São Pedro,
Há muito tempo você me contraria. Quando planejo praia, você manda chuva. Quando tenho compromisso, você manda sol. Você tem enganado o climatempo, de forma que, sempre que faço planejamentos tendo em vista a previsão, tenho uma má surpresa. Apesar disso tudo, acredito que você seja uma alma bondosa, embora talvez excessivamente brincalhona. Acreditando na sua bondade, venho encarecidamente fazer meu pedido:
Que os dias sejam amenos, com céu azul e aquele amarelinho de tempo ensolarado. Mas que os raios de sol estejam lá apenas para dar pinta, não para esquentar. Que haja uma brisa refrescante, não fria. E que nossa sensação seja de alternância entre morninho e frescor. Céu limpo, com apenas algumas nuvens, não de chuva, mas daquelas redondinhas e fofas, como de desenho de criança.
Mas caso queira mandar chuva, que ela seja forte e acompanhada de muito frio. E que seja num feriado. Mas me mande também para um chalé bem aconchegante, com namorado ou bons amigos. Que haja uma lareira, um violão e jogos de tabuleiro. Não se esqueça do chocolate quente, chazinho, sopas, casadinho, pães e bolos. E que venha a chuva.
E caso queira mandar um solzaço, desses de queimar a pele, me mande para uma praia bem distante, com direito a acompanhantes. Que o mar seja de águas calmas, em um azul transparente sem fim. Que haja uma cabana pequenina quase caindo na areia. Que tenha uma varanda com uma rede, que tenha vários coqueiros. Que haja sempre à mão sucos de frutas, água de coco, frutos do mar. E que venha o sol.
Agradeço desde já.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
Certos dias de chuva...
Ontem, após uma sucessão de pequenos desastres, decidi que era um dia para me trancar em casa e não sair mais. Como não resolvesse e as tragédias mundanas continuassem a me perseguir, me fechei no quarto. Talvez fossem elas apenas um aviso da chuva que estava para chegar. Cidade alagada, Rio transbordante.Hoje amanheci com uma chuvinha fina e todos em casa, inclusive uma amiga ilhada que se refugiou aqui. A segurança pública recomendava que não saíssemos de casa, contou alguém que assistira ao noticiário. Há muito desisti das notícias tristes do mundo.
Como ainda não sei com que sorte acordei e tampouco se o carma de ontem continua a me perseguir, resolvi passar o dia acampada na cama, por precaução. Um copo de Mate e uma dose de Rubem Braga trarão um pouco de delicadeza para meus ásperos dias de chuva.
sábado, 3 de abril de 2010
"Tudo numa coisa só"
Todos nós temos que viver cada situação por todos os ângulos possíveis: é o que estive pensando nos últimos dias. Talvez só assim aprendamos a nos respeitar mais.
- Todo mundo tem que ser pedestre, pegar ônibus, metrô, trem, avião, ser piloto, caminhoneiro, motorista de ônibus, de carro, andar de bicicleta, de moto, de patins.
Ontem fui andar de bicicleta e pensei seriamente sobre o assunto. Apesar de o passeio ser delicioso, percebi que me estressei muito com o trânsito na ciclovia. Muitas pessoas simplesmente ignoram o fluxo de bicicletas e caminham na pista como se estivessem desfilando, ou sentam na calçada e esticam as pernas no caminho, ou atravessam a ciclovia sem ao menos olhar para os lados, forçando-nos a frear repentinamente. Eu também confesso que nunca fui uma pedestre muito atenta para as bicicletas, até começar a pedalar e ver a coisa pelo outro ângulo. Também não era muito atenta aos carros, até começar a dirigir. E quem não pega transporte público não tem ideia da desumanidade que é entrar em um vagão sendo empurrado e espremido. Quem não é pedestre não sabe a humilhação de ser molhado por um carro apressado que passa em poça em dia de chuva. E fico imaginando as experiências pelas quais nunca passei. Nunca dirigi um ônibus, mas observo a vida dura dos motoristas que, além de lidar com o trânsito, ouvem diariamente impropérios dos passageiros.
