Entre as tantas que gostávamos de pintar, bordar e inventar, um dia resolvemos fazer um quadro de tinta salpicada. Aprendemos a técnica no volume XII do livro "O Mundo das Crianças", que marcou a infância de ambas. Uma das tantas coincidências que nos ligava, além de sermos pó das mesmas estrelas. A técnica consistia em salpicar tinta na tela, utilizando uma escova de dentes e um palito de picolé. Definíamos as figuras com papéis cortados. E ali estávamos nós: meninas de saia feitas da matéria do vazio.quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Vazia
Entre as tantas que gostávamos de pintar, bordar e inventar, um dia resolvemos fazer um quadro de tinta salpicada. Aprendemos a técnica no volume XII do livro "O Mundo das Crianças", que marcou a infância de ambas. Uma das tantas coincidências que nos ligava, além de sermos pó das mesmas estrelas. A técnica consistia em salpicar tinta na tela, utilizando uma escova de dentes e um palito de picolé. Definíamos as figuras com papéis cortados. E ali estávamos nós: meninas de saia feitas da matéria do vazio.domingo, 29 de janeiro de 2012
Um Mágico

Eis que um dia me falaram desse médico: um homeopata mágico. Mágico? É disso que preciso. Lá fui eu marcar consulta. E, quando me perguntavam para que, exatamente, eu ia ao médico, eu respondia que, se ele era mágico, não precisava de uma razão específica, eu apenas lhe pediria que resolvesse todos os meus problemas. Porque na medicina ocidental eu não acredito muito, mas em mágica eu acredito. Cegamente assim.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Um outro encontro
Ela está encolhida sob o piano. Como um indiozinho, tem o cabelo muito liso cortado em cuia. "É menina ou menino?"- alguns perguntam, quando vêem-na pendurando-se sobre os galhos das árvores ou correndo descalça pela calçada. Hoje sua fragilidade entrega: É menina. Porque sei que tem medo, aproximo-me devagar. É preciso que ela veja que também sou criança, para que ela não fuja. Somos bichos, eu e ela. Piso devagar e cuido para que a respiração quase ofegante saia silenciosa. Basta um gesto mais brusco para que desabemos precipícios de medo. Somos bichos. Arbitrariamente jogadas na selvageria do mundo dos homens. Sento-me ao seu lado:sábado, 14 de janeiro de 2012
Intersecções

Eu confio mais nas pessoas que gostam de crianças e bichos. Eu confio em quem sabe se apequenar, porque quando a gente encolhe em poder, a gente amplia em amor. Não sei de nenhum outro caminho, senão o de ser mais mundo do que gente. Engraçado isso, de ser menos eu para que um outro eu tenha espaço. Esse alargamento.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Hoje é Natal

Apesar de seu bom português, minha mãe, nas conversas cotidianas, traz um vício de sua língua materna: ela ignora o tempo verbal pretérito e conta todas as histórias no presente. De forma que se misturam os anos, as ações, as gerações. Às vezes a pego contando sobre meu avô, por exemplo, que faleceu quando eu ainda era criança pequena: "O seu avô é muito exagerado. Quando eu falo que quero comer alguma coisa, ele compra uma caixa inteira." Nós a corrigimos: "Ele não compra, mãe, ele comprava. Você fala como se ele ainda estivesse vivo".
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A um menino de skate

(Da pequena menina balinesa ciclista. Da doce chinesa de olhar distante. Da menina dos sonhos e signos. Da menina das bolinhas. Da menina saída dos filmes de Kar Wai Wong.)
Já havia tempos que o tempo havia me dito sobre as novas trilhas a seguir. Mesmo que vislumbrássemos um no outro as nuvens e pérolas... faltaram as frestas. Eu não encontrei mansidão nas águas para o mergulho, como você não deve ter encontrado as pedras da escalada. Assim é. E, se assim é, assim deve ser.
Foi bonita a estadia mesmo que breve, brevíssima, em Paraisópolis. Foi bonito você ter passado pela vila de skate e ter aberto as portas da muralha que construí. Porque eu saí de lá outra e reaprendi a manejar as entradas e saídas. Aprendi a aceitar invasões, ainda com susto, mas sem as tantas pedras na mão.
Há tempos que o tempo me diz sobre isso: um novo tempo. As portas que você me abriu para que eu saísse assim, desorganizada. É que cada pessoa é um ladrilho, um pedacinho do caminho para nos ajudar a ir não sei aonde. Não sei aonde vou, mas sei que um tempo atrás vim desse susto: você. Um tombo. Um esbarrão entre uma menina descalça e um poeta de skate. Desse breve encontro nasceu uma cidade, Paraisópolis. Nasceram fogueiras e bandeirinhas, talvez porque fosse junho. Talvez porque fosse frio.
Mas talvez nunca é o que é, apenas. E o que é foi um vento descompassado, que assim deveria ser. Porque as minhas pedaladas apressadas te arderam em febre. E a tesoura com que modelei seus cabelos te deu uma face que não era sua. E porque ambos nos alimentamos de uma escuríssima doçura, ou de uma dulcíssima escuridão. E trazemos esse movimento, esse eco do início de tudo. Nós dois conhecemos o abismo e talvez por isso o recuo, um pé que sempre insistiu em fincar-se no chão.
Nisso somos iguais: merecemos que, se nos tocarem, que seja para vibrar. E seguimos em frente quando nossos dedos e nossas cordas deixaram de produzir as ondas que balançam o mundo. Mesmo que em algum canto ainda reverbere aquele momento, lá atrás, em que cantamos em uníssono.
Não nego que coração silenciou um minuto inteiro ao ler suas palavras, que já eram minhas. Recolho o silêncio e sigo as estradas. Desejando que em sua nova escalada haja sempre onde se agarrar. Que ela te eleve. E que você encontre as nuvens, aquelas já conhecidas. Mas já outras.
Te vejo no palco. Te vejo no alto, sempre. Te aplaudo.
Mando um beijo do elefante marinho.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Caos

Comprei um par de havaianas com olhos turcos, para espantar o mau olhado. Um vestidinho branco e esvoaçante, para que fosse leve. Chovia. Eu fui desviando das poças e tomando cuidado para não sujar o branco de um ano novinho em folha, que começava ainda puro.