quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Réquiem ao mundo que acaba. Oração ao mundo que vem.

Réquiem ao mundo que acaba


Eu agradeço o encontro, em primeiro lugar. Cada instante em que consegui intimamente te encontrar. Quando fui Terra. Quando fui atravessada por raízes inúmeras, imensas. Quando fui abrigo, sustento, pilar. Quando fui Fogo. Pela intensidade das paixões. Pelo calor com que consumi a mim e aos outros. Quando fui radiante ou febril. Quando fui solar. Quando fui Água e aceitei o fluxo das coisas passageiras. Quando fui cristalina. Pura. Transparente. Por estar em movimento constante. Pelos escafandristas que me atingiram as profundezas. Quando fui Ar. Quando fui leve. Quando fui imensa e permiti voos de liberdade. Por todas as vezes em que pude ser sem pesar. Pelos que fiz flutuar.

Eu agradeço o encontro, sempre. Eu agradeço pelos sorrisos trocados, pelas risadas compartilhadas, pelos olhares de reciprocidade. Eu agradeço as mãos dadas, os caminhos cruzados. Os irmãos de vida, os de todas as vidas. A irmã de vazio, a de pedra, a preta. Os irmãos de passos, de palavras, de poemas. Os que atravessaram comigo. Os que me atravessaram. Eu agradeço tanto, tanto. E agradeço sempre. As almas tocadas. Os corpos. As vidas.

Eu agradeço pelas viagens. Pelos lugares que tive oportunidade de conhecer. As montanhas nevadas. Os mares de peixes, tubarões, leões marinhos. Eu agradeço os desertos e as multidões. O deslumbre, o estranhamento. Eu agradeço sobretudo as viagens outras. Essas que não pedem deslocamento, mas pelas quais todas as pedras se movem. Eu agradeço diariamente pelo poder da transformação.

Eu agradeço, por fim, os caminhos não escolhidos. Pela beleza das possibilidades.

Assim me despeço desse mundo que acaba. Esperando enterrá-lo em um solo fértil de amor, para que um novo mundo floresça.

Oração ao mundo que vem



Que a partir de agora não se possa falar em mim e falar em mundo. Que as palavras não separem o que foi feito um. Nós. Que sejamos juntos e o saibamos sempre. Nós, novo mundo que vem. Nós. Laços. Menos algemas. Mais abraços. Que a lógica do dinheiro não defina nossos passos. Que o trabalho seja digno e não se sobreponha ao tempo da vadiação. Menos máquina. Mais coração. Nós. Iguais. O mesmo. Homem, outro homem, bicho, planta, pedra. Um só. Que seja. Já é. Mas que saiba. Que sinta. Que tempo não seja dinheiro. Que seja fruição. Que as religiões não sejam regras, normas, berços de intolerância. Que sejam comunhão. Ou nem isso. Que sejamos nosso tempo, nosso templo, nossa religião. Sem interferência de instituição. Que sejamos feitos da matéria do Amor. Não é essa a matéria de Deus? Que sejamos, pois, mais deuses e menos divas. Que sejamos plenos ao comportar vazios. Que possamos entender que uma atitude elevada não é se higienizar de mundo, mas aceitar a lama, mas mergulhar mais fundo.

Que seja mesmo novo. Que venha o novo mundo.

Amém.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mergulhar

Ilustração de Daniel Gnattali

Quando anunciei que ia fazer o curso de mergulho, ele me aconselhou, já sabendo que não gosto de conselhos:

- Lian, não quero ser chato, mas... tente não nadar pra longe do grupo, como você sempre faz.

- Não, não é chato. É só um conselho inútil. Porque, se eu achar necessário, eu vou acompanhar o grupo. Mas, se eu tiver vontade, eu vou nadar sozinha.

Ele riu como se suspirasse. Ou suspirou como se sorrisse, não me lembro.

E lá fui eu, quase sem dormir, pegar um ônibus às cinco da manhã para Arraial do Cabo. As aulas teóricas começariam já às nove. A escola oferecia alojamento e toda a estrutura. Cheguei zonza de sono.Muita teoria. Depois aula de piscina. Os exercícios. Tirar a máscara. Tirar o regulador. Controle de flutuabilidade. Resgate. Depois da piscina, almoço. Depois sala de aula novamente. A essa altura, eu já não existia como pessoa. Cansaço. Muito. Um casal mineiro que não parava de interromper a aula. Eu dormia. Acordava. Tentava raciocinar. As tabelas. Prova teórica. Novamente as tabelas. E de repente uma chuva forte. Cama.

