sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
O caminho inverso
Eu estava andando pela Rua do Catete, quando ouvi atrás de mim alguém falando ao telefone:
- Ela conseguiu ver no fundo de mim. Ela viu no fundo de mim e pediu para eu ter paciência. Mas ela viu no fundo de mim.
Fiquei curiosa para saber quem falava aquilo e o observei, quando passou. Era um jovem em seus vinte e poucos anos, talvez menos, aparência descolada, camiseta em tie dye. Ele passou por mim e de repente não pude mais escutar a conversa. Acelerei o passo. Confesso que, discretamente, até dei uma corridinha. Mas, quando o alcancei, ele mandou beijo e desligou o telefone. Droga.
Tive certa inveja. Pela Rua do Catete havia um jovem que fora enxergado por outra pessoa. No fundo de si.
E eu? Quem enxergará no fundo de mim, se nem eu enxergo no escuro? Ali no fundo mais fundo, onde não entra luz. Eu entro apalpando, com medo e com coragem, mas mal distingo as texturas. Intuo, às vezes. Mas enxergar, definitivamente não. Sou cega no escuro de mim, e aí reside o pavor e a liberdade.
Pois eu mergulhava nesse fundo, quando encontrei uma isca. Um amigo querido que veio aqui em casa fazer um suco amoroso. Em vez de hortelã em maço, trouxe-a em vaso, para que houvesse vida após o suco.
Eu mordi a isca da vida da hortelã e, sem que me desse conta, fui puxada para cima, lá onde há luz. Comecei a organizar de fora para dentro. Arranjei muda de manjericão e de ixora. Comprei vasinhos coloridos e mais um vaso enorme, para plantar capim-limão, meu atual sonho de consumo.
Vim do Largo do Machado carregando vinte quilos de terra, quase morrendo, claro. Na entrada da vila, larguei um dos sacos, para buscá-lo depois. Um menininho, que brincava de skate, me chamou:
- Moça, ficou um pacote aqui no chão.
- Eu sei. É que está muito pesado. Daqui a pouco volto para buscar.
- Quer ajuda?
- Não precisa. Está pesado mesmo. Vou levar este até a porta e já volto.
Larguei o pacote de dez quilos em casa e, quando ia sair para buscar o outro, me aparece o menininho, com o pacote sobre o skate. Agradeci emocionada e pensando que, depois de criar minhas plantinhas e publicar meu livro, vou querer fazer um filho.
Enchi a floreira com vasinhos de plantas e continuei colorindo, de fora para dentro. Montei estante, pendurei quadros, enchi a cama de almofadas indianas. Meu quarto, que estava uma bagunça, começou a ganhar certa ordem. Sempre de fora para dentro. Fui arrumando, arrumando. Até conseguir, não enxergar, mas me locomover melhor no escuro. O fundo de mim.
Há momentos em que é preciso preencher a vida de cheios para enxergar melhor o vazio, essa matéria de que somos feitos, nós e o universo.
Às vezes é só pegar o caminho inverso.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Uma novela e alguns novelos
Há dias que essa novela vem tomando conta dos meus dias. E
que tento contá-la. Mas cada tessitura é feita de muitos fios, alguns de outros
novelos. E todos compõem a mesma trama. Por isso ela se desenvolve em quatro
capítulos, mas com vários parênteses: os outros fios, sem os quais uma história
é impossível.
Capítulo 1:
Soube-se que na Rua das Quaresmeiras vivem os corações mais
moles da vizinhança. O fato é que ela apareceu por ali, decidida a ficar.
Entrava em nossa casa sem maiores pudores. Havia constantemente uma porta
aberta e, mesmo quando não, ela sempre podia contar com a portinha dos gatos.
Eles, que em outras circunstâncias se impunham perante os
animais vizinhos, por algum motivo recuaram diante dela. Mesmo Rafinha, o mais
territorialista de todos, que costumava expulsar aos berros qualquer outro gato
que ousasse aparecer, passou a agir diferente. Fingia não vê-la, ainda que ela
entrasse em casa diante de seu nariz. Quando ficou frente a frente com ela,
fugiu. João não dava a mínima e continuava blasé sobre o braço do sofá, como se
não notasse aquela presença estranha. Miki ainda tentou discutir com ela, mas,
ao seu menor gesto brusco, saiu correndo também. No dia em que não correu,
levou uma mordida na orelha.
