domingo, 19 de abril de 2015

19 de março

Por aqui há grupos de vacas. De bodes. Há bandos de macacos. Há gangues de cachorros. Há revoadas de pássaros e multidões de pessoas.
Apenas um bicho não pertence a grupo nenhum. E é justo um carneiro.
Eu passei por ele tantas vezes, com seus pelos brancos e felpudos. Os chifres foram pintados, cada qual de uma cor. Um, verde. O outro, alaranjado. Nunca entendi direito o que ele fazia por ali, longe de sua maioria e à mercê dos caprichos das crianças, que lhe davam tapas e puxavam-no pelos chifres. Muitas vezes eu tentava defendê-lo, mesmo sendo ignorada por elas, que continuavam a agredi-lo, em um misto de crueldade e brincadeira.
Tentei me aproximar umas tantas vezes, mas ele fugia sem estardalhaço. Apenas me evitava, desviando-se do meu caminho. Eu lembro de ter-lhe perguntado:
- Como você veio parar aqui?
Obviamente, ele nunca me respondeu.
Era não só curioso, mas também uma identificação. Uma empatia. Um carneiro que era também um peixe fora d'água, que é como, de certa forma, eu sempre me senti. Eu nunca tive muitos amigos na escola e sempre tive alguma dificuldade para me misturar entre os jovens:
- Você destoava da turma e eu queria desesperadamente te ajudar, mas não sabia como - me contou uma professora de português da minha infância, quando a reencontrei anos depois.
Sempre fui muito velha ou muito criança ou ao menos muito esquisita entre os demais.
Mas é que hoje eu passava e, como todos os dias, procurava um lugar que me chamasse. Os garotos jogavam críquete pelo ghat. E, ali ao lado, havia um banco inteiro sob o sol. Aos pés do banco, ele: o carneiro.
Por isso me sentei ali.
Ele estava diferente, menos felpudo do que antes. Fora tosado enquanto estive fora. Mantinha algumas manchas cor de rosa e alaranjado, heranças do Holi. Pus a mão sobre sua cabeça, delicadamente. Ele parece ter gostado, pois desta vez não fugiu. Continuei acariciando suas costas e pescoço. E então ele não só gostou, mas também se emocionou, pois até fez xixi. E depois colocou a cabeça sobre meu colo, esfregando-se e quase se esquecendo dos chifres duros.
- Nós, que ferimos sem querer. - pensei.
Mesmo que ferir tantas vezes seja apenas a forma atrapalhada como conseguimos amar.
E depois ele colocou a pata sobre meu colo, que eu imediatamente retirei:
- Mas se você acabou de pisar na própria poça de xixi!
Acho que ficamos os dois encantados pelo encontro: a alegre descoberta de uma nova amizade. Eu coçava seu pelo e ele se coçava em mim. Eu me deitava no chão para tirarmos fotos juntos e depois lhe contava sobre as vezes em que tentei ser sua amiga e as outras em que o protegi. Ao meu lado, acumulavam-se cada vez mais indianos, que achavam graça dessa pessoa estranha, a conversar com o bicho.
Mais tarde um adolescente puxou assunto comigo. Contou-me que fora ele que dera nome ao carneiro: Raja. E que este havia sido uma oferenda ao templo de Hanuman. Um homem trouxera o animal ainda bebê. E desde então ele ficava por ali, oferenda vivente e solitária ao deus-macaco.
Fiquei feliz de conversar com o garoto e finalmente descobrir o mistério do carneiro. Mas ele tinha esperança de alguma paquera e, no meio da conversa, perguntou-me:
- Quantos anos você tem?
- Trinta.
- Trinta ou treze? - ele apoiou-se na confusão linguística (thirty e thirteen) porque não acreditava em minha idade que, em realidade, fora arredondada para baixo.
- Trinta.
Ele continuou duvidando de que eu não fosse uma deles. Eu encarei sua dúvida como elogio e depois me dei conta de algo maior: finalmente cheguei a uma idade em que posso pertencer a todos os grupos. As crianças me veem como igual e me chamam a brincar com elas. Os adolescentes continuam me paquerando. Os mais velhos, visivelmente impacientes com os jovens festeiros, encontram em mim uma boa companheira de conversa.
