segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Vila da Alegria



Eu já evitava tomar remédios alopáticos por tudo nesse mundo. Mas aí, depois de passar mais de um mês respirando mal e acabar com febre alta no hospital, achei que seria sensato obedecer à médica.

- Mas... por que você me receitou antibiótico?

- É que seu quadro de sinusite já está muito avançado e...

Ainda tentei uma segunda opinião:

- Você acha que tenho mesmo que tomar esses antibióticos que a médica receitou?

- Lian!

Acabei tomando. E antibiótico, uma vez que você começa, tem que tomar até o fim. Programei o alarme do meu despertador para tocar no horário certo, três vezes ao dia. Mantenho ao lado da cama uma fruta para forrar o estômago. Mas ainda assim. Me sinto envenenada. O estômago que dói. Uma tontura que não passa nunca e faz com que eu sinta que corpo e alma estão desconectados. Então eu fico com raiva de ter começado a tomá-los. E sinto que não consigo me concentrar em nada e que tem uma nuvem dentro da minha cabeça e que tudo me parece alheio e que o mundo está muito barulhento.

Então eu tinha acabado de tomar meu mate com pão de queijo e broinhas de milho, como faço todas as manhãs. E voltava para casa entre apressada e furiosa. A comida que não queria parar no corpo. Eu doida por um repouso, para que o estômago se acalmasse e aceitasse o alimento que ali estava. E, se fosse para sair, que ao menos não fosse no meio da rua.

Ao chegar na vila, encontrei Dona Nazaré. Tenho que explicar que, não importa quão apressada ou furiosa você esteja, ao encontrá-la é preciso parar. Dona Nazaré é de outro tempo: do tempo em que se tinha tempo e que as pessoas se falavam e passavam horas na porta de casa vendo a vida passar. Dona Nazaré é do tempo em que se faziam serenatas na janela, e, não por acaso, foi assim que travamos contato. Estávamos tocando e cantando em casa, quando alguém resolveu que deveríamos andar pela vila. Fomos espalhando música de janela em janela. Quando chegamos na casinha amarela, um moço falou: "Vou chamar minha sogra, ela vai adorar." Cantamos para Dona Nazaré. E desde então ela sempre me sorri e me pára para conversar. E eu gosto de pensar que ainda vivo um pouco neste tempo de Dona Nazaré.

Pois hoje, quando voltava da rua, assim furiosa, assim apressada, assim tonta, assim enauseada, eis que a encontrei. E ela me perguntou, pela centésima vez, meu nome:

- Sempre pergunto, mas nunca consigo decorá-lo. Acho que é coisa da idade.

- É que meu nome é diferente mesmo, por isso é difícil de reter.

- Sabe... quem tem nome diferente são as vizinhas da minha irmã. Uma é Mimosa, a outra é Alegria e a outra é Delícia. Todas são portuguesas.

- Que diferente... são irmãs?

- Nada! Uma não tem nada a ver com a outra! A Mimosa mora na casa da frente. Ela é uma costureira famosa. A minha irmã é síndica na vila dela, sabe? A Alegria vivia rindo... A gente dizia que o nome dela só podia ser esse mesmo.

E de repente eu me esqueço da náusea e da dor de estômago e sou transportada para o tempo de Dona Nazaré e para essa outra vila, em que se tem vizinhas portuguesas chamadas Mimosa, Alegria e Delícia. E a Alegria vive rindo. E a Mimosa é costureira famosa e cheia de tecidos vibrantes. E a casa da Delícia, por que não?, deve ter cheiro de pastelzinho de belém e outros quitutes de ovos açúcar e farinha. E elas devem se reunir na porta de casa para rir da vida e, com esses nomes, só podem ser meio gordas. E, sendo meio gordas, só podem ser muito felizes. E ter maridos bem humorados e de bigode. E filhos e netos cheios de açúcar correndo e fazendo barulho, eufóricos por serem mimados em casa de avó.

Volto ao mundo e Dona Nazaré continua me contando das três portuguesas, vizinhas de sua irmã:

- A Alegria morreu. A Delícia se mudou. E a Mimosa continua lá.

