terça-feira, 24 de março de 2009

Superfície

Depois de encasquetar com a morte, de morrer de vontade de jogar um mochilão pelas costas e me perder pelo mundo, de querer me jogar de ou em algum lugar, rasgar, pintar, meditar, delirar ou fazer qualquer coisa catártica, essas duas semanas no Rio estão sendo simples, apenas. Permitindo-me viver adolescências, ficar cansada, gostar e desgostar das pessoas, desgostar e gostar das pessoas. Permitindo-me não pensar e ficar na superfície das coisas. A ponto de ficar dias sem escrever no blog por pura falta de assunto.


terça-feira, 17 de março de 2009

A eternidade

Percebi que a morte é assunto recorrente em meu blog. Mas juro que, quando falo em morte, estou falando de amor. Assunto que ciclicamente me espanta. A finitude desse algo infinito. Recentemente descobri que o amor faz a morte absurda. A arte a torna suportável.

E se eu vivesse 100 anos...

Cem anos é pouco. É quase nada.

A eternidade me bastaria. Se fôssemos eternos, não haveria despedidas. Viveríamos todas as vidas possíveis, todos os amores possíveis. Nos desencontraríamos tranquilamente, com a garantia de que haveria um reencontro mil anos depois, milhões de anos depois.

Mas, se fôssemos eternos, o que seríamos? Com certeza nada do que reconhecemos como humano. Amaríamos, ainda assim, na nossa inumana forma?

Mas 100 anos... O que se faz em 100 anos? É pouco. É muito pouco...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Rotina

Deu nos jornais que um maluco se jogou em um avião no Shopping Flamboyant. Peguei-me pensando que não é só a mim que Goiânia enlouquece. Um mês inteiro em Goiânia quase me enlouqueceu. Meu passado revisitado de fora. Tudo aquilo que fora tão meu, desta vez tão longe do meu alcance.

Voltei ao Rio e finalmente respirei. O presente. Desenraizado, mas presente. A volta da rotina, com novas aulas, novos professores. Fiquei quebrada fisicamente, cansada, exausta. Mas emocionalmente anestesiada.

Hoje mergulhei novamente em mim. E foi bom.

domingo, 1 de março de 2009

"Desculpe, mas se morre"


Clarice Lispector tem um texto em que ela cita várias pessoas suas conhecidas que morreram. E encerra com a frase: "Desculpe, mas se morre". Quando li a primeira vez, fiquei abismada. Chocada com aquela verdade que parece tão simples e tão óbvia, mas que só de repente a gente a retém. A morte é questão que muito me intriga, quando, por um segundo, consigo compreendê-la, não com a compreensão racional e as frases que somos acostumados a ouvir e repetir ( "é o ciclo natural das coisas", etc. e etc. ), mas com a sensação profunda de alguém que, de repente, depara-se com a finitude.

Eu queria muito acreditar em religiões, em salvações, em almas. Mas não acredito. Também nunca compreendi o "eterno retorno", de Nietzsche, até um dia um professor explicar de um jeito que pareceu fazer sentido: "Se partirmos do princípio de que o universo é finito, então temos que concordar que há um número limitado de combinações possíveis dentro desse universo. Encerradas todas as combinações, é preciso que elas se repitam". Mas daí eu penso que isso só pode ocorrer se o universo for finito no espaço, mas não no tempo. Mas não existe tempo sem espaço... Divagações... A verdade é que essa idéia, que ameaça fazer algum sentido, parece ser a última religiosidade que me resta. Às vezes me agarro a ela com desespero.

Como é possível que pessoas vivam, sintam, amem, criem sentidos, pensem ... e um dia simplesmente acabem? A morte dos outros me espanta. A minha morte me espanta. Não faz muito tempo que descobri que morro. Então eu, eu também, sou mortal? Quando criança, eu me pendurava do lado de fora da varanda do meu apartamento, confiante em minha imortalidade. Eu já pulei do terraço do prédio para dentro da janela do andar abaixo, menina-aranha. Eu, naquela época, não morria. Hoje morro.

Faz alguns anos tive uma infecção. Decidi não tomar antibióticos, pensando: "Ou meu corpo se defende, ou morro. Como não morro, é claro que meu corpo vai se defender sozinho." Resultado: Fui parar no pronto-socorro e não morri. Mas descobri que poderia. Foi nesse dia que, em um choque, descobri minha mortalidade. Dois dias atrás, virei a madrugada no hospital, com crise asmática, bronquite, febre, respirando com dificuldade. Não era caso de morte, era só caso de tratamento. Mas levei a sério o ofício de cuidar desse corpo que é tão finito e que é tudo que sou. Este corpo, que é minha alma. E nada mais tenho além da leve esperança de que um dia, em um tempo humanamente imensurável, galáxias, estrelas, planetas ressurjam. E que entre eles, haja um planetinha azul, e que surjam vidas e que surjam povos, culturas. E que eles se encontrem. E que, dentre os encontros e desencontros, nasça uma garota chinesa em Goiânia, chamada Lian. E que ela viva, sinta, pense, ame, tema a morte, morra. E que tudo se repita infinitamente.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Faxina - parte II