E eu simplesmente parei de levar a sério os que trouxeram as manias do tempo escolar: os que me pedem para falar mais baixo, para rir mais baixo, para não chorar. Os que me pedem calma quando dou um grito de espanto pela lua brilhante no céu ou que se envergonham por mim quando converso com os bichos.
Descobri que ser um carneiro de orelhas coloridas longe de sua maioria pode ser uma forma de, não pertencendo a grupo nenhum, pertencer a todos.
E ser, assim, uma oferenda à vida. E uma forma bonita de honrar a vida que me foi ofertada.
Levantei de mau humor pela noite insone. Coloquei a casa na mochila amarela e saí. A missão era a de quase todos os dias: parar em um degrau qualquer para escrever, estudar, meditar. A caminhada pelos ghats cura. E o rio lava o que tiver de ser levado, ainda que só se ande ao longo.
Sentei-me em uma murada que serve de corrimão em uma escadaria. Peguei meus textos para ler, mas frequentemente tirava os olhos dos papéis para ver o mundo. Às vezes apenas observava com o olhar periférico. Reparei o garoto sentado na outra extremidade da escada que, como em um filme, arrastou-se para o lado, fingindo que nada acontecia, até ficar bem perto de mim. Quando ele, timidamente, tentou falar alguma coisa, fingi não ouvir.
Depois se aproximou um homem mais velho. Fez algumas perguntas, que eu respondia sem de fato lhe dar atenção. Até que, em um momento, ele me apontou:
- Não é bom apoiar a mochila sob a perna. Dá azar.
Olhei para ele. Não sei bem por quê, mas obedeci, tirando-a de baixo das pernas e colocando-a sobre o colo. E de repente ele me falava sobre os deuses e contava sobre a necessidade de se escolher um deus para cultuar:
- Se você pede uma coisa a todos os deuses, você não vai saber qual deles a concedeu a você. Por isso, nessas condições, eles não atendem a seus desejos.
- Mas se você escolher um só, os outros não ficam enciumados? - provoquei.
- Ficam. Por isso de vez em quando você tem que fazer oferendas para eles também. Os deuses são como as pessoas.
- Como as pessoas?
- Exatamente como as pessoas. Aliás, as pessoas também são deuses.
Perguntei que deus ele escolhera.
- Shiva.
- Por que Shiva?
- Full power.
É assim que eles se referem a seu deus maior, inclusive quando tentam vender drogas aos estrangeiros: "Shiva full power", um amigo me contou. Comigo não acontece, porque sou mulher. Mas aos meus amigos homens sucede de serem abordados por um traficante a cada esquina. Eles os seguem e vão falando os nomes de todos os narcóticos.
- Só se for heroína - meu amigo respondeu certa vez, já que era a única droga que ele não oferecera.
- É pra já. - respondeu o moço.
- Não, não, obrigado.
É essa a ideia que se tem dos estrangeiros: pessoas que vêm para se drogar. Não sem um pouquinho de razão. Apenas o álcool quase não é presente em Varanasi. É no Holi, apenas, que ele surge e todos se embebedam. Eu não quis estar presente para testemunhar.
- Você bebe? - perguntou-me outro dia um indiano.
- Não.
- Mas de vez em quando você bebe um pouquinho de cerveja, né? Eu posso saber sobre você. Vejo que você bebe um pouco de cerveja. - ele jogou no verde, usando seu conhecimento genérico sobre as mulheres ocidentais.
- Não, nem um pouquinho. Nunca.
Pessoa errada.
Mas, voltando ao homem que escolhera Shiva, ele contava-me dos rituais diários para os deuses. E que eu deveria ter um altar para o deus escolhido e dizer "namastê" para todos, com alguma frequência. E que, ao acordar, eu deveria também pegar algum dinheiro, encostar na testa e dizer namastê a ele.
- Eu devo dizer namastê ao dinheiro? Todas as manhãs?
