domingo, 8 de agosto de 2010

Pai

Tem uma música do Oswaldo Montenegro que diz: "...mas já não acho a professora a mais bonita e o meu pai o maioral". Eu não me lembro de ter passado por essa fase ingênua, de idealizar os heróis da infância. Não passei por essa fase, em que meu pai era o super-herói, capaz de todas as façanhas e portador de nenhum defeito.

Foi, pois, com a maturidade de certa idade (nem tanta idade assim, não exageremos) e a quebra das ilusões da infância, que hoje tenho certeza de que meu pai é, sim, o maioral. Quanto mais adulta me torno e quanto mais da vida conheço, mais reconheço essa certeza.

Então rejuvenesço a ponto de parecer dessas crianças na escola, contando as façanhas do pai, tão plena de orgulho. E vou enumerando suas tantas atividades, que ele realiza com maestria: meu pai pinta quadros, dá aulas, projeta casas, constrói móveis, escreve livros, faz brinquedos de madeira, artesanatos em papel, cultiva plantas,...

É uma pessoa que se dedica à beleza em suas diversas formas. E quando estou ao seu lado, ouvindo-o contar suas histórias, suas crenças e suas cores, penso que seu mundo me enche de uma grandiosidade que faz com que eu me sinta o mais próximo daquilo que chamo de um Deus.

sábado, 7 de agosto de 2010

Demanda de sorrisos


Um amigo me encomendou um sorriso. Um, não. Vários. Reparara que eu quase não sorrio nas fotos e argumentou comigo que não tiramos fotos para nós, mas para dizer "oi" aos outros. E que esse "oi" deve ser acompanhado de um sorriso.

Discordo. Seja para quem for que tiramos uma fotografia, penso nela como registro de um momento. Algo de nós que é capturado naquele instante. Nada contra sorrir. Porém sou contra a ditadura do sorriso. Penso que o tal de "sorrir para a foto" é uma convenção tão presente que passou a ser considerada como naturalidade. Não é. Com exceção de poucas pessoas sorridentes que conheço, normalmente não se anda por aí mostrando os dentes. Não se senta e não se para com um sorrisão no rosto. Mas, quando alguém lhe aponta uma câmera, o sorriso vem de modo tão automático como se fosse a expressão natural da pessoa. Tanto não é natural que, quando se demora para tirar a foto, o sorriso sempre aparece amarelo. Ficar sorrindo em estátua não é natural. É convenção.

Mas tenho que dar o braço a torcer e reconhecer que comunicação, afinal, se trata de convenção. Palavras e gestos nada mais são do que o comum acordo de um significado por trás. Durante muito tempo ignorei a importância da expressão. Julgava-me transparente e imaginava que o que quer que eu sentisse pudesse ser lido pelos outros. Que tanto meu carinho quanto minha raiva fossem transmitidos pelo simples fato de eu senti-los. Demorei a descobrir que não são. Parece óbvio, mas para mim foi um aprendizado lento reconhecer que, por maior que fosse minha simpatia por alguém, ela não o percebia a menos que eu sorrisse.

Intimidade é conhecer tanto alguém a ponto de ela não precisar se esforçar para comunicar em sinais convencionados o que se passa por dentro dela. Tenho uma grande amiga que, durante o primeiro ano de amizade, eu pensava nunca tê-la visto brava. Tempos depois descobri que, na braveza, ela não gritava, não xingava, não franzia o cenho. Seus olhos brilhavam, apenas isso. Intimidade é conforto, mas, está bem, podemos contar nos dedos de uma mão aqueles que realmente têm intimidade com você. Então concordo que negar a necessidade de comunicação é recusar o próprio princípio do que faz o humano, humano.

Então posto aqui esses sorrisos, embora sejam mais risos e momentos de descontração. Posto-os para dizer "oi" a esse amigo. Mas que ele saiba que, por trás de dentes e lábios e olhares e gestos existe um carinho sincero que, a mim, diz mais do que qualquer convenção.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ser mãe