Minha irmã concluiu que ela não pertencia a nenhum vizinho:
- É uma gata de rua.
- Mas como ela veio parar aqui?
- Alguém deve tê-la trazido. Ou ela passou pela portaria.
- Ela está com fome, vamos alimentá-la.
- Mas, se a alimentarmos, ela vai voltar sempre.
- Mas, se não a alimentarmos, ela vai ficar com fome.
Ela voltou sempre. Colocávamos ração e água em frente à
porta, mas ela queria mais do que comida: queria um lar. Tentava entrar em casa
e conquistar nossa afeição, esfregando-se em nossas pernas. E a gente tentando
não se render àquele amor tão fácil.
Meu pai já andava preocupado com a movimentação felina. Foi
assim cada vez que trouxemos um novo gato. Eles iam ficando e, quando se via,
já estavam lá. Mas agora não morávamos mais naquela casa, eu e minha irmã, nem
naquela cidade.
O fato é que em casa aquela gata não poderia ficar. Tampouco
poderíamos ignorá-la como se não fosse problema nosso. Sempre é. A gente tem
responsabilidade pelo mundo, embora não tenha controle sobre nada.
(Aqui abro o primeiro parêntese de outro fio, para contar
que minha irmã é a pessoa que deixa de jantar para tentar salvar uma lagartixa.
Posso vê-la compenetrada sentada à mesa, realizando uma cirurgia na pobre da
lagartixa, que fora atacada pelos gatos, e lamentando não existirem instrumentos
próprios: “a linha deveria ser muito mais fina, a agulha também”. Imagino que
nenhuma escola de veterinária tenha jamais previsto tal cirurgia. E acho bonito
que, em algum lugar, exista alguém para quem qualquer vida, por mais pequena,
seja preciosa e digna de ser salva.)
E aqui volto à história da gata, pela qual nos
responsabilizamos porque fomos escolhidas, mesmo que não a tenhamos escolhido.
- Ela precisa ser castrada – resolveu minha irmã, que é
veterinária de animais silvestres e, como ela diz, veterinários de silvestres
acabam pensando como biólogos - ... senão ela vai se reproduzir exponencialmente e, com ela solta por aí, logo teremos
um problema ambiental.
Antes de levá-la a uma clínica, entretanto, minha irmã a
examinou: tinha mamas proeminentes.
- Será que ela está prenha ou que deu à luz recentemente?
Apalpamos sua teta: não tinha leite.
Capítulo 2:
A essa altura, eu estava fora da cidade e só pude acompanhar
o desenrolar dos fatos à distância. Minha irmã me informava através de
mensagens: levara a gata para ser castrada. O funcionário da clínica ficara com
dó e lhe dera comida, fazendo com que sua cirurgia fosse adiada em um dia.
Minha irmã tentara mantê-la em casa durante o pós-operatório, mas a gata não
aceitou ficar presa e desesperou-se para sair. Por onde andaria ela quando não
estava conosco? Voltava sempre, entretanto, para comer e procurar aconchego.
Minha irmã aproveitava suas vindas para cuidar de sua cicatriz.
Enquanto isso, na casa ao lado, eis que Emília, nossa
vizinha, encontra uma gatinha filhote. Como a nossa costuma ser a casa dos
gatos, ela veio perguntar se não tínhamos perdido algum. Não tínhamos. Mas não
parecia ser coincidência surgir aquela filhote logo ali – e tão semelhante à
outra gata que nos aparecera.
A gatinha era pequena, muito. Não como um gato filhote, mas
como um ratinho. Parecia recém-nascida, mas já tinha dentes. Era frágil,
apática. Dormia o dia inteiro e só era esporadicamente acordada por minha irmã
e Emília, que se juntavam para cuidá-la.