- Isso. Assim você terá prosperidade.
Lembrei que aqui, sempre que alguém recebe algum dinheiro, encosta-o na testa, antes de guardá-lo. E depois me lembrei do dono do restaurante que frequento todas as manhãs, com seus mantras e incensos, cuja fumaça ele espalha em cada canto do local, inclusive na gaveta de dinheiro.
Desde os primórdios, os deuses sempre serviram para nos servir.
- Que pedra é esta no seu anel? - perguntei ao homem dos deuses, apontando para sua mão.
Quase todos os homens usam um anel no dedo indicador, que eles chamam de "guru finger". Na minha primeira vez em Varanasi, conheci um astrólogo que disse que eu deveria usar rubi, para potencializar meu sol:
- Você tem espírito de liderança. O rubi vai aumentar esse poder.
Achei a ideia tão simpática quanto inacessível.
Depois perguntei a este outro homem como eu faria para descobrir a minha pedra.
- Como é seu nome?
- Lian.
Ele pensou durante um segundo e concluiu:
- Neli.
- Isso é uma pedra? Nunca ouvi falar.
- É sim.
- E qual a lógica disso? De onde você tirou que essa é a minha pedra?
- É o seu nome ao contrário.
- Mas nem todo nome tem uma pedra. E se eu me chamasse... Ingrid, por exemplo?
Ele fez um jogo de palavras qualquer e me falou uma pedra.
- E qual seu nome?
- Pi.
- Como em Aventuras de Pi? Mas sua pedra não é seu nome ao contrário.
- Minha pedra foi escolhida pelo meu guru. É assim que funciona, ele lhe dará um anel e colocará um mantra nele. Então todas as manhãs você dá um beijo na pedra, quando acordar.
- Deixa eu ver ser entendi: sempre que eu acordar eu devo beijar o anel, dizer namastê para o dinheiro e fazer uma oração para o meu Deus?
- É.
- E quem é seu guru?
- Meu pai. Se você tem família, pai e mãe, eles são naturalmente seus gurus. Se não, você deve escolher uma pessoa boa para seguir.
Depois que ele foi embora, coloquei a mochila no chão, ao meu lado. Meia hora depois ele reapareceu:
- Não deixe a mochila aí, os cachorros vão mexer. Coloque atrás das costas, como apoio.
Obedeci de novo. Acho graça do jeito mandão dos indianos, especialmente quando aparecem para me mandar sair do sol.
- Minha mãe diria a mesma coisa - penso.
São meus gurus, pai e mãe. Na ausência deles, é a vida. E esses indianos que vêm espontaneamente me mandar pra sombra.
Mais tarde vou tomar um chai apenas para socializar com os babas de verdade. Ouço uma voz às minhas costas:
- É possível ter um chá de limão?
- Você é francês? - pergunto.
- Sou.
Explico-lhe que os franceses sempre perguntam se as coisas são possíveis, porque traduzem pro inglês a sua tão usada expressão "c'est possible?" Passamos a conversar sobre Varanasi e a vida. É a quinta vez que ele vem. O assunto é bom e se estende, mas sigo meu caminho para almoçar.
No Dosa Cafe, encontro a israelense de cabelos selvagens, uma das poucas viajantes que permaneceram, depois que voltei do Nepal. Eu sempre me perguntava por ela nos restaurantes, pois ela era minha irmã de prazeres gastronômicos.
- Esta é minha última refeição aqui - ela anuncia, contando que pegará um trem para o Rajastão, onde fará um Vipassana.
- Então aproveite bem essa refeição! - recomendei-lhe, dando um abraço de despedida. - E me avise quando for ao Brasil.
- Igualmente, quando você for a Israel! - ela respondeu.
O dono do restaurante concluiu que nos encontraríamos de novo na Índia, pois certamente ambas voltaríamos.
Fui embora testando alguns conhecimentos de hindi, por exemplo, pedir licença:
- Sai!
Era assim que me soava, sempre que alguém queria passar. Experimentei dizer isso. O homem que atravancava o caminho fez um sinal, pedindo que eu esperasse.
