quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Uma novela e alguns novelos

Há dias que essa novela vem tomando conta dos meus dias. E que tento contá-la. Mas cada tessitura é feita de muitos fios, alguns de outros novelos. E todos compõem a mesma trama. Por isso ela se desenvolve em quatro capítulos, mas com vários parênteses: os outros fios, sem os quais uma história é impossível.

Capítulo 1:

Soube-se que na Rua das Quaresmeiras vivem os corações mais moles da vizinhança. O fato é que ela apareceu por ali, decidida a ficar. Entrava em nossa casa sem maiores pudores. Havia constantemente uma porta aberta e, mesmo quando não, ela sempre podia contar com a portinha dos gatos.

Eles, que em outras circunstâncias se impunham perante os animais vizinhos, por algum motivo recuaram diante dela. Mesmo Rafinha, o mais territorialista de todos, que costumava expulsar aos berros qualquer outro gato que ousasse aparecer, passou a agir diferente. Fingia não vê-la, ainda que ela entrasse em casa diante de seu nariz. Quando ficou frente a frente com ela, fugiu. João não dava a mínima e continuava blasé sobre o braço do sofá, como se não notasse aquela presença estranha. Miki ainda tentou discutir com ela, mas, ao seu menor gesto brusco, saiu correndo também. No dia em que não correu, levou uma mordida na orelha.

Minha irmã concluiu que ela não pertencia a nenhum vizinho:

- É uma gata de rua.

- Mas como ela veio parar aqui?

- Alguém deve tê-la trazido. Ou ela passou pela portaria.

- Ela está com fome, vamos alimentá-la.

- Mas, se a alimentarmos, ela vai voltar sempre.

- Mas, se não a alimentarmos, ela vai ficar com fome.

Ela voltou sempre. Colocávamos ração e água em frente à porta, mas ela queria mais do que comida: queria um lar. Tentava entrar em casa e conquistar nossa afeição, esfregando-se em nossas pernas. E a gente tentando não se render àquele amor tão fácil.

Meu pai já andava preocupado com a movimentação felina. Foi assim cada vez que trouxemos um novo gato. Eles iam ficando e, quando se via, já estavam lá. Mas agora não morávamos mais naquela casa, eu e minha irmã, nem naquela cidade.

O fato é que em casa aquela gata não poderia ficar. Tampouco poderíamos ignorá-la como se não fosse problema nosso. Sempre é. A gente tem responsabilidade pelo mundo, embora não tenha controle sobre nada.

(Aqui abro o primeiro parêntese de outro fio, para contar que minha irmã é a pessoa que deixa de jantar para tentar salvar uma lagartixa. Posso vê-la compenetrada sentada à mesa, realizando uma cirurgia na pobre da lagartixa, que fora atacada pelos gatos, e lamentando não existirem instrumentos próprios: “a linha deveria ser muito mais fina, a agulha também”. Imagino que nenhuma escola de veterinária tenha jamais previsto tal cirurgia. E acho bonito que, em algum lugar, exista alguém para quem qualquer vida, por mais pequena, seja preciosa e digna de ser salva.)

E aqui volto à história da gata, pela qual nos responsabilizamos porque fomos escolhidas, mesmo que não a tenhamos escolhido.

- Ela precisa ser castrada – resolveu minha irmã, que é veterinária de animais silvestres e, como ela diz, veterinários de silvestres acabam pensando como biólogos -  ... senão ela vai se reproduzir exponencialmente e, com ela solta por aí, logo teremos um problema ambiental.

Antes de levá-la a uma clínica, entretanto, minha irmã a examinou: tinha mamas proeminentes.

- Será que ela está prenha ou que deu à luz recentemente?

Apalpamos sua teta: não tinha leite.


Capítulo 2:

A essa altura, eu estava fora da cidade e só pude acompanhar o desenrolar dos fatos à distância. Minha irmã me informava através de mensagens: levara a gata para ser castrada. O funcionário da clínica ficara com dó e lhe dera comida, fazendo com que sua cirurgia fosse adiada em um dia. Minha irmã tentara mantê-la em casa durante o pós-operatório, mas a gata não aceitou ficar presa e desesperou-se para sair. Por onde andaria ela quando não estava conosco? Voltava sempre, entretanto, para comer e procurar aconchego. Minha irmã aproveitava suas vindas para cuidar de sua cicatriz.

