um mês em casa, com minha irmã. Depois foi solta na natureza. E depois soubemos que ela havia morrido, afogada.

Alguns anos se passaram e essa lição permanece viva. Eu sempre me lembro dela, quando o mundo parece caos. E quando eu vejo o ódio, a guerra, a miséria e a intolerância, eu lembro do amor. Ele em sua forma pura, despertado assim, tão inocentemente por uma bebê tamanduá. E penso que as histórias devem ser contadas. E recontadas. E lembradas sempre.

Para nunca esquecermos que somos pais e mães do mundo.