- Todo mundo tem que ser aluno, professor, diretor de escola, coordenador, faxineiro e bedel.
Quando eu era apenas uma aluna, dei muito trabalho para os professores. Quando fui professora paguei pelos meus pecados, mas, ao mesmo tempo, procurava preparar aulas muito mais interessantes, ao me lembrar do que me atraía para o aprendizado nos meus tempos de estudante. Ao mesmo tempo, passei a ser muito mais compreensiva como aluna, pois sabia que o professor é só mais uma pessoa como nós, que está em uma posição como um alvo fácil. Não passei pelas outras funções, apenas tento imaginar...
- Todo mundo tem que ser protagonista e figurante.
A gente tem que ser protagonista para saber o gosto do poder e da responsabilidade. A gente tem que ser protagonista pra reconhecer o valor da privacidade. A gente tem que ser protagonista seja em um filme, peça, ou na vida de alguém. E a gente tem que ser figurante para aprender a enxergar aquela pessoa que a gente nunca enxerga. O figurante é aquele que chega antes de todos, vai embora depois, trabalha o dia inteiro e recebe mal. O figurante às vezes come separado do resto da equipe, com uma comida bem piorzinha. Hoje fui gravar um comercial, cheguei às nove da manhã e fiquei na sombra esperando minha cena. Comecei a olhar os figurantes gravando, debaixo do sol, correndo de lá pra cá. Eles haviam chegado às cinco da manhã, tinham que comer depois de todo mundo, só podiam se trocar depois que todos desocupassem a van do figurino. Acho desumano. Todo mundo tem que ser figurante, seja em que situação for, para aprender a enxergar essas pessoas, os invisíveis.
A gente tem que ser todos. A gente tem que ser tudo. Ou isso. Ou apenas a empatia salva o mundo.
- Todo mundo tem que ser pedestre, pegar ônibus, metrô, trem, avião, ser piloto, caminhoneiro, motorista de ônibus, de carro, andar de bicicleta, de moto, de patins.
Ontem fui andar de bicicleta e pensei seriamente sobre o assunto. Apesar de o passeio ser delicioso, percebi que me estressei muito com o trânsito na ciclovia. Muitas pessoas simplesmente ignoram o fluxo de bicicletas e caminham na pista como se estivessem desfilando, ou sentam na calçada e esticam as pernas no caminho, ou atravessam a ciclovia sem ao menos olhar para os lados, forçando-nos a frear repentinamente. Eu também confesso que nunca fui uma pedestre muito atenta para as bicicletas, até começar a pedalar e ver a coisa pelo outro ângulo. Também não era muito atenta aos carros, até começar a dirigir. E quem não pega transporte público não tem ideia da desumanidade que é entrar em um vagão sendo empurrado e espremido. Quem não é pedestre não sabe a humilhação de ser molhado por um carro apressado que passa em poça em dia de chuva. E fico imaginando as experiências pelas quais nunca passei. Nunca dirigi um ônibus, mas observo a vida dura dos motoristas que, além de lidar com o trânsito, ouvem diariamente impropérios dos passageiros.
- Todo mundo tem que ser aluno, professor, diretor de escola, coordenador, faxineiro e bedel.
Quando eu era apenas uma aluna, dei muito trabalho para os professores. Quando fui professora paguei pelos meus pecados, mas, ao mesmo tempo, procurava preparar aulas muito mais interessantes, ao me lembrar do que me atraía para o aprendizado nos meus tempos de estudante. Ao mesmo tempo, passei a ser muito mais compreensiva como aluna, pois sabia que o professor é só mais uma pessoa como nós, que está em uma posição como um alvo fácil. Não passei pelas outras funções, apenas tento imaginar...
- Todo mundo tem que ser protagonista e figurante.