Enquanto isso, na casa ao lado, eis que Emília, nossa vizinha, encontra uma gatinha filhote. Como a nossa costuma ser a casa dos gatos, ela veio perguntar se não tínhamos perdido algum. Não tínhamos. Mas não parecia ser coincidência surgir aquela filhote logo ali – e tão semelhante à outra gata que nos aparecera.
A gatinha era pequena, muito. Não como um gato filhote, mas como um ratinho. Parecia recém-nascida, mas já tinha dentes. Era frágil, apática. Dormia o dia inteiro e só era esporadicamente acordada por minha irmã e Emília, que se juntavam para cuidá-la.

( E abro este segundo parêntese para contar sobre o abacateiro de Emília.  Houve um dia em que lhe perguntei sobre as árvores frutíferas de seu quintal. Foi quando me contou: “Eu fui comer um abacate e, quando o abri, achei que aquela semente parecia um feto – eu tenho isso, costumo ver essas imagens, em parte por isso me tornei vegetariana. - Como não tive coragem de jogar aquela semente fora, plantei-a no quintal”. Essa é Emília. Alguém que consegue enxergar o mundo sem divisões. O outro nome disso é amor.)

Nunca houve tanto movimento entre as duas casas da Rua das Quaresmeiras. Mulheres e gatinhas indo e vindo. As primeiras tentando unir as segundas. A gata maior (que ainda assim era pequena) não parecia interessada em assumir a maternidade. E as duas mulheres insistiam. Chegavam a jogar leite sobre as tetas da gata-mãe, para que a pequenina mamasse.

Voltei de viagem e ainda pude conhecer a gatinha. Sabia que ela era miúda... mas tanto! Era vida muito frágil que se punha em nossas mãos.

E a mãe nem aí.

- Ainda bem que a castramos. Que mãe desnaturada! – julgamos.

Então, como era inevitável, a gatinha não resistiu. Emília levantou-se durante a noite para vê-la, e ela já estava cedendo. Amanheceu. Foi um dia de luto na Rua das Quaresmeiras.


Capítulo 3:

(Este capítulo já começa com um parêntese. Outro fio da mesma tessitura. É que preciso contar o sonho de Emília, na noite fatídica. A gatinha já havia morrido. Emília já havia chorado e chorado. Então voltou para a cama e veio o sonho. Foi assim: Ela ia conferir a gatinha em sua caminha. E, enquanto cuidava dela, de repente percebeu que não era a mesma filhote que estava lá, mas outro gato.)

Então aconteceu. Em um outro dia, que já era um novo dia, eis que aparece um gatinho andando pelo quintal. Ao ser avistada por pessoas, correu para se esconder dentro de um cano. Era filhote, também. Saudável, ativo. Emília conseguiu pegá-lo. Levou-o para minha casa e ficamos as duas na varanda, ligando os pontinhos. Só podia ser irmão da outra gatinha, ambos filhos da gata adulta, nem tão adulta e nem tão grande. A gente não entendia como aquele gatinho, que Emília chamou de Tunico, poderia ter sobrevivido.
Até que ela apareceu, a mãe. E foi surpreendente a serenidade e o modo como tratava a criança: lambia-o, brincava com ele e até o amamentava. (“Então ela tem leite? Só pode ter leite, senão ele não estaria vivo!”) 

Aos poucos as coisas começavam a fazer sentido. Por isso a rejeição à gata mais fragilizada. Provavelmente a mãe sabia que ela não tinha chances de sobreviver e simplesmente abandonou-a, para concentrar suas energias cuidando do filhote saudável. Por isso também ela era tão esfomeada (comia várias vezes ao dia, na nossa casa e na casa de Emília). E por isso, sobretudo, o poder: a forma como conseguia amedrontar Pepita, a cachorrinha de Emília, e os três gatos da minha casa, tão maiores e mais fortes. Era uma mãe protegendo seu filho. A maternidade confere poder e coragem extraordinários.

