quarta-feira, 28 de março de 2012

O ponto onde as ruas mudam de nome


Estou aprendendo a andar em Niterói. Quer dizer, aprender a andar em Niterói é exagero. Estou aprendendo a andar da Estação das Barcas ao campus onde tenho aulas, no Ingá. Tento dar cada vez menos voltas e perguntar menos vezes o caminho. Quem conhece meu senso de direção sabe que não é tarefa fácil. Às vezes preciso prestar atenção às ruas e placas, eu que ando sempre em outro mundo.

Outro dia parei em um cruzamento, a ler os nomes das ruas. Eram duas ruas que se cruzavam, mas, a partir daquele cruzamento, cada uma tinha um nome diferente. Sorri diante da minha constatação, mesmo que aquilo nada significasse: "Então é aqui! O ponto onde todas as ruas mudam de nome!" Era como se fosse um portal, uma senha, um acesso mágico, sabe-se-lá para onde.

Quando crianças, eu e minha irmã saíamos pelas ruas brincando de, quer dizer, brincando não. Sendo detetives. Com uma lupa em mãos íamos analisando as calçadas, as árvores, os edifícios. E de repente nos detínhamos em um detalhe qualquer e gritávamos, triunfantes: "Olha! Uma pista!" Mesmo sem saber o que buscávamos. E foi assim, com o mesmo triunfo, que anos e anos depois eu encontrei aquela pista: O ponto onde todas as ruas mudam de nome.

Voltando um pouquinho no tempo...

Eu tive um professor, no curso de teatro, chamado Lourival Prudêncio, mais conhecido como Lolô. Nunca esqueço sua primeira aula, em que todos meus colegas chegaram cedinho e puseram-se a falar sobre o novo professor: que ele não permitia atrasos, que era assustador, que a aula era pesada, etc. E eu me lembro de recebê-lo com um misto de excitação e de medo: aquela figura tão ímpar, baixa, morena e muito forte, que ditava suas regras com seu jeito imponente. E eu me lembro tão bem do respeito que, já no primeiro dia, eu passei a lhe devotar, não pela imponência, mas pelo entendimento que se fez em mim sobre a arte de atuar, logo naquela primeira aula.

Lolô nos pedia que ficássemos concentrados em determinada posição, incômoda, mas que não desistíssemos: "Vai dar vontade de coçar, vai dar vontade de sentar, vai dar vontade de mexer. Vai doer. Mas permaneça na posição." E explicava: "O corpo do cidadão procura conforto. Se dá fome, ele come. Se dá cansaço, ele descansa. Se a posição está incômoda, ele se acomoda. O ator é o contrário. O espaço do ator é o espaço do desconforto." E dava vontade de coçar. Dava vontade de sentar. Dava vontade de mexer. Doía. E eu permanecia. Em seguida, quando íamos fazer alguma cena, algo tinha acontecido. Porque a disciplina, o desconforto, a concentração tiravam de mim alguma coisa que eu não conhecia. E que era minha. Esse revirar, desenterrar as camadas.

Arte. Lolô me deu esse entendimento. E, junto com suas aulas, em que eu tanto aprendia, tinha também aquela presença bruta, em que fui descobrindo uma doçura e uma humanidade que pulsavam junto com os tambores, trilha sonora em nossas atividades. Dava vontade de ter um Lolô de bolso. Como um bonequinho exótico para colocar na estante e contemplar. E, de vez em quando, tirar da prateleira e dizer: "Me ensina, Mestre?" Um guia.

Um dia descobri que trouxe, sim, Lolô no bolso. Não só para me guiar na arte, mas também para me guiar na vida. Sempre que eu me cansava, sempre que eu tinha vontade de parar, me vinha à cabeça sua voz: "O espaço do ator é o espaço do desconforto." Ele falava de teatro. Mas eu descobri em minha atriz uma pessoa melhor. E levei a artista para a cidadã. Isso me fez compreender as crises como necessárias. Aceitar os vazios. Suportar as dores. Apaziguar-me diante do não-entendimento. Porque o caminho conhecido só te leva a outro caminho conhecido. E o desconhecido é sempre desconfortável. Eis a chave: o ponto onde todas as ruas mudam de nome.