Depois de dispensar sacos e sacos de lixo, imaginei que finalmente tivesse me livrado das tantas tranqueiras depositadas em meu quarto. A verdade é que tenho um talento especial para o acúmulo. Mania de querer guardar a vida toda no presente e de encontrar um valor sentimental em cada objeto. Quando comecei a morar no Rio, meu quarto era vazio. Rapidamente ele se encheu de coisas que não sei de onde vieram. A Marina, ao me visitar no ano passado, ficou escandalizada com minha bagunça: coisas nos dois armários, na estante, nas mesas, gavetas, na cama que outrora fora da Érika, no chão. Mas logo ela aprendeu a se divertir com meu caos particular, revirando meu quarto e encontrando coisas que ela pudesse aproveitar. Agora tenho dois quartos superlotados: o do Rio e o de Goiânia. Divido-me. A cada cd ou livro que resolvo levar para o Rio, me dói um pouquinho. Ainda não me acostumei com a idéia de estar saindo de casa.

Enfim, pensei que me livrara do excesso armazenado em meu quarto de Goiânia, quando dei por falta de um texto, um artigo científico fictício que escrevi há alguns anos, sobre a Teoria dos Alimentos de Júlia Lemos. Então resolvi abrir a parte de cima do armário, que passara ignorada na minha faxina. Para minha surpresa, havia ali montes e montes de cadernos antigos, pastas lotadas de papéis, folhas soltas, textos, poeira. Ao encontrar aquela bagunça tão bem escondida, fiquei feliz. Ainda há bagunça em meu quarto! E percebi que não quero me higienizar e me organizar. Não quero ser sempre previsível e encontrável. Quero esse monte de papéis amontoados e, sobretudo, quero neles encontrar, um dia, uma linha que me emocione. Quero, com um susto, encontrar meus pedaços em meio a esse ser caótico que sou.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Palavras ao vento


Ontem fiquei até tarde da noite mandando mensagens para tentar divulgar a ressurreição da Revista Bolhas. Hoje todas as mensagens que enviei desapareceram misteriosamente, mas aí já é outra história (só não perguntem se aconteceu de verdade ou se foi sonho). Mas, enfim, para deixar recados, tive que digitar várias e várias daquelas letrinhas distorcidas. Aquilo atrasa a vida da gente, é verdade, mas confesso que é bem divertido. Fico olhando aquelas palavras que se formam e, puxa vida, dá para fazer trilhões de coisas com elas, dentre as quais listo algumas:
1) Escolher nomes de filhos:
Nomes de menino:
REFREU
DIERMO
EVETIO
ZONION
ULLOR
Nomes de menina:
EODISA
EILIN
MELI
DIMA
YEPHIE
2) Jogar Leréia:
SPACTR: Pimeira estação espacial russa, responsável pelo lançamento de satélites artificiais na órbita de marte.
SORATO: Estilo musical oriundo do norte da Itália, caracterizado por um canto choroso e pela teatralidade, com temática melancólica.
ADERMA: Síndrome congênita que aflige mamíferos na região do Cáucaso, caracterizada pela ausência total ou parcial de pele.
HALIZ: Erva aromática cultivada pelos índios Yanomami, muito utilizada na preparação de chás.
3) Conversar com adolescentes no Orkut ou MSN:
- GENDE, vcx viram o CHUSTU q eu levei?
- Minha miguxa me deu um CHUT e naum mora maix no meu S2.
- SERAW q vai xuver hj?
- Eu DICIE PRELA naum fazer aquilo!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Faxina


"Eu hoje joguei tanta coisa fora
E vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim."
Fazer faxina no quarto é atividade dolorosa/prazerosa. A gente revira os papéis e objetos guardados na alma. Encontra o passado, rasga aquilo que queremos apagar da vida, guarda com cuidado o que queríamos ter mantido, joga fora o que não nos faz sentido. A gente abre as gavetas há muito fechadas, levanta poeira pelo cômodo. O gato, animado com a bagunça, participa, quer pisar nos papéis, deitar nas gavetas. A gente acorda emoções que dormiam em alguma gaveta da alma. A gente encontra muitos "eus". Eu que queria mudar o mundo, no "Revolução em cadeia". Eu que tentava me encontrar em poemas. Eu estudante que fazia exercícios de Matemática. De quantos "eus" me faço e junto os pedaços para encontrar uma face que de tantas tem uma só certeza: sanidade é opção diária e exige esforço contínuo. E esse exercício de me ser é por vezes dolorido, pois quanto de mim tenho de abandonar. E abandono fazendo uma grande faxina, no quarto e na alma.