(“É como o caso do caçador” – contou minha irmã. Ela havia assistido à palestra de um biólogo que, antes, fora caçador. Um dia, encontrou uma onça com seus filhotes e, decidido a matá-los todos, atirou primeiro em um deles. Quando a mãe viu seu filhote ser atingido, soltou fogo pelos olhos. Foi essa a expressão do caçador: ele viu fogo nos olhos. E aquele fogo era tão forte e tão poderoso, que desde então ele parou de caçar. Tornou-se biólogo.)

Era curioso, agora, desvendar a vidinha secreta daquela gata. Então ela era mãe. Mãezona. Imaginávamos seus diálogos com Tunico, orientando-o a se esconder quando aparecessem pessoas. Pois como um filhote tão brincalhão e ativo pôde passar despercebido por tanto tempo?

Eu evitava me perder em pensamentos sentimentalistas, senão acabaria desejando o que já desejava: ficar com a gata. Mas eles me vinham – os tais pensamentos – à cabeça. E às vezes eu os verbalizava: Que aquele devia ser o dia mais feliz da vida daquela gata. Que ela sentia que, enfim, encontrara um lar e segurança, para ela e seu filhote. Que ela estava em paz, como nunca estivera.

E era visível a paz. Às vezes ela simplesmente nos confiava Tunico e saía para passear. Outras vezes passava tempos lambendo-o, deixando-o morder seu rabo ou sugar seu peito – com ou sem leite. Quando uma de nós saía com Tunico no colo, ela esticava o pescoço, a procurá-lo. Quando saíamos de perto, deixando os dois juntos e sozinhos, ela vinha nos chamar. Queria aquilo: nós quatro espalhados na varanda. Um lar.

Capítulo 4:

No dia seguinte, Emília apareceu em casa:

- Vizinha, você não acredita no que aconteceu!

Meu coração foi parar na boca.

Ela continuou:

- Acabei resolvendo adotar a gata e seu filhotinho. Arrumei um quarto para eles lá embaixo e deixei-os dormindo lá. Hoje de manhã cheguei e, em vez de um, havia quatro filhotinhos!

Me veio à cabeça a voz da minha irmã, na noite anterior: “Se apareceu mais um, deve haver outros por aí. Uma gata nunca pare apenas dois”.

Quatro! Todos machos, saudáveis, brincalhões. Emília trazia leite, ração de cachorro, seu pai trazia queijo, carne moída. Virou festa.

- Onde será que eles estavam escondidos? Será que eles estavam naquele cano?

- Acho que não. Lá mal cabia o Tunico.

Era incrível pensar que aquela mãe cuidara escondido de quatro filhotes. E que, apenas quando sentiu segurança, carregou um por um à nova casa. E estava explicado por que ela tivera tanta urgência em sair, quando passara pela cirurgia de castração: havia gatinhos escondidos em algum lugar por aí, cuja sobrevivência dependia dela.

- No outro dia eu dei comida para os gatos, – me contou Emília – a mãe deixou-os comendo e subiu para me pedir mais. Dei um pedaço de frango para ela. Acredita que ela comeu um pedaço e trouxe o resto para os pequenos?

Era inacreditável. Era surpreendente. E era, sobretudo, bonito, ver tanta vida assim.

E de repente ríamos da vida secreta daquela gata, que um dia ouviu falar na Rua das Quaresmeiras, onde moram os corações mais moles do lugar. Uma gata que nos escolheu, que nos invadiu, que construiu um lar.

- Hoje sim – concluiu Emília – deve ser o dia mais feliz da vida dela.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Outra viagem



Acho drogas uma caretice.

Do rivotril à maconha. Da cocaína ao McDonalds. Da ritalina ao álcool. Da nicotina à Coca Cola.

Sou dessas que não bebem e não fumam nada. Ou seja, chata. Mas careta, jamais.

Careta é o conservadorismo que mantém no poder o poder econômico. Careta é acreditar que o valor de um ser humano reside em seu carro, em sua casa, ou em seu cargo. É olhar atravessado para essas tantas pessoas destituídas de “valor” e dedicar a vida a conquistá-lo. E tomar uma droga para não sucumbir. E tomar outra droga para ser produtivo. E fumar outra droga na pausa do respiro. De novo para não sucumbir. E tomar outra droga para conseguir se concentrar. E comer uma droga no meio da correria. E beber outra droga para ser sociável. E tomar outra droga para dormir.