( E abro este segundo parêntese para contar sobre o
abacateiro de Emília. Houve um dia em
que lhe perguntei sobre as árvores frutíferas de seu quintal. Foi quando me
contou: “Eu fui comer um abacate e, quando o abri, achei que aquela semente
parecia um feto – eu tenho isso, costumo ver essas imagens, em parte por isso
me tornei vegetariana. - Como não tive coragem de jogar aquela semente fora,
plantei-a no quintal”. Essa é Emília. Alguém que consegue enxergar o mundo sem
divisões. O outro nome disso é amor.)
Nunca houve tanto movimento entre as duas casas da Rua das
Quaresmeiras. Mulheres e gatinhas indo e vindo. As primeiras tentando unir as
segundas. A gata maior (que ainda assim era pequena) não parecia interessada em
assumir a maternidade. E as duas mulheres insistiam. Chegavam a jogar leite
sobre as tetas da gata-mãe, para que a pequenina mamasse.
Voltei de viagem e ainda pude conhecer a gatinha. Sabia que
ela era miúda... mas tanto! Era vida muito frágil que se punha em nossas mãos.
E a mãe nem aí.
- Ainda bem que a castramos. Que mãe desnaturada! – julgamos.
Então, como era inevitável, a gatinha não resistiu. Emília
levantou-se durante a noite para vê-la, e ela já estava cedendo. Amanheceu. Foi
um dia de luto na Rua das Quaresmeiras.
Capítulo 3:
(Este capítulo já começa com um parêntese. Outro fio da
mesma tessitura. É que preciso contar o sonho de Emília, na noite fatídica. A
gatinha já havia morrido. Emília já havia chorado e chorado. Então voltou para
a cama e veio o sonho. Foi assim: Ela ia conferir a gatinha em sua caminha. E,
enquanto cuidava dela, de repente percebeu que não era a mesma filhote que
estava lá, mas outro gato.)
Então aconteceu. Em um outro dia, que já era um novo dia,
eis que aparece um gatinho andando pelo quintal. Ao ser avistada por pessoas,
correu para se esconder dentro de um cano. Era filhote, também. Saudável,
ativo. Emília conseguiu pegá-lo. Levou-o para minha casa e ficamos as duas na
varanda, ligando os pontinhos. Só podia ser irmão da outra gatinha, ambos
filhos da gata adulta, nem tão adulta e nem tão grande. A gente não entendia
como aquele gatinho, que Emília chamou de Tunico, poderia ter sobrevivido.
Até que ela apareceu, a mãe. E foi surpreendente a
serenidade e o modo como tratava a criança: lambia-o, brincava com ele e até o
amamentava. (“Então ela tem leite? Só pode ter leite, senão ele não estaria
vivo!”)
Aos poucos as coisas começavam a fazer sentido. Por isso a rejeição à
gata mais fragilizada. Provavelmente a mãe sabia que ela não tinha chances de
sobreviver e simplesmente abandonou-a, para concentrar suas energias cuidando
do filhote saudável. Por isso também ela era tão esfomeada (comia várias vezes
ao dia, na nossa casa e na casa de Emília). E por isso, sobretudo, o poder: a
forma como conseguia amedrontar Pepita, a cachorrinha de Emília, e os três
gatos da minha casa, tão maiores e mais fortes. Era uma mãe protegendo seu
filho. A maternidade confere poder e coragem extraordinários.
(“É como o caso do caçador” – contou minha irmã. Ela havia
assistido à palestra de um biólogo que, antes, fora caçador. Um dia, encontrou
uma onça com seus filhotes e, decidido a matá-los todos, atirou primeiro em um
deles. Quando a mãe viu seu filhote ser atingido, soltou fogo pelos olhos. Foi
essa a expressão do caçador: ele viu fogo nos olhos. E aquele fogo era tão
forte e tão poderoso, que desde então ele parou de caçar. Tornou-se biólogo.)
Era curioso, agora, desvendar a vidinha secreta daquela
gata. Então ela era mãe. Mãezona. Imaginávamos seus diálogos com Tunico,
orientando-o a se esconder quando aparecessem pessoas. Pois como um filhote tão
brincalhão e ativo pôde passar despercebido por tanto tempo?