Então eu tenho pressa novamente. Preciso chegar em casa e me sentar. Porque estou fraca. Porque estou tomando antibiótico e me sinto envenenada. Então eu me despeço de Dona Nazaré, entro em casa e me atiro ao sofá.

Seguro o vômito e o choro: porque a Alegria, justo a Alegria, morreu.




terça-feira, 9 de julho de 2013

O manifesto escatológico

(Parte III de "A Revolução será fofa!")



Xavier não fala em política.

Obviamente ele não é ingênuo para acreditar que exista posicionamento a-político.

Ou reacionário a ponto de desejar a manutenção do status quo.

Xavier é artista. Sabe que a Arte é, em si, transformadora. Política. Ainda que não seja ( e não tem que ser ) panfletária.

Não o objeto artístico convencionado, legitimado, exposto em museus. Mas a relação. A experiência artística, que reside no revirar, expor camadas, abrir espaços vazios. Provocar questionamentos, ainda que não verbais.

A verdadeira experiência artística reside em ampliação, comunhão. Ou seja: Amor. É extremamente político isso. Porque não se encerra em si. Tudo é problema meu, sim, já que sou tudo isso: o mundo.

Xavier é artista performático. Sua expressão é seu corpo, que ele não vende. Xavier rejeita os espetáculos midiáticos, apesar do porte de galã.

Sua tática é deslocar sentidos e usos convencionais. Posar todas as manhãs como esfinge sobre a pia. Depois se atirar à nossa frente na escada, barriga para cima, boca aberta. Provocar estranhamento. Eliminar fronteiras. Então, como um cachorro, ele arfa, com a língua para fora da boca. Depois senta-se de bunda no chão e lambe sua barriga rosada de porquinho. E assim nos lança no incômodo espaço da indefinição.

No outro dia estávamos no quarto. Xavier queria que eu abrisse a porta para ele sair. Mas, diferentemente dos gatos convencionais, que miam seu protesto perante a porta, ele preferiu performar artisticamente em nome de sua causa. Arrastava-se de lado, conseguindo impulso no colchão. Pulava na cama, recomeçava o circuito.

Eu, em meu abuso de poder, entendi o que ele queria, mas a cena era tão divertida, que o mantive lá, para que o espetáculo não terminasse. Sem se alterar, Xavier subiu em minha cama mais uma vez. Posicionou-se sobre minhas roupas.

E fez um cocô-manifesto.

Xavier tem essa arte agressiva. Fétida. Sensorial. Ele dispensa palavras: joga sobre a pilha de roupas limpas o choque da merda. Lança-nos no abismo da falta de sentido. Da escatologia, em seu sentido original. Pois escatologia não se refere necessariamente ao que é nojento, mas ao fim das coisas (por isso o que sai do corpo é escatológico), ao sentido último: Para onde vamos, afinal?

E a verdade é que não sabemos para onde vamos. Mas Xavier segue abrindo espaços vazios, questionamentos. Ele performa o ilógico e acha linda a indefinição. É preciso que haja Arte para que haja transformação. É preciso que não saibamos exatamente aonde vamos chegar. É preciso criar uma forma completamente nova: uma outra linguagem, uma outra visão.

Tem que ser imprevisível, para que seja Revolução.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Gatos de todo o mundo: Uni-vos!

(Parte II de "A Revolução será fofa!")



Jonas sabe que a história é a história da luta de classes.

Quando me aproximo para fazer carinho, ele sai correndo e se posiciona em um lugar seguro, para me observar. Só baixa a guarda raríssimas vezes. Quando ele dorme, por exemplo, sento-me ao lado dele devagarinho e começo a acariciá-lo. Ele gosta do toque ainda inconsciente e, quando desperta, já foi conquistado. Então me afasto, e ele até solta seu miado infantil, para que eu volte a lhe dar carinho. Mas são raras as ocasiões.

Ele tenta manter-se alerta: não quer se deixar ludibriar. Sabe que a mão que alimenta é a mesma que priva, e a mão que acaricia é a mesma que encarcera. São sutis, os mecanismos de dominação.