A gente tem que ser protagonista para saber o gosto do poder e da responsabilidade. A gente tem que ser protagonista pra reconhecer o valor da privacidade. A gente tem que ser protagonista seja em um filme, peça, ou na vida de alguém. E a gente tem que ser figurante para aprender a enxergar aquela pessoa que a gente nunca enxerga. O figurante é aquele que chega antes de todos, vai embora depois, trabalha o dia inteiro e recebe mal. O figurante às vezes come separado do resto da equipe, com uma comida bem piorzinha. Hoje fui gravar um comercial, cheguei às nove da manhã e fiquei na sombra esperando minha cena. Comecei a olhar os figurantes gravando, debaixo do sol, correndo de lá pra cá. Eles haviam chegado às cinco da manhã, tinham que comer depois de todo mundo, só podiam se trocar depois que todos desocupassem a van do figurino. Acho desumano. Todo mundo tem que ser figurante, seja em que situação for, para aprender a enxergar essas pessoas, os invisíveis.
A gente tem que ser todos. A gente tem que ser tudo. Ou isso. Ou apenas a empatia salva o mundo.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Por inteiro

Eu não quero nada pela metade.
Eu não quero receber presentes sem cartão,carta, palavra ou sinal de que foi algo pensado, elaborado e dado com coração. Eu não quero o embrulho da loja. Não quero aproximações se não houver interesse genuíno. Não quero amizades pequenas. Não quero e-mails que não sejam direcionados exclusivamente para mim. Não quero mensagens genéricas de aniversário por Orkut. Não quero me casar se não for para sempre. Não quero meias-palavras, não quero meias verdades. Não quero ler o livro até a metade. Não quero conversas fáticas. Não quero fazer o social. Não
quero abraços sem ternura. Não quero chuva sem frescor.
Eu até como maxi goiabinha no avião. Eu até acho graça na falta de comunicação. Eu até me distraio com simulacros de amores. Eu posso ser cordial com aproximações de interesse duvidoso. Eu digo que adorei as flores. Eu sou condescendente com as mensagens secas de acordo com o protocolo. Eu faço vista-grossa para um punhado de coisas. Eu me esforço pra prestar atenção na conversa desinteressante. Eu finjo que acredito. Quando o mar está agitado, eu tomo banho de chuveiro.
Eu até margeio o que me é dado pela metade. Mas só mergulho no que me é dado por inteiro.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Tudo e nada
Sei que tenho andado em dívida com este blog ultimamente. É que tenho passado por ele como pela vinte e cinco de março. Sabe quando você está em um loja e encontra apenas uma coisa de que gosta? Assim é fácil ter certeza do que levar. Mas quando entramos em um lugar com várias e várias coisas de que gostamos, acabamos não comprando nada. Assim tem sido minha mente. Não falta de assunto, mas excesso. Pensando e repensando meu mundo, encontrando, desencontrando e reencontrando pessoas, bolhas, lugares. Eternamente fugindo e voltando. É o meu caminho, suponho...
sábado, 6 de março de 2010
Discurso de Formatura
Nesses dias tenho conversado muito com meus amigos de faculdade sobre o que a graduação significou para nós. Depois de quatro anos passados, vemos com certa distância o que éramos naquele tempo e o que nos tornamos depois. Ontem foi a colação de grau da minha irmã e, enquanto o orador da turma proferia seu discurso, fiquei pensando no que eu vivi durante meu curso e resolvi escrever aqui não meu discurso, já que anos depois posso dispensar as formalidades inerentes ao ritual, mas meu depoimento de formatura:
Em 2001 ingressei na Faculdade de Comunicação da UFG. Era uma garota que adorava escrever e que queria mudar o mundo e, por isso, escolhi a profissão: jornalista. Não se passou um mês para que eu percebesse que escolhera o curso errado. Mas o que demorei a perceber era que o curso errado era tão certo em minha vida.
