sexta-feira, 10 de abril de 2009

O chá e suas consequências

Tudo começou com um biscoito. Queria mergulhá-lo em algum lugar, para morder parte molhada e parte seca e sentir, na boca, o contraste do crocante com o macio. Pensando melhor, não começou com o biscoito, começou com um final de tarde fresco, que, por sua vez, começou com um dia quente. E tudo começou muito antes e veio de uma história de lugares, pessoas, sensações. Mas aí corro o risco de ficar subjetiva e não contar minha história de hoje.

O dia amanheceu quente, quase infernal. Vivi e me locomovi nesse dia quente. De repente olho para o lado e vejo uma chuvinha fina. Volto a mim. Olho para o lado novamente e vejo o céu limpo. E de uma hora para outra o tempo está fresco e o céu azulado e amarelado. Um livro em mãos e uma música no ambiente. O livro era "O jogo das contas de vidro", de Herman Hesse, e o CD, "The soul sessions", de Joss Stone, para quem quiser repetir a experiência e ver se funciona. E o biscoito, que é de onde começamos a história. E o chá, eleito para molhar o biscoito. E, em dez minutos, a vida inteira valia a pena. E em dez minutos eu vivia minha vida inteira. Todos os afetos, todas as lembranças que a memória não alcança e que não cabem em um fluxo de pensamento, mas que estão registradas nas células.

E eu que comecei o texto pensando em falar sobre chás...

Agora nem sei mais se chá cabe na minha história. Enfim, o de hoje era de erva doce, minha fase atual. Mas cada chá tem sua fase, suas circunstâncias e suas consequências. Chá Mate quentinho e com açúcar, por exemplo, é o sabor de tardes de infância na casa das avós de minhas amiguinhas. Erva doce tem sido o sabor das noites aqui no Rio. E tem o eterno favorito, Jasmim, cujo aroma recupera toda minha vida, minha casa, minha família, biscoitos, casadinhos, aulas de estatística no domingo, China, Goiânia. E o melhor de tudo é segurar a xícara entre as mãos e respirar o vapor perfumado e quente que sai.

Minhas emoções sempre foram olfativas. E juro que nunca tomei chá de cogumelo. Por incrível que pareça, nem hoje.

sábado, 4 de abril de 2009

Felicidade fácil


Hoje a Luana resolveu montar o móbile de fotos que há mais de um mês estava guardado na gaveta. Fomos nós procurar fotos para mandar imprimir. Fiquei olhando aquelas imagens armazenadas em arquivos digitais, que há tanto tempo eu não via. Escolhemos, imprimimos, montamos o móbile, penduramo-lo no teto. Tão bom ver aquelas fotografias flutuando pela sala. No embalo, montamos nosso painel no armário do quarto, com outras fotos e a letra de uma música que nos diz muito, a mim e à Luana. Cada qual com suas lembranças e esperanças. Por fim, resolvi fazer o mosaico que prometera para ela. Lu no computador, eu no chão da sala, Day na varanda. Musiquinha no ar. Fórmula certa para ser feliz. Escutar música e fazer coisinhas. Seja que coisinhas forem. Montar quebra-cabeça, pintar quadro. Hoje era mosaico, a coisinha. Às vezes parece que ser feliz é tão fácil...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Primeiro de Abril

Dia da mentira. Como falar verdades? Tenho me perguntado isso há algum tempo. Estou com uma verdade engasgada para falar. Verdade delicada. A situação é a seguinte: Conheço uma pessoa que fede. Não é má pessoa, mas fede. Cheiro de suor misturado com perfume. Fico incomodada com o odor. O incômodo transforma-se em repugnância, asco e, em seguida, em raiva. Mantenho distância. Mas lamento, pois sei que pode haver uma pessoa agradável por trás do cheiro desagradável. Mas quem saberá? Só se um dia alguém tomar coragem e avisar a essa pessoa. Talvez um dia eu tome coragem. Provavelmente não. Seguirei evitando-a e irritando-me sempre que ela se aproximar. Longos dias da mentira.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Mais da rotina...