É preciso que a classe mantenha-se unida. Por isso ele se alinha a Serafim. Mais tarde a Xavier. Tenta cooptar Floffy, que permanece hostil. Floffy não acredita em partidos, associações ou qualquer forma de organização política. Jonas, pelo contrário, defende que a classe só conseguirá que suas reivindicações sejam atendidas se miarem juntos e com pautas bem definidas.

É ele quem lidera o movimento que vai bater à porta do meu quarto quando o prato está vazio. Jonas não quer comida para ele, apenas: quer ração suficiente para todos. Mais ainda: quer presunto, arroz, iogurte. Pois ele não aceita como naturais os privilégios humanos. Jonas luta por condições dignas. Água fresca, por exemplo. Xavier sobe na pia, e eu lhe abro a torneira, deixando cair um filetezinho, que ele bebe satisfeito. Mas Jonas não se deixa corromper: se não for para todos, não serve.

Todos: a classe. Enquanto a divisão de classes existir. E Jonas mantém os olhos e os ouvidos bem abertos, atento para as vozes dissonantes. Ele logo reconheceu uma delas quando trouxemos Ringo, um cachorro carente e estabanado. Ringo, à sua maneira atrapalhada, tentou socializar com os gatos. Jonas foi o primeiro a se opor. No início assustou-se com ele, é verdade, pois Ringo, na sua falta de jeito, tentava se aproximar aos pulos e latidos, ainda que com a melhor das intenções. Depois, mudou de tática, chegando perto delicadamente, com choradinha ansiosa. Mas Jonas manteve-se firme. Não deixaria um cachorro infiltrar-se naquele movimento, por simpático que fosse Ringo: gatos e cachorros mantêm disputas históricas.

Jonas preserva o foco, mas sabe que nenhuma luta tem sentido senão pelo amor. Pela coletividade. Ele gosta de dividir com os seus. Principalmente as alegrias. E a maior delas: as baratas. A caça a esses insetos é o esporte que une todos os gatos. Até Floffy entra na equipe. Jonas vibra, vibra muito. É bonito de se ver. A cumplicidade entre eles, com uma barata em mãos. O barato é quando ela ainda está viva, mas já dominada. Ela tenta se esquivar, Jonas atira-se sobre ela e encara Xavier. Entrega-lhe o inseto. A dádiva. A alegria. Gol.

Mas ele permanece atento. Alerta a cada movimento, felino e humano. Ele sabe como nós, detentores dos meios de produção, podemos restringir a liberdade. Abrir e fechar portas, armários e torneiras. Expulsá-los de cima da cama ou do sofá. Ou simplesmente privá-los de direitos básicos, como ração ou higiene na caixinha de areia. Por isso ele fica de olho quando entro no banheiro e Xavier me acompanha, querendo que lhe abra a torneira. Aviso: "Vou tomar banho, tem certeza de que vai ficar aqui dentro?" Xavier tem certeza. Tranco a porta e, assim que entro debaixo do chuveiro, Jonas começa a miar do lado de fora. Ele me acusa de manter Xavier aprisionado. Faz um escândalo. E imediatamente Xavier, também, começa a miar do lado de dentro. Repito que só poderei abrir a porta ao final do meu banho. Eles não se calam. E eis que a voz popular fala mais alto. Me enrolo na toalha, abro a porta, e os dois saem correndo saltitantes, juntos e cúmplices.

Sem perder a ternura...



quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Revolução será fofa!



Semanas atrás, flagrei uma foto de Floffy cheia de espuma entre os dedos, resultado do grande buraco que ela abria no sofá.  Os mais conservadores tacharam-na de vândala e baderneira. Hoje ficou provado: não era. Floffy apenas construía sua casinha, operária que é, com sua garra e o suor de seu trabalho. Pelo direito à moradia.

À la Che, Floffy não perde a ternura jamás. Esfrega-se em nossas pernas e sobe em nosso colo na primeira oportunidade. Aliás, ela sabe reconhecer as oportunidades. Manifesta-se pelas causas que julga importantes, nos momentos mais apropriados. Quando estudo, por exemplo, ela resolve ocupar a mesa e deitar-se exatamente sobre o livro que leio, ou o caderno onde faço anotações. Ela sabe que, para transformar, tem que desorganizar um pouco. Floffy reivindica visibilidade. Às vezes tenho que tirá-la à força. Ela sabe que as forças são desiguais, mas ainda assim não deixa barato: revida com uma patada.

