terça-feira, 29 de abril de 2014

O Vento



Eu saía de um restaurante em Brasília, quando uma moça me parou:

- Lian?

- Isso - respondi, confusa, sem conhecê-la.

- Eu vi que você postou na internet que precisava de carona para voltar de Alto Paraíso. Te reconheci passando. Eu volto no mesmo dia que você, podemos combinar.

Trocamos telefones e fui embora achando incrível aquilo. Ainda por cima, chamava-se Brisa, a garota. Bonito nome, como são bonitos os encontros.

Por isso hoje não me preocupo tanto com o que se leva. A gente sempre leva, ainda que não. Ainda que não nos reencontremos em vida.

- É triste, porque as pessoas vão embora e não sabemos se um dia as veremos de novo - desabafou um garoto - quando víamos os índios Mebengokré, com quem passamos uma semana, subirem no ônibus que os levaria de volta à sua aldeia.

Eu também fiquei triste, ao vê-los partir. Mas gosto de duvidar da linearidade do tempo. E aí tudo é encontro. E o encontro, em si, é a manifestação do divino.

Eu ganhei um nome indígena: Gréipu. Ganhar um nome é nascer para alguém. O nascimento é um encontro, e eu terei sido Gréipu desde sempre, mesmo que não os veja mais. Eu acredito que tudo é desde sempre e para sempre. Dentro do fluxo, o eterno.

- Quando crescer, quero casar com você. - me disse Davi, meu novo melhor amigo, de cinco anos de idade, sem saber que falava no eterno, isso que nos impele a querer guardar alguém.

- Mas então você vai ter que crescer muito, né? - brinquei.

- É. - ele me respondeu - Antes que você morra.

A morte - fui lembrada subitamente.

Mas a vida.

Acabei me desencontrando da Brisa e, muito convenientemente, resolvi passar mais tempo tomando banho naquele rio, que não era o de janeiro. E voltei dias depois, com outra carona, sem sequer tê-la conhecido. Mas, mesmo não sendo levada pela Brisa, é bonito que ela tenha passado. E que a gente continue seguindo com o vento.

A vida é um sopro.

O encontro é maior.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Uma alma criança no feminino



Virgínia é uma menina que é enorme em tudo. Enormes cabelos cacheados de espírito livre. Enorme boca de sorriso fácil. Enormes olhos que observam o mundo em seus detalhes. E enorme coragem.

Amor é coragem. 

Durante muito tempo ela foi, para mim, estranhamento. Lembro de um dia em que conversávamos sobre escolhas de amizades e ela afirmou que se tornava amiga de qualquer um que estivesse aberto para isso. Respondi que isso não podia ser, porque sempre temos preferências e afinidades. Virgínia disse que podia. Ela era. Levei tempo para perceber que Virgínia pode. E aos poucos ela se tornou referência para mim. Uma mestre à la Alberto Caeiro, com sua sabedoria simples, que destila verdade. 

Virgínia era chamada de bruxinha. Por quê? - perguntei. Porque ela enxergava. Pedi que me enxergasse. Ainda era cedo, eu a conhecia pouco e nem sequer a chamava de amiga. 

Ela enxergou em mim uma alma criança: um espírito novo no mundo, em uma de suas primeiras encarnações. 

Não sei o quanto acredito em almas como entidades individuais duradouras, mas a verdade é que sempre me lembro de Virgínia e penso que, de alguma forma, ela tem razão. Só posso ser uma alma criança, pois não consigo me acostumar com o mundo. 

E, em um momento em que tanta voz de amor se faz necessária, porque o que ouvimos reverberar são discursos de ódio, me vi calada: assim, uma alma criança, assustada e impotente. É permitido matar pobres nas favelas? É permitido atacar mulheres com roupas curtas? Com argumentos se combate a ignorância, mas com que armas se combate o ódio, esse tão pesado e tão cru, que tem se instaurado?

Estou perdida.

Então me calei, porque achei que minhas palavras, neste momento, seriam completamente óbvias e vãs. Se preciso dizer para alguém que o estupro é errado, então esse alguém está fora do meu canal de comunicação.

Mas vai além, o debate. Ou melhor, vai aquém. Reside no nível do muito pequeno e do muito próximo. É preciso falar sobre delicadeza. 

Estupro é o ápice. E foi tão banalizado que deixamos de enxergar essa violência que pertence a todas as instâncias da vida social. E que nos oprime. E que nos aprisiona. A todos nós, não se enganem, homens e mulheres. Também deve ser aterrador ter que se passar por forte. Deve ser solitário não poder chorar.

