terça-feira, 1 de outubro de 2013

Em defesa do Estado...



Mas é claro que tem que bater nos professores.

Não sabiam que o professor tem mais força do que qualquer exército? O professor é aquele que tem o poder de abrir a janela e fazer ver. E se a gente vê... Ah, se a gente puder ver que o mundo não é só isso, então o mundo não será só isso: essa mentira que alguém inventou de contar.

Mas é claro que tem que calar os professores.

Se o professor fala, a gente pode até aprender. E, se a gente aprende, a gente aprende é que não fomos feitos para povoar mundo de mais mundo inerte. A gente entende que vida tem que fazer sentido em uma camada muito mais funda.

Mas é claro que tem que jogar bomba nos professores.

Se o professor luta, a humanidade percebe que a escola é a rua, em permanente espaço de criação e mudança. O mestre ensina pelo exemplo, veja o perigo.

E se a gente resolve seguir o exemplo? E se o mundo muda? Que será dos banqueiros? Do dinheiro? Do refrigerante?

Que será do Poder, se o Amor prevalecer?


terça-feira, 24 de setembro de 2013

No caminho



Ele parece o Sméagol, de "O senhor dos anéis", sentado sempre daquele jeito, quase de cócoras, na frente das Lojas Americanas. O cabelo meio desgrenhado e meio calvo. Os olhos muito grandes. Os pés descalços e enormes, saídos das pinturas de Portinari.

Parece nunca sentir frio, com sua eterna bermuda jeans e sem camisa. Mas, quando chegou o inverno, levei-lhe um agasalho, que um amigo deixara aqui em casa havia mais de um ano, e que eu, sem consultá-lo (perdão, Alan!), decidi que aquele outro amigo faria melhor uso.

- Vai me ajudar, sim. À noite faz muito frio. - ele contou.

E pela primeira vez me perguntei onde ele passava as noites. É que, a mim, parecia que ele pertencia àquela mesma calçada, que de lá brotara, como uma árvore seca. E muito me espantei um dia em que andava pelo Largo do Machado e o vi passar. Era o óbvio do óbvio do óbvio. Mas me foi uma grande surpresa me dar conta de que ele chegava. E vê-lo de pé, caminhando. Como o homem que ele é.

Talvez porque eu quase não tenha passado por ali. Talvez porque eu tenha andado só pelo outro lado da rua. O fato é que fazia tempo que eu não o via.

Dentro desse tempo houve um momento em que me peguei pensando que não sabia seu nome.

Tempo passado - eis que hoje o vejo, enquanto ando na outra calçada, como o habitual. Ele tem os cabelos cortados e a barba mais rente. Resolvo atravessar a rua para cumprimentá-lo, como não faço há tanto tempo.

- Olá!

Ele leva alguns milésimos de segundo para me virar a face, mais um segundo inteiro para me reconhecer. Sei o momento, porque seus olhos subitamente crescem e brilham. Ele me cumprimenta efusivamente.

Não sei o que é o tempo para ele, que está à parte do mundo da produção e dos relógios e dos calendários, mas exclamo:

- Quanto tempo! Atravessei a rua só pra te dar um alô!

Então ele me estende a mão e, quando ofereço a minha também, ele a segura com firmeza, com suas mãos enormes de pedir e guardar moedas.

- Obrigado. Muito obrigado.

E não soltava minha mão nunca mais, acolhendo-a entre as suas:

- Sabe, - continuou - eu peço sempre por você. Porque você é muito maneira!

E não sei quantos segundos duraram aquele infinito de tempo em que ele segurava minha mão. Quando a soltou, aproveitei para procurar um trocado na carteira e lhe dar, como fazia tantas vezes. Ele recebeu o dinheiro quase com desdém, embora não o fosse. É que ele não parou para olhar ou contar o que eu lhe punha nas mãos, porque naquele instante havia um tesouro muito mais valioso que eu lhe entregava.

E continuava me olhando com seus olhos imensos e brilhantes. E sorrindo. E agradecendo. E agradecendo.

Agradecendo o quê? Por quê?