Acordei na manhã seguinte ainda lenta. Um barco e o mar. Mais dois dias assim. O mar. Nada mais, entre dormir e acordar. Eu torcendo para acabarem as tarefas, para poder mergulhar livremente. Um dia, enquanto esperávamos para fazer os exercícios de superfície, resolvi dar uma volta. O mergulho. Eu sempre me perco nos mergulhos. Eu sempre me encontro em outras formas. Essa coisa de entrar na floresta e pensar que sou bicho. Entrar no mar e pensar que sou peixe. Seguir os cardumes. Grandes peixes azuis. Pequenos peixes transparentes. De repente um puxão pelas costas. Alguém me leva para a superfície: "Mergulhando sozinha!"- recebo bronca, ainda que simpática.

O fascínio. "Eu vi um peixe que parece uma borboleta! Gorduchinho no fundo, como um avião. Então ele abre as nadadeiras como leques. E elas brilham nas pontas!" É um coió, me explicam. "Tem um outro que parece uma graviola! Um peixe redondo e inflado, com pontinhas que parecem espinhos!" Ah, um baiacu.

Porcaria de nomes que estragam a poesia.

Eu só quero o mar com seus mistérios.

"Deslocada", é o apelido que recebo de um dos instrutores. Porque, no barco, estou sempre longe dos grupos tagarelas, à procura do infinito. Porque no mar quero seguir sozinha. Mas sozinha não, engana-se ele. Quero seguir com os peixes e os seres. E, quando chega o mais esperado momento, o do mergulho livre, me apontam uma garota. O sistema de duplas. Eu saio na frente e novamente me puxam. Tenho que permanecer com minha dupla, com meu grupo.

Mas vejo uma tartaruga e não posso fazer outra coisa, senão nadar atrás em disparada. O instrutor me persegue, segura minha nadadeira, faz sinal para eu voltar. Mais tarde ele dirá: "Nunca faça isso, de seguir a tartaruga. Ela estava indo muito pro fundo. Logo você poderia ter uma narcose por nitrogênio e nem saberia, continuaria perseguindo a tartaruga." E depois completa: "Puxa, você me cansou!" É que por um momento eu penso ser meu este mundo que não é. Água, na ilusão de iludir, revela tão bem. Essa verdade de que estamos todos juntos. Os continentes unidos por ela.

E por um momento eu me vejo peixe-concha-tartaruga-coral. Tudo isso e tudo junto. Parece outro planeta, o mar. Mas é apenas ele, o mesmo mundo. Um espelho. Só que mais fundo.

"Então, Deslocada, como foi?" - ele pergunta. Eu sorrio, apenas. Deslocada. Talvez seja. Peixe fora d'água. Peixe no barco. Mas por que barco, se existe o mergulho? E por que prédios e carros e regras e ruas... se existe o mar? Por que nomes, se os seres são redondos, brilhantes, borboletas e graviolas?

E vejo meus pensamentos se perderem, boiarem. Toda a lógica transfigurada em peixes coloridos.

Tudo perde o sentido, perante a vastidão do mar.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

17 de dezembro


Chovia. Talvez todos os outros desistissem, mas eu lhe pedi que subisse comigo assim mesmo. Mesmo que. "Firmes e fortes", ele respondeu. E me ajudou a escalar quando perdi as forças. Carregou minha mochila quando perdi o equilíbrio. Lavou minhas mãos quando eu perdia sangue. E desde então ele escala comigo. Amigo. Inteiro. Eu invento o rumo e me atiro. Ele me acompanha e cuida para que eu não caia no abismo. Aquele. É ele quem me segura no mundo dos homens. Quem me puxa pelo pé quando nado pro lado oposto. Quem me espera ou me alcança quando saio andando no mato, longe de todos. Criamos um grupo de poesia, chamado "Clubinho Lindo". Como somos os únicos membros, ele é o Rei Lindo e eu sou a Rainha Linda. Escrevemos versos. Eu lhe ensino mandarim e me surpreendo com sua facilidade em aprender. Depois interrompo as aulas por falta de tempo. Invento viagens. Fotografo suas árvores, reclamo de seu enquadramento, faço listas enormes. Viajamos por aí com gorro de passarinho e talvez seja isso mesmo. Voar. Ele voa. Eu prefiro os mergulhos. Eu me despedaço. Ele me refaz em aquarela. Fada. Ser da floresta. Circulíris no céu. Ele conta suas histórias e expõe todo seu processo de pensamento. Transparente. Por isso mesmo, muita luz. Atravessado de amor por todos os lados. Ele que, sem olhar pros lados, atravessa a minha vida. Hoje é dele o dia. Que seja doce a travessia.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta que eu queria ter mandado por pombo-correio à amiga que não tinha nada a ver com isso tudo...