No Carnaval deste ano um garoto tentou me beijar à força. Não falo em beijo roubado, falo em força. Em segurar meus braços. Tudo porque eu havia sido legal. Porque havia conversado com ele, quando ele puxou assunto.

O machismo atinge esse nível da delicadeza, e isso para mim é o mais grave. A opressão nos torna pessoas que odeiam e que reproduzem o ódio. 

Habitam em minha memória minhas primeiras imagens do feminino. Do saber-me mulher. Eu tinha em torno de onze anos de idade, minha irmã tinha treze. Íamos a pé para as aulas de natação e levávamos cantadas de marmanjos de bicicletas. Havia muitos terrenos baldios no caminho. Eu tinha pavor de estupro. Lia reportagens sobre o assunto e pensava que, se um dia acontecesse comigo, eu teria que me suicidar. 

Desde então passei a ver os homens como ameaças. A maioria deles não ajuda, pois lança olhares e palavras na rua que tentam me colocar em meu lugar de objeto. Desde que cresci, me defendo: respondo às grosserias. E o surpreendente é que as pessoas estranham. Reagem como se a violenta fosse eu. 

Semana passada entrei pela segunda vez na farmácia vizinha, para reclamar do comportamento dos funcionários que ficam na porta. Me deram razão como consumidora, não como cidadã, ou humana ou mulher. Os consumidores têm sempre razão. Mas e a pessoa? O gerente prometeu tomar providência, mas vi em seus olhos a incompreensão. O que tem de mais em receber um "elogio" ou um assovio ao passar na rua?

O que tem é isso: Você é vista como objeto sexual (tentei encontrar outra expressão, por esta ser tão banalizada, mas a expressão é essa mesma. Você é objetificada. E sexualmente). E você acaba sendo obrigada a andar de cabeça baixa, a não olhar as pessoas nos olhos, a não enxergar. Porque, se você se abre como humana, a interpretação que se tem é que você dá uma abertura sexual. A culpa do ataque, seja de que nível de violência for, é vista como sua, mulher. Pela roupa que se usa, pelo horário em que se anda, pelo sorriso que se dá.

Então você é obrigada a se proteger e acaba se passando por arrogante. Toda mulher sabe do que falo.

Eu aprendi a me fechar desde muito cedo. E quando tentei abrir, não encontrei caminhos. Porque dou bom dia ao porteiro e ele me responde com olhar de tarado. "Eu queria - e tento - ter a liberdade de ser mais legal" - desabafei com um amigo, ao explicar-lhe como me sinto oprimida por ser mulher. "Eu queria, sinceramente, poder falar com as pessoas na rua, poder enxergar e ser enxergada". Eu queria ter relações mais humanas e com menos medo. 

E o que a gente não vê é que o machismo nos priva - a todos - exatamente disso: de um contato honesto entre as pessoas. Impõe ao homem um olhar de "pegador" e à mulher um muro de proteção. E a gente perde o que de melhor pode haver: a troca, a parceria, o amor. E as tantas couraças nos fazem odiar. E viver cercados por discursos de ódio.

Por isso eu vejo um caminho em Virgínia, que tem tanta força e coragem para amar apesar do mundo. E eu tento me espelhar em Virgínia. E me sinto tropeçando sempre. 

Virgínia é um espírito sábio. E eu ainda sou uma alma criança, desacostumada com o mundo.

Preciso de delicadeza para conseguir engatinhar.


terça-feira, 11 de março de 2014

A voz que grita



Eu fui uma criança de poucas palavras e muita cambalhota. Estava sempre pendurada em alguma coisa: em cima das árvores, nos muros, na varanda. A grande façanha foi conseguir pular de cima do prédio (sim, de cima do prédio) para a janela do apartamento logo abaixo, junto com a Sandinha, amiga igualmente destemida.

Lembro de uma infância silenciosa, e talvez não seja bem assim. Minha tia, Stella, costuma dizer que gostava de me escutar, e que eu contava várias histórias engraçadas. Acho que houve mesmo um momento em que eu era a engraçada da família, mas me é uma lembrança tão distante, que é como se não fosse eu. Eu me lembro é do silêncio. E de muitas palavras, mas nunca minhas. Sempre tive apreço às palavras, desde que, cedo, aprendi a ler e folheava afoita o volume de poemas e rimas do Mundo da Criança. Até hoje suas imagens e versos povoam minha memória.

E desde cedo minhas aulas preferidas eram as de redação. Era quando eu dizia o que quase nunca dizia com a voz.