- Funcionou, ele entendeu! - comemorei a experiência bem sucedida.
Mais tarde, foi outra mulher quem pediu passagem:
- Sai!
Tentei confirmar com ela:
- Você disse "sai"?
- Said! - ela corrigiu.
E, quando percebemos, ela me ensinava esta e outras expressões de sua língua. Achei graça pensando que este é o único lugar em que uma pessoa te manda sair da frente e termina te dando uma aula de hindi.
Depois cheguei ao Baba Lassi. O dono do estabelecimento tem um irmãozinho, criança, que é uma das crianças mais bonitas que já vi. Ele está sempre por ali, vestido como um homenzinho, com seu rosto expressivo. Eu tento me conter para não constrangê-lo, pois não consigo parar de admirá-lo. Desta vez, aparece também seu filho, um bebê de dois anos de idade, aquele que passara pelo ritual do primeiro corte de cabelo.
- Eu nunca havia visto esse bebê antes. Só agora ele começou a aparecer. - observo.
Pensando bem, me dou conta de que nunca vejo crianças recém-nascidas. Talvez elas sejam protegidas até certa idade. Provavelmente até passar por essa cerimônia. Preciso perguntar a alguém - anoto mentalmente.
Mas a criança que aparece, assim como a que já lá está, é igualmente e surpreendentemente linda e expressiva.
- Os meninos da sua família são as criaturas mais bonitas que eu já vi! - falo com entonação exagerada, mas sem exagero, para o moço.
É sempre ele que escolhe o sabor do meu lassi. Desta vez, é uma mistura de romã, coco, banana e abacaxi. Dou-lhe autonomia para me surpreender e nunca me decepciono.
Chego atrasada ao concerto no Tulsi Ghat, que está mais atrasado do que eu. O primeiro espetáculo é um trio de tabla, com três grandes músicos. E, porque são grandes, passam horas demonstrando seus talentos, no que um amigo francês reclama que não é música, mas exibição. Uma bela exibição. Grandes talentos. Mas depois da décima rotação na terra, torna-se um bocado cansativo. Mais tarde, uma apresentação de dança Kathak, igualmente bela e demorada.
- O problema dos indianos é esse, - suspira meu amigo - eles não sabem a hora de parar.
Dou risada sozinha, pensando que é como as matérias da Revista Piauí, quase sempre interessantíssimas, mas que, depois de encerradas, continuam e continuam. Começam a falar do irmão do personagem e depois do primo do personagem e depois de sua cidade...
Então me canso do concerto e descubro um restaurante novo, de comida vegana e crua. Salada na Índia é luxo e oásis.
Respiro pensando que às vezes acontece mesmo de a vida ser demais. E talvez hoje seja um dia desses, em que tudo acontece e você não sabe como editar e sua crônica do dia transforma-se em uma matéria da Revista Piauí.
Nada mal para quem, como eu, gosta de dias longos e páginas grandes.
Ele me serve a melhor comida de Varanasi e, nas horas vagas, me dá aulas de hindi. Eu quero saber os plurais:
- Ek larka, do larke?
Ele me corrige:
- Do larka.
Mas o plural não era larke? Era assim que ensinava meu livro. Ele explica: até dois ainda é singular. A partir de três, é plural. Curioso, isso.
Eu ando pelas ruas. Por causa da chuva e da lama, evito circular muito. Vou apenas para os locais necessários e também para os restaurantes. A vida aqui quase se resume a frequentar os mesmos lugares, como visitasse a casa das pessoas.
É tão delicado isso de trocar palavras, alguns afetos e ir embora.
Dizem que quem não consegue ficar só são aqueles que não suportam a própria companhia. Eu sinto o contrário. É tão fácil estar sozinho. A gente consegue evitar o espelho que é, invariavelmente, o outro.
É nas relações a dois, essas, em que não vamos embora, que somos obrigados a conviver com nossa sombra. Os relacionamentos profundos. O espelho que aparece nos momentos mais inconvenientes e expõe aquilo que somos.