Careta é o status quo.

Por isso falar palavrão não nos deixa menos caretas. Falar alto no bar também não. Nem pegar todas na balada. Nem ficar high com os amigos.  Nem ficar eufórico, nem ter alucinações, nem ficar chapadão. Careta, careta, careta.

É claro que entre as tantas drogas, algumas aceito, outras tolero e a outras mais tenho aversão. Tolerância zero para cigarro, por exemplo. Que faz mal à saúde própria, à saúde dos outros, que é um desrespeito ao espaço público, que é um desrespeito ao meio ambiente, que fede e fomenta uma indústria que também fede.

Já a maconha é uma das drogas mais engraçadas, pois geralmente quem fuma pensa que transgride alguma coisa. Ou que atinge algum tipo de comunhão, sei lá. Tenho uma amiga lúcida, que sabe que fuma apenas para aguentar a porrada da vida. Eu costumo lhe dizer que, se é pra amortecer, melhor que seja maconha do que droga de farmácia. Mas que, se for pra resolver, o bom mesmo é yoga.

Também conheço aqueles que dizem que não precisam de maconha e que seria lindo se se pudesse plantá-la. É. Mas precisam a ponto de fomentar o tráfico. Não acho pouca coisa. Agora, lúcido, lúcido mesmo, é Mujica, que promulgou a lei que regula o mercado de maconha no Uruguai. Sem essa caretice de “uhu, que legal!”, mas como uma atitude política séria e necessária, rompendo tabus e moralismos vazios.

Pois, cá entre nós, de que adianta reprimir, se a verdade é que vivemos em uma sociedade que produz a necessidade de drogas? Uma sociedade que sufoca, que impõe um ritmo de vida e de trabalho que desrespeita o ritmo do corpo e da natureza, uma sociedade que exige que sejamos alegres o tempo inteiro, que sejamos magros, produtivos e fortes? Uma sociedade que exige que escondamos atrás de regras e superficialidades nossas verdades escuras? Como se pode, sóbrio, sobreviver?

Por isso compreendo o consumo de todas as drogas, legais e ilegais. Mas não sem achar careta. Porque não se trata de alternativa à sociedade materialista/capitalista/individualista como é, mas de encaixe e reprodução. Porque usá-las é necessidade criada por esse mundo castrador, mas também uma maneira de mantê-lo e de torná-lo viável.

Superar a caretice não é ficar doidão, mas estar conectado ao mundo. É essa conexão que transgride o sistema que oprime. A conexão existe em vários níveis, nem sempre racionais. Acredito, inclusive, que todos os estados produzidos pelas drogas também podem ser atingidos através de trabalho corporal. Meditação. A diferença é que meditação é processo. Processo é transformação. Enquanto droga é resultado rápido. Segue a lógica do mundo moderno. E a modernidade é démodé. Conservadora. Opressora. Ultrapassada, desde que a ultrapassemos.

Para isso temos que aceitar a travessia. Essa é outra viagem...



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O trem da vida



Eu me interesso pela vida alheia. Sempre penso que poderia ser comigo, por isso fico esperançosa quando encontro um casal antigo que ainda se ama muito ou fico incomodada quando escuto histórias de pessoas fazendo mal às outras. Acho intrigantes os caminhos do destino e, porque sei da minha impotência diante da vida, observo no voo dos outros os ventos possíveis. Pode tudo, eu sei. E às vezes pode até fazer sentido.

Pois eu almoçava em um restaurante simpático em Alto Paraíso e observava as pessoas do local, todas elas, igualmente sujeitas às peças que a vida prega. Até que minha atenção foi fisgada por um moço, aparência de japonês, que tentava descer um degrau com um carrinho de bebê. Ele cumprimentou os moços da mesa ao lado da minha, deixou o carrinho com uma menininha linda e se despediu. Logo apareceu sua esposa, ela sim para ficar, junto com outra criança, um menino curioso e agitado. Foi logo contando sua história com o marido:

- Eu e o Alan nos conhecemos há quase vinte anos...

Logo me perguntei quem seriam seus amigos, que não conheciam seu esposo de tanto tempo, mas, como se respondesse à minha dúvida, ela continuou:

- Mas só nos casamos em 2010.