Eu evitava me perder em pensamentos sentimentalistas, senão
acabaria desejando o que já desejava: ficar com a gata. Mas eles me vinham – os
tais pensamentos – à cabeça. E às vezes eu os verbalizava: Que aquele devia ser
o dia mais feliz da vida daquela gata. Que ela sentia que, enfim, encontrara um
lar e segurança, para ela e seu filhote. Que ela estava em paz, como nunca
estivera.
E era visível a paz. Às vezes ela simplesmente nos confiava
Tunico e saía para passear. Outras vezes passava tempos lambendo-o, deixando-o
morder seu rabo ou sugar seu peito – com ou sem leite. Quando uma de nós saía
com Tunico no colo, ela esticava o pescoço, a procurá-lo. Quando saíamos de
perto, deixando os dois juntos e sozinhos, ela vinha nos chamar. Queria aquilo:
nós quatro espalhados na varanda. Um lar.
Capítulo 4:
No dia seguinte, Emília apareceu em casa:
- Vizinha, você não acredita no que aconteceu!
Meu coração foi parar na boca.
Ela continuou:
- Acabei resolvendo adotar a gata e seu filhotinho. Arrumei
um quarto para eles lá embaixo e deixei-os dormindo lá. Hoje de manhã cheguei
e, em vez de um, havia quatro filhotinhos!
Me veio à cabeça a voz da minha irmã, na noite anterior: “Se
apareceu mais um, deve haver outros por aí. Uma gata nunca pare apenas dois”.
Quatro! Todos machos, saudáveis, brincalhões. Emília trazia
leite, ração de cachorro, seu pai trazia queijo, carne moída. Virou festa.
- Onde será que eles estavam escondidos? Será que eles
estavam naquele cano?
- Acho que não. Lá mal cabia o Tunico.
Era incrível pensar que aquela mãe cuidara escondido de
quatro filhotes. E que, apenas quando sentiu segurança, carregou um por um à
nova casa. E estava explicado por que ela tivera tanta urgência em sair, quando
passara pela cirurgia de castração: havia gatinhos escondidos em algum lugar
por aí, cuja sobrevivência dependia dela.
- No outro dia eu dei comida para os gatos, – me contou
Emília – a mãe deixou-os comendo e subiu para me pedir mais. Dei um pedaço de
frango para ela. Acredita que ela comeu um pedaço e trouxe o resto para os
pequenos?
Era inacreditável. Era surpreendente. E era, sobretudo,
bonito, ver tanta vida assim.
E de repente ríamos da vida secreta daquela gata, que um dia
ouviu falar na Rua das Quaresmeiras, onde moram os corações mais moles do
lugar. Uma gata que nos escolheu, que nos invadiu, que construiu um lar.
- Hoje sim – concluiu Emília – deve ser o dia mais feliz da vida dela.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Outra viagem
Acho drogas uma caretice.
Do rivotril à maconha. Da cocaína ao McDonalds. Da ritalina
ao álcool. Da nicotina à Coca Cola.
Sou dessas que não bebem e não fumam nada. Ou seja, chata.
Mas careta, jamais.
Careta é o conservadorismo que mantém no poder o poder
econômico. Careta é acreditar que o valor de um ser humano reside em seu carro,
em sua casa, ou em seu cargo. É olhar atravessado para essas tantas pessoas
destituídas de “valor” e dedicar a vida a conquistá-lo. E tomar uma droga para
não sucumbir. E tomar outra droga para ser produtivo. E fumar outra droga na
pausa do respiro. De novo para não sucumbir. E tomar outra droga para conseguir
se concentrar. E comer uma droga no meio da correria. E beber outra droga para
ser sociável. E tomar outra droga para dormir.
Careta é o status quo.
Por isso falar palavrão não nos deixa menos caretas. Falar
alto no bar também não. Nem pegar todas na balada. Nem ficar high com os amigos. Nem ficar eufórico, nem ter alucinações, nem
ficar chapadão. Careta, careta, careta.