Ontem, procurando presente para uma amiga que vai fazer aniversário, encontrei um livro de cartas trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino. Lembrei tanto de você. Tanto porque tive a impressão de que seriam cartas que nós duas trocaríamos, fôssemos outros. Como esqueci de pedir pro moço da Travessa embrulhar, vim lendo-o no metrô, que peguei na Estação General Osório. Aí o Catete passou e eu deixei o trem ir e voltar, enquanto lia selvagemente as cartas alheias que poderiam não ser.

Mentira. Desci no Catete mesmo, apesar da vontade de continuar lendo no metrô. Mas é desse ponto que nasceu esta carta, que te escrevo agora. Das minhas não-biografias, que, em paralelo, dizem muito mais de mim. Então eu te conto das verdades que não aconteceram, como o dia em que, descendo do metrô, vi dois rapazes passarem com uniformes de futebol, com seus nomes escritos atrás da camisa. Como não lembro os nomes, digamos que um era Ricardo e o outro, Daniel. Chamei um deles pelo nome: "Ricardo! Quanto tempo!" Ele ficou me olhando estarrecido, não fazia ideia de quem eu era. "Você continua lá?" E, quando ele, confuso, perguntou de onde me conhecia, eu disse que era "do curso, ora!" Depois fui embora com ares de intimidade e sumi pra sempre. E ele pra sempre se perguntou quem eu seria, mas mesmo eu quase nunca sei responder.

Em uma das cartas, Clarice lamentava uma crítica de Álvaro Lins a seus livros, dizendo-os mutilados e incompletos. Com desânimo, ela lhe dava razão, concluindo que não se podia fazer arte "só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho". E senti que ela me acertou em cheio, apesar de eu não ser bem infeliz. Pensando melhor, talvez exatamente o contrário, pois diariamente a felicidade em mim mal cabe. Mas melancólica sim, quase sempre, também. Aliás, é meu lado melancólico que escreve, pois o feliz só sente, ama e caminha.

Engraçado como, em tempos de internet, melancolia seja quase uma contravenção. Outro dia chovia. Chovia muito e eu tinha dormido pouco. Escrevi um texto melancólico no blog. Aliás, uma carta também. Uma carta direcionada a ninguém em especial e talvez a alguém. Um Ricardo ou Daniel dos caminhos paralelos. Sempre acho que os homens podem ser divididos entre esses dois nomes. Tenho um amigo, chamado Tiago, foi assim que o conheci:

- Seu nome é Daniel de quê?
- Tiago.
- Daniel Tiago?
- Não. Meu nome é Tiago.

Mas, voltando, escrevi então uma carta melancólica. Logo que a postei, minha mãe telefonou desesperada. Queria saber se estava tudo bem. "É só a chuva, mãe!", eu expliquei. É que eu falara em morte. Mas é que eu sempre penso na morte como medida da vida, especialmente quando viajo. O ir embora. Também por isso viajo tanto, como um modo de morrer. Daí vem a vida, maior.

É que sobre alguns assuntos não se fala, estou aprendendo.

Mas Clarice me atingiu em cheio. Será que é possível fazer arte só por ter um temperamento feliz, melancólico e doidinho? Pior. Será que é possível ter a vida que tenho? Ser eu? Eu sinto que sempre me equilibro entre dois lados, mas vai aparecer um terceiro e me desmontar inteira. Uma perdição. Uma salvação. A mesma coisa. Tenho pressentimentos e também alguns planos secretos. Te conto sobre eles pessoalmente.

Vou a Goiânia daqui a alguns dias. Vou a Goiânia e quero te ver. Quanta saudade. Eu sempre te escrevo cartas mentalmente, pois sinto que você vai entender sem susto minha divagações felizes, melancólicas e doidinhas. E as cartas, as concretas, devo tantas a tanta gente. Cansei de escrevê-las quando elas tornaram-se relatórios. Eu não quero falar sobre os fatos, eles estão espalhados por aí. Eu quero falar é da terceira via, esta que vem e que vai destruir tudo que eu conheço.

