terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Era uma vez...


O fim do mundo fora enfim anunciado. Seria em agosto, com data e hora marcados. Segundo alguns intérpretes, assim rezava a profecia de Nostradamus. Deu nos jornais e na tv: o mundo findar-se-ia e todo mundo pagava pra ver.


Para mim, o mundo só começava. Eu era menina e vivia meu primeiro amor, o grande amor, o primeiro. Naquela época, vivia-se feliz para sempre.


Tontos de alegria pelo amor incipiente, fizemos nosso pacto inocente. Se o mundo deveria ter um fim, que findasse bem, que findasse sim. Mas que eu me fundisse naquele ser. E que ele se fundisse em mim.


Combinamos estratégias e um ponto de encontro, para onde correríamos a qualquer indício de fim de mundo. E ali, naquela praça, morreríamos juntos, abraçados. Morrer em estado de graça.


O dia esperado chegou. E o mundo não se acabou.


E vieram os anos, os enganos, a rotina, as ciladas. Até que não veio mais nada. E cada um foi para um lado.


Mas às vezes eu queria que o mundo tivesse acabado...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carta à amiga

Júlia,

Eu hoje te daria um abraço de aniversário e de saudades, não fosse a distância que se interpõe por mais dois dias, quando então poderemos rir juntas e ter daquelas longas conversas sem pausas de duas amigas tagarelas que tanto têm a dizer.


Mas o que eu queria mesmo te falar é que é tão bom que você exista na minha vida, porque sua presença ou ausência (também tão presente) faz com que eu me sinta menos só no mundo. Não falo a respeito de companhia, mas de comunhão. Com você eu tenho a certeza de que existe alguém que compartilha comigo esse modo de ser e de ver a vida que às vezes faz com que eu me sinta um bicho do mato. Gosto da sua velocidade máxima de vinte páginas por hora, gosto que tenha alguém com quem o tempo possa parar. E gosto de você, sobretudo, porque você não veio ao mundo para conquistar territórios, mas para olhar a paisagem e sentir os sabores. Isso é o que nos faz irmãs de alma.

Muita vontade de estar ao seu lado. Ando cansada dessa gente toda que tem sede de sucesso. Cansada dessa gente que está sempre à procura de algo inalcançável. Cansada da pressa do mundo. Cansada.

Bom é ter a sua companhia para pintar quadros, fazer curso de crochê em barbante, criar teorias, viajar, tomar banho de cachoeira. Bom é fingirmos que somos bichinhos na piscina e brincarmos de fazer sons estranhos debaixo d'água. Bom é sonharmos com o mundo em que queremos viver, planejarmos tratados e revoluções. Bom é passar horas fazendo estrelinhas de origami com você. Que bom que sou sua amiga!

Vamos realizar nossos planos? Vamos juntas para a China, Machu Picchu e Grécia? Vamos mudar o mundo e instituir o ócio criativo? Vamos trabalhar um dia fazendo crepe em Paris, no outro pintando quadro na República Tcheca e no outro dando aulas para crianças? Vamos abrir lojinha de artesanato em Pirenópolis? Vamos criar um novo calendário, com novos deuses e feriados? Vamos criar um jornal fictício?

Meu desejo para seu aniversário é que todos seus sonhos se realizem, pois sei que, se o mundo for à imagem e semelhança de seus sonhos, então ele será belo e justo, e é nesse mundo que eu quero viver.

Lian




sábado, 13 de fevereiro de 2010

Vamos fugir...

Um lugar onde o ar é mais fresco e a água mais azul. Onde se mergulhe de olhos abertos e se veja peixinhos coloridos e tartarugas marinhas. Um lugar onde se coma peixes e ostras frescas. Um lugar com ruas de pedra e pessoas que desaceleraram o mundo para fazer da vida uma coisa bonita. Eu poderia viver essa vida.


Voltei ao Rio de mal com a cidade, chateada com o ar abafado, com o barulho do trânsito, com o taxista mal humorado. E estou desde então tentando fazer as pazes com este lugar, minha paixão dos últimos anos, agora acinzentada aos meus olhos. Fui dar uma volta de bicicleta na lagoa e, assim, em movimento, a cidade é mais agradável. É o primeiro Carnaval que passo no Rio e estou tentando aproveitar. Ontem fui ao meu primeiro bloco, está certo que cheguei quando ele já tinha terminado, mas ainda assim constatei que realmente não sou pessoa de multidões. Só pra constar, até entortei o
dedo de um garoto que encostou em mim. E me diverti muito mais andando do Leblon a Copacabana, em busca de outro bloco, jogando conversa fora com os amigos.