É claro que entre as tantas drogas, algumas aceito, outras
tolero e a outras mais tenho aversão. Tolerância zero para cigarro, por
exemplo. Que faz mal à saúde própria, à saúde dos outros, que é um desrespeito
ao espaço público, que é um desrespeito ao meio ambiente, que fede e fomenta
uma indústria que também fede.
Já a maconha é uma das drogas mais engraçadas, pois
geralmente quem fuma pensa que transgride alguma coisa. Ou que atinge algum
tipo de comunhão, sei lá. Tenho uma amiga lúcida, que sabe que fuma apenas para
aguentar a porrada da vida. Eu costumo lhe dizer que, se é pra amortecer,
melhor que seja maconha do que droga de farmácia. Mas que, se for pra resolver,
o bom mesmo é yoga.
Também conheço aqueles que dizem que não precisam de maconha
e que seria lindo se se pudesse plantá-la. É. Mas precisam a ponto de fomentar
o tráfico. Não acho pouca coisa. Agora, lúcido, lúcido mesmo, é Mujica, que
promulgou a lei que regula o mercado de maconha no Uruguai. Sem essa caretice
de “uhu, que legal!”, mas como uma atitude política séria e necessária,
rompendo tabus e moralismos vazios.
Pois, cá entre nós, de que adianta reprimir, se a verdade é
que vivemos em uma sociedade que produz a necessidade de drogas? Uma sociedade
que sufoca, que impõe um ritmo de vida e de trabalho que desrespeita o ritmo do
corpo e da natureza, uma sociedade que exige que sejamos alegres o tempo
inteiro, que sejamos magros, produtivos e fortes? Uma sociedade que exige que
escondamos atrás de regras e superficialidades nossas verdades escuras? Como se
pode, sóbrio, sobreviver?
Por isso compreendo o consumo de todas as drogas, legais e
ilegais. Mas não sem achar careta. Porque não se trata de alternativa à
sociedade materialista/capitalista/individualista como é, mas de encaixe e
reprodução. Porque usá-las é necessidade criada por esse mundo castrador, mas
também uma maneira de mantê-lo e de torná-lo viável.
Superar a caretice não é ficar doidão, mas estar conectado
ao mundo. É essa conexão que transgride o sistema que oprime. A conexão existe
em vários níveis, nem sempre racionais. Acredito, inclusive, que todos os
estados produzidos pelas drogas também podem ser atingidos através de trabalho
corporal. Meditação. A diferença é que meditação é processo. Processo é transformação.
Enquanto droga é resultado rápido. Segue a lógica do mundo moderno. E a
modernidade é démodé. Conservadora. Opressora. Ultrapassada, desde que a
ultrapassemos.
Para isso temos que aceitar a travessia. Essa é outra
viagem...
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
O trem da vida
Eu me interesso pela vida alheia. Sempre penso que poderia ser comigo, por isso fico esperançosa quando encontro um casal antigo que ainda se ama muito ou fico incomodada quando escuto histórias de pessoas fazendo mal às outras. Acho intrigantes os caminhos do destino e, porque sei da minha impotência diante da vida, observo no voo dos outros os ventos possíveis. Pode tudo, eu sei. E às vezes pode até fazer sentido.
Pois eu almoçava em um restaurante simpático em Alto Paraíso e observava as pessoas do local, todas elas, igualmente sujeitas às peças que a vida prega. Até que minha atenção foi fisgada por um moço, aparência de japonês, que tentava descer um degrau com um carrinho de bebê. Ele cumprimentou os moços da mesa ao lado da minha, deixou o carrinho com uma menininha linda e se despediu. Logo apareceu sua esposa, ela sim para ficar, junto com outra criança, um menino curioso e agitado. Foi logo contando sua história com o marido:
- Eu e o Alan nos conhecemos há quase vinte anos...
Logo me perguntei quem seriam seus amigos, que não conheciam seu esposo de tanto tempo, mas, como se respondesse à minha dúvida, ela continuou:
- Mas só nos casamos em 2010.