O fato é que só depois de crescida comecei a falar, falar mesmo. Em alguns momentos, passei a falar até bastante, até mais do que deveria. Em outros, como boa taurina, ruminava e guardava tudo ali, no não-dito. Mas a idade faz dessas coisas e, de repente, me vi dizendo coisas das quais só me dava conta no milésimo de segundo seguinte: "Ei, você está furando fila!"

Falei. Antigamente sofria mais.

Curioso é que, quando passei a falar, me dei conta de que não tinha tanto a dizer. Não de mim. E que tinha mais é que escutar do mundo, que tem tantas e tantas histórias que devemos ouvir. E me veio esse senso de urgência de um mundo que precisa ser escutado, de histórias que precisam ser contadas. E percebi que, quando Galeano ou Rubem Braga contam causos pequenos de pessoas pequenas, eles falam na verdade de nós: esse ser universal e humano que se equilibra entre o amor e o poder.

Sexta e sábado passados participei do ato dos garis por direitos. Quis me somar para ampliar a voz daqueles que há muito não a têm. Gritei muito, porque queria que a cidade nos escutasse. Mas também escutei, escutei demais. Trabalhadores que se aproximavam para contar espontaneamente sobre suas vidas e suas condições de trabalho:

- Sou gari há vinte anos. Antigamente as condições eram melhores, mas foi decaindo cada vez mais. Hoje eu tenho vergonha de entrar no mercado, porque não consigo comprar o que preciso. O arroz e o feijão ainda consigo, mas uma carne, uma coisinha a mais, já não consigo. Como vou levar as crianças ao mercado?

- Nosso gerente não se importa com nossa humanidade, só com as tarefas cumpridas. No outro dia um companheiro nosso morreu em trabalho, esmagado por um caminhão. Ele mandou retirar o corpo, imediatamente colocou alguém para substituí-lo e ordenou que voltássemos a trabalhar. Mas como eu posso voltar a trabalhar, se meu companheiro acabou de morrer?

- Antigamente os garis eram ignorantes, às vezes trocavam sua força de trabalho por uma garrafa de cachaça. Mas hoje não. Hoje somos estudados, temos formação. - vários fizeram questão de me dizer.

E houve o que profetizou:

- Preste atenção no que eu digo: Daqui a alguns anos você contará a seus filhos sobre 2014. Este é um ano histórico, este momento será para sempre lembrado.

Escutar o que eles têm a dizer, mesmo pelo que não dizem. Escutar o lixo todo amontoado pelas ruas durante sua greve. O lixo que contava da importância da profissão, mas não só. O lixo que contava da indignação, mas não só. O lixo que conta de nós.

Confesso que achei bonito aquele lixo catártico espalhado pelas ruas. Porque fomos obrigados a vê-lo: isso que somos. Porque estamos acostumados a que nos tirem da frente, para que sigamos brincando que ele não existe. Mas lá estava a montanha de lixo. Nós a produzimos. E, mesmo que seja Carnaval, é possível que uma sociedade produza tanto, tanto lixo assim e saia impune?

Como é bonito quando o mundo diz o que o mundo tem a dizer.

E é preciso ter voz para não adoecer: foi o que a vida me mostrou, de forma alegórica. Foi logo depois que saí do ato dos garis. Gritei muito e perdi a voz. Necessitava de muita energia para soprar cada palavra, até que me calei. E, junto com a voz, perdi a energia vital. Passei dois dias de cama. Ou melhor, de sofá. Na segunda-feira os compromissos já chamavam, mas permaneciam fracos, a voz e o corpo. De vez em quando eu usava uma energia a mais, para fazer festinha a algum gari que porventura eu encontrasse na rua.

Passei a vê-los com alegria, enquanto varriam as calçadas.

Mas confesso que continuo desejando o lixo, com suas montanhas imensas a se impor à nossa vista. Sinto que não escutamos o suficiente sobre quem somos e para onde vamos. Sobre nossos excessos e nossos descaminhos. Sobre nosso papel e nosso impacto no mundo. Mundo que não tem voz adoece, e o lixo ainda tem muito o que gritar.

Que saibamos escutar.

Amém.



sexta-feira, 7 de março de 2014

O Carnaval da Comlurb



Saímos da manifestação dos garis e nos sentamos para almoçar. A Tathiana, que é essa amiga querida que vibrou comigo e cantou comigo e lutou ao meu lado, perguntou, quase afirmando:

- É claro que você vai escrever sobre hoje, né?