É preciso coragem, o amor e a convivência cotidiana e próxima. E, talvez porque me seja quase insuportável o sangue do desnudamento, talvez porque me falte essa coragem essencial: eu sempre fui a pessoa que foi embora.
Também tem sua parcela de ousadia, essa ânsia de enfrentar o mundo. Também tem o tanto de mim que se desafia a cada nova situação. Mas será que um dia terei a coragem de ficar? Encarar o fundo da imagem no espelho. A sombra.
E ficar.
E não culpar o outro pelo que sou.
E ficar, ainda.
Talvez tudo isso seja um aprendizado para que um dia eu entenda o dois como singular. Não o conto romântico da alma gêmea, de ser um só. Mas saber enxergar na diferença, no absolutamente outro, sua própria essência, em realidade e avesso. Ver a singularidade no plural.
"O inferno são os outros", já dizia Sartre. Mas eu acredito, ah, como acredito, que na aceitação do inferno e do fogo um dia talvez eu encontre uma espécie de paraíso.

15 de março

Hoje o dia amanheceu mais finito do que as vinte e quatro horas habituais. É bem verdade que, quando me levantei, já haviam se passado oito. Saí para tomar café da manhã no meu cantinho. Caía uma chuva fina. Resmunguei, porque planejava caminhar pelos ghats, ao longo do rio.
- É um domingo domingueiro - lembrei dessa expressão que ele sempre usava, para se referir aos domingos preguiçosos - Deixa estar.
Quase toda minha vida eu odiei os domingos, com seu ar parado e o pagode alto dos churrascos dos vizinhos. Parecia sempre dos outros. Pareciam sempre alheios, os domingos. Mas aqui falar em dias da semana quase não faz sentido, a não ser hoje.
Porque chove, é domingo.
E domingo é tempo a cair, como chuva. É como sair um pouquinho da vida, pra ver a vida passar. É bonito, mas dá um nó no peito que a gente não sabe como desatar. E depois não se respira. "Os domingos são o Chaplin da semana" - dissera Liniers em um desenho genial, que explica a sensação meio feliz e meio triste que esse dia nos dá.
Ou talvez tudo isso seja porque me dei conta: já é dia quinze de março. Metade do mês. Finito, também, como o dia de hoje. Finito como a vida e, principalmente, como a vida de hoje. Mas é que tem algo da vida de hoje que quero enrolar, como enrolo as roupas na mala, em um bolinho compacto, e levar comigo.
O apego. Estou perdoada, porque sou taurina, mesmo que me digam que não use meu horóscopo para justificar meus defeitos. Mas, sabe, todo mundo vem à India para aprender o desapego. Eu não. Eu venho pelo mundano e por tudo que a matéria tem de sagrado. E venho logo à cidade eterna, essa que se mantém viva desde milênios. A eternidade, dentro do mundo finito.
Então, porque é domingo e porque é quinze de março e porque tudo acaba, eu choro ao voltar para casa. E é como quando eu era criança e meu pai me mandava parar de chorar e eu tentava, juro que tentava, mas me sufocava em soluços. Eu choro pela finitude das coisas. Depois me levanto, tomo uma ducha e saio para almoçar com a cara mais lavada do mundo.
Como se eu não tivesse acabado de morrer.
Parecia fazer séculos que eu não caminhava pelos ghats. Levei os textos na mochila, para parar e estudar em frente ao rio. Meu plano original era me sentar no meu cantinho de meditação, que fica lá no alto, onde tenho vista para tudo, mas ninguém me incomoda. No meio do caminho, pensei: "Qual o mal de ser incomodada?" Passara tantos dias tranquilos no Nepal, que até me fazia falta. Essa invasão.
Então me sentei na escadaria do templo mesmo, aquele enorme. Era o lugar mais movimentado nesta Varanasi que, a esta altura do ano, já está quase vazia. Foram-se os turistas e fica a vida cotidiana da cidade, dos templos e das vacas. Passei uns minutos contemplando as pessoas e depois tirei um artigo de dentro da mochila e pus-me a ler.