Floffy não se alia às forças repressoras masculinas. A luta é solitária. Jonas e Xavier estão organizados em associação e conquistaram, por isso, o direito de comer primeiro.  Floffy fica com a ração que sobra, mas ainda assim engorda. Gorda e forte, defende seu humilde sofá-casa recém conquistado. Jonas e Xavier rodeiam-no, e ela, com suas patas afiadas, protege seu território.

E protege também seu corpo e seu direito sobre ele. E, sobretudo, não esquece sua história de dominação. Ela traz a viva memória de sua castração, anos atrás. E por isso rejeita Nathália, que a levou para o veterinário, cuidou dela e trocou seus curativos no período, como já fui, também, rejeitada por Jonas pelo mesmo motivo. Na época, eu queria explicar-lhe que era para seu bem. Mas como dizer-lhe isso, se nem eu estava convencida? Era para seu bem ou era para a tranquilidade de nossa casa, com seus móveis e moradores? Era por bem ou por controle? Eu não sabia. A verdade é que levei-o para ser castrado por insistência dos outros habitantes da casa. É que sobre o poder há um outro poder e assim por diante. 

Depois Jonas esqueceu e parou de se esconder ao me ver. Mas Floffy não esquece. Ela sabe que, para que a luta tenha sentido, não pode perder a história de vista. A memória é arma.

Mas Paulo Freire já dizia que, "quando a educação não é libertadora, o oprimido quer ser opressor". Floffy quer. E por isso se alia ao Poder Econômico: nós, os humanos. E adquire alguns privilégios, como dormir na cama quentinha. Sim, ela se alia a nós e se opõe aos outros gatos. Mas sabe bem quem somos e não perde oportunidade de pisar sobre mim durante a noite ou de, sorrateiramente, beber água do meu copo sobre a mesa. 

E, sem que se perceba, Floffy muda a rotina e a geografia da casa. Come flores e vomita suas pétalas pelo chão. Constrói uma casinha no buraco que abre no sofá. Derruba a pilha de livros sobre a cômoda. Ocupa os espaços, todos eles.

A Revolução será fofa!


quinta-feira, 27 de junho de 2013

As cidades e as nuvens


Diziam que haveria uma Super Lua. E eu fui passar a noite na Pedra da Gávea para encontrá-la. Luz, naqueles dias, era coisa escassa, e cada um procurava-a como podia. Os tempos andam nebulosos. O céu também, com suas nuvens negras. A noite foi fria e um pouco chuvosa. Lua não houve, a não ser por um segundo, antes de voltar a desaparecer na escuridão. E de repente era manhã de novo, sem que pudéssemos ver o Sol nascer.

Foram assim os últimos dias. A gente escala montanhas em busca de um pouquinho de luz e encontra mais névoa. Então a gente se perde nas trilhas, por indefinição dos caminhos. "Você não tem medo dos bichos da floresta?", me perguntou uma amiga. Eu não. Eles é que têm medo de nós.

A selvageria da cidade.

Mas é que no meio da selva também é possível a delicadeza. Por isso fui a São Paulo, encontrá-la, mesmo que rapidamente. Era a qualificação do doutorado da minha irmã de alma, a Júlia. Passamos metade do dia caminhando, então começou a chover e nos escondemos em um café. A gente falava em um outro mundo, como a gente sempre fala. Eu questiono, e Júlia, sem perceber, responde em versos.

Digo-lhe que não acredito em mudanças que não partam do Amor, o grande. E que não acredito em iluminação pessoal que não chegue ao social. Que não acredito em iluminação vertical. E me volta à cabeça o comentário de um amigo, tentando me agradar, quando eu discutia questões sociais: "Não perca seu precioso tempo com isso. Ilumine-se!" E eu respondia mentalmente: "Iluminar-me como? Praticando minha Yoga, alheia ao mundo? E, se assim for, meu tempo é precioso por quê?" É que, a meu ver, iluminação é, antes de tudo, Amor: comunhão. Oposto de Ego, que nos separa do todo que somos. Por isso acredito que, no caminho da iluminação pessoal, é impossível que não nos deparemos com o social. Porque, quando ampliamos em Amor, não mais podemos dizer que o problema do outro nada tem a ver com o meu.