- É... Talvez...

Eu não sabia. Como poderia escrever sobre tanto, se pra falar do dia de hoje eu teria que falar sobre Carnaval e sobre opressão e sobre a minha infância.. e depois cada fio que puxava outro fio, o que tornava quase impossível a concatenação de palavras coesas. É que, de tanto a ser dito, aquilo tudo se misturava em um todo inefável, que eu poderia chamar de minha vida ou de nossa vida ou de história do mundo. Parecia grande assim.

O fato é que eu ainda vestia aquela camisa alaranjada: o uniforme da Comlurb que um gari tirou do corpo e me ofereceu de presente:

- É seu.

- Tem certeza?

E me curvei um monte de vezes e agradeci, com a mão no coração e a emoção à flor da pele.

Vesti a camisa. Mas o engraçado era que, mesmo uniformizada como eles, havia algo em minha testa, ou em meu corpo, ou em minha cor, não sei bem, que denunciava que eu não era um deles. Uma coisa de classe média que se entrega e me fazia tão facilmente reconhecível ou distinguível ali no meio. Eles passavam e agradeciam o apoio, brincando e rindo, que é esse jeito de ser alegre apesar de.

Eram quase todos pretos. E estavam indignados, mas batucavam, pois desse sangue é feito o samba. Aprendiam ali, naquele momento, a serem visíveis. Um deles me explicou:

- Nós finalmente nos unimos para lutar pelos nossos direitos. Foi por causa das manifestações do ano passado, que a gente viu que era possível.

As manifestações do ano passado. Que bonito vê-las reverberarem logo assim.

Quando saí de casa pela manhã, eu temia e esperava por violência policial. Por isso fui, também. Para não deixar só uma classe que já é diariamente oprimida. Mas, em vez de violência, houve Carnaval. Mais até do que aquele que mal acabara na quarta-feira de cinzas.

Foi na terça à noite, na verdade, que eu me dei conta de que o Carnaval terminara. Era o Aterro do Flamengo e era a Orquestra Voadora. Um momento olhei pros lados e me ocorreu: "isso não é Carnaval, é balada". E fui embora.

Carnaval, para mim, é quando as pessoas brincam e se falam e se olham sem medo. Balada é uma aproximação mais agressiva, é uma coisa de querer "pegar", beijar, sexualizar. Não tem enxerga, mas desejo cego. É essa coisa de querer. E eu que não suporto que queiram nada de mim...

Gosto de Carnaval pela energia de sermos um e de estarmos juntos. Hoje, na manifestação dos garis, éramos assim: juntos. E gritávamos palavras de ordem, batucávamos, cantávamos.

Uníamos o que fora segregado tempos atrás, por uma estrutura que nos foge. Vem de muito antes, mas, no tempo de mim, volto à infância. Lá, quando corríamos atrás do caminhão do lixo, gritando: "Lixeiro! Lixeiro!" Até que eles nos perseguissem e fugíssemos para a proteção do prédio. Eu era muito pequena e acho que acreditava que, se eles nos pegassem, levariam-nos embora em seu caminhão. E não consigo me lembrar se era apenas uma brincadeira ou se tinha um julgamento de valor. Mas sei que mais tarde tinha, quando eu, já maior, estudava em uma escola burguesa e católica. Tínhamos olimpíadas anuais entre as turmas. Cada uma delas vestia uma camisa de cor diferente, para que diferenciássemos as equipes. Havia sempre algum time de uniforme alaranjado. E nosso modo de ofendê-los era gritando: "Gari! Gari!" Como se fosse algo menor. Ou como se equivalessem, eles próprios, ao lixo.

Que nós jogamos, diga-se de passagem.

Então hoje, enquanto cantava com eles, me ocorria tudo isso: palavras como dignidade, igualdade social, humanidade. E eu vestia a camisa deles e, embora permanecesse do outro lado da fronteira, aquela da visibilidade, eu tentava me redimir. E ser humana, apenas.

E eis que é Carnaval.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O caminho inverso


Eu estava andando pela Rua do Catete, quando ouvi atrás de mim alguém falando ao telefone:

- Ela conseguiu ver no fundo de mim. Ela viu no fundo de mim e pediu para eu ter paciência. Mas ela viu no fundo de mim.

Fiquei curiosa para saber quem falava aquilo e o observei, quando passou. Era um jovem em seus vinte e poucos anos, talvez menos, aparência descolada, camiseta em tie dye. Ele passou por mim e de repente não pude mais escutar a conversa. Acelerei o passo. Confesso que, discretamente, até dei uma corridinha. Mas, quando o alcancei, ele mandou beijo e desligou o telefone. Droga.