Me interessei e continuei prestando atenção à história. Ela contou que conheceu Alan no primeiro dia de aula na faculdade (de quê, me perguntei), e que anos depois ele lhe contaria que, na primeira vez que a vira, nem dera atenção. Na segunda vez, teve certeza de que ela era a mulher da vida dele. Mas ano vai, ano vem, nada acontecia, além de um gostar platônico, de ambas as partes. Até que, no quinto ano de faculdade (ah, de arquitetura!), a turma viajou junta para um congresso em Uberlândia. E, no primeiro dia de congresso, Alan ficou... com a Carla! Uma menina qualquer da turma dos dois. A nossa personagem, cujo nome não descobri, mas que tem um rosto quadrado e expressivo, ficou arrasada. E eu, que tomei as dores dela, também.
Depois disso ela acabou deixando-o de lado e começou a namorar outro cara - o Pablo. Quando Alan percebeu que era sério, foi conversar com ela, que lhe disse:
- Lembra quando você ficou com a Carla? Pois é. O trem da vida passou.
E passou e passou. Cada um seguiu seu caminho e namorou outras pessoas. Muito tempo mais tarde ela saberia que, depois da tal conversa fatídica, Alan ficou doente, de cama, por uma semana. É que o trem atropela e tritura. Nem sempre recolhemos os pedaços.
Eles recolheram. Reencontraram-se em 2010, começaram a namorar, casaram-se no mesmo ano e duas semanas depois engravidaram do primeiro filho, Ian, o menino curioso que brincava pelo restaurante.
Naquele dia, visitariam a fazendinha.
E eu seguiria viagem para Cavalcante, intrigada com a vida e com o trem que passa. Nem sempre são suaves, os atropelamentos.
Mas faço mosaicos.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
As águas que vêm de lá
Na China as pessoas se encontram e cumprimentam umas às outras: "Você já comeu?". É menos uma pergunta do que uma saudação. O equivalente a "tudo bem?". A mim, que só fico bem mesmo depois de comer, faz muito sentido.
A gente se saúda de acordo com aquilo que é. Aqui em casa, às sextas-feiras, tudo amanhece do avesso. E quando a gente se cruza na cozinha, ao acordar, já vai comentando: "Hoje é dia de Patrícia!" É o nosso "bom dia". E o dia fica bom mesmo depois que chega Patrícia e desmancha a bagunça acumulada da semana.
Eu nunca soube de onde ela vinha, mas ela sempre veio, sempre às sextas-feiras. Hoje nos pegamos a conversar na cozinha, como fazemos. Banalidades. O tempo. O sol. A chuva.
Então Patrícia me pergunta:
- Como vocês passaram essa grande chuva?
Respondo:
- Nossa, a chuva aqui foi terrível! A frente da vila ficou alagada. Não tínhamos como sair de casa. Mas como estávamos sem comida, passando fome, uma hora tivemos que dar um jeito. Saímos pelo portão de trás, mas até as calçadas estavam cheias d'água. Para não molhar os pés, fomos penduradas nas grades dos prédios.
E, depois de, quase sem parar para respirar, relatar minha grande aventura, volto-lhe a pergunta:
- E lá, onde você mora (mesmo que eu não soubesse onde ela morava), como foi?
- Lá também alagou muito. Também foi horrível. Quando as ruas começam a encher, a gente costuma abrir os bueiros, para que a água desça. Mas desta vez nem isso adiantou. A água continuou subindo e subindo. Ficamos ilhados, sem água e sem luz. Minha sogra perdeu tudo, as compras, os móveis. Muita gente perdeu tudo. A água chegava quase no teto das casas. As pessoas tinham que subir para as lajes, com as crianças assustadas, chorando. Pensei que, se a água continuasse subindo, nós morreríamos afogados. Foi doloroso de se ver.
Eu, que minutos atrás lhe contara sobre meu "grande alagamento", em que eu não queria molhar os pés, de repente engulo tudo aquilo de volta. Por um momento me engasgo de vergonha. Então dou uma inspirada e continuo a querer saber:
- Mas e você, sua casa?
- A gente mora no andar de cima, sobre a casa da minha sogra. Como tudo dela foi destruído, ela agora mora com a gente. Onde eu moro, muita gente foi para a casa dos parentes, porque perdeu tudo. E também por medo de voltar.
- Aliás, onde você mora?
- Em Queimados.