De qualquer jeito, hoje saio fantasiada, tentando descobrir o prazer desse outro lado, que me é estranho.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"É bom olhar pra trás..."

"... e admirar a vida que soubemos fazer..."



O meu amigo Eduardo Sartorato propôs o seguinte joguinho: relembrar o que você fazia em um passado próximo e em um passado nem tão próximo assim. Peguei as agendas antigas que estavam guardadas no armário e resolvi entrar no jogo. Descobri que o blog, mais que as agendas, ajudam a recordar o que se passava em minha vida a cada época. Infelizmente é um registro recente. Enfim, vamos ao jogo:

1 semana atrás (janeiro de 2010): Ipanema, almoço no Delírio Tropical, praia com livro da série "Encontros", sobre a Nise da Silveira e, em seguida, chegada da Carol. Mar brabo, chuveirada, volta no metrô concentrada no livro. Chuva à noite, eu deslumbrada com Nise da Silveira, sobre a qual continuei devorando os livros que tenho durante o resto da semana.

1 mês atrás (dezembro de 2009): Montagem de final de semestre, com a peça "Anjo Negro", de Nelson Rodrigues, que apresentamos durante quatro dias. Ao fim de tudo, descanso do desgaste físico e emocional. Férias merecidas ao lado dos amigos. Árvore de Natal com doces na parede, Natal com família carioca, pintura em portas dos outros, Terra Encantada, praia, comidinha de mães substitutas e Ano Novo em São Carlos, com reunião familiar.

6 meses atrás (julho de 2009): Passei uma semana de férias em Goiânia, o apartamento já quase desmontado por causa da mudança para a casa nova. Clube da Luluzinha, comidinhas, pamonha. Sempre estranho voltar para a cidade onde passei grande parte da minha vida.

1 ano atrás (janeiro de 2009): Visita dos meus amigos Nel, Júlia e Fernando. Nel veio, por minha sugestão, fazer o mergulho teatral na CAL e resolveu ficar. Primeiro amigo que consegui trazer para o Rio, depois de anos tentando convencer meus amigos a morarem aqui. Mudança definitiva para o apartamento das meninas, casa com caixas espalhadas pela sala. Período confuso, mas que deu início às melhores coisas que conquistei nesta cidade: laços e liberdade.

2 anos e meio atrás (julho de 2007): Comecei o mês na China, onde fui participar das filmagens de "Destino". Viagem incrível, com paisagens deslumbrantes, comidas maravilhosas e esse sentido especial que o país tem em minha vida, de remontar minhas origens. Volta ao Brasil e em seguida ida a Goiânia, animada para mostrar as fotos, contar os fatos, distribuir os presentes. Nesta época ainda estava no mestrado em Comunicação, na UERJ, que defendi em maio do ano seguinte.

5 anos atrás (janeiro de 2005): Ainda morava em Goiânia, cursava meu último ano de faculdade e dava aulas de Inglês na Hoffmann House. Planejava o mestrado e, a essa altura, a vida universitária já começava a me cansar, apesar de ter sido o período mais feliz da minha vida. Tinha ao meu lado pessoas super especiais, incluindo aquelas amigas que continuam próximas como se morassem na casa ao lado. A faculdade de jornalismo foi divertidíssima, com coxinhas e sucos de cupuaçu na FAV, brigas com a Mulherzinha, grupinho de estudos de filosofia, saraus, Bar Rio.

10 anos atrás (janeiro de 2000): Nessa época eu voltava do meu intercâmbio estudantil em West Virginia, nos Estados Unidos. Reencontro e readaptação. Volta ao Colégio Dinâmico, desta vez com outra turma. Ano de vestibular.