Tive certa inveja. Pela Rua do Catete havia um jovem que fora enxergado por outra pessoa. No fundo de si.

E eu? Quem enxergará no fundo de mim, se nem eu enxergo no escuro? Ali no fundo mais fundo, onde não entra luz. Eu entro apalpando, com medo e com coragem, mas mal distingo as texturas. Intuo, às vezes. Mas enxergar, definitivamente não. Sou cega no escuro de mim, e aí reside o pavor e a liberdade.

Pois eu mergulhava nesse fundo, quando encontrei uma isca. Um amigo querido que veio aqui em casa fazer um suco amoroso. Em vez de hortelã em maço, trouxe-a em vaso, para que houvesse vida após o suco.

Eu mordi a isca da vida da hortelã e, sem que me desse conta, fui puxada para cima, lá onde há luz. Comecei a organizar de fora para dentro. Arranjei muda de manjericão e de ixora. Comprei vasinhos coloridos e mais um vaso enorme, para plantar capim-limão, meu atual sonho de consumo.

Vim do Largo do Machado carregando vinte quilos de terra, quase morrendo, claro. Na entrada da vila, larguei um dos sacos, para buscá-lo depois. Um menininho, que brincava de skate, me chamou:

- Moça, ficou um pacote aqui no chão.

- Eu sei. É que está muito pesado. Daqui a pouco volto para buscar.

- Quer ajuda?

- Não precisa. Está pesado mesmo. Vou levar este até a porta e já volto.

Larguei o pacote de dez quilos em casa e, quando ia sair para buscar o outro, me aparece o menininho, com o pacote sobre o skate. Agradeci emocionada e pensando que, depois de criar minhas plantinhas e publicar meu livro, vou querer fazer um filho.

Enchi a floreira com vasinhos de plantas e continuei colorindo, de fora para dentro. Montei estante, pendurei quadros, enchi a cama de almofadas indianas. Meu quarto, que estava uma bagunça, começou a ganhar certa ordem. Sempre de fora para dentro. Fui arrumando, arrumando. Até conseguir, não enxergar, mas me locomover melhor no escuro. O fundo de mim.

Há momentos em que é preciso preencher a vida de cheios para enxergar melhor o vazio, essa matéria de que somos feitos, nós e o universo.

Às vezes é só pegar o caminho inverso.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Uma novela e alguns novelos

Há dias que essa novela vem tomando conta dos meus dias. E que tento contá-la. Mas cada tessitura é feita de muitos fios, alguns de outros novelos. E todos compõem a mesma trama. Por isso ela se desenvolve em quatro capítulos, mas com vários parênteses: os outros fios, sem os quais uma história é impossível.

Capítulo 1:

Soube-se que na Rua das Quaresmeiras vivem os corações mais moles da vizinhança. O fato é que ela apareceu por ali, decidida a ficar. Entrava em nossa casa sem maiores pudores. Havia constantemente uma porta aberta e, mesmo quando não, ela sempre podia contar com a portinha dos gatos.

Eles, que em outras circunstâncias se impunham perante os animais vizinhos, por algum motivo recuaram diante dela. Mesmo Rafinha, o mais territorialista de todos, que costumava expulsar aos berros qualquer outro gato que ousasse aparecer, passou a agir diferente. Fingia não vê-la, ainda que ela entrasse em casa diante de seu nariz. Quando ficou frente a frente com ela, fugiu. João não dava a mínima e continuava blasé sobre o braço do sofá, como se não notasse aquela presença estranha. Miki ainda tentou discutir com ela, mas, ao seu menor gesto brusco, saiu correndo também. No dia em que não correu, levou uma mordida na orelha.

Minha irmã concluiu que ela não pertencia a nenhum vizinho:

- É uma gata de rua.

- Mas como ela veio parar aqui?

- Alguém deve tê-la trazido. Ou ela passou pela portaria.

- Ela está com fome, vamos alimentá-la.

- Mas, se a alimentarmos, ela vai voltar sempre.

- Mas, se não a alimentarmos, ela vai ficar com fome.

Ela voltou sempre. Colocávamos ração e água em frente à porta, mas ela queria mais do que comida: queria um lar. Tentava entrar em casa e conquistar nossa afeição, esfregando-se em nossas pernas. E a gente tentando não se render àquele amor tão fácil.