Talvez alguma humanidade que eu, ingenuamente, lhe restituísse, ao enxergá-lo.

Saberá ele que também restituía a minha humanidade, que tantas vezes perdi?

Obrigada, você também. - vou embora pensando - Obrigada, Sérgio.

É este seu nome.



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Devaneios de um domingo de sol



Um dia, depois de longos dias de chuva, nós amanheceremos juntos e haverá sol. Então nós desceremos da arca e sairemos a andar de mãos dadas. Aonde vamos? A andar. Pelas ruas haverá pés de pitanga e de amora. E nós subiremos nas árvores como fazíamos quando éramos crianças e sabíamos que o mundo nos oferta tudo, e que amora é amor, sim. Vou contar pro seu pai que você namora. Pequenas bobagens. A gente se lembrará de tudo, da sua infância e da minha, porque será como se a gente se conhecesse desde sempre. E você dirá que eu te empurro da cama, e eu explicarei que apenas tentava me fundir a você, e que, se você não chegar pro lado e deixar que eu te aperte, quem sabe não voltemos a ser uma coisa só. E a gente correrá pelas praças, dando risada dos cachorros, porque eles são engraçados e doces e desajeitados. E eu vou querer subir na maior árvore que aparecer em meu caminho. E reclamarei do dedo fraturado, que me impede de utilizar os pés como garras. E você me dará bronca por não ter procurado um médico por mais de dois meses e dirá que eu preciso aprender a me cuidar e deixar de ser durona. E todo mundo saberá que sou durona, mas só você saberá que eu me quebro como vidro, e dos dias que levam para que eu recolha os pedaços. E vai ser reconfortante e assustador que alguém saiba dos meus segredos mais recônditos. Então a gente entrará em um museu qualquer e dirá que aquele é o museu mais interessante que existe, porque fala de nós. E a gente trocará olhares de espanto e nos perderemos entre corredores infinitos. Então eu entrarei sozinha em uma sala escura e, quando sair, já não te encontrarei. E eu andarei pelos corredores que subitamente se tornarão vazios. E chegarei a um ambiente de esculturas religiosas antigas e eu terei medo de me encontrar no meio de tantos cristos crucificados sangrando. Eu sempre tive medo desse universo de dor. E sairei apressada e perdida dentro de um museu estranho. E, até te encontrar novamente e correr para os seus braços, eu terei medo.

Terei medo de que tudo aquilo tenha sido apenas um sonho, e que eu seja mesmo sozinha como sempre fui, em um corredor qualquer, e que o mundo continue sendo o mesmo.

O mesmo mundo de antes de você.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Tudo que muda



Sabe esse nosso país lindo, colorido e plural?

Pois é. Passo por racismo desde que me entendo por gente. Não há um dia da minha vida em que alguém não me aponte na rua, gritando: "Arigatô! Sayonara!", rindo e fazendo piadinhas. É estranho viver em um lugar em que as pessoas se sentem no direito de rir da sua cara. 

Comigo pode. Porque aqui se pensa que só existe racismo contra negros. Se é que existe. É o que dizem. Ou melhor. É o que não dizem.

Outro dia, em Niterói, cruzei com um preto cheio de crianças pretinhas, saltitantes. Voltavam de uma pescaria. Passei sorrindo, porque eram lindos e alegres. O pai (acho que era) me gritou algo assim, como sempre me gritam. As crianças saíram rindo. Me deu pena de vê-las reproduzindo preconceito e me dá mais pena de ver que um povo não se enxerga no outro. 

Estou cansada de ouvir que sou uma "oriental bonita", o que equivale a dizer "oriental, mas bonita". O que não me soa como elogio. 

E coisas piores.

Quando eu era criança doía mais. 

Mas talvez exatamente por isso, hoje qualquer tipo de racismo ou segregação dói em mim. Talvez por isso eu me sinta meio negra, meio índia, meio cigana, cubana, boliviana, moradora de rua. Talvez por isso eu sinta tanto o ser dos outros. Ou talvez por isso eu saiba com tanta clareza que "outros" não existe. É sempre comigo.