No início os novos colegas pareceram estranhos e ameaçadores a mim, que estudara a vida inteira em colégios burgueses e era acostumada a pessoas uniformes, uniformizadas. Com o tempo aquela mistura de pessoas diferentes, vindas de diversos lugares e classes sociais, começou a tomar forma e alguns rostos passaram a se destacar. Os rostos amigos: aqueles que partilhavam das afinidades. O jornal literário, os saraus, as coreografias, o grupo de Antropologia, as discussões filosóficas.
Houve as disciplinas essenciais, as inesquecíveis. As aulas da Selma, que nos dava as primeiras noções de cultura e relativização. A leitura sistemática de textos filosóficos com o Jordino, em longas aulas sobre o ser do ente. As inter-relações entre Nietzsche e Dostoievski que geravam interessantes discussões nas aulas da Cláudia. Os trabalhos do Signates, que me forçavam a pensar a institucionalização sistêmica dos meios de comunicação. Houve a disciplina da mulherzinha, que aproveitei por teimosia, já que fazia questão de estudar e tirar boa nota como resposta a sua mediocridade. Houve as inúmeras disciplinas que cursei como núcleo livre na faculdade de Filosofia: Lógica, Filosofia da Mente, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Linguagem,... Houve as aulas de fotografia e produção audiovisual, em que passei tardes entretida ampliando fotografias ou noites gravando curta-metragens. E houve também as disciplinas que cursei porque eram obrigatórias, mas pelas quais não tinha o mínimo interesse, já que não pretendia ser jornalista.
Vendo, hoje, à distância, percebo que tanto aprendi quando pensava estar perdendo tempo. Enquanto matava aula para comer coxinhas na Faculdade de Artes, enquanto brigava com a professora que nos acusou de cola injustamente, enquanto trocava bilhetinhos nas aulas. Aprendi sobre a vida e as pessoas, com uma dimensão impossível de ser apreendida em salas de aula.
Saí da faculdade em 2006 com um diploma em uma mão e tesouros muito mais preciosos na outra: amizades verdadeiras, idéias expandidas, experiências impagáveis. E hoje, passados quatro anos, afirmo com certeza: se eu fosse escolher um período da vida para o tempo se congelar, eu me eternizaria naquela garota de saia longa, passeando pelos corredores da faculdade, comendo coxinhas e suco de cupuaçu, ao lado das melhores companhias do mundo. Ser feliz com o máximo de intensidade: eis outra lição que aprendi na faculdade.
Em 2001 ingressei na Faculdade de Comunicação da UFG. Era uma garota que adorava escrever e que queria mudar o mundo e, por isso, escolhi a profissão: jornalista. Não se passou um mês para que eu percebesse que escolhera o curso errado. Mas o que demorei a perceber era que o curso errado era tão certo em minha vida.
No início os novos colegas pareceram estranhos e ameaçadores a mim, que estudara a vida inteira em colégios burgueses e era acostumada a pessoas uniformes, uniformizadas. Com o tempo aquela mistura de pessoas diferentes, vindas de diversos lugares e classes sociais, começou a tomar forma e alguns rostos passaram a se destacar. Os rostos amigos: aqueles que partilhavam das afinidades. O jornal literário, os saraus, as coreografias, o grupo de Antropologia, as discussões filosóficas.
Houve as disciplinas essenciais, as inesquecíveis. As aulas da Selma, que nos dava as primeiras noções de cultura e relativização. A leitura sistemática de textos filosóficos com o Jordino, em longas aulas sobre o ser do ente. As inter-relações entre Nietzsche e Dostoievski que geravam interessantes discussões nas aulas da Cláudia. Os trabalhos do Signates, que me forçavam a pensar a institucionalização sistêmica dos meios de comunicação. Houve a disciplina da mulherzinha, que aproveitei por teimosia, já que fazia questão de estudar e tirar boa nota como resposta a sua mediocridade. Houve as inúmeras disciplinas que cursei como núcleo livre na faculdade de Filosofia: Lógica, Filosofia da Mente, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Linguagem,... Houve as aulas de fotografia e produção audiovisual, em que passei tardes entretida ampliando fotografias ou noites gravando curta-metragens. E houve também as disciplinas que cursei porque eram obrigatórias, mas pelas quais não tinha o mínimo interesse, já que não pretendia ser jornalista.