- Ah. - respondo, sem fazer ideia de onde fica (e logo em seguida à conversa, vou procurar no mapa).
Ela continua:
- Estamos apavorados com a ideia de a chuva voltar.
- Parece que vai melhorar.
- Se Deus quiser.
- Deus quer - completo, sem saber o que digo.
E sei, mais uma vez, o quanto sou pequena, com meus problemas pequenos, diante do tudo e dos outros. E me lembro de novo de olhar pro outro lado da rua, pro outro lado da cidade, pro outro lado do mundo. E penso que os chineses estão certos. Às vezes temos apenas que enxergar a pessoa ao lado e perguntar:
- Você já comeu?
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
A Serpente
"Deus chamou cada bicho e atribuiu-lhe uma função. Alguns poderiam voar e espalhar sementes pelo mundo. Outros deslizariam no fundo das águas. Havia ainda aqueles que, sem asas ou guelras, seriam designados para cantar e contar histórias. Então, por último, chamou a Serpente:
- Para você eu tenho uma função especial. É uma função que nenhum dos outros seres aceitou. E ela será sua, porque você tem coragem: a você cabe mostrar aos seres os caminhos escuros. Não será uma tarefa fácil, porque eles não os querem enxergar. Você será odiada por isso.
A Serpente pergunta:
- Mas eu terei força para essa tarefa?
- Por isso te dei o veneno. Para se proteger do ódio dos que não querem enxergar. E para isso, também, te dei o veneno: para a cura."
Foi essa a estória que Mirjam nos contou, quando começou o ano de 2013. Éramos seis, no máximo, em torno de uma fogueira, em meio ao Pantanal. Tínhamos uma lua linda e brilhante no céu. E, à frente, uma estrada escura a percorrer.
Não faz muito tempo que tenho começado a compreender meus anos pela simbologia do ano chinês. O Dragão, que em 2012 passou como um furacão, transformando tudo. A Serpente, que em 2013 tem nos guiado pelos nossos caminhos escuros, esses que não queríamos - mas fomos forçados a ver.
A gente tem infinitas e dinâmicas camadas. A mais superficial é também, por conseguinte, a mais cristalizada: o nosso espaço de conforto. É por ela que transitamos sem sustos. Mas somos muito além. E temos tantas e tantas camadas enterradas. Não queremos encontrá-las, porque elas podem nos ferir. Elas revelam as nossas verdades: aquelas que tanto velamos.
Não se enganem: a camada mais funda não é mais verdadeira ou legítima que a mais superficial. É outra, apenas. Acontece que somos tudo. Uma e outra. E elas se justificam e se complementam. É que, às vezes, para sustentar a luz é preciso percorrer a escuridão, que não é boa nem má, apenas tão necessária quanto. O yin e o yang.
(Abro um parêntese para me desviar um pouco do texto inicial, embora permaneça. Não um desvio: outra camada. Enfim. Gosto do viés oriental e costumo explicá-lo com um exemplo, composto por duas histórias contadas por amigos diferentes, no mesmo período. 1) Um amigo me contou que seu médico lhe dissera que, quando acordamos, é o momento em que a boca está mais cheia de bactérias. Sujíssima. E que, portanto, a primeira coisa que devemos fazer é escovar os dentes, antes mesmo de beber água. Assim não ingerimos toda aquela sujeira. 2) Outra amiga, que passou alguns meses em um retiro espiritual na Tailândia, contava-me sobre sua rotina de disciplina no ashram. Acordavam às quatro da manhã e a primeira coisa que deveriam fazer, antes da primeira meditação, era tomar dois litros de água. As bactérias da boca ajudariam o intestino a funcionar melhor. Acho interessante como esses dois relatos são simétricos e ilustram o paradigma ocidental, de eliminação do "escuro", que é considerado mau, versus o paradigma oriental, de agregação e complementaridade.)