Um homem aproximou-se para me oferecer cartões postais. Quando levantei a cabeça para recusar, ele surpreendeu-se:
- Ah, mas eu já te conheço! Você está aqui há muito tempo! - e foi-se embora dizendo que gostava do meu colar.
Depois um outro homem veio conversar comigo. Perguntou se eu falava hindi. Expliquei que tentava aprender.
- Thora thora - ele me ensinou a responder.
Falamos, em sua língua, banalidades. Oi, como vai, meu nome é Lian. Ele perguntou se sou casada. Uma coisa que aprendi, por aqui, é sempre dizer que sim. Ele contou que também é casado e que também não tem filhos. E que é dono da vendinha ali ao lado do templo. Contou-me que aquele era o templo de Shiva e perguntou se eu gostava de Varanasi.
- Muito - respondi - "Sacred city".
Eu sempre digo isso e vejo como o rosto dos moradores se ilumina. É como se eu compartilhasse de seu segredo precioso. Ele sorriu e balançou a cabeça ainda mais. Eu, me espelhando, balançava a cabeça também, de um lado pro outro.
- Onde você está hospedada?
- No Hare Rama Guest House.
- Muito bom! Muito bom!
Achei estranha a animação dele com minha hospedagem, que é boa, sim, e faz com que eu me sinta em casa. Mas que não parece justificar tamanha empolgação. Então entendi: não se tratava de onde eu morava.
Ele começou a cantar:
- Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare...
Juntei minha voz à dele e cantamos os dois:
- Krishna Krishna, Krishna Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare...
Depois ele foi embora sorridente. Eu acabei de estudar meu texto e fui embora também. Passei pelas crianças que estão sempre a jogar - como é mesmo o nome desse jogo? - com uma bola e um taco, bem na minha porta. Fui colocando a mão na frente e pedindo que esperassem:
- Are, are! Are hihim!
Elas riam e brincavam que iam atirar a bola em mim. E eu entrei em casa com um sorriso bobo de quem estava tendo um dia simples e bom. De quem decidira se deixar incomodar. Sem ter percebido, até então, o sentido de in-comodar: dar cômodo dentro, deixar entrar.
Não costuma ser confortável.
Mas foi.
- Os que pedem dinheiro não são homens santos de verdade. - me explicou um amigo em meus primeiros dias de Varanasi - Os verdadeiros babas não pedem nada.
- Então não existem homens santos. São todos falsos. - concluí.
Eu via por todos os lados esses homens de cabelo e barba crescidos, em roupas alaranjadas ou nus, cobertos de cinzas. Eles ofereciam-se para serem fotografados, sempre em troca de dinheiro. Às vezes, impunham valores altos:
- Cem rúpias por cada foto - me disse um deles, quando apontei-lhe a câmera.
Quando deixei de acreditar, comecei a descobri-los: os babas. Aqueles que abdicaram da vida material em nome do caminho espiritual. Eles estão por aí, somos nós que não enxergamos, tão ofuscados estão pelos falsos babas, que ostentam sua santidade pelos ghats.
- Este é um baba de verdade. - apresentou-me meu amigo espanhol a esse homem, longo rasta e feições firmes, de uma dignidade que salta aos olhos.
O baba de verdade tem esse ar de senhor que é, ao mesmo tempo, sábio e humilde. Passo por ele e trocamos algumas poucas palavras. Na maioria das vezes, apenas um aceno. Eu o cumprimento por "namastê ji", em demonstração de respeito.
Há também o baba que ganha sua vidinha vendendo chai em um dos ghats.
- Com o dinheiro que junta, ele peregrina nos locais santos no período do Kumbha Mela. - explicou-me o mesmo amigo, que vem a Varanasi há vários anos e conhece todos eles.
Acontece que, antes dos babas de verdade, eu encontrara os babas de mentira. Com um deles, tirei uma foto engraçadinha, nós dois meditando. Dei-lhe vinte rúpias depois. Desde então, sempre nos reconhecemos e cumprimentamos. Às vezes o vejo por aí, a fazer pose, vibrar seu "ohm" bem grave e pedir dinheiro aos turistas. Outro dia ele passou por mim e fez uma pose:
- Tire uma foto.