Por isso, quando o caminho é áspero ou íngreme, eu me digo: continua. Quando me dou conta do cansaço ou da dor, eu repito: continua. Quando tenho medo, permaneço: continua, continua. Levo isso para as pequenas coisas: as formiguinhas e insetos que andam sobre a minha pele, fazendo cócegas, e não expulso mais do corpo. E para as grandes coisas: os abismos emocionais. As portas que passei a abrir e que me levam a estradas desconhecidas. Por essa lição sou profundamente grata ao Mestre, Lolô, meu guia de bolso. Pelo aprendizado do desconforto.

Porque é preciso que as ruas mudem de nome, para que a gente se perca e descubra caminhos inexplorados. As nossas matas fechadas.


sábado, 17 de março de 2012

Uma feijoada


Uma boa feijoada é brilhante e homogênea. Ela deve ter o equilíbrio certo de gordura, para que, apesar de brilhar, as coisas não fiquem separadas, mas se misturem em uma coisa só - assim me explicou um amigo. E era bonito ouvi-lo falar desse prato, porque ele tem esse talento pra misturar comida com metafísica. Então é assim a feijoada perfeita? Soava como o mundo ideal. Nós, com nossos pedaços de carne diferentes, unidos em equilíbrio, em uma coisa só. É esse o mundo com que sonho: uma feijoada.

E nos reunimos em torno dela para celebrar os encontros. Porque dois amigos partiam para um início de vida em nova cidade. E, naquela manhã, a avó de uma grande amiga-irmã partia, também. Mas daquela partida maior. Então segui um dia inteiro em câmera lenta, porque era preciso delicadeza no viver, era preciso falar baixo e respeitar o ritmo das coisas breves, infinitas em sua impermanência.

E, quando o sol se pôs, abri as portas de casa. E as pessoas foram chegando, com suas vozes, suas risadas, sua bebidas. E eu confesso que ainda estava meio tonta, de tanta partida. Ela, uma amiga francesa, que vinha de uma longa busca. E ele, um amigo que dizia que estava resolvendo sua relação com o Rio de Janeiro e que fora eu quem o ensinara a ser mais carioca. Não preciso dizer que minha missão fora tão fracassada, que agora ele partia.

As despedidas nada mais são do que o reconhecimento do encontro. Por isso era preciso que estivéssemos ali, celebrando juntos esse eterno movimento do mundo. E era absolutamente necessário que fosse em torno de uma feijoada. Para que não nos deixemos iludir pelos pedaços de carne e tenhamos sempre essa certeza: somos uma coisa só. Apesar das partidas, ilusórias.

Porque brilhamos.

domingo, 4 de março de 2012

Havaianas


(ao meu irmão grego, no dia de sua partida)

Eu gosto dos seus pés que andam mundo em chinelos de dedo, com essa bandeirinha do Brasil. Eu gosto dos seus pés em havaianas, pés que caminham e não temem os caminhos. Os seus pés que te trouxeram até aqui (e neste momento quase plagio Neruda, mas fazer o quê, se é exatamente isso o que preciso dizer?). E, mesmo que eu te mande pro chuveiro porque seus pés estão imundos, eu gosto dos seus pés empoeirados. Gosto sobretudo da poeira. Gosto de quem se deixa sujar.

Eu gosto quando você fala grego, porque acentua o quanto nós falamos a mesma língua, nesse entendimento, o outro. Gosto do fato de você ter vindo de longe e me guiado por aqui, nas minhas estradas. Dos rituais diários de "bom dia" e "boa noite". O Toddynho, o Guaraná. As caminhadas noturnas do meu açaí e seu cigarro. Eu gosto de ter te encontrado por acaso numa festa, do pinhole e das risadas. Da conversa homérica e abissal assim que nos olhamos novamente. Da identificação inevitável. Do impulso do lançar, escancarar, abrir, viver. E da coragem, da coragem, da coragem.

Gosto de você acampado na minha sala. Do colchão compartilhado com todas as visitas, o colchão mais frequentado no Carnaval. De quando você acordava falando espanhol. De quando você dormia ao computador. Das viagens de metrô em que eu me perdia em meus pensamentos e você sabia que eu pensava em coisas boas e bonitas, porque não conseguia esconder o olhar distante e o sorriso bobo no rosto. E eu te pedia pra parar de ler minha mente. E todas essas coisas que se passavam em mim, a beleza, o amor, o movimento e seu súbito entendimento, tudo isso era mais bonito porque eu tinha um irmão ao lado.