Enfim, adorei a proposta do Eduardo. Se alguém mais se dispuser a entrar no jogo, posso dizer que é muito interessante... Esses dez anos estão guardados na minha memória como um passado tão recente, olhando assim para trás de repente a gente se dá conta do quão rápida é a vida. E olhando assim eu tenho essa certeza, essa plena certeza do quanto sou feliz e de como a vida vale a pena.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Para um menino, em seu aniversário


É necessário que você permaneça sendo o que é: um menino. Que talvez tenha crescido demais. Que talvez até tenha feito anos demais. Mas que o tamanho e a idade não te iludam: que você seja esse menino que ri alto e que brinca de ver o mundo de um jeito bonito. Que você nunca persiga cegamente falsas vitórias, alegrias ilusórias. Que suas buscas tenham a pureza do garoto descalço que corre atrás da bola.


É estritamente necessário que você seja menino. Para isso é preciso ter talento para infância, ter olhos curiosos para perceber que o mundo é sempre novo, ter mãos ágeis para fazer música e pintar árvores na parede, ter lábios grossos para fazer bico e conseguir todas as suas vontades. Tem que ter vocação para reinventar sentidos cotidianamente, inventar definições engraçadas para palavras desconhecidas e conseguir convencer de que a sua é a definição do dicionário.


É preciso que seja menino. Que ao ganhar mais um ano, você perca um pouco de juízo. É preciso que saiba fazer caretas, imitar vozes, pular como macaco e rosnar como leão. É necessário que às vezes você tenha a capacidade de jogar tudo para o alto, de se dedicar uma semana inteira à mais pura vadiação. De vez em quando é preciso que você deixe o cabelo desgrenhado, que você use uma camiseta rasgada ou verde-água, para camuflar na parede. Mas que a soma dos anos não camufle sua verdadeira idade: um menino.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Regresso


Desta vez foram suaves os dias que passei em Goiânia. Pela primeira vez em quatro anos não tive tanta certeza de que não voltaria a morar nessa cidade. Um lugar de aconchego onde tenho pai e mãe, comidinha familiar, espaço para ler meus livros e pensar na vida. Fizemos nossa tradicional festa de Natal dos Amigos, Clube da Luluzinha, rodízio no japonês. Matei a saudade de Pirenópolis, junto com um bom amigo. Fizemos trilha, tomamos banho de cachoeira e batemos longos papos. Comi arroz com pequi e pamonha. Recebi a visita de um grande amigo carioca-santista, o Luís Renato, que trouxe o Diego de bônus. E, por incrível que pareça, voltei ao Rio contrariada. Queria ter ficado mais tempo, desta vez. Felizmente a chateação passou tão logo encontrei alguém que me esperava com saudades, nesta tão quente cidade...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Um tapete

Há alguns anos resolvi tecer um tapete. Seria um presente de Natal para uma pessoa querida. Comprei os materiais, criei o padrão e escolhi o tipo de bordado. Um tapete grande e personalizado, que ficasse no chão do quarto. Para que ele pisasse leve. Para que seu mundo fosse macio, eu o teceria. Seria assim meu presente: feito de lã, sonhos, dedicação. Aquele espaço que eu queria construir: onde ele se deitasse e repousasse suas preocupações, uma a uma. Onde ele pudesse pisar com segurança, sem medo dos percalços que se espalham por outros caminhos.


Comecei a tarefa um mês antes do Natal. Passava horas trancada, tecendo, tecendo. Todo aquele tempo que eu gastava em meu empenho se concretizava em apenas um pedacinho a mais de tapete. Percebi que a tarefa era grande e o tempo, pouco. Tinha crises de alergia por conta dos fiozinhos que voavam da lã. Mas persistia na tarefa, correndo contra o tempo. E de repente me dei conta de que não terminaria o presente a tempo de entregá-lo no Natal. O dia chegou e o tapete estava pela metade. Ofereci-o mesmo assim, como uma promessa. Entreguei o tapete inacabado, prometendo que em breve ele estaria pronto, estendido no chão para amaciar seu caminho.

Mas sonhos e dedicação são coisas incertas, não podem ser prometidos. Com o tempo fui desanimando, cansando da tarefa repetitiva e das crises de alergia decorrentes. E a rotina de entregar meu suor, de dedicar minhas horas livres para que essa outra pessoa pisasse leve tornou-se sufocante. Um dia enfim desisti. O tapete permanece inacabado em um fundo do armário - nunca tive coragem de jogá-lo fora. E a pessoa em questão... espero que seus caminhos sejam sempre macios...