Estamos a alguns dias do fim do mundo. Eu vou a Goiânia te visitar. E, depois que o mundo acabar, vou pro Pantanal. Vou visitar os índios Terena e depois eu quero virar bicho. A terceira via, talvez.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Um grito


Se eu disser que éramos grandes amigos, estarei mentindo. Em realidade, nem chegamos a ser amigos. Éramos colegas, conhecidos. Ele passava no corredor da faculdade e era boa sua presença. Boa porque presente. Não como aquelas presenças que quase se ausentam. Ele não. Ele estava lá e era. E é sempre bom quando alguém é.

Eu cursava Jornalismo. Ele, Radialismo e Televisão. Seu nome era Lucas. Era moreno e alto. E, talvez pelo constante brilho nos olhos, seu rosto tinha um ar infantil. Naquele início de faculdade em que grande parte das pessoas ainda estava se definindo, ele era homossexual assumidíssimo.Militante. Fundou um grupo, dirigiu ONGs, organizou paradas do orgulho LGBT.

O contato mais forte que tive com Lucas foi em um congresso de Comunicação Social, que aconteceu em Maceió. Depois de dois dias apertados em um micro-ônibus da faculdade, todo mundo acampado em uma quadra. Lembro dele vestindo uma longa saia branca. Linda saia. Lindo ele. Animada, resolvi criar uma nova moda. Abri minha mala e saí distribuindo minhas saias para os rapazes. E saíamos em bando, homens e mulheres, gays ou não, todos de saia pelas ruas. As pessoas da cidade faziam piada. Diziam provocações. Não ligávamos. Éramos esvoaçantes e livres.

Naquele congresso, os estudantes criaram e votaram algumas categorias, fizeram medalhas de papelão. Eu ganhei uma medalha de "mais bicho-grilo". Lucas ganhou uma medalha de "mais gay". Ambos em saias. A dele, longa e branca. Eu tenho essa imagem dele: um anjo alegre de olhar infantil.

Não mantivemos contato. Não éramos amigos, embora irmãos.

Na madrugada de ontem, antes de pegar o avião de volta ao Rio, tive notícias suas: "Jornalista goiano é encontrado morto em praia de Pernambuco". Um soco no estômago. Eu novamente vomitando todas as esperanças que me forçava a engolir. Porque preciso de força. Porque preciso me alimentar, por isso me obrigava a engolir tantas esperanças, a crer em alguma parcela de amor. "Mas você ainda crê em alguma coisa?" - perguntou uma grande amiga há algum tempo, também desiludida com o futuro do mundo. "Pelo menos no amor, no amor em pequena escala, eu tenho que acreditar, senão..." Senão o que. Eu me pergunto agora.

É que às vezes não parece fazer sentido mesmo.

Os detalhes do crime, eu li. Encontrado de cueca na praia. Ele que era moreno e alegre. Assim, ensanguentado. Olhos brilhantes infantis. Sinais de espancamento, foi isso. Ele que era vivo, presente. O corpo jogado. Ele não se calava. Crime de cunho homofóbico. Um soco. Um soco. Um soco.

Pode?

Eu tento acreditar todos os dias na possibilidade do amor maior, esse amor que é olhar mundo e se ver inteiro. Quando não dá, eu tento me agarrar ao amor pequeno, pelo menos neste. O olhar o outro e ser junto. Algum amor tem que ter. Mas e se não? E se nem isso?

Às vezes não. Mas hoje tenho nojo do mundo e sinto vergonha de ser gente, se gente é essa coisa que não se enxerga em amor. Hoje eu tenho nojo de fazer parte desse mundo de intolerância. Nojo de tudo que se diz maior que a vida.

Lucas era vida.

Que hoje ele seja grito.




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carta para alguém



"Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria..." (Rubem Braga)

... Então eu quis te escrever. Eu quis te escrever porque é o terceiro dia em que chove, e eu não tenho vontade de fazer outra coisa senão de chover palavras... porque esse tempo branco e frio me deixa melancólica... talvez angustiada, falei outro dia e alguém me disse que tínhamos que descobrir o motivo, eu falei que angústia é a própria angústia e que não há além. Só a chuva, talvez. A chuva traz à tona o vazio, que dialoga comigo diariamente. Eu quis chorar palavras, mas  se você estivesse ao meu lado talvez eu vomitasse silêncio. Talvez eu até colocasse esta carta em um envelope, como faço sempre para meus amigos que têm nome e endereço. Mas desta vez resolvi escrever esta carta para alguém, e alguém é tão amplo. 