Eu gosto do seu jeito de transitar entre as idades. De como seu rosto, de homem mais velho do que é, subitamente se iluminava e ganhava ares de menino de oito anos de idade, bastava um sorriso com uma encolhida de ombros. Gosto de você em camisa verde-xadrez. De chegar em casa no meio da noite em silêncio, para não atrapalhar seu sono. De quando eu me arrumava para sair e você abria um sorriso que tornava o elogio completamente dispensável.

Eu não gosto de ver a casa agora assim: vazia de você.

Mas gosto de pensar que suas havaianas continuam te (e)levando por aí, nesse mundo de irmãos.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Complexo do Alemão


Parece mais complexo do que é, esta coisa de andar com fé. E é sempre tão simples.

Desde sempre me perguntam: "Você não tem medo?" De subir no muro, de fazer intercâmbio, de mudar de cidade, de viajar sozinha, de ser assaltada, de brincar com onça, de comer na rua.

E, quando respondo que tenho anjos da guarda e que nada de mal me acontece, olham-me com cara de "espere até alguma coisa acontecer com você!" Mas eu não espero, eu continuo me lançando e sorvendo.

Ontem eu e um amigo tiramos o dia para visitar o Complexo do Alemão. Paramos no ponto, na Lapa, e perguntamos que ônibus deveríamos pegar. "Vocês vão ao Complexo do Alemão?!! Não façam isso, lá é muito perigoso!" - as pessoas do ponto se mobilizavam para nos alertar. Entreolhamo-nos e ficamos a esperar o ônibus. Temos isso em comum: os pés descalços e a confiança de que o mundo é nosso semelhante. Por isso fomos.

Descemos em Bonsucesso, onde há um teleférico imenso, inaugurado alguns meses depois da pacificação da favela. A passagem custa um real e o passeio proporciona a emoção de se flutuar sobre aquela infinitude de barracos, com direito a nuvens, mar e Igreja da Penha. Descemos em uma das últimas estações e nos pusemos a caminhar nas ruas estreitas de casas empilhadas, subindo e descendo ladeiras.

Logo no início da caminhada, um garoto começou a nos fazer perguntas, curioso. Daniel, seu nome. Começamos a conversar e, quando vi que ele continuava nos seguindo, nomeei-o nosso guia. Ele aceitou a função, orgulhoso, e disse que nos levaria a conhecer o campo e a árvore. No caminho, parávamos para conversar com as pessoas sentadas nas ruas, que sempre nos sorriam e cumprimentavam. Um senhor me mostrou seu dente, o último que tinha na boca, explicando que às três da tarde Fulana iria à sua casa arrancá-lo. Perguntei se ele tinha medo da dor, ele respondeu que era tranquilo, pois o dente já estava mole mesmo. Dócil como as crianças que trocam a dentição.

E fomos subindo e descendo ladeira, parando de vez em quando para trocar gentilezas com as pessoas que encontrávamos. No nosso cotidiano burguês, usamos o termo "gentileza" para nos referirmos a palavras e gestos elogiosos ou de superficial delicadeza. Naquele contexto, entretanto, ser gentil era uma abertura que... como explicar? Uma alegria do encontro. Um reconhecimento.

A certa altura, Daniel nos apontou uma árvore: um pé de fruta-do-conde. Meus olhos brilharam. Ele foi trepando nos galhos e eu fui atrás. "Essa está boa, Daniel?" "Não, esta está verde." "Mas como faço pra diferenciar?" "Sente o cheiro!" Abrimos uma fruta e compartilhamos, nós três. Daniel mal queria comer, queria subir na árvore e nos presentear com seus frutos doces, doces. "Já chega, a gente nem consegue comer tanto, Daniel, desce daí!"