Já faz alguns anos, mas tenho essa lembrança retida de forma tão nítida na memória: Era uma recém mãe que me contava: "A sociedade nos passa constantemente a mensagem de que somos dispensáveis. Podemos ser substituídos no trabalho, nas relações sociais, no casamento. Se você não cumprir sua função, não satisfizer seu companheiro, não atender às expectativas, você é substituível, substituível, substituível. Mas, quando se tem um filho, a primeira certeza que se tem é de que você é indispensável".
Isso ficou marcado em mim. Mas voltou mais forte agora, que me tornei mãe. E logo de uma bebê tamanduá. Já convivi com gatos, cachorros, passarinhos, sempre em relação de amor. Mas era a tia. Com a tamanduá, me conferi o papel de mãe. Responsável por seu bem-estar, por seu crescimento, por seu futuro. Carregando-a nos ombros, fazendo piquenique com ela no quintal, vibrando a cada conquista, as primeiras caminhadas e cavucadas na terra, o primeiro leitinho na tigela. E ficando com o coração partido de preocupação por como ela virar-se-ia sem mim, sonhando com ela já grande, carregando nas costas, um dia, seu próprio bebezinho.
Comecei a entender essa grandiosidade da maternidade. Ser mãe é querer um mundo melhor. Um mundo sem sofrimentos, digno de seus filhos e dos filhos destes. E me peguei assim, por amor a essa bebê, mãe de toda a espécie. Com medo do perigo iminente: a extinção. Revoltada com o relato de um amigo, de que o pai dele encontrou um tamanduá adulto em sua fazenda e o matou. Parei pra pensar que essa deve ser a prática corrente entre fazendeiros, encontrar um bicho estranho e matá-lo, sem nem saber o porquê. Concluí que uma educação ambiental se faz necessária. Não destas de teatrinhos para crianças em escolas, não essas de pieguices e romantismos sobre a natureza. Mas um programa de educação ambiental informativo e conscientizante voltado para os habitantes do meio rural.
E foi assim, tornando-me mãe de uma filhotinha de tamanduá, que me dei conta de que maternidade é ampliar os limites de sua individualidade. É ser indispensável, ser maior do que se é. E sonho com aquele outro mundo, esse que eu criaria para minha bebê, um mundo em que eu fosse, sim, dispensável. Onde eu nem ao menos a encontraria, não seria nunca mãe de um filhote de tamanduá, pois ela estaria tranquila nas costas daquela outra mãe: a que a gerou.
PS: Hoje um amigo me encomendou um sorriso, que adianto na foto deste post, embora prometa ainda escrever sobre o assunto.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tamanduinha - parte II

E em pouco tempo eu me assumi assim: mãe. Respirando devagar para não atrapalhá-la em seu sono. Deitando no chão para aproximá-la da terra e dos formigueiros sem tirá-la da segurança do colo. Dando-lhe mamadeira à força e tomando suas dores. Criando teorias sobre sua psicologia infantil tamanduá. Fazendo pactos com ela, pedindo-lhe que sobrevivesse, que crescesse forte e que um dia tivesse filhos. Vivendo esse paradoxo de mãe: a dor e a alegria de ter filhos para soltá-los no mundo.

sábado, 31 de julho de 2010

A tamanduinha


Ontem cheguei em casa e minha irmã tinha uma tamanduá-bandeira bebê no colo. Ela me explicou que a mãe do animalzinho tinha sido atropelada e que a bebê precisava de atenção integral, mas que desde então passara de casa em casa, pois era uma tamanduá complicada: não ficava abraçada, como as outras filhotes da espécie, chorava o tempo inteiro, recusava-se a mamar e, quando forçada, acabava vomitando. Ajudei a dar mamadeira para a filhote e ela realmente deu trabalho: tive que segurar as patinhas, para que ela não unhasse. À noite saí e, quando voltei, minha irmã e a tamanduá dormiam juntas na cama. Pressenti que, a partir de então, ela se adaptaria à nossa rotina humana.
Vê-la tão assustada me remeteu a um tempo longínquo, em que eu também era filhote e assustadiça. Uma lembrança antiga, de quando eu era muito pequena. Estávamos em São Paulo e, quando chegamos à casa de meus avós maternos, tudo estava vazio e silencioso. Meu avô havia morrido e minha avó estava no andar de cima, chorando. Nesse mesmo dia apareceu uma senhora chinesa que nos levou, eu e minha irmã, para sua casa. Chegando lá, havia um grupo de jovens. A senhora falava em chinês coisas que não entendíamos e as garotas riam, achando graça. Eu e minha irmã pensávamos que riam da gente. Éramos dois bichinhos assustados, naquele mundo de estranhos. E éramos todos humanos.
Olho a bebê tamanduá tão perdida entre nós e a imagem daquela noite persiste em minha mente. Um animalzinho que vivia no meio do mato, grudado nas costas da mãe, e que de repente todo o mundo que lhe é familiar desaba, sendo-lhe imposto um mundo de estranhos. Aos poucos vejo-a se sentindo um pouco menos desconfortável, apegando-se à minha irmã, procurando seu colo. E penso que talvez todos nós tenhamos que passar por isso: essa violência com que somos impelidos a mundos desconhecidos e a busca constante por um colo, aquele colo que devolve a segurança de um mundo familiar.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Noites goianas

Está sendo ótimo reencontrar meus amigos goianos, reconhecê-los, contar as novidades, conversar sobre o passado comum, comer espetinho e rodízio de crepe, beber suco de frutas. E, por algum motivo, acho que não há nada mais prazeroso do que dirigir à noite, sozinha, com o rádio ligado. E às vezes me bate uma saudade besta, como a de voltar de um show no Jaó e parar com os amigos em um pit dog no caminho para tomar creme de morango. São flashes de felicidade que me vêm assim, como uma saudade sem dor.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Coisas que aprendi na Argentina:


Regras da língua:
- Regra da exclusão. ex: próprio/propio
- Regra da inversão. ex: pergunta/pregunta
- Regra da confusão. ex: "prohibido salivar"
Regras de trânsito:
- É obrigatório ser capaz de fazer o quatro, para dirigir.
- Os caminhões devem avançar como homem.
Equivalências:
- Espermatozóide é o cachorro do sapo.
- 35 argentinos equivalem a uma mini hipopótama.
- Um boi equivale a 15 mato-grossenses.
- 37 é o 422 de Buenos Aires.