- Não tenho dinheiro hoje.
- Que dinheiro! Pegue sua câmera!
Peguei-a correndo de dentro da bolsa e tirei a foto. Mostrei-lhe e ele aprovou, dando sua risada espalhafatosa. É como um Papai Noel bonachão, esse baba.
Hoje o encontrei novamente. Sorrimos um para o outro e ele me estendeu a mão, pedindo dinheiro. Dei-lhe dez rúpias e ele sorriu como um bonequinho, como um baba de brinquedo.
E daí que ele não seja um baba de verdade, se ele é um homem de verdade?
É que eu acredito na pureza e na santidade de tudo que é feito de carne, osso e desejo.
Meu cabelo cresceu três metros durante a noite. Juro. Levei um susto quando o desembaraçava em frente ao espelho. Encontrei uma mecha que eu não sabia de onde vinha, pensei que fosse cabelo solto. Mas era cabelo meu mesmo, grudadinho na cabeça e já quase passando do quadril.
Ocorreu-me que a primeira pessoa que desejo encontrar, quando voltar ao Brasil, será Claudinho, meu cabeleireiro e amigo. O único que corta meu cabelo exatamente como gosto: com o V bem pontudo, que é a forma de dar leveza a uma cabeleira lisa e pesada.
Hoje peguei o voo de volta a Varanasi. É tão perto: o voo leva menos de uma hora. Mas, sendo internacional, tive que chegar ao aeroporto com três horas de antecedência. Dormi profundo na sala de embarque. Quando finalmente nos chamaram, havia toda uma estrutura montada na porta do avião para nos revistar. A terceira revista no mesmo aeroporto, mas desta vez da própria equipe do Air India. Havia um simpático casal de monges (casal, mas não casal casal, vocês entendem) que aproveitou a demora para tirar fotos com o avião. Até me alegrou um pouco ver a animação deles. Mas eu, que não sou monja, fiquei é um pouco chateada de ter que esperar mais e ainda abrir minha mochila tão cuidadosamente compactada para caber. A moça olhou meu passaporte, revistou tudo com a maior seriedade e, no final, falou-me em português: "obrigada". Com um sorriso incontido de criança sapeca. Então não teve jeito, entrei no avião sorrindo também.
Decolei com a vista das montanhas nevadas e aterrissei com a visão do Ganges. Nada mal. Depois de pegar minha mala, a última que sobrava na esteira parada, o homem da alfândega me parou:
- O que tem nessa mala?
- Roupas, acho...
- Abra-a.
Abri.
- Ah, são roupas mesmo. Pode fechar. Peraí, o que é aquilo ali no canto?
- Isso?
- Ah, roupa também. Pode ir.
Entrei no táxi pensando em onde comeria primeiro. Nem era bem saudade das comidas, mas ansiedade de voltar aos lugares, rever as pessoas, anunciar que voltei. Durante o trajeto, olhava as pessoas nas ruas, tragicamente belas. Desci do táxi e a primeira cara conhecida foi a do fruteiro. Depois comprei uma água com a velhinha de sempre, que sorriu surpresa, ao me ver. Acenei para o homem do Baba Lassi, em frente:
- Namastê! Eu voltei!
- Quando você voltou?
- Agora. Estou voltando.
- Você vem mais tarde tomar um lassi?
- Venho sim.
E fui seguindo pelos labirintos, cansada da viagem e da mala pesada. Mas feliz em reconhecer e ser reconhecida. Em uma curva, um homem me abordou com um grunhido. Acelerei o passo e cheguei ao hotel. Entrei no quarto e tinha um cheiro familiar. Era um lar. A cama desfeita e meus objetos à espera. As roupas que haviam ficado secando na fita amarela que servia de varal. Já estavam manchadas da própria fita. Abri a janela e acendi um incenso. Dali a um pouco o recepcionista veio me chamar:
- Tem alguém que quer falar com você.