Me interessei e continuei prestando atenção à história. Ela contou que conheceu Alan no primeiro dia de aula na faculdade (de quê, me perguntei), e que anos depois ele lhe contaria que, na primeira vez que a vira, nem dera atenção. Na segunda vez, teve certeza de que ela era a mulher da vida dele. Mas ano vai, ano vem, nada acontecia, além de um gostar platônico, de ambas as partes. Até que, no quinto ano de faculdade (ah, de arquitetura!), a turma viajou junta para um congresso em Uberlândia. E, no primeiro dia de congresso, Alan ficou... com a Carla! Uma menina qualquer da turma dos dois. A nossa personagem, cujo nome não descobri, mas que tem um rosto quadrado e expressivo, ficou arrasada. E eu, que tomei as dores dela, também.

Depois disso ela acabou deixando-o de lado e começou a namorar outro cara - o Pablo. Quando Alan percebeu que era sério, foi conversar com ela, que lhe disse:

- Lembra quando você ficou com a Carla? Pois é. O trem da vida passou.

E passou e passou. Cada um seguiu seu caminho e namorou outras pessoas. Muito tempo mais tarde ela saberia que, depois da tal conversa fatídica, Alan ficou doente, de cama, por uma semana. É que o trem atropela e tritura. Nem sempre recolhemos os pedaços.

Eles recolheram. Reencontraram-se em 2010, começaram a namorar, casaram-se no mesmo ano e duas semanas depois engravidaram do primeiro filho, Ian, o menino curioso que brincava pelo restaurante.

Naquele dia, visitariam a fazendinha.

E eu seguiria viagem para Cavalcante, intrigada com a vida e com o trem que passa. Nem sempre são suaves, os atropelamentos.

Mas faço mosaicos.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

As águas que vêm de lá



Na China as pessoas se encontram e cumprimentam umas às outras: "Você já comeu?". É menos uma pergunta do que uma saudação. O equivalente a "tudo bem?". A mim, que só fico bem mesmo depois de comer, faz muito sentido.

A gente se saúda de acordo com aquilo que é. Aqui em casa, às sextas-feiras, tudo amanhece do avesso. E quando a gente se cruza na cozinha, ao acordar, já vai comentando: "Hoje é dia de Patrícia!" É o nosso "bom dia". E o dia fica bom mesmo depois que chega Patrícia e desmancha a bagunça acumulada da semana.

Eu nunca soube de onde ela vinha, mas ela sempre veio, sempre às sextas-feiras. Hoje nos pegamos a conversar na cozinha, como fazemos. Banalidades. O tempo. O sol. A chuva.

Então Patrícia me pergunta:

- Como vocês passaram essa grande chuva?

Respondo:

- Nossa, a chuva aqui foi terrível! A frente da vila ficou alagada. Não tínhamos como sair de casa. Mas como estávamos sem comida, passando fome, uma hora tivemos que dar um jeito. Saímos pelo portão de trás, mas até as calçadas estavam cheias d'água. Para não molhar os pés, fomos penduradas nas grades dos prédios.

E, depois de, quase sem parar para respirar, relatar minha grande aventura, volto-lhe a pergunta:

- E lá, onde você mora (mesmo que eu não soubesse onde ela morava), como foi?

- Lá também alagou muito. Também foi horrível. Quando as ruas começam a encher, a gente costuma abrir os bueiros, para que a água desça. Mas desta vez nem isso adiantou. A água continuou subindo e subindo. Ficamos ilhados, sem água e sem luz. Minha sogra perdeu tudo, as compras, os móveis. Muita gente perdeu tudo. A água chegava quase no teto das casas. As pessoas tinham que subir para as lajes, com as crianças assustadas, chorando. Pensei que, se a água continuasse subindo, nós morreríamos afogados. Foi doloroso de se ver.

Eu, que minutos atrás lhe contara sobre meu "grande alagamento", em que eu não queria molhar os pés, de repente engulo tudo aquilo de volta. Por um momento me engasgo de vergonha. Então dou uma inspirada e continuo a querer saber:

- Mas e você, sua casa?

