No primeiro ano de faculdade, tive um professor de Filosofia chamado Jordino Marques. Devia estar na faixa dos 60 ou 70 anos. Era padre, diabético, usava uma perna mecânica e conhecia não sei quantas línguas, entre elas pelo menos duas línguas mortas. Era a princípio bruto, mas aos poucos revelava um lado doce. Tinha um humor ácido. Entre as muitas lendas que corriam a seu respeito, uma delas é de que ele adorava pescar, quando ainda tinha tinha as duas pernas. Achei isso muito doce. Veja só, o professor Jordino, padre, diabético, que lia Heidegger em alemão e sabia aramaico, adorava pescar!
Acho que foi no quarto ano de faculdade que recebi a notícia de seu falecimento. Entre os lamentos, lembro bem de um comentário, que dizia: "É uma pena perdermos uma pessoa tão cheia de conteúdo. Sabia várias línguas, publicou livros, deixou um livro pela metade. Pense no quanto ele poderia acrescentar ainda, quantas obras poderia publicar!" Alguém se lembrou de que ele ainda poderia pescar, se estivesse vivo?
Quando eu morrer, não quero que pensem no quanto produzi ou poderia produzir. Quero que pensem em tudo que vivi e poderia viver. Que digam que eu aproveitava a vida, que amava e era amada, que tinha grandes amigos, uma família querida, que gostava de passear, de comer, que queria a casa sempre cheia. Não quero ser uma pessoa que produz. Quero ser uma pessoa que vive e que ama.