quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Reinvenção

Quando peguei a tabela com a programação, resmunguei: Quero férias! Não quero fazer aula de maquiagem! Não quero comprar pancake! Não quero pintar o rosto! Não quero!!!!!

Então ninguém entendeu quando, sem pintura nenhuma, minha feição mudou completamente ao ver a professora entrar na sala. Era a agitação com os espelhos, com o lugar na mesa montada, a novidade. Eram as cores, os volumes, os desenhos.

E logo eu estava me melando de maquiagem e atormentando a professora com meus "e agora?", louca para chegar à próxima etapa. Verdade é que ando cansada de ser instável por dentro e estável por fora. Ter este rosto perenemente igual, que me mortifica como alguém que não sou. Quero me reinventar. Não, não é isso. É que, ao redesenhar o meu rosto, eu não acrescento camadas, eu tiro excessos. Aqueles que devem ser tirados para que apareça a escultura, a forma que existe e que se esconde.

É porque eu sou mutável. É porque eu amo, desamo e amo de novo. É porque eu choro e rio, eu chuva e mar. É porque eu me canso com o mesmo furor com que agarro, eu me amarro e fujo. E escapo entre dedos. Entre os meus finos dedos.

É por isso que me surpreendo ao me fazer básica, velha ou palhaça. É porque me deparo comigo. Porque sou fractal. Porque todas as minhas versões são verdade.

Haja pancake para me alcançar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Promessa de chuva


O céu ameaçou a chuva que há tempos o tempo prometia. Chuva larga, de lavar o mundo, de inundar a casa. E eu fiz planos de tempestade.

Esperava muito, pois era promessa antiga. Esperava chuva grande, de tornar as coisas pequenas. Desses dias em que as poças d'água me espelham. E em que as ilusões, frágeis, dissolvem-se.

Sonhava com banhos de chuva de antanho. Da época em que descíamos com agasalhos de lã, encharcando-nos e cantando que "é a dança da chuva", até as empregadas, alarmadas, buscarem-nos pelos braços. Da época em que, após corrermos e nos abrigarmos embaixo de toldos, minha irmã sugeria que ignorássemos a chuva, então saíamos felizes e molhadas, andando como se fora um dia de sol. E com banhos de chuva de agora, caminhando saltitante com o amigo descalço.

Sonhava com uma chuva que lavasse tudo. Lavasse não, levasse embora. Uma chuva que afogasse as inquietações e trouxesse à tona apenas os tesouros. São tão poucos e pobres meus tesouros, que por isso me são mais caros.

Hoje o céu ficou repleto de nuvens pretas, com promessa de tempestade para os meus raios. Hoje eu quase chovi de alegria. Mas a chuva lá fora foi tão pequena que mal lavou o meu dia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Debate


Ele está à minha frente e, porque temos os mesmos anseios, falamos sobre ele, o amor. As prisões do amor. O jugo. A doação. Do quanto de nós somos capazes de abrir mão por um pouco de afeto. Ele argumenta que quem ama se sujeita.

Eu objeto.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ponto de desencontro


Não vamos direto ao ponto. Pois o ponto é o caminho exato em que a gente se perde. O ponto vulgariza, empobrece. Vamos fazer ciranda, dar voltas. Esquecer o objetivo, o ponto final. Não vamos direto ao ponto, ao pronto afinal. Abra um sorriso e feche a boca antes que escapem palavras. Dê um caso ao acaso, se for o caso nos cruzamos por aí. Não vamos direto ao ponto, que o ponto final é cemitério. Não vamos ao ponto, deixemos vivo o mistério.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sonhos outros

Outro dia uma colega me contou que, quando criança, ela pensava que sonhos eram experiências compartilhadas. Ou seja, se ela sonhava com fulano, então fulano tinha o mesmo sonho. Ela devia ter uns quatro anos de idade quando, um dia, após sonhar com seu irmão, ela acordou e comentou com ele: "foi muito engraçado aquilo que você fez...", referindo-se a seu sonho. Ele riu. Então, decepcionada, ela descobriu que aquilo, o sonho, só se passara com ela.

Eu demorei muito mais para fazer essa descoberta. Há muito passara da infância. Ou quem sabe era a infância que passara da idade, mas não passara de mim. Sei que por muito tempo acreditei que as experiências eram sonhos compartilhados. Que, se eu vivia um momento com alguém, então necessariamente este alguém vivia o mesmo momento comigo. Depois vim a descobrir que compartilhar o ambiente e o tempo com alguém não significa compartilhar experiências. Que um momento pode ser especial, tedioso ou apaixonante apenas para você, pois o outro é um universo insondável. E que as almas são, sim, incomunicáveis, pois mesmo na linguagem, único ponto de encontro, existe um abismo intransponível.