Meu pai já andava preocupado com a movimentação felina. Foi assim cada vez que trouxemos um novo gato. Eles iam ficando e, quando se via, já estavam lá. Mas agora não morávamos mais naquela casa, eu e minha irmã, nem naquela cidade.

O fato é que em casa aquela gata não poderia ficar. Tampouco poderíamos ignorá-la como se não fosse problema nosso. Sempre é. A gente tem responsabilidade pelo mundo, embora não tenha controle sobre nada.

(Aqui abro o primeiro parêntese de outro fio, para contar que minha irmã é a pessoa que deixa de jantar para tentar salvar uma lagartixa. Posso vê-la compenetrada sentada à mesa, realizando uma cirurgia na pobre da lagartixa, que fora atacada pelos gatos, e lamentando não existirem instrumentos próprios: “a linha deveria ser muito mais fina, a agulha também”. Imagino que nenhuma escola de veterinária tenha jamais previsto tal cirurgia. E acho bonito que, em algum lugar, exista alguém para quem qualquer vida, por mais pequena, seja preciosa e digna de ser salva.)

E aqui volto à história da gata, pela qual nos responsabilizamos porque fomos escolhidas, mesmo que não a tenhamos escolhido.

- Ela precisa ser castrada – resolveu minha irmã, que é veterinária de animais silvestres e, como ela diz, veterinários de silvestres acabam pensando como biólogos -  ... senão ela vai se reproduzir exponencialmente e, com ela solta por aí, logo teremos um problema ambiental.

Antes de levá-la a uma clínica, entretanto, minha irmã a examinou: tinha mamas proeminentes.

- Será que ela está prenha ou que deu à luz recentemente?

Apalpamos sua teta: não tinha leite.


Capítulo 2:

A essa altura, eu estava fora da cidade e só pude acompanhar o desenrolar dos fatos à distância. Minha irmã me informava através de mensagens: levara a gata para ser castrada. O funcionário da clínica ficara com dó e lhe dera comida, fazendo com que sua cirurgia fosse adiada em um dia. Minha irmã tentara mantê-la em casa durante o pós-operatório, mas a gata não aceitou ficar presa e desesperou-se para sair. Por onde andaria ela quando não estava conosco? Voltava sempre, entretanto, para comer e procurar aconchego. Minha irmã aproveitava suas vindas para cuidar de sua cicatriz.

Enquanto isso, na casa ao lado, eis que Emília, nossa vizinha, encontra uma gatinha filhote. Como a nossa costuma ser a casa dos gatos, ela veio perguntar se não tínhamos perdido algum. Não tínhamos. Mas não parecia ser coincidência surgir aquela filhote logo ali – e tão semelhante à outra gata que nos aparecera.
A gatinha era pequena, muito. Não como um gato filhote, mas como um ratinho. Parecia recém-nascida, mas já tinha dentes. Era frágil, apática. Dormia o dia inteiro e só era esporadicamente acordada por minha irmã e Emília, que se juntavam para cuidá-la.

( E abro este segundo parêntese para contar sobre o abacateiro de Emília.  Houve um dia em que lhe perguntei sobre as árvores frutíferas de seu quintal. Foi quando me contou: “Eu fui comer um abacate e, quando o abri, achei que aquela semente parecia um feto – eu tenho isso, costumo ver essas imagens, em parte por isso me tornei vegetariana. - Como não tive coragem de jogar aquela semente fora, plantei-a no quintal”. Essa é Emília. Alguém que consegue enxergar o mundo sem divisões. O outro nome disso é amor.)

Nunca houve tanto movimento entre as duas casas da Rua das Quaresmeiras. Mulheres e gatinhas indo e vindo. As primeiras tentando unir as segundas. A gata maior (que ainda assim era pequena) não parecia interessada em assumir a maternidade. E as duas mulheres insistiam. Chegavam a jogar leite sobre as tetas da gata-mãe, para que a pequenina mamasse.

Voltei de viagem e ainda pude conhecer a gatinha. Sabia que ela era miúda... mas tanto! Era vida muito frágil que se punha em nossas mãos.

E a mãe nem aí.

- Ainda bem que a castramos. Que mãe desnaturada! – julgamos.

Então, como era inevitável, a gatinha não resistiu. Emília levantou-se durante a noite para vê-la, e ela já estava cedendo. Amanheceu. Foi um dia de luto na Rua das Quaresmeiras.