Então apareceu Dona Rosália, da casa em frente, dizendo que queria tirar foto conosco. Logo estávamos no quintal de sua casa, sendo apresentados a todos os pés de fruta: o limoeiro, o abacateiro, a goiabeira. Sua filha carregava um neném pretinho, de lindos lábios carnudos, que batia palmas e sorria, sempre que cantávamos "parabéns pra você". Sua nora carregava também um bebê, na barriga. "Você está grávida de quanto tempo?" "Três meses." "Já sabe o sexo?" "Acho que é menino, pois ele mexe muito." "E o nome?" "Lucas." "E se for menina?" "Acho que é menino mesmo". Dona Rosália saiu, sob nossos apelos, para comprar guaraná para nos servir. Ela sente falta de São Paulo, onde vive sua família, e diz que voltará, em nome de Jesus. Ela nos mostra sua casinha sem pintura, diz que quer arrumá-la, colocar uma televisão grande e uma mesa em um cômodo em que mal cabe uma pessoa. Mostra o quadro pintado por seu filho, seu retrato dentro da bíblia e leva-nos para apreciar a vista da laje. Diz que faz faxina em casa de madame e em hospital, mas no momento está desempregada. Se eu souber de alguma coisa... Anoto seu número e sigo, seguimos. A essa altura já perdemos nosso guia, Daniel, nesse mundo imenso de ladeiras e barracos.

Mas encontramos duas meninas sorridentes, eu me sento ao lado delas, meu amigo fotografa. "Vai pro jornal? Vai aparecer na tv?" Ficamos conversando, três meninas. "Sua chapinha não sai com esse calor?" "Eu não estou de chapinha, meu cabelo é assim." "Caraaacaaaa!!!!! Olha o cabelo dela!!" Elas fazem uma festa. Justifico explicando que sou chinesa. Por algum motivo, uma delas começa a me contar que lá muitas meninas engravidam cedo: "Tenho uma amiga de 12 anos que teve gêmeos". Pergunto suas idades, uma tem 12, a outra tem 10. Despeço-me dizendo-lhes que não engravidem tão logo.

Encontramos um campinho, onde meu amigo tira os chinelos e se joga a uma partida de pelada, com os moleques, todos igualmente descalços e contentes, indiferentes aos policiais armados da UPP. Muitas escadas. Subidas e descidas, vamos escolhendo os trajetos. Num beco, um grupo de crianças pequenas brincando, os adultos a um canto. Meu amigo começa a fotografar, elas dão risadinhas envergonhadas. Os pais apontam: "Olha, ele está tirando foto do garoto!", orgulhosos. Uma menininha se aproxima de mim. Agacho-me e ela se aproxima muito, quase me abraça. "Ana Clara, seu nome? Que cabelo lindo!" Ela diz que sua tia da creche fez seu penteado. As outras crianças me rodeiam, mexem no meu cabelo e eu peço-lhes que façam um penteado bem bonito. Estamos absorvidos pela presença uns dos outros. Meu amigo me chama para seguir, saio saltitando, acenando com as mãos e gritando "tchau", com a criançada toda saltitando atrás de mim, no mesmo gesto, "tchau!" "tchau!" "tchau!"... Viro-me novamente, agacho-me e abro os braços. E de repente estou rodeada de crianças, em um grande bolo, até desequilibrarmos e cairmos no chão e ficarmos assim deitados dando risada, nessa súbita percepção de quão grandes somos, nós e o universo.

Ali as crianças ainda brincam nas ruas sem medo. Os vizinhos se conhecem e se cuidam reciprocamente. Ali as pessoas têm rosto e nome. São humanas, são gente, são pessoas. E não estão separadas pelo abismo do dinheiro.

Nunca me senti tão em casa no Rio de Janeiro, como nesse lugar a que tantos me aconselharam a não visitar. Nunca me senti tão humana, tão puramente humana, despida dos excessos de identidade que nunca me definiram.

Nunca me senti tão definitivamente inseparável dos outros que também são humanos e tudo e toda essa sopa de mundo que compomos.

Gente não tem que ter medo de gente, confirmei ali, no Complexo do Alemão.

Parece complexo. Mas é tão simples...


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Vazia

Entre as tantas que gostávamos de pintar, bordar e inventar, um dia resolvemos fazer um quadro de tinta salpicada. Aprendemos a técnica no volume XII do livro "O Mundo das Crianças", que marcou a infância de ambas. Uma das tantas coincidências que nos ligava, além de sermos pó das mesmas estrelas. A técnica consistia em salpicar tinta na tela, utilizando uma escova de dentes e um palito de picolé. Definíamos as figuras com papéis cortados. E ali estávamos nós: meninas de saia feitas da matéria do vazio.