Segunda-feira fez sol, veja só. Eu mergulhei no mar e voltei preta, ardendo. Terça amanheceu chovendo, eu amanheci muito cedo, fazendo cinema. É sempre bom fazer cinema, e eu tenho uma história bonita com este filme, cheia de sincronicidades. À tarde o frio doeu em mim tão fundo, eu tendo que fazer mala para viajar e carregando essa melancolia que não me soltava. E terminei o dia gravando para publicidade, entre pessoas boas e uma preocupação com o voo na manhã seguinte, que acabei perdendo. Devo ter assustado o taxista, com meu rosto de maquiagem borrada, fazendo-o voar pela Avenida Brasil. Depois andei por todas as companhias aéreas do aeroporto, procurando voo para o mesmo dia em vão. Voltei para casa, comecei a trocar mensagens com amigos e, quando me dei conta, já não fazia sentido o que eu escrevia. Apaguei em um profundo sono flutuante. Quando acordei, resolvi ir pra Barra cortar meu cabelo com Claudinho, um querido. "Fofo de tirar do lugar". Depois fui almoçar e, na saída do restaurante, meu telefone tocou. Paguei a conta falando e saí ao telefone. A alguns metros da saída, um senhorzinho me cutucou: "Com licença, essa salada é minha." E me dei conta de que carregava uma sacola do restaurante, tão distraída estava. Pedi desculpas e devolvi sua salada. 


Confesso que continuo como que adormecida, mas é um adormecimento que dói, machuca. Faz frio aqui. Fizesse sol, eu iria subir pedra e mergulhar no mar. Mundo muda tudo e cura sobretudo adormecimentos involuntários. Escaladas e mergulhos são escavações. É pegar a matéria de que somos feitos e misturar com terra. Sendo terra, fica tudo bem. Parece que durmo há três dias. Durmo e tenho sonhos desconexos e às vezes penso em você. Mas pensar em você é tão amplo... Como se pensa em alguém? Mas penso. E sonho. Acho que envelheci. O sol de segunda-feira envelheceu minha pele, vejo-a toda marcada. Mas sei que é chuva que envelhece o avesso da pele.


Perdi o voo e as expectativas que tinha para a viagem. Mas sou mestre de reconstrução e amanhã recomeço tudo de novo. Vou, inclusive, refazer a mala, que já não cabe nos planos iniciais. Todo mundo que me conhece sabe que adoro viajar. Talvez até você saiba, mesmo que eu não saiba ao certo quem você é. O que eu não costumo falar é que sempre penso na viagem como uma possibilidade de morte. Tem uma frase que diz que devemos sair como se fugíssemos de casa. Eu saio de casa como se morresse. Juro. Não é por causa da chuva, não. Nas minhas últimas férias, viajei acompanhada. Talvez por isso não pensasse na morte e não sentisse a passagem sólida do tempo. Estranho viajar sem morrer. Na maioria das vezes, eu encaro esse destino possível com tranquilidade. O que sou até agora basta, mesmo que eu busque o infinito. 


Agora a chuva deu uma trégua, embora o céu permaneça todo cinza. Vou aproveitar e sair para comer, de preferência algo quente. E, já que escrevi para alguém, e alguém é tão amplo, imagino que alguém seja leve, talvez as nuvens brancas que andam sobre os morros. E, já que esta carta não vai para os Correios, que suas palavras se dispersem, como se fossem, também, nuvens. E que amanhã venha o sol.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Jonas e a Baleia

Joninhas fotografado por Pietro Feliciano


Tudo que eu sabia, a vida veio imensa e engoliu. Hoje só sei que a vida engole. Qual baleia. Grande, ela, nesse mar. Tudo que eu sabia eu não sei mais.

Às vezes fico olhando pro Jonas, espantando-me com sua vidinha de gato. Jonas sendo engolido pela baleia. Ele também.

Eu o adotei em maio do ano passado, ele tinha então aproximadamente dois meses de idade. Fora resgatado, junto com seus irmãos, por uma menina, dessas que dá gosto saber que existe. Ela, que eu não conhecia, compartilhou foto dos gatinhos, que outra pessoa compartilhou e, na rede, chegou a mim. Pegamos o Jonas porque queríamos uma companhia para o Serafim, o gato cinza de olhos amarelos que tínhamos em casa, e que era sempre tão só.