Capítulo 3:

(Este capítulo já começa com um parêntese. Outro fio da mesma tessitura. É que preciso contar o sonho de Emília, na noite fatídica. A gatinha já havia morrido. Emília já havia chorado e chorado. Então voltou para a cama e veio o sonho. Foi assim: Ela ia conferir a gatinha em sua caminha. E, enquanto cuidava dela, de repente percebeu que não era a mesma filhote que estava lá, mas outro gato.)

Então aconteceu. Em um outro dia, que já era um novo dia, eis que aparece um gatinho andando pelo quintal. Ao ser avistada por pessoas, correu para se esconder dentro de um cano. Era filhote, também. Saudável, ativo. Emília conseguiu pegá-lo. Levou-o para minha casa e ficamos as duas na varanda, ligando os pontinhos. Só podia ser irmão da outra gatinha, ambos filhos da gata adulta, nem tão adulta e nem tão grande. A gente não entendia como aquele gatinho, que Emília chamou de Tunico, poderia ter sobrevivido.
Até que ela apareceu, a mãe. E foi surpreendente a serenidade e o modo como tratava a criança: lambia-o, brincava com ele e até o amamentava. (“Então ela tem leite? Só pode ter leite, senão ele não estaria vivo!”) 

Aos poucos as coisas começavam a fazer sentido. Por isso a rejeição à gata mais fragilizada. Provavelmente a mãe sabia que ela não tinha chances de sobreviver e simplesmente abandonou-a, para concentrar suas energias cuidando do filhote saudável. Por isso também ela era tão esfomeada (comia várias vezes ao dia, na nossa casa e na casa de Emília). E por isso, sobretudo, o poder: a forma como conseguia amedrontar Pepita, a cachorrinha de Emília, e os três gatos da minha casa, tão maiores e mais fortes. Era uma mãe protegendo seu filho. A maternidade confere poder e coragem extraordinários.

(“É como o caso do caçador” – contou minha irmã. Ela havia assistido à palestra de um biólogo que, antes, fora caçador. Um dia, encontrou uma onça com seus filhotes e, decidido a matá-los todos, atirou primeiro em um deles. Quando a mãe viu seu filhote ser atingido, soltou fogo pelos olhos. Foi essa a expressão do caçador: ele viu fogo nos olhos. E aquele fogo era tão forte e tão poderoso, que desde então ele parou de caçar. Tornou-se biólogo.)

Era curioso, agora, desvendar a vidinha secreta daquela gata. Então ela era mãe. Mãezona. Imaginávamos seus diálogos com Tunico, orientando-o a se esconder quando aparecessem pessoas. Pois como um filhote tão brincalhão e ativo pôde passar despercebido por tanto tempo?

Eu evitava me perder em pensamentos sentimentalistas, senão acabaria desejando o que já desejava: ficar com a gata. Mas eles me vinham – os tais pensamentos – à cabeça. E às vezes eu os verbalizava: Que aquele devia ser o dia mais feliz da vida daquela gata. Que ela sentia que, enfim, encontrara um lar e segurança, para ela e seu filhote. Que ela estava em paz, como nunca estivera.

E era visível a paz. Às vezes ela simplesmente nos confiava Tunico e saía para passear. Outras vezes passava tempos lambendo-o, deixando-o morder seu rabo ou sugar seu peito – com ou sem leite. Quando uma de nós saía com Tunico no colo, ela esticava o pescoço, a procurá-lo. Quando saíamos de perto, deixando os dois juntos e sozinhos, ela vinha nos chamar. Queria aquilo: nós quatro espalhados na varanda. Um lar.

Capítulo 4:

No dia seguinte, Emília apareceu em casa:

- Vizinha, você não acredita no que aconteceu!

Meu coração foi parar na boca.

Ela continuou:

- Acabei resolvendo adotar a gata e seu filhotinho. Arrumei um quarto para eles lá embaixo e deixei-os dormindo lá. Hoje de manhã cheguei e, em vez de um, havia quatro filhotinhos!

Me veio à cabeça a voz da minha irmã, na noite anterior: “Se apareceu mais um, deve haver outros por aí. Uma gata nunca pare apenas dois”.

Quatro! Todos machos, saudáveis, brincalhões. Emília trazia leite, ração de cachorro, seu pai trazia queijo, carne moída. Virou festa.

- Onde será que eles estavam escondidos? Será que eles estavam naquele cano?

- Acho que não. Lá mal cabia o Tunico.

Era incrível pensar que aquela mãe cuidara escondido de quatro filhotes. E que, apenas quando sentiu segurança, carregou um por um à nova casa. E estava explicado por que ela tivera tanta urgência em sair, quando passara pela cirurgia de castração: havia gatinhos escondidos em algum lugar por aí, cuja sobrevivência dependia dela.