Foi ela quem me explicou o vazio. E, desde então, tem sido muito mais fácil seguir sem susto. E, quando o reconheço e o deixo ser, então ele paradoxalmente deixa de ser. Isso foi ela quem me ensinou. Mas também é ela quem tem as tintas para preencher o espaço em branco de beleza e de sentido. Ela tem esse ponto de interrogação estampado no rosto de criança-filósofa-poeta. Tem a exclamação e as reticências. As palavras e as pausas. Ela é a criança dos "por quês", que não entende por que o mundo é este e não os outros possíveis. Porque vem dela esse senso de justiça e de beleza. Esse questionamento. A indignação. Isso eu admiro profundamente.

"Eu costumava ser mais esperta" - eu às vezes lhe dizia - "mas agora estou convivendo muito com você. A culpa é sua." Ela retrucava: "Ah, Lian, você sempre dá rata, pena que eu nunca consigo me lembrar!"... Sim, eu já fora mais esperta. Eu era esperta de palavras e certezas. Mas com ela aprendi um outro tempo. Aprendi que, quando não estamos completos, podemos ser preenchidos, esvaziados e transformados infinitamente.

É por isso que acredito nela. E, porque acredito nela, acredito em pessoas como ela. E, porque acredito em pessoas como ela, acredito em um outro mundo possível, pulsante, prestes a nascer.

Que lhe sejam dadas as tintas, as escovas de dentes, os palitos de picolé.

Eis alguém que sabe de quantos vazios é feita a matéria do Amor.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um Mágico


Eis que um dia me falaram desse médico: um homeopata mágico. Mágico? É disso que preciso. Lá fui eu marcar consulta. E, quando me perguntavam para que, exatamente, eu ia ao médico, eu respondia que, se ele era mágico, não precisava de uma razão específica, eu apenas lhe pediria que resolvesse todos os meus problemas. Porque na medicina ocidental eu não acredito muito, mas em mágica eu acredito. Cegamente assim.

De preferência que ele tivesse uma grande cartola e tirasse um coelho de dentro. E, se ele me pedisse para levar para casa e cuidar de um coelho branco, então todas as minhas questões seriam magicamente resolvidas. Talvez eu só precisasse de um ser menor e mais frágil para amar incondicionalmente. As outras pessoas que se consultaram com ele saíram grávidas. Pra mim um coelho bastava.

Liguei para sua secretária e consegui consulta para três meses depois, apenas. No dia esperado, agenda em mãos, toquei a campainha. Ela me abriu a porta.

- Oi, marquei consulta com doutor fulano de tal.

- Não. - ela me respondeu secamente.

Essa mulher é louca - pensei - E agora, que devo fazer numa circunstância dessas?

- Marquei sim. - respondi sabiamente.

- Não. Qual seu nome?

- Lian.

- Sua consulta era de manhã.

- Minha consulta é às 16h.

- Eu até te liguei semana passada para confirmar!

- Não interessa, essa consulta está marcada para 16h há três meses!

- Olha, eu vou te mostrar na minha agenda.

- Não, eu vou te mostrar na minha agenda!

E, toda cheia de razão, aponto-lhe minha agenda, na qual está escrito: "10h". Levanto a cabeça, desconsolada, e lhe digo:

- Desculpa, moça. Eu estou louca.

Acho que ela sentiu pena ou medo da minha loucura, pois logo tornou-se dócil:

- Está tudo bem, isso acontece.

Marcamos outra data. Desta vez só para o ano que vem, que já virou o ano de hoje.

Volto de férias um dia antes, resmungando por ter de voltar à cidade maravilhosa, que nessa época nunca me parece tão maravilhosa assim. Pego um ônibus e um táxi, para chegar ao seu novo consultório, no Recreio. Fico hipnotizada por uma escultura em sua mesa: uma mulher sendo puxada de um lado pela figura da morte e de outro por um médico. É meio assustadora a escultura. Procuro o consolo infantil do mágico com cartola, mas não o encontro.

Ele pergunta por que o procurei. Esperança é uma resposta válida? Se eu lhe disser que tenho esperança no mundo e nos homens e que quero que tudo fique bem... será que isso ele pode fazer por mim? Em vez disso, começo a enumerar os problemas de saúde: a rinite alérgica, o cansaço. Ele quer saber quem eu sou. Faz pergunta atrás de pergunta e deve estar confuso com minhas respostas nada objetivas.