Bem. Até aí eu pensava saber tudo sobre racismo. Mas então uma pessoa conhecida postou em sua rede social algo sobre na China se comer cachorro e que horror que desumanidade os cachorros são fofos etc. Eu nunca teria a intenção de dizer que isso é certo, mas achei que faltava um olhar relativista aí. Se você é vegetariano é uma coisa. Se você acha certo comer vaca, acho complicado querer julgar uma cultura a partir da sua. E, apesar de todo mundo me dizer que não compensa me envolver com o que as pessoas pensam, eu creio que não faz sentido querer viver em uma bolha. Então eu me intrometo. É fato que só entro nesse tipo de debate na internet quando considero que o interlocutor vale a pena. Neste caso valia. Era uma companheira de luta, do bem, indígena. Estávamos no campo dos debates necessários.

Acontece que, quando fui comentar, vi que um Fulano havia comentado logo acima: "ESPERAR O QUE DESSE POVO NOGENTO (sic)..." etc etc etc. 

Então descobri que eu não sabia na pele tudo sobre racismo. Estava aprendendo. O ódio.

Entrei na discussão, ignorando-o. Mas ele permaneceu escrevendo discursos de ódio, vociferando contra as pessoas que vinham defender meu ponto de vista e agredindo-os. Escrevia sempre em letras maiúsculas, o que já considero invasivo e uma necessidade absurda de se impor. 

Nesse dia chorei. Chorei porque fora o mesmo dia do massacre no Complexo da Maré. Chorei por desesperança. Chorei pelo ódio que, pela primeira vez na vida, fora raivosamente assim me dirigido ("ESSE POVO NOGENTO... AINDA TEM CORAJEM DE VIR AQUI SE ESPRESSAR"). Chorei pela maneira covarde com que seu discurso atingia outras pessoas. E por haver quem o apoiasse.

A uma das pessoas que ele atacava, que aqui chamarei de João (pois quero que ele tenha um nome), Fulano dizia que ele não sabia nem escrever e que deveria ir plantar mudas, que era tudo que sabia fazer. 

E talvez tenha sido isso o que me machucou mais e por mais tempo. A crítica de uma pessoa simples contra outra pessoa simples. O ódio de um pobre contra outro pobre, que se revelava na escrita "errada". E mais do que isso. A atitude de humilhar alguém pelo seu ofício: "VAI PLANTAR MUDAS, QUE É TUDO QUE VOCE SABE FAZER!"

Via-se que Fulano era um oprimido que carregava todo o discurso do opressor. O discurso da destruição e do ódio. Sem saber que "plantar mudas" é o trabalho mais nobre que pode existir.

A gente precisa de quem plante. A gente precisa de vida, de nutrição. A gente precisa de quem cultive amor e de quem saiba cavucar a terra. O mundo quer é isso: gente que plante mudas, gente que use a mão.

Eu comecei o texto em mim. 

E me expandi em João.

Polinizemos a paz.




quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Quem tem medo do bicho homem?



Eu tenho medo. Eu tenho cansaço. Eu tenho esperança. Depois tenho mais medo. Mais cansaço. Esperança. Exaustão.

E tudo se repete.

E o homem, também, se repete.

E eu tenho mais medo.

Ah, se bastasse não ouvir! Excluir as pessoas de suas redes. De suas vidas. Mas elas existem no mundo. Pior: elas representam as pessoas que existem no mundo. Ah, as pessoas médias! Elas existem e falam.

As pessoas médias não se cansam de falar. Elas disseminam seus discursos de ódio. Elas falam que todos os meninos de rua deveriam ter sido mortos na chacina da candelária, pois deixaram um sobrevivente, e ele matou uma professora no ônibus 174. Elas falam. Elas defendem que pobre é bandido e que bandido tem que morrer. E que direitos humanos o quê. As pessoas médias não querem direitos humanos, querem direitos do consumidor. Querem iphone sem imposto. As pessoas médias acham normal e confortável e seguro que o dono do restaurante expulse o mendigo agarrando-o pelo braço. As pessoas médias se omitem. E o índio continua morrendo. E a história se repete e se repete e se repete. E o bicho homem continua confundindo união com homogeneidade. Hegemonia cultural, racial, econômica. O bicho homem deixa seu igual morrer de fome. O amor, mesquinho, não tem amplitude para se estender além de seus territórios: alguns poucos familiares, amigos, objetos. O bicho homem ama seus objetos.