- A gente mora no andar de cima, sobre a casa da minha sogra. Como tudo dela foi destruído, ela agora mora com a gente. Onde eu moro, muita gente foi para a casa dos parentes, porque perdeu tudo. E também por medo de voltar.

- Aliás, onde você mora?

- Em Queimados.

- Ah. - respondo, sem fazer ideia de onde fica (e logo em seguida à conversa, vou procurar no mapa).

Ela continua:

- Estamos apavorados com a ideia de a chuva voltar.

- Parece que vai melhorar.

- Se Deus quiser.

- Deus quer - completo, sem saber o que digo.

E sei, mais uma vez, o quanto sou pequena, com meus problemas pequenos, diante do tudo e dos outros. E me lembro de novo de olhar pro outro lado da rua, pro outro lado da cidade, pro outro lado do mundo. E penso que os chineses estão certos. Às vezes temos apenas que enxergar a pessoa ao lado e perguntar:

- Você já comeu?


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Serpente



"Deus chamou cada bicho e atribuiu-lhe uma função. Alguns poderiam voar e espalhar sementes pelo mundo. Outros deslizariam no fundo das águas. Havia ainda aqueles que, sem asas ou guelras, seriam designados para cantar e contar histórias. Então, por último, chamou a Serpente: 

- Para você eu tenho uma função especial. É uma função que nenhum dos outros seres aceitou. E ela será sua, porque você tem coragem: a você cabe mostrar aos seres os caminhos escuros. Não será uma tarefa fácil, porque eles não os querem enxergar. Você será odiada por isso. 

A Serpente pergunta:

- Mas eu terei força para essa tarefa?

- Por isso te dei o veneno. Para se proteger do ódio dos que não querem enxergar. E para isso, também, te dei o veneno: para a cura."

Foi essa a estória que Mirjam nos contou, quando começou o ano de 2013. Éramos seis, no máximo, em torno de uma fogueira, em meio ao Pantanal. Tínhamos uma lua linda e brilhante no céu. E, à frente, uma estrada escura a percorrer.

Não faz muito tempo que tenho começado a compreender meus anos pela simbologia do ano chinês. O Dragão, que em 2012 passou como um furacão, transformando tudo. A Serpente, que em 2013 tem nos guiado pelos nossos caminhos escuros, esses que não queríamos - mas fomos forçados a ver. 

A gente tem infinitas e dinâmicas camadas. A mais superficial é também, por conseguinte, a mais cristalizada: o nosso espaço de conforto. É por ela que transitamos sem sustos. Mas somos muito além. E temos tantas e tantas camadas enterradas. Não queremos encontrá-las, porque elas podem nos ferir. Elas revelam as nossas verdades: aquelas que tanto velamos. 

Não se enganem: a camada mais funda não é mais verdadeira ou legítima que a mais superficial. É outra, apenas. Acontece que somos tudo. Uma e outra. E elas se justificam e se complementam. É que, às vezes, para sustentar a luz é preciso percorrer a escuridão, que não é boa nem má, apenas tão necessária quanto. O yin e o yang. 

(Abro um parêntese para me desviar um pouco do texto inicial, embora permaneça. Não um desvio: outra camada. Enfim. Gosto do viés oriental e costumo explicá-lo com um exemplo, composto por duas histórias contadas por amigos diferentes, no mesmo período. 1) Um amigo me contou que seu médico lhe dissera que, quando acordamos, é o momento em que a boca está mais cheia de bactérias. Sujíssima. E que, portanto, a primeira coisa que devemos fazer é escovar os dentes, antes mesmo de beber água. Assim não ingerimos toda aquela sujeira. 2) Outra amiga, que passou alguns meses em um retiro espiritual na Tailândia, contava-me sobre sua rotina de disciplina no ashram. Acordavam às quatro da manhã e a primeira coisa que deveriam fazer, antes da primeira meditação, era tomar dois litros de água. As bactérias da boca ajudariam o intestino a funcionar melhor. Acho interessante como esses dois relatos são simétricos e ilustram o paradigma ocidental, de eliminação do "escuro", que é considerado mau, versus o paradigma oriental, de agregação e complementaridade.)