Neste ano aconteceram algumas coisas engraçadas, como dormir na casa de uma amiga e amanhecermos com uma jiboia enorme na porta. Sonhar com cobras e cobras. E bem além: ser guiada por elas. Porque é difícil a gente se enfiar por iniciativa própria nos caminhos escuros e estreitos. A gente quer luz e vento e banho de mar. E só quando, de repente, uma onda te carrega para o fundo mais fundo... Então subitamente você está lá. E é assustador, porque você não enxerga. E você tem que apalpar seres estranhos, esquecidos há tanto tempo, que você nem mais sabia que existiam. Assim foi meu ano. Foi intenso. Foi doloroso. Mas, como eu previa o parto, eu aceitava a Serpente.
Acontece que os caminhos escuros são solitários, em sua incomunicabilidade, mesmo que eu tenha vindo à tona tantas vezes, para tentar expressá-los. E as estradas solitárias são coletivas. E houve muito de coletivo no escuro, em um ano recheado de manifestações, tantas vezes certeiras e tantas vezes desencontradas. Um ano recheado de desencontros. De violências. De tapas de mundo na cara. E de espelhos, vários. Um ano de mergulho nas águas do Ganges, que são escuras e opacas.
O buraco negro é negro porque absorve toda luz. A luz em excesso ofusca. Um no outro, sempre. Yin e yang.
"Ninguém me avisou que neste ano o mundo também acabava", pensei outro dia, lembrando o alardeado fim do mundo no ano passado. Mas, que besteira, o mundo acaba sempre. E seguimos de olhos vendados, rumo ao próximo, de luz e sombra.
Também começamos sempre.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Conto Veneziano
Ela era menina quando ouviu falar sobre uma cidade que tinha ruas de água, não de cimento. Das pessoas que se locomoviam em simpáticos barquinhos, naquele lugar que fluía, como flui tudo que é líquido e não pode ser agarrado com as mãos. Uma cidade que afundava um pouquinho mais a cada ano e que um dia submergiria sob as águas.
E desde menina ela soube que chegaria ali, já mulher, com malas nas mãos, e que instalar-se-ia em um quarto com duas janelas, de onde nunca pudesse ser vista.
Ela, que gostava das profundezas, sabia também que um dia chegaria um homem que já nascera sufocado. Um homem que afundava, tentando sobreviver diariamente à fluidez das águas. E que ele teria palavras engasgadas na garganta e tentaria desesperadamente dizê-las, para quem sabe respirar. Que ele a procuraria pelas janelas, sem jamais encontrá-la, embora desconfiasse que ela se escondesse ali, por trás do vidro que mais brilhava.
Então uma noite ele lançaria palavras em pedra, estilhaçando o vidro da menina, já mulher, que sabia tudo desde sempre, mas que esperava as palavras. Eram elas que desencantariam tudo que não transparecia. Aquelas palavras - na língua do amor e da ira.
Ela lhe sorriria, e ele passaria a lhe fazer a côrte, como antigamente. Mas, em vez de trazer flores, estender-lhe-ia um maço de manjericão, com cujo aroma ela iria aos céus. Então ele faria spaghetti e prometeria cozinhar para ela todos os dias da vida. E também carregar as crianças - três - que um dia viriam a ter, se ela lhe abrisse as outras portas.
Mas ela teria medo e atirar-se-ia pela janela, a mesma que ele quebrara, tempos atrás. E sairia nadando até perder o ar e, sufocada, lembrar sua respiração - a dele -, que era pesada e sofrida. Então ela se daria conta de que não conseguia mais respirar sem ele.
Ela voltaria boiando. E perguntaria: "Você não está me usando de âncora?" Então ele lhe diria: "Como você pode pensar que te quero como âncora... se você é tão leve?"
Ela era cachorro d'água. E sabia tudo desde menina - deste lobo que surgiria das profundezas - suas, talvez. Mas nem por isso era conhecido, ainda que traçado, seu caminho.
Os dois se protegeriam juntos do medo que sentiriam, um do outro. E se lamberiam e se beijariam e se morderiam. E amariam-se aos uivos e sussurrariam juras de amor e maldição. E juntos perderiam a respiração, como se afundassem nas águas daquela cidade.
A cidade que um dia submergiria, como submergirão todas as histórias de todos os amantes, de todos os futuros que virão.
Assinar:
Postagens (Atom)