- No outro dia eu dei comida para os gatos, – me contou Emília – a mãe deixou-os comendo e subiu para me pedir mais. Dei um pedaço de frango para ela. Acredita que ela comeu um pedaço e trouxe o resto para os pequenos?

Era inacreditável. Era surpreendente. E era, sobretudo, bonito, ver tanta vida assim.

E de repente ríamos da vida secreta daquela gata, que um dia ouviu falar na Rua das Quaresmeiras, onde moram os corações mais moles do lugar. Uma gata que nos escolheu, que nos invadiu, que construiu um lar.

- Hoje sim – concluiu Emília – deve ser o dia mais feliz da vida dela.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Outra viagem



Acho drogas uma caretice.

Do rivotril à maconha. Da cocaína ao McDonalds. Da ritalina ao álcool. Da nicotina à Coca Cola.

Sou dessas que não bebem e não fumam nada. Ou seja, chata. Mas careta, jamais.

Careta é o conservadorismo que mantém no poder o poder econômico. Careta é acreditar que o valor de um ser humano reside em seu carro, em sua casa, ou em seu cargo. É olhar atravessado para essas tantas pessoas destituídas de “valor” e dedicar a vida a conquistá-lo. E tomar uma droga para não sucumbir. E tomar outra droga para ser produtivo. E fumar outra droga na pausa do respiro. De novo para não sucumbir. E tomar outra droga para conseguir se concentrar. E comer uma droga no meio da correria. E beber outra droga para ser sociável. E tomar outra droga para dormir.

Careta é o status quo.

Por isso falar palavrão não nos deixa menos caretas. Falar alto no bar também não. Nem pegar todas na balada. Nem ficar high com os amigos.  Nem ficar eufórico, nem ter alucinações, nem ficar chapadão. Careta, careta, careta.

É claro que entre as tantas drogas, algumas aceito, outras tolero e a outras mais tenho aversão. Tolerância zero para cigarro, por exemplo. Que faz mal à saúde própria, à saúde dos outros, que é um desrespeito ao espaço público, que é um desrespeito ao meio ambiente, que fede e fomenta uma indústria que também fede.

Já a maconha é uma das drogas mais engraçadas, pois geralmente quem fuma pensa que transgride alguma coisa. Ou que atinge algum tipo de comunhão, sei lá. Tenho uma amiga lúcida, que sabe que fuma apenas para aguentar a porrada da vida. Eu costumo lhe dizer que, se é pra amortecer, melhor que seja maconha do que droga de farmácia. Mas que, se for pra resolver, o bom mesmo é yoga.

Também conheço aqueles que dizem que não precisam de maconha e que seria lindo se se pudesse plantá-la. É. Mas precisam a ponto de fomentar o tráfico. Não acho pouca coisa. Agora, lúcido, lúcido mesmo, é Mujica, que promulgou a lei que regula o mercado de maconha no Uruguai. Sem essa caretice de “uhu, que legal!”, mas como uma atitude política séria e necessária, rompendo tabus e moralismos vazios.

Pois, cá entre nós, de que adianta reprimir, se a verdade é que vivemos em uma sociedade que produz a necessidade de drogas? Uma sociedade que sufoca, que impõe um ritmo de vida e de trabalho que desrespeita o ritmo do corpo e da natureza, uma sociedade que exige que sejamos alegres o tempo inteiro, que sejamos magros, produtivos e fortes? Uma sociedade que exige que escondamos atrás de regras e superficialidades nossas verdades escuras? Como se pode, sóbrio, sobreviver?

Por isso compreendo o consumo de todas as drogas, legais e ilegais. Mas não sem achar careta. Porque não se trata de alternativa à sociedade materialista/capitalista/individualista como é, mas de encaixe e reprodução. Porque usá-las é necessidade criada por esse mundo castrador, mas também uma maneira de mantê-lo e de torná-lo viável.

Superar a caretice não é ficar doidão, mas estar conectado ao mundo. É essa conexão que transgride o sistema que oprime. A conexão existe em vários níveis, nem sempre racionais. Acredito, inclusive, que todos os estados produzidos pelas drogas também podem ser atingidos através de trabalho corporal. Meditação. A diferença é que meditação é processo. Processo é transformação. Enquanto droga é resultado rápido. Segue a lógica do mundo moderno. E a modernidade é démodé. Conservadora. Opressora. Ultrapassada, desde que a ultrapassemos.

Para isso temos que aceitar a travessia. Essa é outra viagem...