Jonas chegou assustado, pequenino. Escondia-se sob a pia, o sofá, a máquina de lavar. Eu lhe dei colo e carinho, para que ele encontrasse aconchego. Nas primeiras noites, montei acampamento na sala, para dormir com ele e amenizar o desamparo da casa estranha.

Serafim não o recebeu bem. Rodeava-o hostilmente. Ameaçava atacá-lo. Quando dormíamos juntos, eu e Jonas, o outro se aproximava encolerizado, no meio da madrugada. Ficava ao redor, emitindo sons de raiva e angústia.

Na terceira noite, decidi que Joninhas tinha que se virar. Voltei a dormir no meu quarto.

Na manhã seguinte, um dos amigos que mora comigo apareceu com uma foto: Jonas e Serafim juntinhos, compartilhando cama. Tenho até hoje essa cena como fotografia mental. Mágica. Desde então, os dois tornaram-se amigos. Mais que isso. Irmãos. Serafim era líder. Jonas, como bom irmão caçula, seguia seus passos, seus pulos. Serafim tinha necessidade de independência, ficava na porta a miar, pedindo para sair. Jonas sentava-se a seu lado, lambia-o, como a lembrá-lo de sua presença. Os vizinhos não gostavam, mas às vezes tínhamos dó de Serafim e abríamos a porta. Jonas não saía, mas passava a noite na janela, a esperá-lo. Serafim passava a madrugada fora. Quando resolvia voltar, já quase de manhã, Jonas estava em alerta. Ia miar em frente ao meu quarto, para que eu abrisse a porta para o irmão.

Os dois andavam juntos pela casa. Era uma parceria bonita. Jonas sentia-se tão protegido por Serafim, que não queria saber de amor humano. Fugia de nossos abraços e mãos grudentas. Era muito amoroso, ele. Mas todo amor que ele tinha era direcionado a um só ser: o gato cinza de grandes olhos amarelos, seu guia e protetor.

Éramos, em casa, quatro pessoas livres e dois gatos presos. Um ao outro, inclusive. E, como éramos livres e cada qual tinha seu caminho, chegou a hora de discutir separações, bens e dessas coisas de divórcio, que nada têm a ver com amor. No meio disso tudo, surgiu a questão: quem ficaria com os gatos? Entramos numa quase unanimidade de que, não importava onde eles ficassem, não deveriam ser separados. Uma das pessoas não concordou. Foi ela quem, ao ir embora, levou consigo o Serafim.

Jonas sendo engolido pela baleia, e eu espantada, tão impotentes que somos perante a vida.

Ele que construiu sua vidinha de gato em torno desse irmão mais velho, companheiro de brincadeiras e explorações pela casa. Ele que se viu diante da ausência súbita. As despedidas felinas não são preenchidas de cartas, visitas, telefonemas para matar a saudade. Serafim tornou-se vazio, apenas.

Mas também não são assim as nossas despedidas humanas, aquelas reais?

Foi nesse período de um Jonas cabisbaixo e constantemente escondido que fui viajar. Passei quase quarenta dias fora e, quando voltei, tudo em casa parecia mudado. Quando abri a porta, apareceu Ringo, um cachorro simpático e orelhudo, latindo pra mim. Subi as escadas e me deparei com outro novo morador: Xavier, um gato que se pensa cachorro, com boca arfante constantemente aberta.

Vi Jonas hostilizar Ringo, por sua natureza canina, e tentar encontrar Serafim neste novo gato que chegava. Mas Xavier é Xavier. É sempre outro, mesmo que com doçura.

Às vezes Jonas aproxima-se de Xavier, procurando a mesma proteção. Este o morde, simplesmente porque neste momento não está a fim. Depois caminham juntos, depois se lambem. Penso que também é amor, porém outro. Ambos se unem contra Ringo, o cachorro. Inicialmente, sentiam-se ameaçados. Acredito que hoje sejam inimigos por esporte. Talvez também seja amor. Mas outro. Sempre outro.

Eu, que tanto fui Jonas, observo-o com espanto. É assim assustadora a inevitabilidade das mudanças e a inexorável falta de controle que temos perante essa baleia imensa.

De tudo que se tem, hoje só tenho esse pasmo.

Só sei que a vida engole...