Neste ano aconteceram algumas coisas engraçadas, como dormir na casa de uma amiga e amanhecermos com uma jiboia enorme na porta. Sonhar com cobras e cobras. E bem além: ser guiada por elas. Porque é difícil a gente se enfiar por iniciativa própria nos caminhos escuros e estreitos. A gente quer luz e vento e banho de mar. E só quando, de repente, uma onda te carrega para o fundo mais fundo... Então subitamente você está lá. E é assustador, porque você não enxerga. E você tem que apalpar seres estranhos, esquecidos há tanto tempo, que você nem mais sabia que existiam. Assim foi meu ano. Foi intenso. Foi doloroso. Mas, como eu previa o parto, eu aceitava a Serpente. 

Acontece que os caminhos escuros são solitários, em sua incomunicabilidade, mesmo que eu tenha vindo à tona tantas vezes, para tentar expressá-los. E as estradas solitárias são coletivas. E houve muito de coletivo no escuro, em um ano recheado de manifestações, tantas vezes certeiras e tantas vezes desencontradas. Um ano recheado de desencontros. De violências. De tapas de mundo na cara. E de espelhos, vários. Um ano de mergulho nas águas do Ganges, que são escuras e opacas. 

O buraco negro é negro porque absorve toda luz. A luz em excesso ofusca. Um no outro, sempre. Yin e yang. 

"Ninguém me avisou que neste ano o mundo também acabava", pensei outro dia, lembrando o alardeado fim do mundo no ano passado. Mas, que besteira, o mundo acaba sempre. E seguimos de olhos vendados, rumo ao próximo, de luz e sombra. 

Também começamos sempre.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Conto Veneziano



Ela era menina quando ouviu falar sobre uma cidade que tinha ruas de água, não de cimento. Das pessoas que se locomoviam em simpáticos barquinhos, naquele lugar que fluía, como flui tudo que é líquido e não pode ser agarrado com as mãos. Uma cidade que afundava um pouquinho mais a cada ano e que um dia submergiria sob as águas.

E desde menina ela soube que chegaria ali, já mulher, com malas nas mãos, e que instalar-se-ia em um quarto com duas janelas, de onde nunca pudesse ser vista.

Ela, que gostava das profundezas, sabia também que um dia chegaria um homem que já nascera sufocado. Um homem que afundava, tentando sobreviver diariamente à fluidez das águas. E que ele teria palavras engasgadas na garganta e tentaria desesperadamente dizê-las, para quem sabe respirar. Que ele a procuraria pelas janelas, sem jamais encontrá-la, embora desconfiasse que ela se escondesse ali, por trás do vidro que mais brilhava.

Então uma noite ele lançaria palavras em pedra, estilhaçando o vidro da menina, já mulher, que sabia tudo desde sempre, mas que esperava as palavras. Eram elas que desencantariam tudo que não transparecia. Aquelas palavras - na língua do amor e da ira.

Ela lhe sorriria, e ele passaria a lhe fazer a côrte, como antigamente. Mas, em vez de trazer flores, estender-lhe-ia um maço de manjericão, com cujo aroma ela iria aos céus. Então ele faria spaghetti e prometeria cozinhar para ela todos os dias da vida. E também carregar as crianças - três -  que um dia viriam a ter, se ela lhe abrisse as outras portas.

Mas ela teria medo e atirar-se-ia pela janela, a mesma que ele quebrara, tempos atrás. E sairia nadando até perder o ar e, sufocada, lembrar sua respiração - a dele -, que era pesada e sofrida. Então ela se daria conta de que não conseguia mais respirar sem ele.

Ela voltaria boiando. E perguntaria: "Você não está me usando de âncora?" Então ele lhe diria: "Como você pode pensar que te quero como âncora... se você é tão leve?"

Ela era cachorro d'água. E sabia tudo desde menina - deste lobo que surgiria das profundezas - suas, talvez. Mas nem por isso era conhecido, ainda que traçado, seu caminho.

Os dois se protegeriam juntos do medo que sentiriam, um do outro. E se lamberiam e se beijariam e se morderiam. E amariam-se aos uivos e sussurrariam juras de amor e maldição. E juntos perderiam a respiração, como se afundassem nas águas daquela cidade.