Mas eu tenho medo do bicho homem. Às vezes eu tenho esperança. Mas eu me canso. Eu fico exausta. Eu silencio.

E isso é só um desabafo.

E um apelo:

Manifestem-se, pessoas extraordinárias! Dancem o amor! Espalhem o amor! Pintem o amor, que está tão difícil de se ver! Falem nele! Gritem-no! Evoquem-no em fogueiras e rituais! Liberem o amor com suas esquizofrenias dos manicômios! Desgarrem-no dos livros das escolas, desordenem-no! Eu preciso das pessoas extraordinárias!

Eu preciso acreditar no bicho homem.




terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mais da Alegria



E passei o dia simpática às três senhoras sobre as quais me contou Dona Nazaré: Mimosa, Alegria e Delícia. É claro que, com esses nomes, só podiam ser portuguesas. Uma mulher chamada Delícia não passaria pelo crivo da malícia brasileira. Acho bonita a Inocência. E eis que temos um novo nome.

"A Alegria morreu. A Delícia se mudou. E a Mimosa continua lá". - me contara Dona Nazaré. E eu sofri pela morte da Alegria como se a conhecesse desde sempre.

Mas hoje acordei com uma nova Alegria. Uma história acontecida, que às vezes me volta à mente.

Nathália e Fabrício moram comigo. Um dia ela veio me contar o que ele lhe dissera: "Amanhã vou assistir à sua peça. Vamos eu, Fulano, a namorada de Fulano e a Alegria". Nathália estranhou: "Alegria? É o nome de uma pessoa?" E Fabrício respondeu: "É a minha namorada. É porque ela é a alegria da minha vida!"

- Mas bem que Alegria é um nome bonito! - concluí.

E depois disso pensei tantas vezes sobre como eu gostaria que os nossos nomes de pessoas fossem mais nomes de coisas do mundo. Na língua espanhola é mais comum que palavras corriqueiras e repletas de sentido transformem-se em nomes de gente. Gosto disso. Aqui, há alguns poucos. Os mais populares que consigo me lembrar são Lua e, em bem menor escala, Estrela. Parece que os astros oferecem menos perigo. A gente não quer se misturar. Às vezes a gente ainda disfarça. Letícia. Marina. Pedro. Lúcia. Renato. Beatriz: Alegria. Do mar. Pedra. Luz. Renascido. A que faz feliz.

É tão bonito ser no mundo, por que não sê-lo assumido?

Conheço algumas Jades e algumas Pérolas. Nenhuma Pedra. Conheço uma Selva. Todo mundo pergunta: "Mas é esse o nome dela mesmo?!" E é. E não é qualquer um que tem cacife para assumir um nome forte desses, mas ela tem. Conheço uma Flora. Uma Flor. Uma Rosa. Mas por que não uma Fauna? Uma Raposa? Por que não uma Árvore? Uma Floresta? Um Jardim? Um Rio? Por que não Fogo? Por que não Riso?

Ah, como seria bom contar histórias! Até as fofocas teriam um sabor diferente: "Você não soube? A Chuva largou o Orvalho e fugiu com o Oceano!"

Seria lindo povoar o mundo com mais mundo.

Quem sabe o final fosse mais feliz.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vila da Alegria



Eu já evitava tomar remédios alopáticos por tudo nesse mundo. Mas aí, depois de passar mais de um mês respirando mal e acabar com febre alta no hospital, achei que seria sensato obedecer à médica.

- Mas... por que você me receitou antibiótico?

- É que seu quadro de sinusite já está muito avançado e...