Isso tudo eu compartilhava com a Júlia, explicando-lhe, porém, que não acreditava em revoluções a partir de teorias, por certas que elas fossem. Só acredito nas transformações efetuadas a partir da experiência do Amor. E Júlia me contava sobre Feuerbach, sobre a semelhança entre nossos pensamentos. E acrescentava, explicando-me que esse tipo de experiência só é possível quando se tem condições mínimas. Quando se tem o que comer. Quando se tem tempo. O tempo da experiência e do silêncio. Por isso a importância das pequenas medidas, como redução da jornada de trabalho. Porque uma coisa não precede a outra. O Amor realiza as mudanças, enquanto as mudanças realizam o Amor. Júlia me fala em transformação nessa linguagem que eu entendo, pois disso ela é feita.

Júlia me dá esperança, mas no dia seguinte tenho um choque de realidade. Alguns choques, na verdade. Entre eles, fico sabendo do que se passa no Rio: o número de mortos aumentando na Favela da Maré, em um confronto com a polícia. Não vejo mobilização significativa da classe média que tem ido às ruas nos últimos dias. Vida na favela vale menos? Engulo em seco. Então de que serve tudo isso? Pra mim, se não for  por todos, as nossas lutas perdem o sentido. Saio em dilúvio. Chove forte em São Paulo, e caminho molhada pelas ruas. Paro em um sinal. Um moço pergunta se não quero entrar embaixo de seu guarda-chuva. Agradeço e recuso, explicando que já estou molhada mesmo. Atrás de mim, aparece uma senhora que, sem perguntar, me abriga com seu guarda-chuva. Sorrio. O sinal abre e saio agradecendo aos dois. Confirmo: na selva é possível, sim, a delicadeza.

E penso em como eu queria um mundo com mais Virgínias, Júlias, Leilanes. Descubro mais: Marílias. E mais: Jadires. Depois penso que, entre todos, era o Profeta Gentileza quem mais tinha razão.

Pego um ônibus e volto ao Rio de Janeiro. Logo que desço na rodoviária, um policial me aborda, pedindo para revistar minha mala. Remexe tudo, faz perguntas e acaba me liberando.

Saio aliviada, por ele não ter encontrado as esperanças - tão pequenas - no bolso do meu vestido.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Relato de guerra

( relato originalmente postado em rede social em 21/06/13)




Depois de dois dias grudada no computador, lendo e debatendo muito sobre nossos caminhos, ontem acordei buscando movimento. Computador desligado. Era hora de me alimentar de outras energias. Fui à papelaria comprar cartolina e, chegando em casa, espalhei as tintas e pincéis no chão. Isso por si só é alegria. Fiquei pensando no que escrever no cartaz. Pensava em frases das canções do Belchior, que são lindas, atuais e me acessam muito diretamente. Palavras de amor, sentido último e primeiro. Escrevi qualquer coisa assim, frente e verso, mas logo quis comprar outra cartolina. Senti necessidade de ser pontual, para deixar claro qual é minha luta. Afinal, a favor do amor todos somos. Pelo menos em teoria.

Saí de casa com o rosto pintado de índia: outro posicionamento estampado na cara. Quis clareza, desta vez, em meio a esse campo obscuro das lutas. Peguei o metrô com três amigos, que estavam vibrantes por participarem de uma manifestação. Desabafei que não estava na mesma sintonia. Ia. Mas com um frio no peito. Tinha medo. Uma das amigas, sorrindo, disse "eu não". Repliquei que respirara gás - muito gás - no domingo. É. Agora já conheço o medo. Vinagre na mochila, por garantia. Pés no chão. Um deles ainda machucado da manifestação anterior, mas insisti nos chinelos.