- Você é autoritária?

- Olha, o teste do Adorno que a mulherzinha aplicou na aula falava que eu era a pessoa menos autoritária da turma. Mas as pessoas me entendem mal, sabe? Elas pensam que eu sou autoritária porque sou muito seca e direta. Por outro lado, não sou nada autoritária em termos de valores, sou muito relativista...

- Então quer dizer que você manda, mas não suporta ser mandada.

- Hum... é....quer dizer...

- Quais são seus medos?

Como lhe falar da solidão que não tem a ver com falta de companhia, mas com o abismo da incomunicabilidade? Como explicar os abismos?

Fico em silêncio. Ele tenta facilitar:

- Vou te dizer uma lista de medos, aí você me diz se tem algum: Medo de altura? Medo do escuro? Medo de bichos? ...

- Não, não, não e não. É outro o meu medo de escuridão.

Acabo me passando por uma mulher valente, apenas porque meus medos não seguem listas. Mas gosto de espaços abertos, de lugares amplos, de ar fresco, tento acrescentar.

No fim da consulta, ele me receita um papelzinho: argentum titanium. E pede que eu não o aproxime de aparelhos celulares e outras coisas com eletricidade.

- Por quê?

- Porque ele tem energia.

Alguns dias depois, me percebo sem crises alérgicas e enxaquecas. Bendito médico mágico sem cartola, mas com energia!

Então de repente uma tarde de inverno em pleno verão carioca. Porque chove e o céu é de um escuro nublado. E eu percebo que não fui curada da melancolia da tarde sem luz. Tire isso de mim! - eu quero pedir ao médico. Será que eu me esquecera de lhe contar que o que eu mais quero é luz? Que não há nessa tarde fria. E, porque a chuva me prende em casa, sem parques, mares ou bicicleta, eu começo a chover por dentro também. E eu tento conter as lágrimas e me distraio com um livro de Lygia Fagundes Telles na China. Ela do outro lado do mundo, em plena década de sessenta. E eu hoje em casa. E, porque há movimento na cozinha, eu me lembro de repente de alguém que nunca lembro, em uma tarde assim, na cozinha de uma casa em uma cidade qualquer, muitos anos atrás:

- Deixa que eu lavo a louça - eu lhe disse - enquanto você vai arrumar as malas.

Ele me entregou a esponja com um beijo no rosto e disse, como que despercebido:

- Obrigado, linda. Eu te amo.

Pela primeira vez ele falava em amor. E quando meses depois o meu acabou, eu justifiquei contando sobre essa frase que ele nunca me dissera. Ele respondeu:

- Disse sim. Aquela tarde, na cozinha, você deve ter ouvido alguma coisa.

Eu fingira que não, porque cismei que um "eu te amo" dado assim, entre louças e malas, não valia.

Será que algum médico há de curar minha melancolia de chuva? E meu medo do amor, essa escuridão?


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um outro encontro

Ela está encolhida sob o piano. Como um indiozinho, tem o cabelo muito liso cortado em cuia. "É menina ou menino?"- alguns perguntam, quando vêem-na pendurando-se sobre os galhos das árvores ou correndo descalça pela calçada. Hoje sua fragilidade entrega: É menina. Porque sei que tem medo, aproximo-me devagar. É preciso que ela veja que também sou criança, para que ela não fuja. Somos bichos, eu e ela. Piso devagar e cuido para que a respiração quase ofegante saia silenciosa. Basta um gesto mais brusco para que desabemos precipícios de medo. Somos bichos. Arbitrariamente jogadas na selvageria do mundo dos homens. Sento-me ao seu lado:

- Eles não vão te levar - digo, tentando confortá-la.

Ela me olha espantada. Nunca contara seu medo. A ninguém. Seu mundo nunca coubera no mundo dos outros.

-Eles. As pessoas da creche. Eles não vão te levar. - repito.

Seus lábios tremem, como indecisos entre rir ou chorar.

- Pode chorar. Eu também choro.

- Você também? Mas você não é adulta?

Não sei o que responder. Sou?

- Talvez. Mas eu choro.

- Pensei que as pessoas, quando crescessem, aprendessem a controlar o choro.

- Eu também pensei. Mas veja só: não aprendi. E sabe o que mais? Você também não aprenderá.