Ainda tentei uma segunda opinião:

- Você acha que tenho mesmo que tomar esses antibióticos que a médica receitou?

- Lian!

Acabei tomando. E antibiótico, uma vez que você começa, tem que tomar até o fim. Programei o alarme do meu despertador para tocar no horário certo, três vezes ao dia. Mantenho ao lado da cama uma fruta para forrar o estômago. Mas ainda assim. Me sinto envenenada. O estômago que dói. Uma tontura que não passa nunca e faz com que eu sinta que corpo e alma estão desconectados. Então eu fico com raiva de ter começado a tomá-los. E sinto que não consigo me concentrar em nada e que tem uma nuvem dentro da minha cabeça e que tudo me parece alheio e que o mundo está muito barulhento.

Então eu tinha acabado de tomar meu mate com pão de queijo e broinhas de milho, como faço todas as manhãs. E voltava para casa entre apressada e furiosa. A comida que não queria parar no corpo. Eu doida por um repouso, para que o estômago se acalmasse e aceitasse o alimento que ali estava. E, se fosse para sair, que ao menos não fosse no meio da rua.

Ao chegar na vila, encontrei Dona Nazaré. Tenho que explicar que, não importa quão apressada ou furiosa você esteja, ao encontrá-la é preciso parar. Dona Nazaré é de outro tempo: do tempo em que se tinha tempo e que as pessoas se falavam e passavam horas na porta de casa vendo a vida passar. Dona Nazaré é do tempo em que se faziam serenatas na janela, e, não por acaso, foi assim que travamos contato. Estávamos tocando e cantando em casa, quando alguém resolveu que deveríamos andar pela vila. Fomos espalhando música de janela em janela. Quando chegamos na casinha amarela, um moço falou: "Vou chamar minha sogra, ela vai adorar." Cantamos para Dona Nazaré. E desde então ela sempre me sorri e me pára para conversar. E eu gosto de pensar que ainda vivo um pouco neste tempo de Dona Nazaré.

Pois hoje, quando voltava da rua, assim furiosa, assim apressada, assim tonta, assim enauseada, eis que a encontrei. E ela me perguntou, pela centésima vez, meu nome:

- Sempre pergunto, mas nunca consigo decorá-lo. Acho que é coisa da idade.

- É que meu nome é diferente mesmo, por isso é difícil de reter.

- Sabe... quem tem nome diferente são as vizinhas da minha irmã. Uma é Mimosa, a outra é Alegria e a outra é Delícia. Todas são portuguesas.

- Que diferente... são irmãs?

- Nada! Uma não tem nada a ver com a outra! A Mimosa mora na casa da frente. Ela é uma costureira famosa. A minha irmã é síndica na vila dela, sabe? A Alegria vivia rindo... A gente dizia que o nome dela só podia ser esse mesmo.

E de repente eu me esqueço da náusea e da dor de estômago e sou transportada para o tempo de Dona Nazaré e para essa outra vila, em que se tem vizinhas portuguesas chamadas Mimosa, Alegria e Delícia. E a Alegria vive rindo. E a Mimosa é costureira famosa e cheia de tecidos vibrantes. E a casa da Delícia, por que não?, deve ter cheiro de pastelzinho de belém e outros quitutes de ovos açúcar e farinha. E elas devem se reunir na porta de casa para rir da vida e, com esses nomes, só podem ser meio gordas. E, sendo meio gordas, só podem ser muito felizes. E ter maridos bem humorados e de bigode. E filhos e netos cheios de açúcar correndo e fazendo barulho, eufóricos por serem mimados em casa de avó.

Volto ao mundo e Dona Nazaré continua me contando das três portuguesas, vizinhas de sua irmã:

- A Alegria morreu. A Delícia se mudou. E a Mimosa continua lá.

Então eu tenho pressa novamente. Preciso chegar em casa e me sentar. Porque estou fraca. Porque estou tomando antibiótico e me sinto envenenada. Então eu me despeço de Dona Nazaré, entro em casa e me atiro ao sofá.

Seguro o vômito e o choro: porque a Alegria, justo a Alegria, morreu.