Cheguei à Presidente Vargas levantando meu cartaz. De um lado, a obviedade de que o custo do "não-aumento" das passagens tem que ser retirado do lucro das empresas de ônibus. Do outro, a frase "Faça amor, não faça agronegócio", sugestão da minha amiga Júlia. Mal chegamos, me separei do grupo que saiu de casa comigo. Minha energia era outra. E eu me sentia só. Saí andando, cartaz no alto, para que o máximo de pessoas lesse meu recado. Senti que, naquele momento, aquilo valia mais do que gritar os uníssonos.

Assim foi por muito tempo. Um exercício de me posicionar e observar. Depois fui seguindo o fluxo da multidão, andando em direção à Prefeitura. Então a violência. Bombas de gás lacrimogêneo, vinagre e tudo isso que, infelizmente, deixou de ser novidade na minha realidade, embora nunca o fosse, na realidade de tantos outros. Então juntei minha voz às outras para chamar a polícia de covarde e cantar a música dos Titãs. Fora isso, levantava a voz para gritar que as pessoas não corressem, para que elas não se apavorassem, para que não nos pisoteássemos.

Então apareceu um grupo, rosto coberto e aparência de periferia. Quebravam tudo, com chutes, pedras e bombas. Eu só tinha vontade de pedir que não destruíssem o pequeno comércio. O pequeno. A multidão gritava "sem violência", chamando-os de vândalos e bandidos. E eu só me perguntava quem éramos nós para dizer que não quebrassem a cidade, que nunca foi deles. A violência policial, que agora se voltou também a nós, essa sim sempre lhes pertenceu. E fiquei muito triste e também temerosa. Não era um espetáculo bonito. Mas eram os frutos do que sempre plantamos, que, de súbito, se tornavam visíveis, ali, quiséssemos ou não. Uma aula de história que se nos apresentava. Pena que muitos não puderam enxergá-la. "O que a polícia tem usado contra a população são armas de guerra, para serem usadas nas favelas, não na cidade" - me vinha esse texto à cabeça (que agora reproduzi em minhas palavras), que li recentemente e nunca engoli. Então, naquele momento, me senti extremamente confusa. Se, por um lado não os apoiava, quem era eu, ou quem éramos nós, para julgá-los a partir dos critérios de uma sociedade que nunca os enxergou como iguais?

Seguimos. Entramos na Rio Branco. De repente, polícia e "bandidos". Todos soltavam bombas. Os "bandidos" soltavam bombas nas coisas, embora estilhaços tenham alcançado alguns manifestantes. Os policiais atiravam bombas de gás, não para atingir as coisas, mas as pessoas. E a classe média corria, apavorada, cercada por todos os lados. Após pedir várias vezes que não corressem, acabei correndo também. E depois de tentar entrar em várias ruas e ser impedida, voltei pela Rio Branco, cruzei a nuvem de gás na Presidente Vargas e não sabia o que fazer, quando vi um grupo de manifestantes parado em uma esquina. Perguntei aonde eles iam, pois não queria seguir sozinha. Eles disseram que eu me juntasse a eles. Paramos na porta de um hotel, São Francisco, se não me engano. Eles tentavam se comunicar pelo celular, para descobrir se havia por onde sair. Não havia. Pedi ao gerente do hotel que nos deixasse entrar, e a resposta foi negativa. A polícia passava em seus tanques, apontando metralhadoras. Quando jogaram uma bomba de gás bem na nossa frente, o gerente abriu a porta e pediu que entrássemos com calma, um a um, e ficássemos na recepção.

Ali ficamos um tempo. Alice, Leo, Nini e Olívia, o grupo que me protegeu. Sentados no sofá do hotel ainda desolados, diante do sem-sentido que se escancarara aos nossos olhos. Mais tarde o gerente disse que mandara o segurança à esquina e que a rua já estava mais tranquila, pedindo que nos retirássemos. Agradecemos e saímos. Após um tempo conseguimos um ônibus para o Méier. Só queríamos sair dali. Lá, pegamos um taxi para a Tijuca, onde uma das garotas morava, e eu segui nele para casa, dando uma volta grande, já que ouvíramos no rádio que havia confusão na Lapa, e o túnel Santa Bárbara estava fechado também.