A cidade que um dia submergiria, como submergirão todas as histórias de todos os amantes, de todos os futuros que virão.

sábado, 23 de novembro de 2013

O caminho de volta (ou "O caminho sem volta")



Peguei o caminho de volta para casa. Não sem antes fazer alguns desvios, que é meu jeito de caminhar por linhas tortas. Admito que, depois de um tempo na Índia, voltei um pouco anestesiada para me emocionar ou me surpreender com o mundo ocidental. E foi justo em Burano, uma pequenina ilha da Itália, que ele voltou, o encantamento.

Era um lugar de casinhas simples de cores vivas, com flores nas janelas e vassouras nas portas. Poderia ser apenas um cenário, aquele apanhado de casas coloridas, não fossem as roupas estendidas diante das fachadas. Balançavam ao vento, as roupas, como bandeiras. Podia-se ler o lema nas entrelinhas: "Aqui vive gente".

Peguei-me perguntando onde estariam os varais no meu mundo de hoje. E automaticamente já sabia a resposta: nas áreas de serviço dos condomínios, escondidos da vista.

E, assim, subitamente soube traduzir a condição em que vivo: um vazio de varais.

É uma falta de me sentir gente, gente plena, que vive com gente, que deixa a porta aberta e que entra na casa dos outros sem bater. É a falta de me sentir gente incontida, que não cabe entre paredes e se expande para fora dos limites das fachadas. O vazio de varais é, antes de tudo, um vazio de vida. Ou melhor, um vazio de vida misturada. 

Não foi sempre assim. Cresci em um prédio de apartamentos pequeninos, de dois quartos. Não tínhamos quintal, mas era como se tivéssemos, porque brincávamos no térreo, em uma área que chamávamos de verdinho. Naquela época, os pais de todas as minhas amigas eram socialistas e, de certa forma, era assim que vivíamos: nada era apenas meu ou seu. Todas as crianças eram meio filhas de todos. A mãe da Carol cortava as minhas unhas quando decidia que elas estavam grandes demais. A mãe da Camila me levou ao hospital quando machuquei a cabeça roubando amoras. Minha mãe preparava mingau para todas as crianças. 

Depois cresci e me mudei para um apartamento maior, onde eu e minha irmã levávamos bronca dos síndicos, porque éramos selvagens. O que quer dizer que não havíamos aprendido a separar tudo, a minha vida da sua, o meu espaço do seu. O que quer dizer que não nos contínhamos entre as paredes do apartamento e ainda queríamos descer para o térreo e assustar o porteiro com bonecas e gravadores e subir nos muros e escorregar nos corrimões e espalhar a areia dos canteiros. 

Hoje vivo em uma vila em que os moradores regulam de quem é cada calçada. E meus pais vivem em um condomínio onde são proibidos muros entre as casas, mas a vizinha presta queixa porque Miki, nosso gato, às vezes entra em sua casa, vejam só.

Eu aprendi a me conter e aceitar o vazio de varais. Mas secretamente invejo o Miki, que desconhece limites, enquanto o observo correr pelos quintais vizinhos.

Há, em Laranjeiras, um edifício que parece ser como meu prédio de infância. Lá as pessoas se amam e se odeiam e voz alta e penduram roupas e toalhas nas janelas. Não à toa, ele foi apelidado de Favelão. Poderia ser um nome pejorativo. Mas acontece que me agradam as favelas, exatamente no ponto em que lá vive gente incontida e misturada, que se expande pelos varais e que te convida a entrar em suas casas, e você rola no chão com as crianças. Em nenhum outro lugar do Rio de Janeiro já fui recebida assim, senão caminhando por uma favela.

Então, quase sem querer, escorrego de volta dos varais de Burano ao meu prédio de infância e de volta às cidades que visitei na Índia, em que toda gente era incontidamente humana, de portas abertas e roupas penduradas. E não sei mais se agora estou mesmo voltando ou se a ida ao oriente foi, ela sim, o retorno.

O fato é que eu gosto dos índios e dos indianos. Gosto dos que se sentam de cócoras e dos que comem com as mãos. Dos que andam descalços. Dos que não adotaram plenamente os instrumentos que nos separam do mundo e uns dos outros. Dos que ignoram paredes.

No fundo, é aos varais que retorno sempre.

(texto de 19 de novembro de 2013)