Era ele, o homem do grunhido. Fiquei olhando desentendida.
- Ele diz que a seguiu até aqui e agora você tem que lhe dar dinheiro.
- Por quê?
- Porque ele a seguiu até aqui.
Ao moço da recepção parecia fazer sentido, a mim parecia um teatro do absurdo. Interroguei-o com o olhar e ele, com a mesma naturalidade com que fora bater à minha porta, expulsou o homem com um empurrão que quase fez com que eu me arrependesse.
Subi novamente, troquei de roupa e desci para o restaurante. No caminho me lembrei de que reveria minhas cachorrinhas pretas e fui andando quase apressada, quase correndo, quase saltando. Cheguei na frente do restaurante e estavam as três, mãe e duas filhas, dormindo juntas no meio da rua. As filhas, já quase do tamanho da mãe. Como podiam ter crescido tanto enquanto estive fora? E cada vez que as vejo maiores, tenho mais esperança. Estão vingando. Estão vivas. Lembro de uma frase de Clarice, em "A hora da estrela": "Cada dia é um dia roubado da morte". É o que enxergo nessas cachorras, que vejo crescer.
Fiquei um tempo ali, conversando com elas em português, não importava que toda a gente passasse olhando. Depois entrei no restaurante e sentei-me à minha mesa, ao lado da janela de vidro, de onde podia continuar a vigiá-las. Se alguém parecia ameaçá-las, eu dava um grito lá de dentro e o dono do restaurante vinha ver se eu o estava chamando. Com seu sorriso sempre doce, perguntou como foi no Nepal.
- Foi muito bom. Mas eu gosto tanto de Varanasi!
E depois fui ao Dosa Cafe para comer idli de chocolate e beber um black masala tea, que é o melhor chá do mundo. É como o chai deles, porém sem leite. E além de todos aqueles condimentos que dão nuances e aquecem, lá se coloca também uma mistura de chá ayurvédico que nos leva direto ao paraíso.
Mas admito que mesmo sendo o melhor chá e a melhor sobremesa, em realidade não era por eles que eu ia. Mas para dizer que voltei. Para estar ali. Para confessar, talvez, que eu não estudara nada de hindi enquanto estive fora. Fiquei conversando com o senhor do restaurante e quase não nos entendíamos no inglês, mas nos reconhecíamos como sempre. Era tão familiar aquilo tudo.
Depois comprei um monte de frutas e, mesmo que estivesse mais do que satisfeita, fui tomar um lassi.
- O lassi já acabou - o moço me informou.
Fiquei até aliviada.
- Mas não vá embora, fique sentada aí! - ele convidou.
Depois ele me contou que no dia seguinte também não abriria, pois haveria uma celebração em família.
- Que celebração?
- O primeiro corte de cabelo do meu filho pequeno, de dois anos.
Um dia alguém me explicara sobre esse ritual. Confesso que não entendi. Sei que tinha a ver com o cabelo que vinha da barriga da mãe e com pesadelos. Saí desejando-lhe boa celebração e recomendando que me garantisse o lassi de depois de amanhã.
- Te garanto dois!
Sem entrar, dei uma espiada na porta do meu outro restaurante. As placas anti-fumo, que eu colocara no meu cantinho, continuavam lá. Então segui para minha casa, tomei um banho e liguei o computador para ver as fotos da viagem.
Fora tão suave, o Nepal. A Índia e os indianos me incomodam mais. Me intrigam mais. E ao mesmo tempo... Sim, eu encontrei suavidade mesmo em Varanasi. E a suavidade, quando no caos, é ainda mais doce.
Fora apenas alguns dias fora, mas como o tempo de Varanasi nunca fora o tempo dos relógios, sei que se passaram eras. Sei que universos se implodiram e se formaram. Sei que duas cachorrinhas filhotes cresceram e quase ficaram adultas. E que ao mesmo tempo alguns afetos ficaram congelados na eternidade.
Então entendi tudo, meu cabelo que subitamente cresceu horrores. Parecia da noite pro dia, mas de quantas eternidades é feito esse tempo dentro do tempo?