Entrei em casa e, para meu alívio, os amigos que haviam saído junto comigo já estavam todos lá. Tentei entrar em contato com a Márcia, amiga que desencontrei. Temi por todos. Os que estavam na manifestação. Mas também por todos nós.

A manifestação de domingo me inaugurou no medo. Mas era tudo mais claro. A de ontem me apavorou. Sim, pela polícia. Mas também por nós, essa massa cuja heterogeneidade a princípio parecia positiva, mas que se mostrava cada vez mais autoritária na exigência ultra ideológica de apagar todas as ideologias. Depois soube dos acontecimentos de São Paulo, o que reforçou minha percepção. E meu medo.

Virei a noite acordada, tentando encontrar algum sentido no que não tem. Lembrei de Walter Benjamin dizendo sobre a incapacidade de os soldados narrarem suas experiências de guerra, simplesmente porque era impossível significar suas experiências. Elas nascem do absurdo. É claro que o que vivi foi em uma escala absolutamente menor. E ainda assim foi absurdo. Fiquei pensando nos discursos tão repetidos nas manifestações, sobre impeachment da presidente. Li muito. Fiquei juntando os cacos. Tive medo de estar dando volume a uma manifestação que começou bonita a partir de um movimento político (não se enganem, tudo é político, inclusive sua negação) e que ganhou uma cara que não é minha. Que é o meu oposto. E penso que as pessoas não percebem o quanto essa manifestação que pede desenfreadamente a saída da presidente, atribuindo a ela responsabilidades que nem são de sua competência, é perigosa. Que dá abertura a golpes. Militares, inclusive. E que isso não é improvável, porque uma parte muito grande dessa massa que vai às ruas é conservadoríssima. Estamos em um momento da história que parece se repetir. Algo que não vivemos, mas nossos pais sim.

É preciso cuidado. O momento é delicado.

E, assim, me retiro das manifestações.


PS:  E depois desse relato longuíssimo esqueci um detalhe importante: ontem de madrugada, desabafando com minha amiga Joyce, ela me falou que mora muito mais perto dos morros do que eu. Conhece as pessoas de lá. E que esses que quebraram tudo são DIFERENTES. Fisicamente diferentes, ela disse. Opa. Tem uma peça aí que se encaixa com uma desconfiança nossa.

Por um mundo descalço

(relato originalmente postado em rede social em 16/06/13)



Eu só sei que, em um momento, cantávamos o hino nacional e gritávamos palavras de ordem. No outro, corríamos das bombas de gás. Eu caí no chão, duas pessoas pararam pra me ajudar. Tratei de catar meus chinelos caídos e corri. Nos encolhemos em uma esquina, atrás de um carro. Todos tossiam, choravam, cuspiam. Pensei que fosse parar de respirar. Uma menina tirou um vidrinho de vinagre, passei no rosto e fiquei melhor. Subi a rampa do metrô e fiquei meio incrédula olhando os policiais. Eu só pensava em chegar bem perto e perguntar se eles conseguiam dormir. Se não tinham vergonha. A gente chorava pelo gás, mas muito mais de tristeza e indignação. Houve um momento em que eu e uma menina nos olhamos, de repente nuas e iguais. Nos abraçamos e ficamos assim um tempo. Depois vi que meu dedão estava inchado e sangrava. Era só o dedão, mas doía e atrapalhava a pisada. Me vi andando como uma velhinha e percebi como, sim, envelheci nessa tarde. "Chinelos podem ser bons para trilhas, mas não servem para manifestações", pensei. E me lembrei de quando, após subir o Pico da Bandeira, fui subir o do Cristal. Tirei a bota e fui descalça, pois meus pés dão segurança na escalada. "Não machuca?", várias pessoas me perguntavam. Machuca. Tenho que olhar por onde piso, evitar os espinhos e os cascalhos. E quando, na volta, recuperei as botas escondidas na moita, me dei conta de que podia pisar em tudo sem tomar cuidado. E que assim acabava pisando nos galhinhos e plantinhas. Pensei que, calçada, sou um monstro. E me dei conta: "Botas são tanques de guerra". E assim é o Poder. A gente pisa onde quer, sem olhar, e não sente nada.

Por um mundo descalço.