- Mas, quando eu choro, eu sempre levo bronca.

- Não é você quem está errada.

- Eu sei. Porque não é de propósito. E quanto mais me mandam calar, maior é a força...

- Um dilúvio.

Entreolhamo-nos. A imagem do dilúvio reverberando. Somos pequenas para contê-lo. Precisamos chorar, eu sei.

- É como aquele dia, em que ela partiu.

E, porque falamos a mesma língua de bicho, não é preciso que ela saiba quem sou, ou que entenda. Nós nos entendemos.

- Sim, é como aquele dia. - ela concorda - Eu não conseguia parar de chorar. Foi o dia em que minha mãe foi embora. Ela me explicou que tinha que ir pro Rio de Janeiro fazer doutorado. E disse que vai voltar.

- Mas dói, né?

- Dói. Doía tanto que eu não conseguia dormir sozinha, por isso eu fui pra cama da minha irmã. Mas eu chorava muito, sabe?

O dilúvio, eu pensava. Eu sei.

- Mas acho que meu pai pensou que eu e minha irmã estávamos brigando, porque ele entrou no quarto e me mandou voltar pra minha cama. - ela continuava - Mas eu continuava chorando e continuava doendo. E doía tanto a falta, que era insuportável estar sozinha. Por isso eu voltava sempre pra cama dela.

- E o meu pai, quer dizer, seu pai... sempre te mandava de volta pra sua cama.

- Eu queria explicar que não estávamos brigando, que eu chorava porque estava triste, porque minha mãe tinha ido embora, porque sentia saudades...

- Mas quer saber? Hoje acho que talvez ele soubesse. Quer dizer, não que ele soubesse, mas talvez ele não pensasse que vocês estavam brigando...

- Então por que ele me mandava pra minha cama?

- É que os adultos também são crianças. É que talvez essa dor que era sua também fosse dele. E talvez a única coisa que ele pudesse fazer fosse mandar a dor de fora se calar, ou sair de seu lugar, já que aquela, que era a dele, não obedecia.

- Eu não entendo.

- Nem eu entendo direito. Mas é que a gente pensa que os adultos sempre têm uma razão em suas atitudes. Mas eles são como nós. Eles também não entendem. A falta também dói neles, como dói na gente.

Vejo confusão em seus olhos. Ela tem apenas sete anos de idade. Ela confia que exista uma lógica no mundo dos adultos, tão distante do seu. Mas eu, que estive lá, preciso lhe contar do que vi. Porque ela tem sua lente própria. Porque seu universo tem esperanças e medos e sonhos e monstros e um imenso desamparo. Porque, se ela dissesse temer bicho-papão, qualquer adulto lhe diria que ele não existe. Mas ela não abre, Pandora às avessas. Ela não fala. Ela sobe em árvores e se esconde sob o piano, apenas.

- Lembrei de algo que preciso lhe dizer.

Ela me olha curiosa. Continuo:

- Se você engolir semente de laranja, nada vai lhe acontecer.

- Mas meu pai disse que um pé de laranja iria brotar na minha barriga.

- Era uma piada. Ele não achou que você acreditaria e muito menos que choraria de medo sempre que engolisse uma, imaginando uma laranjeira crescendo em você e explodindo seu cérebro.

Ela que confiava no mundo dos adultos.

Eu estive lá e voltei. Somos tão iguais. Estamos caladas, pensativas, quando ela interrompe o silêncio, retomando nosso primeiro assunto:

- Você disse que eles, as pessoas da creche, não vão me levar.

- É verdade.

- Você tem certeza? Eu acho que eles querem me levar pra morar na creche, já que minha mãe foi embora. Sempre que eles chegam meu pai fica chateado.

- Essa creche não é para você, é para crianças carentes. Eles são da LBV, vêm apenas recolher doações.

- Não são mensalidades?

- Não.

Quisera eu que, vinte e dois anos atrás, alguém tivesse me explicado isso. Pouparia uma infância inteira do constante medo da partida. Vejo o alívio em sua face:

- Ufa! Agora sei que ninguém vai me levar embora daqui...

- A creche não vai te levar embora. Mas eu vou.

Saio puxando-a pela mão. Ela vem sempre comigo. A criança e seu eterno pátio de desamparo e ilusões.