Já faz alguns dias em que acordo de manhã e meus neurônios ficam dormindo. Estou inacreditavelmente sonsa. Confundi datas e até cismei que o relógio do Nel estava errado, provando-lhe ao apontar na minha agenda "está vendo que primeiro de abril é na terça-feira?", quando estava escrito bem legivelmente na página "quarta-feira". Quando a Leilane falou na varanda de casa, fiquei imaginando de que casa ela tratava, pois não lembrava que aqui em casa tinha varanda. E ela, chocada, dizia: "Lian, aonde você acha que aquela porta de vidro da sala vai dar??" E eu: "Ãh? Porta de vidro? Não é uma janela?" Quando cheguei em casa, fiquei espantada ao perceber que, de fato, há uma varanda no nosso apartamento. E o pior é que eu até a frequento, pois é sempre lá que corto as unhas ou fico olhando para a piscina do Clube América, louca para me atirar. Juro que não fumo nada. Pelo menos tenho a desculpa de ter passado o mês de fevereiro inteiro perto da Júlia.

Descobri que Saint-Éxupery é um chato de galocha. Encontrei um livro todo lindinho, chamado "O amor do Pequeno Príncipe", com ilustrações feitas por ele e trechos de cartas que ele escrevera para uma paixão. Senti-me mal pela garota. Em todas as cartas ele só faz cobranças e reclama, reclama, reclama. Diz que ela não ligou, não o visitou, não teve consideração, etc. etc. e etc. Um ressentido. Fiquei decepcionada. Mas também, o que deveria ficar de certas pessoas são suas obras, não suas intimidades impublicáveis publicadas. Se um dia eu ficar interessante ou famosa o suficiente a ponto de as pessoas se interessarem por minha vida após minha morte, estarei perdida. Tenho tantas coisas impublicáveis espalhadas por aí. Milhões de cartas distribuídas por vários destinatários. Milhões de poesias de quinta categoria em papéis soltos. Confissões e confissões em páginas aleatórias de cadernos quaisquer. Pedaços de mim? Pode até ser. Mas, lidos por não iniciados, essas palavras perdidas mais me mentem do que me revelam.

terça-feira, 24 de março de 2009

Superfície

Depois de encasquetar com a morte, de morrer de vontade de jogar um mochilão pelas costas e me perder pelo mundo, de querer me jogar de ou em algum lugar, rasgar, pintar, meditar, delirar ou fazer qualquer coisa catártica, essas duas semanas no Rio estão sendo simples, apenas. Permitindo-me viver adolescências, ficar cansada, gostar e desgostar das pessoas, desgostar e gostar das pessoas. Permitindo-me não pensar e ficar na superfície das coisas. A ponto de ficar dias sem escrever no blog por pura falta de assunto.


terça-feira, 17 de março de 2009

A eternidade

Percebi que a morte é assunto recorrente em meu blog. Mas juro que, quando falo em morte, estou falando de amor. Assunto que ciclicamente me espanta. A finitude desse algo infinito. Recentemente descobri que o amor faz a morte absurda. A arte a torna suportável.

E se eu vivesse 100 anos...

Cem anos é pouco. É quase nada.

A eternidade me bastaria. Se fôssemos eternos, não haveria despedidas. Viveríamos todas as vidas possíveis, todos os amores possíveis. Nos desencontraríamos tranquilamente, com a garantia de que haveria um reencontro mil anos depois, milhões de anos depois.

Mas, se fôssemos eternos, o que seríamos? Com certeza nada do que reconhecemos como humano. Amaríamos, ainda assim, na nossa inumana forma?

Mas 100 anos... O que se faz em 100 anos? É pouco. É muito pouco...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Rotina

Deu nos jornais que um maluco se jogou em um avião no Shopping Flamboyant. Peguei-me pensando que não é só a mim que Goiânia enlouquece. Um mês inteiro em Goiânia quase me enlouqueceu. Meu passado revisitado de fora. Tudo aquilo que fora tão meu, desta vez tão longe do meu alcance.

Voltei ao Rio e finalmente respirei. O presente. Desenraizado, mas presente. A volta da rotina, com novas aulas, novos professores. Fiquei quebrada fisicamente, cansada, exausta. Mas emocionalmente anestesiada.

Hoje mergulhei novamente em mim. E foi bom.