Vendo, hoje, à distância, percebo que tanto aprendi quando pensava estar perdendo tempo. Enquanto matava aula para comer coxinhas na Faculdade de Artes, enquanto brigava com a professora que nos acusou de cola injustamente, enquanto trocava bilhetinhos nas aulas. Aprendi sobre a vida e as pessoas, com uma dimensão impossível de ser apreendida em salas de aula.
Saí da faculdade em 2006 com um diploma em uma mão e tesouros muito mais preciosos na outra: amizades verdadeiras, idéias expandidas, experiências impagáveis. E hoje, passados quatro anos, afirmo com certeza: se eu fosse escolher um período da vida para o tempo se congelar, eu me eternizaria naquela garota de saia longa, passeando pelos corredores da faculdade, comendo coxinhas e suco de cupuaçu, ao lado das melhores companhias do mundo. Ser feliz com o máximo de intensidade: eis outra lição que aprendi na faculdade.
sexta-feira, 5 de março de 2010
O Jardim Japonês
Eu passo por Goiânia, cidade passada e presente. Eu passeio pelas ruas, dirijo na estrada, cantando com o rádio. Eu gosto de dirigir no fim de tarde, quando o céu é tão lindo. Eu já havia reparado, quando morava aqui, que o céu de Goiânia é assim tão limpo e claro? Eu fico com a cabeça e os olhos nas nuvens. Quando entro no condomínio aproveito o silêncio para escancarar as janelas do carro e deixar o vento entrar. Eu encontro meus amigos, meus amigos do peito, para falar sobre a vida. Eu reencontro tanta gente que há tempos não via. A gente faz sarau, churrasco, almoço, clube da luluzinha. A gente canta e faz coreografia. Eu coloco meu futuro em pauta e deixo todo mundo dar palpite. Às vezes eu me canso de ouvir conselhos e declaro encerrado o assunto.
Eu como pamonha, cachapa, arroz com pequi, rodízio de crepe. Eu como o arroz branco da minha casa, que é único porque tem gosto de arroz de casa e eu tanto sinto falta quando não estou aqui. Eu tomo sorvete todos os dias com bananas e cereais e às vezes jogo um pouquinho de batida por cima e a mistura fica até bem gostosa.
Eu monto um quebra-cabeças defeituoso que estava guardado há vários e vários anos, porque eu não tinha paciência de ficar juntando tantas peças quebradinhas que não se encaixavam com perfeição. Eu fico espantada ao terminar de montar e constatar que não há nenhuma peça faltando. Eu começo a fazer metáforas com a minha vida, eu relembro uma música de que gostava do Pato Fu e penso que o quebra-cabeças, a música e meus sentimentos são peças que se encaixam.
Eu pinto retalhos da saia no quadro que deixei inacabado, em que me retrato sozinha no universo, mas levando na saia pedaços de tudo que me é significante. Eu pinto elefante, pinguins, coruja, envelopes, avião, a Muralha da China, tênis vermelhos, macieira, jasmim-manga, cachoeira. Mas o retalho mais doce talvez seja o das cravíneas que plantei um dia.
Eu brinco com onças crianças e elas pulam em cima de mim feito malucas e querem arrancar o meu cabelo. Eu carrego quatis e tamanduás, eu tiro fotos de todos os bichos, menos das aves, porque meu negócio é com os mamíferos. Eu saio toda suja e arranhada, bem que a Marina avisou para não ir de shorts e para usar roupas resistentes e que cubram meu corpo. Eu volto pra casa com a blusa rasgada e com terra até dentro da orelha.
E eu passeio por Goiânia e vou passando por tudo isso, mas às vezes acho que fiquei presa entre pedras e pontes e fontes, onde um dia se abriu uma brecha no tempo e no espaço, para se criar a materialização do que é a eternidade: aquele Jardim Japonês.
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