segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Assim é


Escuto uma música, assisto a uma peça ou filme, vejo um quadro ou uma paisagem. E pego pra mim aquilo que me pertence. Aquilo que é intrinsecamente meu e está espalhado pelo mundo, pelas obras. Gosto quando encontro uma frase, um diálogo, que me emociona. Certas palavras têm poder de evocar o que somos. Ultimamente uma fala da peça "Viver sem tempos mortos" povoa minha alma. Faz pensar no Amor e na Morte, minhas duas grandes obsessões, mas que talvez sejam um tema só, pois que não consigo pensar neles separados.
"Viver sem tempos mortos" é uma peça sobre a filósofa Simone de Beauvoir, representada por Fernanda Montenegro. Outra hora teço meus mil elogios à peça e à atuação de Fernanda, mas o que quero contar agora é esse trechinho de fala. Ao falar sobre a morte de Sartre, seu grande companheiro de vida, Simone diz: " SUA MORTE NOS SEPAROU. MINHA MORTE NÃO NOS REUNIRÁ. ASSIM É."
Amor é uma coisa meio aleatória. A pessoa aparece na sua vida do jeito certo e no momento certo. Outras pessoas aparecem. Mas, por algum motivo, é uma que te dá um sentido especial. E esse motivo quase nunca é a soma de qualidades. Não escolhemos alguém porque ela seja a mais bonita, a mais inteligente, a mais rica. Summer, em "500 dias com ela", reencontra seu ex após se casar com outro rapaz. Ela, que temia compromissos, agora estava casada. Como assim? Então acontece um dos diálogos mais bonitos do filme:
- Um dia eu acordei e soube.
- Soube o quê? - ele insiste.
- O que eu nunca tive certeza com você.
Simples assim. Alguém me disse, certa vez, que não existe a pessoa certa no momento errado. Tinha razão. Amor não tem muitas explicações. Contra amor não se argumenta. A gente sabe, apenas.
E é porque temos o sabor, o saber do Amor, que a Morte me é tão absurda. Porque torna finito aquilo que é transcendental. "Minha morte não nos reunirá". Eu amar e ter amado tanto faz com que eu não me conforme com a Morte. O universo funcionando como um sistema fá-la parecer natural. Tudo circula. A vida humana é, para mim, uma interrupção nesse fluxo. O modo como simbolizamos nossa vida, pricipalmente por esse modo, que é amar, atribuir a outros um sentido único, quebra o absurdo da falta de sentido. Mesmo que seja um sentido inventado. Não deveria fazer parte desse sistema em que tudo passa, não segue essa lógica.
Amar é aleatório. Mas morrer é imoral.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Blackout




E foi-se a luz. Pior que a luz indo embora foi o ventilador, reduzindo velocidade até parar. Eu já estava na cama, havia três dias que mal saía da cama, o corpo e a cabeça continuavam doendo. Eu poderia virar para o lado e dormir, não fosse o calor. Olhei para a bateria do computador, já quase no fim. Fechei as outras janelas abertas, para ficar só escutando música, pelo tempo que durasse. Não durou.


Na sala, agitação de vozes. De repente alguém me anuncia que vão descer, procurar algo para comer. Quem? Todos nós. E vai me deixar sozinha no escuro? Era só manha. Não tenho medo de escuro. Quer ir? Não. Preguiça de trocar de roupa. E fiquei no silêncio apenas pensando no que fazer com toda aquela escuridão. Fiz massagem nos dois pés, fiz alongamento, cantei em voz alta, bebi coca cola estirada no sofá. Apenas mais um desaforo pro estômago, que me incomodava havia dias e que havia pouco eu enchera de caldo de feijão. Má idéia. Nauseada, entornei o que sobrara de coca na pia. Olhei pela janela e as únicas luzes que via pela rua eram dos ônibus e automóveis. Estou entediada, quem sabe eu pegue um ônibus. Posso ficar olhando a cidade parada ou simplesmente levar um livro para ler. Lembrei das dores no corpo, da náusea. Outra má idéia, que desta vez reconheci antes de colocar em prática.


Com a fraca luz do celular fui escovar os dentes. No meio da escovação recebo uma mensagem, perguntando se poderia me ligar em casa. Por favor. Atendo ao telefone e a outra voz me alegra. Chegam pessoas em casa falando alto: "É o fim do mundo!" Silêncio, estou ao telefone. Curiosamente as pessoas que entraram não são as mesmas que mais cedo partiram. Mais tarde uma delas dirá que isso tudo parece um quadro ou um filme, não me lembro, surrealista. Estão com fome, não há lugar aberto para comer. Pergunto quem são elas. Justifico que não reconheço no escuro. Em pouco tempo chegam outras pessoas, agora sim, as que partiram mais cedo. Trazem cachorro quente, a única coisa que conseguiram encontrar. Vejo um monte de gente acampada na sala, comendo. Lembro um conto de Caio Fernando Abreu sobre os cachorros loucos.


Queria tomar um banho, mas não consigo no escuro. Tem vela, alguém me informa. Então tomo meu banho e penso que mais tarde, se a energia não voltar e eu não conseguir dormir, ficarei tomando banho. A noite toda, talvez. Penso nas coisas que esqueci de dizer ao telefone, digo por pensamento que descobri vela em casa. Saio do banho, pego papéis, lápis de cor, um livro da Clarice. O fogo me dá esse poder. Mas logo mudo de idéia e decido que quero ser examinada, algo sobre homeopatia. Respondo a muitas perguntas. Se meu temperamento varia? Sim. Se sou autoritária ou submissa? Autoritária ou submissa. Se sou isso ou aquilo? Isso. Isso e aquilo. Isso ou aquilo. Um de cada vez. E recebo em resposta que sou um pouco sulfúrica, mas mais fosfórica. Identifico-me com ambas as descrições. Isso. Isso e aquilo.


Resolvo dormir, sopro a vela sobre a mesa e vou para a cama pensando que nem ao menos perguntei se as pessoas que ficaram na sala precisariam de luz. Que desatenção, penso. A essa altura já dormi. A energia volta no meio da madrugada, tenho a leve percepção da Melissa se levantando para ligar o ventilador. Hoje de manhã ela me pergunta se eu estava dormindo quando a luz voltou ou se eu fiquei mesmo muito contente. Então ela diz que se levantou para apagar as luzes, ligar o ventilador e fechar a porta. Que horas eram? Umas cinco da manhã. Eu estava gargalhando. Não, não me lembro. Mas me lembro de ter acordado com minha própria voz, no meio da madrugada, dizendo alto: Intensidade!


Às vezes acontece...