Depois disso deixei de ser criança.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Encontro


O encontro acontece em uma praça, ao som de "Canção pra viver mais", de Pato Fu. A primeira tem cabelos negros e compridos, cara lavada, usa um vestido esvoaçante e sandálias havaianas. A segunda tem cabelos vermelhos e curtos, usa um batom escuro, calças largas, com um pedaço da cueca aparecendo, e tênis vermelhos, como os cabelos. A primeira reconhece imediatamente a segunda. Sorri. Esta fita a primeira, intrigada. Pergunta-se:

Lian 18: Será?

Como a pergunta saíra em voz alta, a outra responde:

Lian 28: Será. Ou melhor, sou. - e olha para a garota perplexa em sua frente . Estará ela decepcionada?

Lian 18 analisa. Quem é a garota de chinelos e vestido esvoaçante? Que será que ela faz da vida? Onde vive? Como vive? Aproxima-se e toca-lhe o braço, apenas para confirmar sua materialidade. Lian 28 lança-lhe um olhar irônico. Sabe ser objeto de curiosidade da garota de cabelos vermelhos, que ela tanto e tão profundamente conhece.

Lian 28: Vamos, pergunte!

Lian 18: Perguntar o quê?

Lian 28: Tudo o que você quiser.

Lian 18: Eu quero perguntar tudo.

Lian 28: Melhor a gente se sentar.

Lian 28 olha em volta. Repara nas árvores, nos bancos. Muita coisa se passara ali. Banhos de chuva, pactos, fim do mundo.

Lian 18: Reconhece este lugar?

Lian 28: Sempre.

Lian 18: E então, como acabou?

Lian 28: Nada acabou ainda. Os caminhos não se fecharam. Abriram-se, cada vez mais incertos.

Lian 18: E a revolução, as mudanças?

Lian 28: As mudanças foram outras.

Lian 18: E os ideais?

Lian 28: Não sobreviveram.

A menina de cabelos vermelhos olha para o chão, desapontada. Prometera-se não deixar de acreditar, de lutar. Mas era isso, então... os ideais estavam fadados a morrer e no fundo ela já pressentira. Estava feliz, tão feliz e tão plena que não queria mais mudar o mundo. Mas se apegara àquele ideal por teimosia. Então, hesitante, fez a pergunta, aquela que há muito ansiava:

Lian 18: E o amor?

Lian 28 deu um suspiro. O amor. Não sabia o que responder. Poderia dizer que acabou. Mas acabam, essas coisas de amor? Passaram-lhe muitas coisas pela cabeça. A ela, essa garota de cabelos longos e negros, ocorria isso: preguiça de falar. Principalmente quando todos os pensamentos apareciam assim: incoerentes, complexos. Pensou em explicar os fatos, tentou ordenar todos os sentimentos, as necessidades que justificavam os encontros e as partidas. Não soube fazê-lo. Limitou-se a olhar para o horizonte e dar uma resposta vaga:

Lian 28: Os caminhos...

A outra entendeu. As duas ficaram longo período caladas, perdidas em algum tempo que não era o delas. Até que, cortando o silêncio, voz embargada, uma delas falou:

Lian 18: Minha promessa é o para sempre.

Lian 28: Não funcionou. Mas outros vieram, outro virão.

Lian 18: É a mesma coisa?

Lian 28: Nunca é.

Lian 18: Profissão?

Lian 28: Talvez encontremos por aí a Lian 38 e ela nos possa responder. Eu não tenho essa resposta.

Lian 18: E o que ficou de mim?

Lian 28: Eu te escondi durante muito tempo. Cheguei a pensar que você não mais existisse. Mas aí comecei a percebê-la em algumas pequenas coisas, principalmente na intensidade e na cegueira.

Lian 18: Aprendizados?

Lian 28: Nenhum.

Lian 18: Como, nenhum?

Lian 28: Tudo que aprendi aos 20, desaprendi aos 25.

Desta vez as duas silenciam e não dão continuidade ao diálogo. Ambas prestam atenção à música que toca: "... deixei que tudo desaparecesse e perto do fim não pude mais encontrar, e o amor ainda estava lá..."

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Conversa ao telefone

Conversa entre minha irmã, na Austrália, minha mãe, em Goiânia, com participação de João Tai, meu gato:

Mãe:  Ah.. o João quer falar com você! Ele percebeu que é com você que eu estou falando!! Fala com ele aqui..

Marina: Tá.

João: ...

Marina: João! Mamãe gosta tanto João.. ama tanto.. tanto tanto..

João: ...

Marina: Joãaaa-ao!

Mãe: ... não Marina.. acho que ele não entendeu!

Marina: Mãe! Vc colocou o telefone no ouvido dele? Não pode colocar muito perto do ouvido!!

Mãe: Ele não entendeu não.. e- ele fugiu.. ele foi embora..

Marina: Não pode pôr muito perto mãe!!.. porque dói e ele quer fugir..

Mãe: Ele foi embora... ele não sabe que é você..

Marina: Mãe!!!